Conta a lenda que num tempo distante havia uma pessoa responsável pela manutenção da balsa da travessia do canal de Bertioga. Cabia a esta pessoa inspecionar a balsa, mensalmente, e apontar os itens que mereciam ser substituídos, ou que estavam faltando. E como não poderia deixar de ser, esta
pessoa, como bom funcionário que era, religiosamente, todo mês fazia a tal inspeção e registrava em um formulário apropriado todos os itens que deveriam ser adquiridos para serem instalados na balsa, para o seu perfeito funcionamento. Só que esta pessoa não era a responsável pela compra dos itens. Esta tarefa cabia a um outro setor que ficava junto à administração central da empresa que operava o sistema de balsas que faziam a travessia do referido canal. E o bom e velho funcionário todo mês fazia a inspeção da balsa, anotava os itens faltantes no formulário apropriado e o enviava à administração central.
Ocorre que naqueles tempos a empresa não possuía orçamento suficiente para a compra dos itens para a balsa do canal de Bertioga. E todo mês o funcionário fazia a inspeção e todo mês vinha como resposta que não havia recursos suficientes para as compras.
Passados muitos meses em que a resposta à inspeção era a sempre a mesma, o velho funcionário, cansado de receber a mesma justificativa e não ver os problemas da balsa resolvidos, passou a não mais anotar os itens que faltavam. Dizia ele: – De que adianta anotar tudo direitinho se nunca há dinheiro para comprar! Assim, para cumprir as normas da empresa, enviava o formulário sem anotações dos itens faltantes.
Um belo dia o famigerado orçamento para a balsa foi aprovado. Como mandava a norma, o comprador apanhou o último formulário de inspeção e foi verificar quais itens deveria comprar. Ficou surpreso ao ver que não havia itens anotados. Desta forma, nada comprou e a oportunidade da balsa, finalmente ficar em ordem, foi perdida. Não há relato de quando os itens foram repostos.
Não é possível comprovar se esta estória é verdadeira, ou não. Mas, dá para se ter uma idéia de que casos parecidos com este fervilham em nossas empresas e, por que não dizer, também ocorrem conosco, em nossa vida particular.
Ninguém, ou melhor, poucas empresas ou pessoas não têm problema de orçamento, ou tem um orçamento limitado. Este é um fato corriqueiro. Não há dinheiro para se comprar tudo o que se precisa. Contudo, sempre há algum recurso que pode ser gasto. A questão é saber onde gastar este recurso que, na maioria das vezes não é o suficiente para todas as nossas necessidades.
Uma postura que pode ajudar nestes casos, é sempre ter em mãos os projetos e necessidades listadas e priorizadas. E esta lista deve ser periodicamente revisada e, conforme as circunstâncias do momento, a priorização deve ser refeita.
Este expediente fará com que tenhamos clareza de onde devemos aplicar os recursos, sem gerar falsas expectativas e frustração. O fato de num determinado momento não haver recursos, não significa que sua falta será para sempre. Desistir, como fez o inspetor da balsa, certamente não é uma boa atitude. É claro que por vezes é necessário muita paciência e, sobretudo, perseverança, mas jamais deveremos “jogar a toalha”.
Os vencedores estão sempre com projetos prontos na cabeça procurando por oportunidade para implementá-los. Não ficam a espera de um orçamento “cair do céu” para então desenvolver seus projetos. Aguardar que “as condições ideais de temperatura e pressão” estejam presentes para, a partir daí, dar início ao desenvolvimento de projetos, sejam na empresa, sejam na vida pessoal, é, no mínimo, uma enorme falta de maturidade, de preparo e, acima de tudo, falta de ser perseverante, confiante no futuro. O grande Peter Druker disse, com muita propriedade, que o futuro não é para ser adivinhado, é para ser construído. E construir o futuro significa estar permanentemente fazendo projetos, “vendendo” idéias e buscando novas oportunidades para implementá-las. Claro que estes projetos e idéias devem estar alinhados com um propósito maior.
Assim, mãos à obra. Vamos fazer os projetos que julgamos necessários e adequados à nossa vida pessoal, ou da empresa onde trabalhamos, colocá-los na nossa lista de prioridades e buscar, sempre, sem descanso, sua consecução. Caso contrário, se tivermos uma postura como a do inspetor da balsa, quando os recursos aparecerem não haverá o que comprar e nossa balsa poderá afundar, ou ficar à deriva, por falta de investimento. Para quem duvida, basta deixar seu “formulário em branco” e conferir o resultado.




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Antonio Lazarini é palestrante, consultor de gestão de pessoas, empresas, processo e equipes auto-gerenciadas.
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