21.08.2011 - 21h30

os mercados sem rumo

               As ultimas semanas têm mostrado claramente que os mercados financeiros estão absolutamente sem rumo. Perderam a confiança sobre o futuro das principais economias do mundo e, sem esta referencia fundamental para orientar suas avaliações, operam sem racionalidade ao sabor de leituras de curto prazo e que não guardam nenhuma logica com os fundamentos basicos das economias de mercado. Neste quadro caótico, os preços de varios ativos chegam a niveis absolutamente irracionais, sem nenhuma correlação com o metabolismo das economias em que estão inseridos. Tomemos por exemplo os casos extremos desta loucura coletiva que são os preços do ouro, do yen japones e do franco suiço.

O ouro é um ativo em que não se pode encontrar referencias economicas racionais para fixar seu valor de mercado. Quanto vale uma onça de ouro? ninguem é capaz de responder a esta questão sem apelar para o jargão de que hoje temos mais compradores do que vendedores, sejam eles as empresas que produzem o metal, os poucos consumidores do ouro como materia prima, os Bancos Centrais que tradicionalmente tem ele entre seus ativos monetarios, os assustados investidores que temem perder neste estado de coisas parte de sua riqueza financeira  ou apenas os especuladores na busca de ganhos de curto prazo. Portanto dizer se o ouro a quase dois mil dolares a onça é caro ou barato é uma tarefa muito dificil, quase impossivel diria. O que racionalmente podemos dizer é que, com as taxas de juros próximas de zero por varios anos nas maiores economias do mundo, o custo financeiro de reter o metal é muito baixo, o que certamente contribui para aumentar a demanda por ele nestes momentos de crise de confiança. Por tudo isto não me atrevo a prever até onde pode chegar o aumento de suas cotações. Mas tenho certeza que, a menos por aumentar a insegurança de todos, o preço do ouro não tem influencia direta na crise economica que estamos vivendo.

Boa parte deste raciocinio pode ser aplicada à compra do yen japones e do franco suiço. Custo de retenção muito baixo pelos mesmos motivos citados acima e uma sensação de que estas moedas representam uma alternativa mais segura em relação ao dolar americano. Mas diferentemente do ouro, a valorização do yen e do franco suiço tem efeitos economicos importantes sobre as economias destes dois paises. O caso mais critico é do Japão, que vive há mais de uma decada uma recessão economica estrutural, com uma divida publica extremamente elevada e com grande dependencia das exportações de produtos industriais. A corrida pelo yen não faz sentido economico ou financeiro. Sua valorização vai aumentar o quadro de recessão pela redução de suas exportações para outros paises. Correr para o yen hoje é uma loucura coletiva que só o mercado financeiro pode criar.

O mesmo acontece com o franco suiço. Embora a economia da Suiça não sofra de muitos dos males que atingem o Japão e a situação das finanças publicas seja bem mais saudavel, a valorização de mais de 50% em sua moeda vai levar este país tambem para o caminho da recessão. A industria suiça é um elemento importante elemento no PIB e nos próximos meses deve sofre um enorme tranco por conta da moeda ultra valorizada.

A continuar o quadro que temos hoje, principalmente no mundo desenvolvido, de juros muito baixos e corridas malucas a outros ativos que não o dolar, dentro de pouco tempo vamos sofrer  um completo colapso no sistema de preços destas economias com graves e ainda desconhecidas distorções no metabolismo economico do G7 e, provavelmente dos paises emergentes. Nesta situação em que a funcionalidade de varios mercados deixa de existir a possibilidade de ocorrer uma grande depressão passa a ser real, principalmnte quando em varios paises os instrumentos de ação dos governos estão limitados pela fragilidade fiscal e a eficacia da politica monetaria muito baixa pelo fato dos juros já estarem proximos de zero. Com os bancos no mundo todo sofrendo baixas importantes nos preços de suas ações, incapacitados portanto de aumentar sua base de capital, a sobra de dinheiro nos mercados monetarios não se traduz em aumento na oferta de credito, este sim o estimulo que precisaria ser criado hoje.

Estou tentando refletir sobre este fenomeno mas por ser ele totalmente novo  tenho encontrado grandes dificuldades para chegar a conclusões mais claras. Mas estou atento e assustado com o que pode vir a acontecer, mesmo no quadro politico das democracias de hoje. Não podemos nos esquecer que foi a grande depressão dos anos trinta do seculo passados a principal origem dos regimes fascistas na Europa.

14.08.2011 - 18h55

a incrivel semana que vivemos nos mercados de ações pelo mundo todo

Confesso ao leitor deste Blog que não me recordo de uma semana tão louca nos mercados financeiros internacionais como a ultima que vivemos. E olhe que exerço a profissão de analista financeiro há mais de quarenta anos. Abaixo alguns exemplos do que aconteceu em varios mercados neste periodo;

                       2ª feira    3ªfeira   4ªfeira  5ªfeira  6ªfeira                

indice S&P        -6,7%           +4,7%         -4,4%     +4,6%      +0,5%                  
                                                               

juros 10 anos -9,6%    -2,7%      -7,0%  +11,3%  0,0%                   

petroleo      -7,0%      +1,3%   -0,1%   +4,4%  -0,5%                

  Este mesmo padrão de oscilações pode ser encontrado na negociações de outras Bolsas de Valores, de outras moedas e de outras commodities  no mundo desenvolvido e emergente. No final destes incriveis cinco dias as oscilações foram relativamente  pequenas, com os preços dos ativos voltando aos niveis da sexta feira anterior ao rebaixamento da nota de risco dos titulos emitidos pelo Tesouro americano pela agencia Standard and Poors. Neste fim de semana os analistas pelos quatro cantos do mundo tentam – com a cabeça mais fria e sem a pressão das cotações dos mercados mudando a cada segundo – fazer um balanço do que aconteceu e do que podemos esperar na próxima semana. Tambem desenvolvo a seguir algumas reflexões e umas poucas – e não tão seguras – previsões.

Os dados disponiveis nos permitem fazer algumas observações interessantes. A primeira é que, apesar de todo o escandalo e terrorismo que a ação da S&P provocou, aconteceu uma verdadeira corrida aos titulos do Tesouro americano por parte dos investidores. O saque dos fundos de ações, principalmente nos Estados Unidos, foram expressivos com todo este dinheiro migrando para os fundos de renda fixa. Os mais apavorados prefiram vender suas ações com quedas importantes e aplicar seu dinheiro a juros praticamente zero.

Mesmo quando o Federal Reserve surpreendeu os mercados com sua decisão de manter os juros zero por dois anos esta corrida continuou. Não existe portanto, pelo menos até agora, nenhum sinal de fuga dos treasuries e perda de confiança dos investidores no governo americano. Alguns analistas queimaram a lingua ao prever que os juros dos papeis americanos subiriam como resposta à perda da nota AAA. Os mercados parecem acreditar que nos próximos meses poderá acontecer um acordo no Congresso americano para tratar a questão do deficit fiscal e da divida publica com mais inteligencia e patriotismo.

Uma segunda observação que pode ser feita com alguma segurança é a de que o grande fantasma do mercado hoje  é  a fraqueza da economia americana. A decepção com os numeros do PIB na primeira metade de 2011 – e poem fraqueza nisto – aumentou as apostas no chamado double dipp, ou seja, um novo mergulho recessivo da maior economia do mundo. Por isto as Bolsas sentiram tanto, apesar da queda dos juros nos Estados Unidos e do compromisso do FED de mante-los próximo de zero nos próximos dois anos. Em tempos normais estes dois movimentos levariam a uma corrida às ações e não aos titulos de renda fixa que rendem muito pouco.

Daqui para frente os mercados estarão acompanhando com lupa os dados sobre o chamado lado real, procurando indicações sobre a volta da recessão ou não. As próximas semanas serão muito nervosas e com alta volatilidade dos preços dos ativos no mundo todo. A melhor referencia para o leitor acompanhar o que vai acontecer será o valor do dolar nos mercados de cambio: dolar forte revela uma aposta na recessão, dolar mais fraco o cenario de um crescimento mediocre mas não recessivo nos Estados Unidos.

Outra economia que precisa ser acompanhada com cuidado é a da China. Os primeiros sinais de uma acomodação na inflação apareceram nos numeros de julho e devem ser confirmados – esta é minha expectativa – nos próximos meses. Se isto efetivamente acontecer o governo chines vai iniciar um processo de descompressão das medidas anti inflacionarias já tomadas, tirando dos analistas mais pessimistas  o discurso de uma perda maior de atividade no motor chines. Uma estabilização do crescimento na China terá efeitos importantes sobre os mercados emergentes, particularmente o brasileiro.

09.08.2011 - 18h48

por que as bolsas subiram tanto hoje?

Os titulos quase identicos de meu blog de ontem e de hoje servem para dar ao leitor da Exame uma idéia da volatilidade – e de certa forma da insensatez – que tem dominado os mercados financeiros mundiais nos ultimos dias. ” Sodoma e Gomorra ” poderia ser a imagem que me vem à mente quando escrevo este meu comentário. Ontem as bolsas americanas – de longe as mais importantes do mundo – cairam mais de 6% ; hoje, subiram quase 5%. Os numeros são praticamente os mesmos para nossa querida BOVESPA.

Ontem tentei explicar neste espaço as razões para uma queda tão grande; hoje preciso explicar as razões porque, em menos de 24 horas os investidores mudaram suas expctativas de forma tão violenta.

Mais do que a variação entre estes dois dias, o que mais me choca foi a flutuação das cotações após as 14 horas de Nova York, horario em que o Federal Reserve divulgou a decisão de seu Comitê de Open Market, o COPOM deles. Até este momento o mercado de Wall Street vinha apresentando uma recuperação mediocre e envergonhada das cotações, sendo que o mesmo acontecia no resto do mercado. Os preços das moedas , dos titulos de crédito e das commodities ainda refletiam o medo dos investidores com um cenario de recessão na maior economia do mundo, e por consequencia, nos outros paises. O franco suiço, a moeda vista como mais segura nestes tempos bicudos, se valorizava quase 5% em relação ao dólar, os preços do ouros subiam mais de 1% e as moedas dos paises emergentes se desvalorizavam em relação à moeda americana. Em resumo, o mesmo script dos ultimos dias…

Quando o comunicado do chamado FOMC foi divulgado o mercado teve, em poucos minutos, duas reações diferentes: inicialmente de decepção por não ter sido sequer discutido na reunião o chamado Quantitative Easing 3, considerado por muitos desavisados a tabua de salvação para os mercados de ações; os pessimistas, percebendo este momento de frustração, voltaram a vender as ações, levando os indices próximo do equilibrio e abrindo o caminho para mais um dia de baixa. Mas, logo em seguida, com o bom senso prevalecendo, assistimos uma recuperação impressionante das cotações em função do compromisso assumido pelo FED de manter os juros próximos de zero até pelo menos a primeira metade de 2013, ou seja, nos próximos dois anos. Em outras palavras, a decisão agressiva e corajosa do FED injetou um novo animo nos investidores e criou alguma esperança de que o tão temivel Double Dipp possa não ocorrer ….

Amanhã, com mais tempo para reflexões mais sólidas por parte de analistas e investidores é que poderemos testar se este rasgo de otimismo se sustenta ou vamos voltar a viver as expectativas de uma nova queda recessiva no mundo. Em ambos os casos a volatilidade elevada vai continuar.

08.08.2011 - 20h38

Por que as bolsas de valores caíram tanto hoje?

A direção da Exame pediu-me que, nestes dias de grande tensão nos mercados, atualizasse meu blog diariamente. Faço-o com grande prazer e espero poder ser útil neste período de grandes incertezas e armadilhas para o investidor. Mas gostaria de deixar claro ao leitor que – apesar de mais de 40 anos de profissão como analista das coisas da economia e das finanças – sinto hoje uma insegurança muito grande para fazer uma previsão mais estruturada sobre o que pode acontecer na economia mundial nos próximos meses. E digo isto por uma razão muito simples: eu esperava que todo o arsenal de medidas fiscais e monetárias, utilizados principalmente a partir  da posse do presidente Obama, levasse a economia americana a uma recuperação ao longo dos anos seguintes. Mas isto não aconteceu e estamos novamente diante da possibilidade de uma recaída perigosa na recessão econômica, chamada por muitos de um double dipp.

Esta insegurança diante de um cenário econômico que não esperava viesse a ocorrer  obriga-me a mudar a forma de analisar o que pode acontecer daqui para frente. Não tenho condições hoje de descrever um único cenário que espero vá ocorrer nos próximos dias e meses por total falta de convicção e clareza. Em situações como esta o analista precisa trabalhar com cenários diversos, procurando associar a cada um deles uma probabilidade de ocorrência e criar alguns referenciais externos para navegar entre eles. É o que pretendo fazer hoje neste espaço da revista Exame.

Uma primeira observação ao leitor depois de um dia de cão nos mercados financeiros – principalmente nas Bolsas de Valores – do mundo inteiro. Os investidores não fugiram do dólar ou dos títulos emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos como previram alguns analistas e órgãos da imprensa logo depois de a agencia Standar and Poors divulgar sua decisão de reduzir a qualidade de credito destes títulos. Pelo contrário, a demanda pelo dólar aumentou, provocando uma valorização importante da moeda americana contra as chamadas moedas alternativas como o real, e a taxa de juros dos treasuries caíram a níveis ainda mais baixos em função de uma verdadeira corrida por estes papeis. Isto ocorreu – em minha opinião – pela razão de que não existem ainda duvidas quanto à capacidade dos Estados Unidos de honrar o pagamento de sua divida publica, aliás obrigação inscrita na Constituição americana. Os mercados acreditam que o governo dos Estados Unidos - seja ele de qualquer matiz partidário – irá lidar com responsabilidade nesta questão, fazendo ao longo dos próximos anos o ajuste fiscal que se faz necessário hoje.

Mas então por que as bolsas americanas caíram mais 6% hoje? Exatamente porque, para resolver a questão fiscal na maior economia do mundo, será necessária uma redução de despesas publicas e um aumento de impostos de grandes proporções ao longo dos próximos anos. E este movimento, em um momento de grande fraqueza do setor privado, deve funcionar como um freio adicional ao crescimento econômico, criando quase certamente uma nova e profunda recessão. ISTO PRECISA SER ENTENDIDO PELO LEITOR: AS BOLSAS AMERICANAS CAÍRAM POR MEDO DA RECESSÃO E NÃO DE UM CALOTE DO TESOURO.

07.08.2011 - 17h09

A decisão da Standard and Poors e sua influencia na economia mundial

Os efeitos deletérios do downgrade da divida americana pela  agencia S&P ultrapassam as fronteiras do Estados Unidos e devem ter um impacto importante na economia mundial como um todo. Isto acontece pela importancia que seu crescimento economico tem sobre a dinamica de outras sociedades e pelo fato do dolar e os titulos emitidos pelo Tesouro americano serem os pilares sobre os quais está construido o gigantesco mercado financeiro de hoje. O volume destes dois ativos é desproporcionalmente elevado quando comparado com todos os outros que circulam diariamente entre investidores privados e publicos. Por isto, uma fuga do dolar e dos dos chamados treasuries para investimentos vistos como mais seguros hoje não pode acontecer, nem no curto nem no medio prazo. Por exemplo, se um numero minimo de investidores resolverem trocar seus dolares por fracos suiços - a moeda hoje de maior credibilidade – vamos ver uma valorização ainda maior desta moeda – que já chega a mais de 40% nos ultimos doze meses –  que rapidamente chegará a valores em sentido economico. Além disto este movimento iria colocar a Suiça em uma situação de depressão economica pois toda sua base exportadora desapareceria em curto espaço de tempo, retirando do franco sua base de segurança. A mesma coisa aconteceria com os titulos de governo que ainda mantem a nota AAA na classificação da S&P.  Os juros destes papeis ficariam tão baixos – no caso alemão certamente negativos – que tirariam tambem desta alternativa de diversificação qualquer sentido economico.

Mas de qualquer forma, nos próximos dias, o nervosismo e a especulação vão prevalecer e poderemos ver coisas fantasticas nos mercados. Este comportamento será tão mais acentuado quanto menor for a intervenção dos governos e bancos centrais nos mercados de cambio e de titulos publicos. A continuar o comportamento  patético e covarde de alguns governos – principalmente o alemão da quase ridicula Angela Merkel e BUNDESBANK – a próxima semana pode entrar para a história como uma das mais irracionais dos ultimos cem anos.

Toda esta insegurança – seja ela em qualquer grau – certamente vai cobrar um preço elevado em termos de crescimento economico, principalmente no mundo desenvolvido.Na minha opinião será nos Estados Unidos que a batalha para se evitar um novo mergulho recessivo – ou mesmo no abismo da depressão economica – terá lugar. Quando escrevo este meu Blog não tenho certeza do que vai ocorrer ,mas me parece que o melhor cenario que se pode construir é o de um crecimento mediocre, não superior a 2% ao ano, neste e no próximo ano.

Uma visão de mais longo prazo só poderá ser construida a partir da dinamica politica no congresso americano depois deste verdeiro Pearl Habour financeiro.

07.08.2011 - 16h26

A decisão da agencia Standard and Poors: Um tapa bem vindo na classe politica americana

O governo Obama reagiu indignado à decisão da agencia de risco S&P de rebaixar a nota dos titulos emitidos pelo governo americano. Acho que ele está errado. Para seu governo – e para toda a sociedade americana -  esta  decisão histórica pode representar um caminho importante para que ele possa retomar a liderança politica e recolocar os ultra conservadores do chamado grupo Tea Party no seu devido lugar. Aliás, foi o intenso debate sobre o aumento do endividamento do Tesouro provocado por este grupo que chamou a atenção da opinião publica – nos Estados Unidos e no resto do mundo – para a necessidade de um ajuste estrutural nas finanças publicas na nação lider do mundo democrático. Se a elevação do teto do endividamento americano tivesse seguido a rotina das ultimas décadas – ele já foi elevado por mais de cem vezes sem nenhuma discussão maior – os americanos teriam mais uma vez perdido uma oportunidade de acordar para a gravidade deste problema. E já está mais do que na hora de fazer isto….

Mais do que uma questão técnica, o enfrentamento do elevado endividamento do Estado americano é um enorme desafio politico. Sem uma clara maioria na sociedade nenhum governo, seja ele democratico ou republicano, terá condições objetivas para reduzir os recorrentes deficits fiscais das ultimas décadas nos Estados Unidos. Para conseguir este objetivo será necessário alinhar questões ideólogicas que, até hoje, estiveram presentes de forma apenas difusa no debate politico. Talvez os dois primeiros pontos que terão que ser consensuados sejam qual a função do governo na sociedade americana e qual o limite de sua intervenção no dia a dia do cidadão. Também a forma como os Estados Unidos tem operado sua condição de potencia dominante terá que ser revista na medida em que seus gastos militares terão que ser reduzidos. Não sou naive para achar que isto possa ser alcançado no curto prazo mas pelo menos a construção de uma maioria no centro do espectro politico dos dois partidos que controlam a ação legislativa será necessário. No evento recente da aprovação do novo limite do endividamento publico do governo de Washington,  isto não foi conseguido e o resultado está à vista de todos.

Nas democracias de massa modernas na maioria das vezes decisões de carater mais estrutural e que causam perdas significativas na sociedade só podem ser tomadas em situações extremas. Isto vem acontecendo a mais tempo na Europa e, agora, na sociedade americana. Neste sentido é que penso que, a decisão da S&P de retirar a nota AAA da divida americana e toda a repercussão que ela vem criando nos mercados financeiros mundiais, pode vir a ser o gatilho para que uma solução de mais longo prazo possa ser construida ao longo dos próximos meses. Mas para que isto aconteça, os politicos mais racionais – e mais patrióticos – do partido republicano precisam se libertar da chantagem de tintas facistas do chamado Tea Party e o presidente Obama mostrar ser um estadista de verdade e não apenas um politico construido pela Internet.

a seguir; o que pode acontecer nos mercados nas próximas semanas

31.07.2011 - 15h18

O ministro Mantega e sua guerra santa

O governo Dilma abriu uma nova frente de combate em sua guerra não tão santa contra o real forte. Até agora preservado, o chamado mercado de derivativos de taxas de câmbio na BMF e no CETIP recebeu o impacto pesado de duas novas regras em suas operações; a cobrança do IOF sobre o ” saldo liquido das posições cambiais”-  seja lá o que isto quer dizer –  e a fixação pelo Conselho Monetário Nacional dos valores que deverão ser colocados como margem de garantia das operações realizadas. Até agora eram a própria BMF e o CETIP que definiam autonomamente estes valores segundo regras pré estabelecidas. Chama-se isto no jargão do mercado financeiro de AUTO REGULAÇÃO.

“ AGORA VAMOS CONTROLAR A ESPECULAÇÃO COM O CÂMBIO ” declarou mais uma vez o ministro da Fazenda Guido Mantega. Nesta sua declaração publica está para mim o ponto central do fracasso até agora das inúmeras intervenções do governo para tentar freiar a valorização de nossa moeda. A “ Especulação” não é a única e a mais forte fonte de desvalorização do dólar em nossos mercados de câmbio. Existem causas mais estruturais e prazo mais longo por trás deste movimento, sendo que algumas delas provocadas pelo sucesso econômico do Brasil nos últimos e pela expectativa de que ele continue  por muito tempo ainda.

Relatório recente da UNCTAD da ONU mostra que o Brasil foi o quinto país que mais atraiu investimentos estrangeiros diretos ( FDI ) em 2010. Ficamos atrás apenas dos Estados Unidos, China, Hong Kong e Bélgica. Mais ainda, as previsões são que nos próximos dois anos vamos chegar à quarta posição. No primeiro semestre deste ano já entraram no país mais de 32 bilhões de dólares, o que leva algumas previsões para o ano fechado de algo superior a 65 bilhões de dólares. Estas estimativas devem representar cerca de  4,4% do total de investimentos estrangeiros no mundo neste ano, contra 2,2% em 2009 e 3,9% em 2010.

Por trás desta incrível realidade – pelo menos para minha geração de economistas – estão dois movimentos simétricos e opostos. De um lado a crise econômica e financeira que atinge o mundo rico e, do outro, o dinamismo de economias como a brasileira que crescem estimuladas pelo mercado interno. Neste cenário não espanta o aumento dos fluxos de investimentos diretos pois os grandes investidores institucionais do mundo desenvolvido têm apenas 4% de seus ativos nos países emergentes. Da mesma forma, as grandes empresas multinacionais procuram  aumentar seus investimentos nesta parte saudável do mundo de hoje. E esta tendência deve perdurar por muito tempo ainda.

Some-se a este movimento de investimentos o fluxo – também de bilhões de dólares - de capitais estrangeiros aplicados em nosso mercado de títulos de juros, principalmente os emitidos pelo governo federal e chegamos a uma verdadeira enxurrada de dólares que nada tem de especulativos. Este movimento também não pode ser catalogado de especulativo pois se trata de uma diversificação de riscos por parte dos investidores.

Evidente que, diante deste quadro, os capitais de curto prazo e de natureza especulativa também entram no Brasil e agravam a valorização do real. Mas eles não representam a força maior por trás deste movimento de fortalecimento do real e de outras moedas emergentes. Quando medida em relação a moedas como o rand da África do Sul, do won coreano, do dólar canadense e o dólar australiano a valorização do real é bem menos intensa.

Não defendo o imobilismo do governo nos mercados de câmbio, mas sim uma redefinição de como se enfrentar a situação que vivemos hoje. Quando as causas de um determinado movimento não são identificadas corretamente, é quase certo o fracasso no seu enfrentamento. E esta é a situação no Brasil em termos de guerra cambial.

E, por isto, atingir um mercado tão necessário como o de derivativos de cambio para que agentes econômicos tenham instrumentos de se proteger – legitimamente – contra as incertezas das taxas de câmbio me parece totalmente errado.  Como buscar esta proteção faz parte da dinâmica de muitos agentes econômicos – inclusive os que o ministro chama de ESPECULADORES – estas operações vão migrar para o exterior. No final, a conta vai ser paga pelas empresas brasileiras via custos mais elevados nas suas operações.

24.07.2011 - 19h44

A Europa dá um passo adiante. Os Estados Unidos ainda na beira do abismo

Várias economias no mundo emergente – inclusive a do Brasil – estão dependentes da solução da crise fiscal, que atinge hoje a Europa e os Estados Unidos, para visualizar seu futuro. Esta crise – como escrevi varias vezes neste espaço - tem duas dimensões principais: uma eminentemente financeira e a outra de natureza econômica. Mas ambas dependem também da solução da disputa política que ocorre atualmente em suas fronteiras.

Pela primeira vez na historia,  países importantes do mundo rico enfrentam a possibilidade de uma moratória da divida publica o que, se efetivamente acontecer,  pode criar um verdadeiro cataclisma nos mercados financeiros. Uma profunda recessão econômica – talvez até uma verdadeira depressão – em boa parte do mundo certamente seria o capítulo seguinte…

Na Europa estamos falando, em um primeiro momento, da suspensão de pagamentos por total falta de capacidade de resgatar seus títulos públicos da Grécia, de Portugal e da Irlanda; nos Estados Unidos, a incapacidade de honrar papéis emitidos pelo tesouro americano ainda é um evento muito distante, mas pode acontecer agora por divergências políticas  entre o partido republicano e o democrata. Estas divergências têm origem ideológica – função do estado americano na sociedade – e eleitorais.

Embora a incapacidade de se encontrar uma solução que evite o evento dramático da moratória tenha na sua origem um desentendimento de natureza política, a dimensão econômica e financeira também está presente de maneira marcante nas duas crises. Varias nações vêm acumulando, durante longo tempo, uma divida interna crescente, fruto de déficits fiscais recorrentes e crescentes. Este é o caso principalmente da Grécia e dos Estados Unidos. Mas a crise financeira iniciada em junho de 2008 e a profunda recessão que se seguiu, obrigaram os governos nacionais a usarem os gastos públicos e a redução de impostos como instrumentos anticíclicos para evitar a repetição da tragédia dos anos trinta do século passado. O resgate dos bancos privados custou uma fortuna e colocou a divida publica de países que ainda não enfrentavam desequilíbrios estruturais graves – como a Irlanda e a Itália – na chamada marca do pênalti.

Como em toda a crise desta natureza duas questões principais precisam ser enfrentadas para estabilizar novamente as finanças publicas dos países envolvidos: a da liquidez dos títulos em circulação e a da solvência dos governos no longo prazo. Nós brasileiros conhecemos bem a armadilha que estes dois problemas apresentam quando ocorrem simultaneamente. Vivemos esta situação por vários anos a partir de 1982…

Mas esta armadilha, quando ocorre no coração do mundo desenvolvido, trás tintas ainda mais dramáticas e tornam os instrumentos de ação do governo para enfrentá-la mais restritos.

Tomemos dois exemplos de ações que foram utilizados com sucesso nos casos de crise da divida publica da America Latina na ultima década do século passado: a moratória e renegociação dos termos da divida e a inflação. O  mecanismo da moratória é inviável no caso europeu e americano pelo papel de moeda internacional que têm o euro e, principalmente, o dólar americano. Uma suspensão de pagamentos detonaria uma crise financeira internacional que certamente levaria o mundo a uma situação de caos. Já no caso da moratória em países do mundo emergente, a crise que se segue tem uma dimensão muito menor. Foi o que aconteceu na America Latina e na Ásia no fim do século passado.

O instrumento da inflação – outro mecanismo eficiente de redução do peso da divida publica de um país – também não pode ser usado no caso atual. Os bancos centrais da Europa e dos Estados Unidos tem um mandato institucional claro de manutenção do valor da moeda e não poderiam permitir que a inflação se acelerasse. Apenas o instrumento de juros baixos – e mesmo assim se a inflação não se acelerar e o crescimento econômico voltar – vai poder ser usado para aliviar a carga da divida publica. Chama-se isto de repressão financeira, mas o espaço em que ela pode ocorrer é muito limitado.

03.07.2011 - 20h30

Os 17 anos do Plano Real

A morte do presidente Itamar Franco trouxe a todos nós brasileiros – além da tristeza pela perda de um politico correto, sério e voltado sempre para o que ele entendia como a COISA PUBLICA – as lembranças do Plano de Estabilização que ele implantou como presidente da Republica 17 anos atrás. Mas além de lembranças – que eu também as tenho, e muitas - gostaria de dividir com os leitores deste BLOG fatos e mudanças que aconteceram em nosso país durante esta já tão longo periodo de nossa história. É o que farei a partir de amanhã …..

02.07.2011 - 18h00

Itamar Franco e os 17 anos do Plano Real

Morreu o ex presidente Itamar Franco, e deixou um grande legado a todos nós brasileiros: a estabilidade monetaria como valor social indiscutivel.

Foi no seu governo, há 17 anos atrás, que o Plano Real trouxe de volta à sociedade o valor e a importancia da estabilidade monetaria, abrindo o caminho para o crescimento economico que vivemos hoje. O Plano Real também foi o primeiro e imprescindivel passo para termos o desenvolvimento social dos ultimos anos. Sem ele o mito Lula não existiria, pois ele e seu partido, o PT, não teriam nunca conseguido  sucesso no combate à inflação que dominou a economia brasileira por tantos anos. E não conseguiria por não acreditar em instrumentos como o equilibrio fiscal e a importancia da ação independente do Banco Central para operar um sistema de metas de inflação. E sem a estabilidade estariamos ainda no vai e vem de curtos periodo de crescimento e longos de aceleração da inflação.

Todos sabemos que o Plano Real nasceu de uma leitura correta que o presidente Fernando Henrique Cardoso teve da reação da população brasileira durante o curto espaço de tempo de sucesso de um outro plano oficial de estabilização monetaria: o chamado Plano Cruzado. Foram nos poucos meses de euforia que se seguiram à criação de uma nova moeda no Brasil – o cruzado – no segundo ano do governo Sarney  que FHC convenceu-se da intensidade da demanda popular por uma moeda nacional confiavel e estavel. Fez uma leitura politica correta da reação dos brasileiros – principalmente os mais humildes -  mas foi obrigado, pelos fatos que se seguiram, a guardá-la para si por um longo tempo.

FHC sabia que não se enterra de forma definitiva os anseios legitimos de uma sociedade democratica, mesmo com os seguidos fracassos que tivemos no enfrentamento deste problema.  Ele tinha convicção de que as demandas por estabilidade continuariam presentes na sociedade à espera de um momento em que esta questão pudesse ser novamente tratada no cenario politico do Brasil. E já tinha se convencido de que os brasileiros estavam preparados para sacrificios importantes para ter em troca uma moeda estavel e preservação do poder de compra de seus salarios e rendas.

Muita agua – e inflação – passaram pela ponte da vida brasileira até que esta chance se apresentasse ao então senador da Republica por São Paulo. E ela veio quando Itamar Franco assumiu a presidencia da Republica, em seguida à renuncia do então presidente Collor. E mesmo assim FHC teve que esperar muitos meses, preservado dos desgates que a inflação  gerava nos seguidos ministros da Fazenda de Itamar no tranquilo e sem sal ministério das Relações Exteriores, para poder agir.

FHC sabia que o mesmo grupo de economistas que havia participado da fracassada tentativa do Cruzado trabalhavam em uma nova versão do plano de estabilização da moeda nacional. Mas com paciencia – e certamente muita expectativa – esperava que os acontecimentos politicos permitissem que ele pudesse chama-los e colocar em pratica o que há muito tempo planejavam em silencio.

E este momento chegou quando Itamar Franco, pressionado por um processo inflacionario novamente em fase quase terminal e que ameaçava a estabilidade de seu governo, resolveu entregar ao sociólogo Fernando Henrique o comando da economia. Talvez o presidente Itamar não tivesse uma visão clara do que seria o plano de ação de FHC, mas certamente intuia que a experiencia e a habilidade como politico de FHC seriam mais valiosas do que os simples conhecimentos de teoria economica. Sabia ele que antes de ser uma questão tecnica, a inflação no Brasil havia se transformado em uma questão politica. Este merito do presidente Itamar é inquestionavel e, por ele, deve ter nosso respeito e reconhecimento. Principalmente agora quando da sua morte.