Imaginemos a situação em que uma pessoa está limpando uma arma de fogo e, de maneira não intencional, esta é disparada. O disparo imprevisto não atinge nenhuma pessoa, ninguém se fere.
Este episódio aqui relatado é extremamente perigoso, pois encerra em sua gênese a possibilidade de causar um grande acidente. Afinal, um disparo de arma de fogo pode até matar uma pessoa.
Fatos similares a este aqui relatado ocorrem mundo afora até com certa frequência. No entanto, estes não geram notícia e acabam caindo no esquecimento. Afinal, não apresentam resultado desastroso, então, por que ficar falando deles?
Agora, imaginemos o mesmo episódio, só que desta vez, o disparo atinge mortalmente uma pessoa. Neste caso, o incidente será considerado gravíssimo e, certamente, gerará grande repercussão na imprensa, envolverá a polícia e comoverá as pessoas. O assunto permanecerá nos noticiários por muitos dias e, provavelmente, aparecerão iniciativas vindas das mais variadas partes, propondo medidas para evitar que acontecimentos como este não voltem a se repetir.
Como dito, este relato é fictício. No entanto, ele pode ser considerado como muito aderente ao que ocorre no mundo real.
Se pararmos para pensar um pouco sobre este incidente, verificaremos que a sua causa sempre é o disparo não programado, não previsto. E se buscarmos pela causa raiz, aquela causa primeira, a fundamental, veremos que se trata de um descuido, pessoa despreparada para manusear arma de fogo e assim por diante.
No entanto, a importância deste incidente varia conforme o resultado que ele provoca. Podemos dizer que se a consequência é grave, consideramos o incidente também grave. Se, porém, a consequência não é grave, como no caso do disparo não atingir ninguém, considera-se que o incidente também tem pouca gravidade.
Trocando em miúdos, na prática, só teria repercussão, e, portanto, seria digno de proposição de medidas para evitar sua repetição, o incidente que gerar uma consequência grave. Se implicar um resultado de pouca ou nenhuma gravidade, ele será considerado com trivial, não será tratado, ficando sem controle e se repetirá até o dia em que volte a ocorrer levando a uma consequência desastrosa. Aí poderá ser tratado e bloqueado. Como frequentemente acontece, “medidas drásticas” são tomadas.
Estas considerações mostram que estamos acostumados a tratar os incidentes de acordo com as consequências que estes produzem e não conforme o risco que representam. Como no citado evento do disparo acidental, sempre olhamos o resultado, a conseqüência, para atribuirmos peso ao incidente. Esta é a prática recorrente. É isto que estamos acostumados a ver acontecer.
A postura adequada, para se tratar um caso como o aqui descrito, seria avaliar os riscos, a gravidade de potenciais resultados envolvidos em um disparo acidental e não apenas as consequências geradas por um disparo específico. Mas, como dito, esta não é a prática. Parece que gostamos de aguardar pelo pior para só depois tomarmos as providências para eliminar a causa de um problema. Parece que gostamos de ser reativos, quando deveríamos ser preventivos.
Na verdade, as providências devem ser tomadas antes dos problemas aparecerem. Isto sim nos tornaria efetivamente preventivos. O ideal não é aguardar que o problema ocorra, ainda que com consequências sem gravidade, para eliminarmos sua causa. Afinal, problemas são sempre problemas e devem ser evitados.
Contudo, caso um problema ocorra, vamos eliminar suas causas mesmo que as consequências geradas não sejam graves naquele momento. Não fiquemos aguardando para resolver problemas só quando estes produzirem conseqüências graves, gerarem repercussão.
É necessário ter uma postura muito clara nestes casos, pois ser preventivo nem sempre é justificável, uma vez que, como já dito, a visibilidade dos problemas é dada pelo resultado que produzem. E tratar de casos que, aparentemente, não são graves, pois não culminaram em confusão, destruição, mortes, etc., dá a impressão de que estamos gastando recursos e energia onde não há necessidade. É nesta hora que temos de ver o que está invisível, e isto não é nada fácil. É necessário ter muita clareza e abstração.
Como visto, sendo apenas reativos, estaremos nos candidatando a trabalhar em plantão da polícia. Aí só nos restará fazer inquéritos e apurar culpados, o que, seguramente, não é suficiente.













Antonio Lazarini é palestrante, consultor de gestão de pessoas, empresas, processo e equipes auto-gerenciadas.