Proliferam nas faculdades as avaliações dos professores. Em cada matéria ou curso, existe um papel em que os alunos têm que preencher de acordo com a sua visão a respeito do desempenho do docente em inúmeros aspectos, como grau de conhecimento, disponibilidade para o atendimento, entre outros fatores. Parece uma reação a uma preocupação justa, pois, em tese, permite ao aluno verbalizar a qualidade do ensino que recebe, comunicando suas impressões à direção. Será?
Em artigo publicado recentemente, o professor Clark Glymour, titular do departamento de Filosofia da Universidade Carnegie Mellon, levanta sérias dúvidas a respeito da utilidade das avaliações como instrumento para perceber a qualidade de um docente, sobretudo ao demonstrar que o jogo de incentivos entre alunos e professores leva a uma utilização estratégica desse instrumento, o que pode, ao contrário do inicialmente suposto, até mesmo piorar a qualidade do ensino, não contribuindo como um elemento de transparência e controle.
Basicamente, algumas premissas (a meu ver, bem verdadeiras) sustentam concretamente essa conclusão. A primeira é a de que as avaliações são profundamente influenciadas pela expectativa dos alunos com relação às notas (e pouco influenciadas com o quanto aprenderam de fato ao longo das aulas). As avaliações materializam preconceitos contra professores que fazem saber aos alunos que serão rigorosos e que o curso demandará muito trabalho. Particularmente, as avaliações tendem a ser mais baixas para professores que tentam inovar em métodos de ensino, já que existe uma natural resistência ao novo e a mudanças.
A segunda diz respeito a questões de afetividade. Um bom relacionamento com a turma influencia positivamente uma avaliação, o mesmo ocorrendo com professores que são entusiasmados ou com alta reputação em determinada matéria do currículo da faculdade. Isso explica porque os professores, independente da matéria que lecionam (e, também, do seu desempenho como docente), frequentemente recebem avaliações constantes, sem oscilações. O tamanho da turma também costuma ser um fator relevante para as avaliações, havendo uma maior probabilidade de notas baixas quanto maior for a turma de alunos, já que a possibilidade de um relacionamento próximo fica menor com um número elevado de pessoas em sala de aula.
Na prática, então, as avaliações de professores podem gerar incentivos para que os professores sejam menos rigorosos com os alunos, provocando uma inflação de notas (o que, na prática, gera o efeito contrário do que o esperado, reduzindo a qualidade do ensino), bem como para que não apresentem inovações de método, já que o risco embutido na novidade poderia impactar negativamente as avaliações, em função da comum resistência a mudanças. Mais uma vez isso poderia ser profundamente pernicioso, já que as faculdades deveriam ser um celeiro de novidades; um lócus natural de experimentação de formatos e de métodos.
Será que não existem outras formas de avaliar os desempenhos dos professores?


Expandir todos os 0
Carlos Emmanuel Ragazzo
Para deixar um comentário você precisa se identificar. Escolha um dos tipos de identificação abaixo:
Termos de uso | Comentários sujeitos a moderação