Acho que já falei aqui que quem pensa que o direito pode resolver os problemas sociais, no mínimo não entende nada de direito… Um exemplo disto é a previdência, que vive em crise em todo mundo e por toda parte sofrendo reformas que, em geral, cortam benefícios e aumentam as contribuições. Na verdade, nenhuma lei vai conseguir resolver o problema, que necessita de uma enorme reformulação em seus conceitos básicos. Precisamos enfrentar uma verdade inconveniente: a previdência, como a entendemos, está com os dias contados.
Como assim?
É simples, mas difícil de encarar. Por um lado, vivemos cada vez mais, por outro, concorrem dois fatores:
O primeiro é que nosso modo de vida causa cada vez mais doenças crônicas, como obesidade, diabetes, pressão alta, diversas alterações cardíacas não letais etc.
O segundo é que doenças que antes eram fatais, agora se tornaram crônicas, ou tendem a se tornar crônicas, como o HIV, vários tipos de câncer, com tratamentos vitalícios e caros. Na verdade, é raro que um laboratório lance algum remédio revolucionário que não seja de uso continuado…
Apesar disso, as reformas intentadas nos sistemas previdenciários (e aqui englobo os sistemas de saúde, que em alguns países – como no Brasil – fazem parte da previdência e em outros não), resumem-se, como já falei, a aumentar as contribuições e diminuir os benefícios.
Economistas, juristas e parlamentares parecem hipnotizados pelos olhos da crise que se aproxima. Permanecem paralisados, ou por medo de enfrentar o problema, ou terror de discutir alternativas inteligentes com a sociedade.
Ora, se tudo continuar como segue, continuaremos pagando cada vez mais, para termos cada vez menos em termos de previdência, até o ponto – próximo – onde nenhum dinheiro será suficiente, mesmo para a prestação do serviço mínimo!
As mudanças necessárias no sistema previdenciário demandam a alteração de paradigmas sociais.
Em primeiro lugar, a sociedade precisa decidir quem precisa de auxílio da previdência, quem é velho, e quem merece descanso após anos de trabalho. Cada vez que vejo uma vaga para idosos, lembro que elas são para os maiores de 60 anos e que toda manhã no Ibirapuera, dezenas de senhores e senhoras de mais de 60 anos passam por mim correndo em velocidades que poucos meninos de 30 poderiam suportar… Muitas pessoas hoje vivem muito bem até idades avançadas, preservando integralmente sua capacidade produtiva.
Além disso, as pessoas começam a trabalhar cada vez mais tarde. Se antes muitos começavam a trabalhar com 12 anos, hoje outros tantos buscam o primeiro emprego após completarem um doutorado, já na faixa dos 30 anos.
Até quando continuaremos acreditando que 35 anos de trabalho produtivo (dos 30 aos 65) poderão sustentar 30 anos de férias (dos 70 aos 100)?
Em segundo lugar, a sociedade precisa decidir o que fazer para possibilitar que as pessoas tenham estilos de vida mais saudáveis, pois se há pessoas com 70 anos com o desempenho atlético e mental preservado, há uma enorme multidão de crianças diabéticas. Devemos controlar o que as pessoas podem comer, ou quanto devem se exercitar? A pergunta parece descabida, mas já há leis determinando que tipo de alimentos podem ser vendidos em cantinas escolares….
Além disso, a sociedade precisa decidir quanto tempo as patentes de medicamento devem durar e quanto é o lucro que os laboratórios devem ter para que o interesse na pesquisa de medicamentos se mantenha. Além disso, talvez a sociedade tenha de se concientizar que o investimento pesado em pesquisas farmacológicas pelo estado pode ser estratégico para a economia.
Todas essas discussões implicarão certamente em mudanças jurídicas, mas não pertencem ao mundo do direito. Caberá ao direito apenas dar forma e efetividade às decisões que a sociedade terá de tomar.
Eu disse terá de tomar, pois seremos obrigados a tomar essas decisões. Poderemos apenas escolher entre decidir com calma, ou apenas depois que a crise for gigantesca.
Elder de Faria Braga



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Elder de Faria Braga
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josé carlos fontes
É a maneira do Élder pensar que todas as pessoas deveriam ter, em suas esferas de atuação: o que é que vem sendo sucessivamente remendado sem que na verdad...
josé carlos fontes
É a maneira do Élder pensar que todas as pessoas deveriam ter, em suas esferas de atuação: o que é que vem sendo sucessivamente remendado sem que na verdade seja totalmente resolvido? O que mudou e que gerará necessidade de mudanças? O que está acontecendo que mostra ser necessário quebrar paradigmas, mudar a maneira de pensar, agir, se relacionar? A inovação, além de abranger produtos (bens e serviços), processos e negócios, pode e deve atuar sobre sistemas inteiros, deve ser feita sobre os modos de pensar sob os quais os sistemas foram concebidos. Conceitos e premissas sobre os quais os sistemas foram concebidos também mudaram, mudam, desse modo, os sistemas também devem mudar. A sociedade, as pessoas mudam o tempo todo, os sistemas devem acompanhar, ou impedem o progresso humano. Élder mostra como pensar: remendos sucessivos são claro sinal de necessidade de mudanças em paradigmas, premissas, conceitos.
Vagner Dias dos Santos
Existem várias sugestões de "fórmulas", segundo seu autores, capazes de sanar a situação deficitária da previdência. No entanto, poucos como o autor perc...
Vagner Dias dos Santos
Existem várias sugestões de “fórmulas”, segundo seu autores, capazes de sanar a situação deficitária da previdência. No entanto, poucos como o autor percebem que a mudança necessaria ultrapassa o alcance das “formulas” que definem indices de contribuição e valores de beneficios.
Atuo em um Regime Próprio de Previdencia, e entre outras atividades de educação previdenciária, organizamos palestras para os novos segurados para apresentar as regras atuais e os conceitos fundamentais de previdencia, em especial o caráter contributivo (necessidade de contribuição – receita – para fazer frente aos benefícios – despesa). Geralmente encerramos estas palestras dizendo que um sistema de previdencia deve resultar das escolhas da sociedade que deve definir quanto e como gastar com previdencia.
Certa vez, ao fim de uma destas palestras, um médico levantou a mão e disse: “Posso falar uma coisa? Até concordo com tudo isso, mas acho uma sacanagem esse negócio de idade mínima” (no serviço público além do tempo de contribuição (35/30 anos H/M) existe um requisito de idade mínima que tende a levar os segurados a contribuirem por mais tempo antes da obtenção do benefício).
Este é só mais um exemplo, entre muitos outros, de que a sociedade em geral ainda não percebeu que os conceitos devem ser mudados para criação de um regime de previdencia efetivo.
Parabens Elder e José Carlos Fontes pela clareza com que enxergaram e expressaram o cerne da questão. Mudança de paradigmas! Abraços
Elder de Faria Braga
José Carlos, obrigado pelo comentário. É bom saber que mais gente começa a ver a necessidade de uma mudança mais ampla do que a que vem sendo discutida! As...
Elder de Faria Braga
José Carlos, obrigado pelo comentário. É bom saber que mais gente começa a ver a necessidade de uma mudança mais ampla do que a que vem sendo discutida! As perguntas são: O que queremos ter? O que precisamos ter? Quanto podemos pagar por isso?