No Brasil, o jogo de azar é proibido. Mesmos assim, um grande número de loterias é legalmente autorizado e inunda o cotidiano das pessoas, insinuando um enriquecimento fácil e barato para todos. Basta jogar e esperar pela sorte, que, para a esmagadora
maioria dos apostadores, nunca vem. E, de tempos em tempos, uma modalidade de loteria torna-se grande sucesso e, por meio dela, todos sonham em se tornar milionários da noite para o dia.
Num passado não muito distante, a modalidade de loteria que atraía a atenção de todos era a Loteria Esportiva. Tratava-se de um conjunto de treze jogos de futebol que aconteceriam aos finais de semana, em que o apostador deveria acertar, para cada jogo, quem seria o vencedor, ou se haveria empate. Cada jogo valia um ponto. O placar não interessava. Desta forma, quem acertasse o maior número de jogos, faria o maior número de pontos. Aquele que fizesse o maior número de pontos ganharia uma grande bolada em dinheiro e ficaria rico.
Como o futebol é algo apaixonante para um grande número de pessoas, a Loteria Esportiva também o era. E, como no futebol, as discussões a respeito dos resultados dos jogos também ocupavam espaço na mídia e entre as pessoas.
No domingo a noite, era dado o resultado de cada jogo e alguns poucos ganhadores ficavam felizes enquanto que a maioria, frustrada, passava a discutir uma intrincada lógica dos resultados, se é que existe lógica no futebol. E estas discussões avançavam pela segunda-feira.
E nessas discussões não faltavam aqueles que diziam que sabiam exatamente qual seria o resultado. Para eles estava claro quem venceria ou se haveria empate. “O resultado estava na cara. Só não acertou quem não quis, estava óbvio”, diziam eles. Eram ganhadores virtuais, pois eles nunca jogavam, ou, se jogavam, perdiam e ficavam bem quietinhos. O fato é que nunca ganhavam de verdade. E, assim, faziam críticas àqueles que jogavam e nunca acertavam os treze pontos.
Estes ganhadores virtuais ainda andam por aí, fazendo críticas àqueles que tomam decisões, quer sejam nas empresas, quer sejam na vida privada. Eles são ótimos para julgar, e condenar, as decisões tomadas. Só que eles o fazem, como na Loteria Esportiva, após os fatos já terem ocorrido, isto é, acertam os resultados dos jogos na segunda-feira. Nunca estão presentes para ajudar a tomar a decisão, antes dos fatos acontecerem. Assim fica fácil fazer crítica. Seria interessante vê-los fazer críticas quando têm que tomar uma decisão, com poucas informações e com um alto grau de incerteza., e ela não pode ser postergada. Aí as coisas mudariam de figura.
No mundo real, o tempo todo somos levados a fazer escolhas com alto grau de incerteza. A incerteza está presente, pois nunca temos todos os dados e informações para decidirmos com a segurança necessária. É o dia-a-dia de quem tem de tomar decisões, quer seja numa empresa, que seja na sua vida particular.
Fazer críticas após os fatos já terem acontecido é muito cômodo. Claro que analisar os resultados de nossas decisões é uma prática muito salutar. Ela, certamente, agrega experiência à nossa vida e nos torna mais aptos a lidar com as incertezas que nos cercam. Ficar criticando uma decisão tomada quando os dados eram poucos e incertos, e que agora ficamos sabendo o seu resultado, só o faz quem nunca tentou fazer treze pontos no domingo, nunca sentiu o gosto de uma zebra




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Antonio Lazarini é palestrante, consultor de gestão de pessoas, empresas, processo e equipes auto-gerenciadas.
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