É legal

11.07.2011 - 20h13

Strauss Kahn e a Verdade

Todo mundo leu a fantástica história do presidente do FMI, milionário, que atacou a camareira do hotel em Nova York e foi  preso no avião… Quem acompanhou a história e ficou morrendo de raiva do monstruoso comportamento do banqueiro, deve estar surpreso: ao que parece, como sempre, tudo é muito complicado…

Dominique Strauss-Khan; autor: Guillaume Paumier

O judiciário americano agiu com enorme rapidez no caso: Diante de uma denúncia feita por uma camareira e apoiada pelo seu empregador, impediu a saída do suspeito do território americano, aparentemente sem se importar com quem era esse acusado.

Aparentemente, pois não se prende o presidente do FMI e potencial candidato à presidência da França sem que a importância do preso não altere procedimentos. Ao contrário do que seria habitual, a prisão foi feita com razoável estardalhaço, ao contrário também do costume, não foi fixada fiança e o acusado foi mantido preso. Para piorar, uma enorme quantidade de detalhes sobre o caso vazou para os jornais e tabloides do mundo inteiro, sem nenhuma preocupação com a reputação do acusado, ou com o princípio da presunção da inocência.

A entrevista dada pelo advogado da vítima quando foi depor na corte descreveu os detalhes do ataque sofrido por sua cliente em cores fortes e tão realistas que, segundo alguns, beiraram o pornográfico. O show business claramente começava a interferir no caso…

E é exatamente este o ponto deste post: quando os limites da notícia e do show, ou mais especificamente, do noticiário jurídico e do entretenimento, se aproximam, as coisas começam a ficar muito perigosas!

Como é comum acontecer, na medida em que o tempo foi passando, a história apresentada começou a ficar complicada. Casos judiciais, como a vida, normalmente são complicados. Bastaria uma análise dos fatos apresentados para prever isso: Por mais mulherengo que seja o senhor Dominique, é difícil crer que tenha chegado onde chegou sendo descuidado.

Aliás, a fama de mulherengo do acusado fez a festa da imprensa. Várias acusações do passado voltaram à tona. Os jornais fizeram longas reportagens sobre o apetite sexual do presidente do FMI e os vários escândalos que povoaram sua vida.

Porém, novos fatos apareceram: Ao contrário do que disse, a camareira após a alegada tentativa de estupro, não foi imediatamente se queixar à administração do hotel. Ainda arrumou mais um quarto e, depois, arrumou o quarto onde se hospedou o acusado. Só então foi se queixar.  A promotoria, em vista disto, pediu a liberdade do acusado: havia uma inconsistência importante no depoimento.

Alguns dias depois e um jornal afirmou ter fontes declarando que a vítima seria uma prostitua e faria parte de uma rede de prostitutas que trabalharia em hotéis de luxo.  Verdade, ou não, a publicidade dada ao caso acabava de arruinar duas reputações: a do acusado e a da vítima…

Se Strauss-Khan atacou, ou não a camareira é algo que talvez nunca venhamos a saber. A própria lógica do sistema jurídico americano pode tornar vantajosa para ele uma confissão de má conduta, em troca do encerramento rápido do processo, ou pode mesmo haver algum outro tipo de acordo.

O problema é que estamos vendo uma situação que enfatiza (curiosamente em prejuízo a ambas as partes) uma confusão comum e perigosa, especialmente para as mulheres: a vida sexual promíscua de uma pessoa, não pode ser base seja para a determinação de culpa em uma acusação de ataque sexual, seja para afirmar a falsidade da história da vitima.

Nós temos uma tendência de querer que na vida, a verdade tenha o formato de uma parábola: se o homem é um promíscuo, certamente ele deve ser um estuprador e deve pagar por isso. Ou, se a mulher é uma prostituta (e não há qualquer prova de que a vítima neste caso seja uma), obviamente ela se ofereceu.

A verdade, porém é mais complexa. Bons pais de família são pedófilos, pessoas amáveis matam sem razão, mafiosos ajudam órfãos e torturadores muitas vezes são amigos leais… Se não entendermos isso, continuaremos a destruir reputações e alimentar injustiças.

Elder de Faria Braga

Comentários (2) 

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  • Augusto Barbosa Lima

    Elder, Você tocou num tema complexo relativo ao nosso lado moral e comportamental. Você nos alertou de como é imprudente e arriscado sairmos julgando pesso...

  • Elder de Faria Braga

    Augusto, Vivemos em uma sociedade onde há um excesso de informação. Diante de um fluxo tão grande de dados, a tentação de julgar rapidamente é enorme. De...

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