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São Paulo
Germano Luders
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Quando uma lágrima pode ser a última!

José Luiz Tejon Megido

No aeroporto de Cuiabá, uma senhora com mais de 80 anos se despede da irmã, também idosa. O filho a acompanha até a entrada da sala de embarque. Antes da travessia, uma vontade evidente de não querer partir, pois aquela partida parece ser a última despedida. As lágrimas começam a jorrar. Primeiro dos olhos da senhora que embarca. Imediatamente, no olhar da irmã que fica.

O filho, ainda jovem, não chora. Para cada um ali, o tempo conta de forma diferente. Os velhos que se despedem, a cada despedida, assumem a consciência de poder ser a última vez. As lágrimas vingam como uma honra ao próximo. Não significa simplesmente um choro. A lágrima, do que pode ser a última partida, derrama e exclama uma manifestação da alma. A última lágrima explica toda a saudade. Vai haver a saudade dos amados, mas também saudade até daqueles com quem não nos demos assim tão bem. Saudade dos sacrifícios do viver, das dificuldades, mas muito mais, gigantescas saudades de tudo o que existe para ser feito.

A última lágrima jorra como a despedida, o fim da missão. O rapaz jovem não percebe, não sente. Simplesmente sorri, beija e diz: “mãe não chora, estaremos juntos no final do ano”. Qual ano, se na alma da senhora idosa a perspectiva do tempo já se foi? E se uma voz íntima está sussurando: aproveita, chora, permita que a alma seja manifesta, o adeus vem como coisa certa.

Nunca sabemos quando explode o último sorriso, a última palavra, a derradeira lágrima. Mas diz a tradição dos índios guaranis que cada pessoa, no fundo, bem no fundo de si mesma, sabe. A alma avisa. Na dúvida, não reprima o soluço, não corte o choro, não enxugue a lágrima. Beija, abraça, e chora junto… E que sejam felizes até o próximo encontro e a nova despedida. Um grande líder sabe sair e não teme chorar.

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