É legal

04.05.2012 - 10h48

Melhor Um Mau Acordo?

No Brasil um processo pode facilmente levar dez anos. Se alguém vai trabalhar para você durante dez anos, em geral, ou vai ser caro, ou o trabalho vai ser mal feito. Além disso, há o desgaste, as surpresas… É evidente, portanto, que sendo possível é interessante evitar o uso do Judiciário. É por isso que o povo costuma falar que é melhor um mau acordo que uma boa briga. Mas, será que isso é verdade?

 Claro que é possível evitar uma briga cedendo, ou perdendo muito dinheiro. Não existe qualquer vantagem nisto. O importante é saber como chegar a um acordo satisfatório, como não ser arrastado para uma briga onde não há como ganhar.

Para isto é preciso negociar. Ao contrário do que pode parecer quando se observa grandes negociadores em ação, negociar não é um dom divino. É uma técnica que pode ser aprendida. Qualquer um pode melhorar muito sua habilidade em negociação estudando e praticando. Existem excelentes cursos neste campo e este pequeno artigo não pretende substituí-los, mas apenas abrir seus olhos para algumas bobagens que clientes e advogados repetem sem parar…

A primeira e talvez mais comum dessas bobagens é deixar o emocional decidir um problema racional. O Judiciário não é um lugar apropriado para vingança, ou para expiar culpas, ou massagear o ego. Se você precisa de ajuda nestas áreas, contrate um bom psicólogo. Eles são caríssimos, mas não tanto como uma ação proposta para resolver problemas psicológicos. Além disso, ao contrário delas, costumam funcionar.

A segunda bobagem, é criar o que os especialistas chamam de assimetria de informações. Assimetria de informações é aquela situação onde existe uma grande diferença entre o que uma parte sabe do problema e o que a outra parte sabe. Essa assimetria custa caro. Na venda de um carro usado, por exemplo, o vendedor sabe (ou deveria saber) qual é o verdadeiro estado do caso. O comprador não tem nenhuma ideia. Esse desconhecimento, faz com que o comprador pague menos por um carro comprado de um desconhecido, ou que pague muito por um caro com problemas. Ou seja, de qualquer modo, ela custa caro para alguém.

Nas negociações esta assimetria deve ser evitada sempre que se perceba que ela está lhe custando caro. Por exemplo, no caso do carro, ela pode ser diminuída permitindo que o carro seja examinado por um mecânico da confiança do comprador. Numa ação, possibilitando à outra parte meios que lhe garantam a sua boa-fé.

A terceira bobagem, é deixar de incluir na negociação coisas que não lhe custam nada, mas que podem tornar a negociação mais interessante para a outra parte. Por exemplo, se você está tentando retomar um imóvel de um inquilino inadimplente e pretende reformar o imóvel, porque não facilitar a negociação dispensando-o de pintar o imóvel? Você terá de refazer a pintura de qualquer forma… Esse tipo de coisa pode ser um argumento decisivo para fechar um acordo e com frequência é esquecido, ou deixado de lado por pura birra.

Esses exemplos são apenas para mostrar que é possível se utilizar técnicas para se obter um bom acordo e mais, especialmente nos países anglo-saxões há grandes especialistas nisto, muito bem remunerados.

Mas será que sempre vale a pena um acordo? A resposta é um sonoro não. Às vezes, vale a pena a briga.

Em primeiro lugar, vale a pena a briga quando se trata realmente de uma questão de princípios, ou seja, você está lutando por algo em que acredita, ou por algo que pode melhorar a sociedade como um todo. Por exemplo, quando você é prejudicado por uma empresa que causa costumeiramente dano a consumidores vale a pena brigar. Especialmente se você tem o tempo e o dinheiro para isso. Esta é uma forma de melhorar a sociedade, acrescentando custo à conduta maliciosa da empresa, o que pode levá-la a mudar. A única coisa a lembrar é que você deve ter certeza que não está confundindo princípios com vingança.

Vale a pena brigar se você teve um prejuízo grande e o devedor é solvente, ou seja, pode pagar. A Justiça pode ser demorada, mas costuma funcionar, especialmente se você tem boas provas do ocorrido. Neste caso, porém, calcule bem os gastos que terá e compare o acordo oferecido com estes gastos e com a diferença que será na sua vida receber o dinheiro hoje, ou daqui a muitos anos. Lembre, porém, que o devedor solvente hoje, pode não ser solvente daqui a dez anos.

Dificilmente vale a pena brigar com pessoas queridas, ou com aquelas com as quais você vai ter de conviver por muitos anos, como por exemplo vizinhos, família, amigos antigos. Nestes casos, você deve primeiro tentar limitar a questão aos seus aspectos racionais (e isso será sempre dificílimo), depois, deve ter muito claro o que é aceitável, o que é inaceitável e como será a sua vida após a ação. Nestes casos delicadíssimos, você pode não ter nenhuma alternativa a não ser brigar, mas lembre-se que será muito dolorido.

 

Elder de Faria Braga

Comentário (1) 

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  • AMANDIO DE SOUSA GAMA

    Não é "MAL ACORDO". O correto é "MAU ACORDO"

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