Mais que uma bodega, um mito autêntico – um vinho feito com silêncio

Após duas postagens sobre importantes produtores da Itália, pertencentes à Primum Familiae Vini, chegamos à Espanha, um dos países mais fascinantes do cenário vinícola mundial, não só pela gastronomia, história e tradição, mas também pela persistência do homem, capaz de enfrentar a natureza adversa do clima desse país ibérico. Quando se fala em vinho espanhol, as pessoas logo pensam na região da Rioja e em seus vinhos. Sem dúvida, é a mais famosa do país, com uma respeitada produção de vinhos finos, de alta qualidade. Mas as Espanha têm mais de 60 denominaciones de origen ou regiões vinícolas em 50 provincias!
A empresa familiar Vega Sicília é um ícone da região de Ribera del Duero, que leva o nome de seu emblemático rio Duero -ele atravessa o noroeste da Espanha, sempre escoltado por vinhedos, até invadir Portugal, quando passa a se chamar Douro e finalmente desemboca no Atlântico na cidade do Porto.
O grupo Vega Sicília pertence ao Holding Eulen, empresa líder na prestação de serviços a empresas, fornecendo mão-de-obra especializada em 11 países, totalizando mais de 100.000 colaboradores e com um faturamento de quase 1.400 milhões de euros. Seu fundador David Alvarez é pai de Pablo Alvarez, quem atualmente comanda o grupo Vega Sicilia.
O origem da vinícola remonta a 1864, quando Eloy Lecanda trouxe de Bordeaux 18.000 videiras para plantar na propriedade de 2 mil hectares da família em Valbuena, compostas pelo Pago de la Vega, Santa Cecilia e Carrascal.
A empresa, em seguida, teve vários proprietários: foi comprada por Antonio Herrero em 1888, alugada por Cosme Palacio em 1904; em 1915 surgiu o primeiro vinho com o nome de Vega Sicília, que não chegou a ser comercializado. No ano de 1956 a vinícola foi adquirida por Jesús Anadón; em 1966, por Miguel Neumann e, finalmente em 1982, passou para as mãos do industrial David Alvarez e seus filhos Pablo, Jesús David, Emilio, Juan Carlos e suas filhas María José, Elvira e Marta. Neste mesmo ano, a Denominação de Origem (DO) Ribera del Duero foi oficializada.
Nos últimos 30 anos a família Alvarez fez investimentos pesados em tecnologia para a produção de seus vinhos Ribera del Duero e também expandiu para outras regiões, sempre com foco em qualidade.


Lembro-me como se fosse hoje, quando tive a oportunidade de participar, em 2008, de uma degustação em São Paulo de algumas safras de Vega Sicília Único, o vinho ícone da vinícola. Um dos jornalistas presentes perguntou ao enólogo Xavier Ausás, que desde 1990 é o responsável pela elaboração dos vinhos desta reputada casa, qual safra era a sua favorita. Ele, calmamente, respondeu: “o senhor tem filhos?”. O jornalista disse que sim. “Bem, então o senhor vai entender”, replicou o enólogo. “Sempre há um mais forte, outro mais inteligente, um mais levado, mas você gosta de todos da mesma forma, afinal de contas são seus filhos!”
Numa analogia com os premiers crus de Bordeaux, o Vega Sicília seria o Château Latour, segundo o escritor Hugh Johnson, outros o comparam ao Château Haut Brion: austero, estruturado, elegante e acima de tudo, distinto!
Vega Sicília “Único”: este vinho é elaborado a partir de 200 hectares plantados com as variedades de uva Tempranillo e Cabernet Sauvignon em diferentes altitudes que chegam a 900 metros. Isso totaliza 57 parcelas divididas em 19 terroirs diferentes. Algumas videiras têm 160 anos de idade!
De cada lote de uvas colhidas e vinificadas, o vinho obtido matura em barricas diferentes, por 7 a 8 anos, para depois estagiar de 2 a 3 anos em garrafas. As melhores safras entram em um corte singular, resultando no chamado Reserva Especial que não é safrado. O vinho Vega Sicília Único Reserva Especial elaborado em 2012, por exemplo, é uma mescla das safras 1991, 1994 e 1999, e obteve 19,5/20 pontos da respeitada revista britânica Decanter.
O tinto Valbuena é um corte com 90% de Tempranillo e 10% de Merlot, passa 15 meses em barricas novas francesas e americanas e mais 13 meses em grandes depósitos de madeira. A safra 2007 recebeu 18 pontos da Decanter.
Em 1992, nasceu a Bodegas Alión, um novo empreendimento do grupo Vega Sicília em Ribera del Duero. Possui um total de 100 hectares, sendo metade da área plantada com vinhedos a uma altitude de 700 a 750 metros. O objetivo é elaborar um estilo de vinho mais moderno, para isso são usadas barricas dos bosques de Nevers e também grandes depósitos de carvalho francês. O tinto Alión é 100% Tempranillo, sendo a safra 2008 avaliada com 18 pontos pela Decanter.
No ano seguinte, em 1993, o grupo investiu além-fronteiras, comprando a vinícola Oremus na Europa Central, na região mais importante do mundo em vinhos doces de alta qualidade: Tokaj/Hungria. A família Alvarez recuperou os vinhedos e modernizou a adega que estavam abandonados depois de um longo período de domínio soviético. A safra 2002 do vinho Oremus Aszú 5 Puttonyos, uma mescla das uvas Furmint, Hárslevelú, Zéta e Muscat , obteve 19 pontos da Decanter, que indicou seu consumo entre 2012 e o ano 2020!
Em 2001 houve mais uma novidade no portfólio do grupo: a criação da Bodegas Pintia na DO Toro com 96 hectares de vinhedos. Este 100% Tempranillo com 11 meses de estágio em barricas de carvalho francês e americano é um dos mais elogiados desta emergente região espanhola.
Finalmente, em 2008, Vega Sicília entrou em uma joint-venture com o renomado banqueiro suizo Benjamim Rothschild, herdeiro da Edmond de Rothschild Group para elaborarem um vinho em Rioja a quatro mãos. O tinto 100% Tempranillo, maturado durante 14 meses em barricas francesas, das quais 60% novas, será lançado no mercado neste ano de 2013. Este promete ser um vinho que combina tradição e modernidade. Vale a pena aguardar!
Salud y un Viva España!