“Por que não somos felizes? – Entrevista com Tiago Amorim | EXAME.com
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“Por que não somos felizes? – Entrevista com Tiago Amorim

Fábio Pereira Ribeiro

Sempre tive a ligeira ideia de que todos nós somos infelizes, que vivemos em felicidades falseadas por coisas mundanas, coisas que de fato não nos levam a nada e que no fim criam expectativas que serão destruídas por um simples fato, a realidade da vida sempre bate à porta. Mas é óbvio que a nossa natureza humana pode se desenvolver para um contexto de felicidade, e até mesmo de fuga das coisas mundanas, ou até mesmo modernas (no sentido de coletivo obrigatório), para que realmente a vida tenha um sentido mais natural do nosso ser.

Até hoje me pergunto como ser feliz em um mundo atormentado por tragédias sociais, econômicas e políticas? Ou como ser feliz no Brasil de hoje que está atolado em mentiras e imbecilidades? Ou como ser feliz em um país onde os heróis são empreendedores de palco que não produzem nada, não empreendem nada e também não ajudam o Brasil a sair da posição 81 do ranking internacional da competitividade mundial?

Mas graças às coincidências da vida, ou até mesmo da felicidade, me deparei com um autor que realmente mostra um caminho para se compreender a felicidade. Sem autoajuda (que para mim é um pé para o suicídio), o psicopedagogo e bacharel em Direito, Tiago Amorim, nos brinda com uma verdadeira obra prima sobre a felicidade, o livro “Por que não somos felizes?” pela Editora Simonsen é um arauto em tempos nebulosos. E por favor, se você procura autoajuda não leia este livro, vá rezar, colecionar selos, viajar, peregrinar, ou encher o saco de outro.

De forma leve, direta e extremamente inteligente, “Por que não somos felizes?” apresenta as razões para que possamos compreender a felicidade como “posse de si”. E tudo tem uma razão simples, principalmente quando você precisa levar um tapa na cara para enxergar as verdades da vida. Como diz Tiago Amorim no prólogo do livro, “escutar a própria voz que resuma desde a mais profunda realidade interior é o desafio dos homens de agora, atormentados pelo barulho das ruas, das falsas convivências e dos movimentos de massas. São os gritos da mediocridade, da passividade e da fantasmagoria: sons externos, superficiais e mágicos que encantam os personagens desse faz-de-conta a que chamamos de inferno”. Tiago vai no cerne da questão, “nada é mais urgente nestes tempos de homogeneização: resgatar a si mesmo, numa ascese dolorosa – como tem que ser. Ninguém pode fazê-la em meu lugar”. Não é a toa que depois de anos de muito trabalho, felicidades mundanas e passageiras, vida profissional entre prazer e ódio, consegui a felicidade em escrever um primeiro romance, como se fosse um tapa na cara de muitos, mas para mim me trouxe a verdadeira paz de espírito que a felicidade efetivamente pode representar. Em breve lanço “Um Dry Martini para Hemingway”. Mas aí é história para um outro post.

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Eu percebi o quanto a frase de Tiago Amorim, “a felicidade é posse de si”, de fato, representa o que realmente devemos buscar e controlar. Acredito mais no que realmente eu quero e posso, do que o que os outros imaginam ou que eu posso tentar. Tiago Amorim nos orienta de fato com a sua obra sobre o que é felicidade, e joga para os porões da autoajuda as farsas que tanto criam sobre a mesma.

O Blog BRASIL NO MUNDO conversou com o autor Tiago Amorim, o mesmo escreve diretamente de Portugal. Além do livro, Tiago Amorim tem o curso “A Vida Humana” que é um grande sucesso de conteúdo e verdades.

Tiago Amorim é natural de Telêmaco Borba (PR). Professor há 11 anos, bacharel em Direito e psicopedagogo, atuou em diferentes níveis de ensino como coordenador pedagógico, professor de História, Filosofia e Sociologia, autor de materiais didáticos. Lecionou cursos livres no Solar do Rosário, em Curitiba, e publicou dois livros (Abertura da Alma, pela Danúbio, e o recente “Por que não somos felizes?”, pela Simonsen). Tem uma página na internet para divulgar seu trabalho na área de Antropologia Filosófica www.avidahumana.com.br . É mestrando em Antropologia no Instituto Universitário de Lisboa. Casado e pai de dois filhos.

Tiago Amorim - Fonte: Site A Vida Humana

Tiago Amorim – Fonte: Site A Vida Humana

 

Brasil no Mundo: Como surgiu a ideia de escrever “Por que não somos felizes?”?

Tiago Amorim: Surgiu da experiência com atendimentos individuais que eu passei a realizar em Curitiba-PR. Neste trabalho, que continuo agora em Portugal, converso particularmente com as pessoas que me procuram sobre os dramas que elas vivem (não apenas psicológicos, mas existenciais). Um exemplo: sentido de vida. Muitos homens e mulheres já chegaram até mim para tratar especificamente disto, pois sentiam-se em “débito” consigo mesmos, vivendo uma trajetória que lhes parecia ser imprópria ou falsa. Depois de ouvir tantas pessoas entediadas, angustiadas e seriamente perdidas em relação à sua biografia, concluí que a infelicidade era uma espécie de presença no mundo – e de modo particular no mundo contemporâneo. Essa existência infernal experimentada pelos meus alunos (e quantas vezes por mim mesmo) é que me fez querer responder ao fato de que há uma multidão de infelizes por aí.

Brasil no Mundo: Você define a felicidade como uma “posse de si”. Podemos dizer que hoje em dia essa é uma das posses mais difíceis do ser humano?

Tiago Amorim: Sem dúvida. E destaco o seu “hoje em dia”, pois o homem moderno é o mais dividido de todos os tempos; o mais psicologicamente complexo, o mais requisitados por vozes interiores conflitantes. Também é esse homem moderno o primeiro a ficar angustiado por ter muitas possibilidades de vida (em séculos anteriores, as pessoas tinham menos caminhos possíveis para trilhar biograficamente). Atualmente, pode-se escolher “quase tudo” e é justamente isto que angustia e paralisa o homem diante da vida. Não sabe escolher, não sabe apostar radicalmente numa trajetória pessoal, não sabe quem é. É este QUEM que é preciso recuperar por uma reunião do próprio ser, a posse a que aludo em meu livro e que, realmente, custa muita sinceridade e honestidade.

Brasil no Mundo: De forma direta, por que não somos felizes?

Tiago Amorim: Porque não sabemos quem somos. Não conseguimos, em meio à multidão em que estamos inseridos, falar em nome próprio; ser autores da vida – e não meros repetidores de lugares-comuns, de propagandas da mídia, de toda aquela falsa impressão sobre o mundo que impera no falatório politicamente correto. Ser feliz é ser radicalmente único, consciente de sua irrepetibilidade. Para isso, é preciso um domínio de si, o senhorio a que me refiro no capítulo cinco do livro.

Brasil no Mundo: Boa parte de nosso tempo buscamos respostas para o “sentido da vida”. Para você, qual o sentido da vida? E como de fato devemos buscar respostas para isso?

Tiago Amorim: É difícil falar de sentido da vida sem fazer referência a Viktor Frankl. A logoterapia é, sem dúvida, a necessária contribuição da psicologia para o drama moderno que vivemos. A busca pelo sentido é um imperativo na vida humana (não há como não perguntar por ele). E o que aprendi com Frankl (que passou por um campo de concentração e teve perdas trágicas em sua história) é que o Sentido é dado pela vida. Ou seja, de alguma maneira imposto. E o homem atual não é alguém muito afeito a imposições, e por isso luta contra os limites da realidade: quer subvertê-la ao invés de amá-la. Talvez um dos segredos da felicidade seja justamente essa “adequação” pessoal ao que a vida quer de mim, ao que ela me pede desde meu nascimento e que soa como natural em minha personalidade e modo de agir. Viver é dar respostas à vida, e não o contrário.

Brasil no Mundo: Existe uma teoria, principalmente em relações internacionais, que diz que a natureza humana é sempre maldosa, e que com o decorrer da vida essa natureza se transforma por diversas maneiras através da educação, da família, da religião, da própria política e quiçá até mesmo pelas forças armadas. Você acredita que a natureza humana é maldosa e ele pode se transformar?

Tiago Amorim: Não. Sou radicalmente contra essa ideia de que nascemos maus (algo que me lembra Hobbes e sua justificação cínica do Estado). Eu acredito mesmo que somos bons – até porque sou cristão e minha perspectiva da vida é a da bondade criadora. Se assim não fosse, a sociedade humana seria impossível: tente imaginar a vida humana se todos os homens fossem realmente maus por natureza e, portanto, quisessem apenas usar uns dos outros e viver como egoístas incorrigíveis. A convivência seria enlouquecedora, os mecanismos de contenção e proibição dos atos humanos uma verdadeira fábrica de neuróticos, e a afetividade (em todos os modos de expressão) uma falsidade deliberada. Mesmo o Brasil – que hoje caminha para um adoecimento cada vez maior da vida social – sobrevive porque a maioria das pessoas ainda é impelida pelos bons sentimentos e os amores que sentem pelos familiares, amigos mais próximos, etc. Entretanto, o mal é sempre uma possibilidade de escolha.

Brasil no Mundo: Você trabalha com duas grandes correntes de pensamento, a Escola de Madrid iniciada por Ortega Y Gasset e também do pensador Julián Marias. Quais os grandes ensinamentos que você destaca nessas duas vertentes de pensamento?

Tiago Amorim: Os espanhóis do século XX (Ortega, Julián Marias, Pedro Lain Entralgo, Xavier Zubiri, Maria Zambrano, etc) surgiram para mim como uma grande janela desde a qual passei a enxergar o mundo. Abriram-me horizontes que antes eu não conseguia perceber. A ideia de que o homem é uma estrutura empírica, de que sua própria vida é seu órgão de compreensão do mundo, de que as circunstâncias são parte do meu mundo pessoal e precisam sempre ser absorvidas, de que a base da convivência humana é o amor à verdade, etc: tudo isso e muito mais eu devo a estes pensadores, com destaque maior àquele que considero meu mestre e modelo de filósofo, autor de Antropologia Metafísica: Julián Marias.

Brasil no Mundo: Quais são os grandes destaques em seu curso “A Vida Humana”? Será que o ser humano conhece de fato a vida humana?

Tiago Amorim: Este curso é fruto dos anos de estudo das obras dos pensadores acima mencionados. Percebi que nem eu, nem muitos dos meus alunos, conhecíamos ou tínhamos consciência das estruturas da vida humana e dos elementos mais importantes que a compõem e configuram. Por isso fiz um grande apanhado de temas e expus, divididos em módulos, aqueles que considerei os mais importantes. Trato, por exemplo, da questão do mapeamento do mundo pessoal (o que é que realmente faz parte do seu mundo, sua realidade radical?), da força destrutiva das ideologias de massa, da arte como formadora do imaginário, da convivência e seus pressupostos, da felicidade, da pergunta pela eternidade, etc. É realmente o que considero minha maior contribuição no campo do ensino até agora. E o relativo “sucesso” que o curso tem alcançado é prova de que as pessoas não estão conscientes desses temas, que se tornam ausentes no cotidiano (para nossa tristeza enquanto espécie).

Brasil no Mundo: Hoje no Brasil existe o fenômeno dos “empreendedores de palco”, pessoas que falam bonito, usam frases de efeito, mas que no fim não trazem soluções práticas alguma. Isso pode ser um grande “supermercado” de falsas ilusões? O ser humano adora mais as falsas ilusões ou a real busca de um sentido para a vida?

Tiago Amorim: Para quem está desesperado ou angustiado, quem quer que ofereça uma “solução” rápida, indolor ou extremamente atraente para este público sedento, acaba por fazer sucesso. Vejo nos maiores vendedores de livros de auto ajuda, nos famosos palestrantes brasileiros (claro que há exceções ao que direi) exatamente isto: um oportunismo baixo, uma exploração da miséria humana de nosso tempo. Quem tenha assistido a alguma aula minha, lido meus livros, acompanhado meu blog, sabe que não ofereço nenhuma pílula da felicidade e nenhum alívio psicológico. O que tenho feito por mim e pelos que se interessam pelo meu trabalho é simplesmente uma confissão – a mais sincera possível – das misérias e necessidades estruturais da vida humana, confiando na bondade que constitui o mundo e na qual posso encontrar o consolo da beleza e da verdade. É claro que isto tem baixíssimas chances de fazer grande sucesso. Poucos são aqueles que querem ouvir que estão vivendo um inferno por sua própria responsabilidade e que a morte, por exemplo, será implacável no julgamento da sua biografia. Minha intenção é tornar meus ouvintes mais tensos diante de si mesmos e da vida, pois toda ação verdadeiro é fruto de uma tensão, de um direcionamento objetivo para um caminho ou outro. A passividade, a ilusão, a dispersão pelo divertimento, são inimigas neste sentido.

Brasil no Mundo: Qual o seu projeto futuro?

Tiago Amorim: Tenho muitos, dos menos aos mais ambiciosos. Julián Marias dizia que não ter projetos é que se pode chamar depressão. E não qualquer projeto, mas sim aqueles que perdurem, atravessem o tempo e continuem sendo válidos após a morte. Um sonho que valha a pena é aquele que mantém seu sentido de ser mesmo que a vida neste mundo termine, pois está salvo do jugo corrosivo do tempo. Eu quero escrever alguns livros ainda, quero expandir meu trabalho para atualizar a Escola de Madri para o público brasileiro e português, quero estabelecer efetivamente um diálogo sincero com as pessoas. Isso e tantos outros projetos íntimos que todo homem tem.

Para saber mais: www.avidahumana.com.br e http://www.fnac.com.br/por-que-nao-somos-felizes-/p/736771?prt=padrao_xml

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