O pacote de medidas aprovado pelos governantes europeus veio em linha com as expectativas dos analistas econômicos de maior profundidade e menos charme mediático. Os mercados reagiram positivamente com a alta das cotações nas principais Bolsas de Valores do mundo e o enfraquecimento do dólar americano nos mercados de cambio. Tudo de acordo com o script criado pelos investidores e especuladores, quando o risco de ruptura é menor; quando os pessimistas ganham ocorre o contrario, com Bolsas de valores em queda e dólar em alta.
Desta vez o movimento dos preços foi magnificado em função das enormes posições construídas pelos pessimistas ao longo dos últimos meses. È o fenômeno chamado de short covering. Ao longo dos próximos dias, quando este movimento de perde ganha diminuir poderemos ter uma posição mais clara sobre os rumos dos mercados no ultimo trimestre do ano. Na próxima sexta feira serão divulgados os números de emprego nos Estados Unidos e, se ele vier acima do esperado, poderemos ter uma nova rodada de alta das ações e das moedas de países emergentes como o Brasil.
Para que o leitor deste Blog possa entender melhor todos estes movimentos é preciso voltar um pouco no tempo – talvez uns três meses – e acompanhar as apostas dos mercados. Com o agravamento da crise da divida soberana dos chamados PIIGS, passou a ser quase um consenso no segmento mais especulativo dos operadores financeiros de que caminhávamos para o precipício representado por uma crise financeira de grandes proporções. Em outras palavras, para um calote de vários governos e uma ruptura do segmento financeiro europeu, com quebra de vários bancos internacionais importantes na Itália, França e mesmo na Alemanha. A liquidação extrajudicial do banco belga DEXIA, ocorrida há um mês, seria apenas a ponta do Iceberg.
Com o pânico tomando conta dos mercados esta força destruidora atingiria aos bancos americanos que ainda estão se recuperando da crise do sub prime de dois anos atrás. Este verdadeiro tsunami de expectativas negativas chegou a atingir o mundo emergente, com as ações de bancos sólidos e rentáveis como os brasileiros sofrendo pesadas perdas nos mercados de ações. Todo este cenário destruidor era cantado em versos e prosa pela mídia internacional – especializada ou não – que dava espaço diário a verdadeiros charlatões travestidos de especialistas em finanças. As poucas instituições financeiras e investidores que procuravam pautar seus investimentos por certa racionalidade perdiam dinheiro, enquanto uma espécie de marginalia intelectual vivia tempos de bonança e prestigio. Foi este pessoal que, na ultima quinta feira, saiu correndo para cobrir suas posições vendidas em euro, dólar australiano, dólar canadense e real brasileiro no segmento de moedas e nas Bolsas de Valores de todo o mundo.
Nos próximos dias, passado este período de ajuste de contas, vamos voltar a ver analises mais sensatas sobre o futuro da economia na Europa. Creio que a maioria dos analistas vai reconhecer que o pacote afasta a crise mais grave e abre espaço para que os políticos consigam tratar das questões estruturais que levaram a experiência com um espaço econômico comum quase ao desastre. Nestes últimos dois anos, mas principalmente nos últimos meses, aprofundou-se muito o diagnostico sobre o funcionamento do arranjo europeu em momentos de crise e dificuldades. Desde a aprovação do Tratado de Maastrich, ainda na ultima década do século passado, o euro não havia enfrentado um questionamento tão profundo como agora.
E o resultado desta terapia coletiva foi o aparecimento de falhas estruturais e operacionais gravíssimas e que precisam ser corrigidas rapidamente. Este trabalho de reparação com o barco andando em águas revoltas não vai ser fácil e sem idas e vindas perigosas, principalmente porque os mercados vão mais uma vez apostar contra.
Muita água ainda vai passar debaixo desta ponte…
Mas hoje vamos comemorar como brasileiros e interessados em que o mundo não mergulhe no precipício o sucesso das medidas tomadas em Bruxelas.


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Luiz Carlos Mendonça
Paulo Pereira Miguel é sócio diretor e economista-chefe da Quest Investimentos.
Fabio Maciel Ramos é economista da Quest Investimentos.
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