Não é nada novo descobrir que por trás de produtos de grife, high tech, prazeres, luxúrias, delícias e gostosuras, o mundo sempre os arrancou, de sólidas e diabólicas diabruras. As joias preciosas extraídas de mineiros moribundos, velhos e crianças das minas de ouro e prata. A riqueza dos canaviais e as gostosuras dos açúcares, a partir de negros escravos viajantes empaçocados em navios negreiros horripilantes; os bens industriais da era Chaplin, de trabalhadores de 12 horas por dia, incluindo sábados, sem excluir “adventistas”. As máquinas mortíferas das guerras onde mulheres produziam bombas sem parar e seus maridos soltavam bombas sem contar. E, claro, morreu muito mais gente na produção e acabamento do Titanic, do que no seu fatídico naufrágio.
Portanto, nada de novo no por e ocaso solar. Agora em Bangladesh a notoriedade do prédio que desmorona sob o peso de trabalhadores semi-escravos e sobre os mesmos, os esmaga literalmente. Porém, os tempos vão mudando. Se a saga humana continua sendo resultado de uma dialética perene na luta das maldades versus as bondades, a interatividade e as redes sociais aceleraram a descoberta dos seus fenômenos, e o mundo agora os discute de maneira mais consciente e diferente.
Walmart, o maior varejo do planeta, já aderiu ao acordo que deverá fiscalizar todas as 279 fábricas instaladas em Bangladesh, por exemplo. Mas a coisa é universal. Zara foi pega aqui mesmo, no nosso cantinho do Adoniran, o Brás. Apple na China, e vai por aí, com Benetton, El Corte Inglés, Tesco, Carrefour, H&M, etc. Ou seja, o luxo for all tem nas suas minas, e nos seus alicerces, a ganância de few sobre all, e o consumidor ainda não se preocupou suficientemente de saber de onde vem e como é feito aquilo que consome. A conta tem sim, sobre nós os consumidores, um peso gigantescamente maior do que achamos. Esse xisto betuminoso, esse piche, esse dark side sócio-econômico, começa a ser diluído, exatamente pelo poder das redes, das nuvens e da interatividade global.
As catástrofes de gente morrendo, sendo suicidada, entregando sua máquina corporal e mental para satisfazer prazeres, luxúrias, gostos e criar diferenciais egosatisfeitos sempre insatisfeitos, não é novidade. Ocorre todo dia aos bilhões na verdade humana sobre a terra. Por trás da Boate Kiss, em Santa Maria, não apenas os donos da casa compraram espuma tóxica, não apenas o pessoal da banda consumiu um sinalizador quente… Alguém vendeu a espuma, outro alguém vendeu um sinalizador quente, e muitos compraram o show, e muitos no mundo, todos os dias, estão consumindo por conta de sonhos, ilusões, desejos e vontades, o que os outros nos entregam com o preço do próprio sangue.
Os novos líderes não podem mais ser anestesiados do processo e muito menos anestesiar essa cadeia de valor dantesca. A mudança está em andamento. O líder sustentável é aquele que cria, mas não destroi para criar. O consumidor sustentável é aquele que se satisfaz, mas não extermina para se satisfazer.




José Luiz Tejon é publicitário, jornalista, autor e co-autor de 28 livros, como "O Voo do cisne" e "O Código da Superação". É presidente da TCA Internacional, com parcerias na Europa, Estados Unidos, China e Israel.