Chega de caçar cabeças! | EXAME.com
São Paulo
Germano Luders
Carregando

Chega de caçar cabeças!

Fábio Betti

evolução

É natural que ainda usemos várias palavras e expressões criadas durante a revolução industrial. Foram séculos construindo toda uma linguagem que apoiasse a transformação da sociedade baseada no trabalho do artesão e na economia baseada na pequena escala para uma sociedade organizada em torno das máquinas, dos processos e da produção e distribuição exponencial de bens de consumo.

 

E, como tudo o que é vivo, evoluímos. Pode até parecer, no recorte do momento, que estamos voltando algumas casinhas como espécie, mas, quando fazemos uma análise menos pontual, observamos tremendas mudanças na forma como pensamos e agimos, especialmente desde a década de 90, quando a Internet começou a tomar conta do mundo como a principal plataforma de comunicação, gestão do conhecimento e, principalmente, transações comerciais de toda a natureza.

 

Nessa nova sociedade já apelidada de sociedade do conhecimento, contratar mão de obra surge como algo um tanto quanto deslocado. O que toda empresa precisa e deseja é atrair almas, corações e mentes, o que faz de alguém que se autodenomina “headhunter” ou recrutador uma espécie de personagem de filme de ficção científica, só que do passado. Se não quiser abrir mão do inglês, use “talent attractor”, mas, por favor, pare de caçar cabeças!

 

Convite a uma nova linguagem e a um novo operar

 

Em grandes movimentos de transição, por mais acelerados que sejam, durante um bom tempo se convive com o velho e o novo, ambos causando certa estranheza, posto que o velho já não mais faz sentido e o novo ainda está por fazer. Esse espaço de intersecção é, ao mesmo tempo, espaço de angústia e de esperança. Você percebe que o que aprendeu e praticou durante tantos anos já não funciona mais, sente que novas possibilidades estão a caminho, mas tudo ainda é meio incerto. Ou quase tudo. Já podemos dizer, por exemplo, que a lógica binária do certo ou errado, verdadeiro ou falso, que foi essencial para lidar com os desafios da sociedade industrial, não está mais funcionando para grande parte dos novos desafios na nova revolução industrial dos sistemas ciber-físicos .

Aliás, a pergunta “funciona ou não funciona?” surge como um caminho muito mais interessante e libertador, na medida em que nos deslocamos para um espaço de experimentação e aprendizagem, facilitando que o novo emerja.

Na Corall, costumamos traduzir esse “desoperar”, em contraposição a operar, que em sua origem significa realizar com esforço, num fluxo que parece funcionar muito melhor num mundo VUCA  e que é organizado em sete etapas:

 

  • 1 Perceber
    Nosso corpo sabiamente procura poupar energia nos colocando tanto quanto possível no modo de piloto automático. Por exemplo, quando nos sentimos ameaçados, é desencadeado automaticamente um processo físico-químico que faz com que nossos batimentos cardíacos aumentem de maneira a bombearmos mais sangue para os músculos, afinal, se nosso sistema nervoso interpreta que corremos risco de vida, precisamos estar prontos para lutar, correr ou fingir de morto! O problema é que esse mecanismo é acionado em qualquer situação em que nos sentimos ameaçados, seja o encontro com um leão faminto ou com um chefe nervoso. Perceber significa distinguir entre perigos reais a nossa vida – bem raros – de perigos ilusórios – a grande maioria. Isso se torna possível quando respiramos algumas vezes lenta e profundamente e, assim, ajudamos nosso organismo a funcionar de novo com todas as suas capacidades cognitivas, pois diminuímos os batimentos cardíacos e aumentamos o nível de oxigenação em nosso cérebro. Literalmente, pensamos melhor sobre a situação, percebendo, sem ilusões, o que está acontecendo. Respirar para não pirar.

 

  • 2 Refletir
    Devolvida nossa capacidade de raciocínio humano – sob ameaça, quem está no comando é o sistema reptiliano, nosso cérebro mais primitivo -, é hora de refletir sobre o que está acontecendo, de atuar como o cientista que observa com curiosidade e interesse genuínos um dado fenômeno, para identificar as leis e os padrões que o regem. Fundamental aqui retardar o julgamento, que é sempre feito desde coerências aprendidas no passado, extremamente úteis para resolver problemas simples, como fazer um bolo, ou complicados, como lançar um foguete, mas perigosíssimos para lidar com problemas complexos e de natureza instável, como gestão de pessoas, educação de filhos e, claro, o casamento!

 

 

  • 3 Sentir
    Nossos intestinos são literalmente forrados com mais de 100 bilhões de células nervosas. Tanto é que os praticantes de artes marciais orientais treinam exaustivamente o “centramento”, que basicamente é a conexão com a inteligência presente em nossos intestinos, localizada no centro físico de nosso corpo. E diversos cientistas, como o neurobiologista Paul Pearsall, já demonstraram que outro orgão pode pensar e tomar decisões independentemente do cérebro: o coração. Sentir é, portanto, a etapa onde nos conectamos com esses dois outros centros de inteligência de nosso corpo: os intestinos e o coração. Eles se comunicam por sensações, nos fornecendo informações essenciais que ampliam nossa percepção sobre o que está acontecendo e indicando possíveis caminhos de soluções. É para eles, portanto, que deveríamos perguntar se algo faz ou não sentido.

 

  • 4 Prototipar
    Uma boa maneira de lidar com os desafios em um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo com o menor sofrimento possível e maior chance de sucesso é prototipar. Prototipar é colocar uma ação em prática num experimento feito em pequena escala, para minimizar riscos, e de fácil e rápida implementação, para aprender rápido. Prototipar é a base do design thinking uma das competências que estão se tornando essenciais para liderar as organizações na sociedade do conhecimento.

 

  • 5 Aprender
    A principal função de prototipar é o aprendizado, e uma boa pergunta a fazer nesse momento é “o que funcionou e o que não funcionou na experiência?” Veja: não existem erros no ato de prototipar, tudo é aprendizado. E isso não é só uma questão de semântica. Errar é outro ato interpretado por nosso sistema nervoso como uma ameaça, na medida em que, em nossa cultura, é comum colocar no mesmo cesto um erro não intencional e um ato consciente, deliberado, punindo ambos igualmente. Medo de punição, eis aí outra emoção que dispara o sistema reptiliano, diminuindo momentaneamente nossa capacidade cognitiva e, portanto, o aprendizado. Quer mesmo aprender? Pergunte pelos aprendizados, não pelos erros.

 

  • 6 Coordenar significado
    Que novos padrões emergiram? Quais foram os impactos? O que pode ser implementado agora? O que ainda precisa ser aperfeiçoado? Qual seria um bom próximo passo? Que novos significados posso/podemos atribuir ao que ocorreu de modo a evoluir/evoluirmos na questão que nos propomos a resolver? Significado vem do latim “significare”, mostrar por sinais, de “signum”, sinal, mais a raiz de “facere”, fazer. Coordenar significados é, portanto, se preparar para a ação.

 

  • 7 Se responsabilizar e se entregar
    Uma das leis que regem os sistemas diz que não tem como fazer parte da solução se você não faz parte do problema. Prefiro acreditar que sempre temos uma parcela de responsabilidade sobre todos os problemas que nos afligem. Veja que escrevi responsabilidade e não culpa. Como aprendizagem e erro, não são a mesma coisa. A culpa costuma vir acompanhada da vergonha, essa emoção que, quando experimentamos, dá uma tremenda vontade de nos esconder de tudo e todos, o que, sabemos, não é nada agradável. Sentir-se responsável por um problema nos coloca num espaço onde podemos fazer algo, fazer a nossa parte. Sei que você já experimentou o sentimento de fazer o que estava ao seu alcance para resolver uma questão. É bom lembrar de quão bem ficou com isso no momento de iniciar um novo ciclo para lidar com uma questão complexa.
Comentários