Blog do Mendonça de Barros

16.10.2011 - 16h23

uma linha do tempo para a crise na europa

O leitor deste Blog sabe que considero a solução da crise européia – ou pelo menos a definição de uma agenda de ações por parte dos governos mais importantes da região que tenha credibilidade junto aos mercados financeiro – o passo necessário para afastar o cenário de ruptura financeira na região do euro e que arrastaria o mundo para um novo mergulho na recessão e, talvez até, em uma segunda depressão econômica do tipo que atingiu o mundo na década dos trinta do século passado. Durante as próximas duas semanas teremos vários encontros definitivos que poderão definir este cenário de maior tranquilidade para o ano de 2012. Por isto traço a seguir uma linha do tempo que permita ao leitor da Exame acompanhar os acontecimentos com certa clareza.

De inicio cabe contextualizar o que pode se decidido pelos governos antes do encontro do G20 na França no inicio de novembro. São pelo menos quatro elementos fundamentais:

1) Bancos – capitalização da ordem de 200 bilhões seria o necessário nos cenários de stress do EBA (regulador europeu) para manter o core tier 1 capital perto de 9% nos cenários de stress com “haircut” nos papéis soberanos de acordo com os preços atuais no mercado. Se for 9% seria bem mais alto que o consenso até semana passada (entre 7 e 8%). Naturalmente há brutal resistência dos bancos, que veriam forte diluição de seu capital em muitos casos. Detalhes ainda não definidos: quanto e como? Quanto tempo haverá para os bancos buscarem capital privado? Será primeiro no nível nacional e só depois, no caso da periferia, usando a EFSF? E etc. Dos detalhes dependerá a credibilidade destas medidas.

2) Soberanos – é preciso quebrar o link entre perda de qualidade soberana e bancos em dificuldades. Para tanto será preciso isolar os solventes, na prática dando acesso a estes países a recursos ilimitados em troca de ajustes estruturais. Espanha e Itália são os óbvios aqui. Para tanto, precisa aumentar o poder de fogo da EFSF. Aparentemente são consideradas duas possibilidades: (1) transformá-la em banco e dar acesso ao redesconto do ECB (parece improvável pela resistência do ECB e por ser controversa legalmente); (2) alavancar os recursos por meio de garantias parciais (mais provável, ao que parece). Outro assunto fundamental é quanto haverá de disponibilidade na EFSF depois dos compromissos já assumidos com Irlanda, Portugal, Grécia (a ver como fica o segundo pacote que está em negociação) e para os bancos (já que provavelmente um pedaço deve ir para bancos da periferia). O risco é que sobre poucos recursos para alavancar o fundo, o que não daria a credibilidade necessária para blindar Itália e Espanha. A ver, mas certamente este é o assunto mais espinhoso. Outra possibilidade real é a EFSF alavancada conviver com o SMP (o programa de compras de títulos do ECB). Isto é, o ECB pode continuar atuando em paralelo. É muito difícil antecipar completamente as possibilidades aqui.

3) Grécia – o desembolso da 5ª tranche que adia a “quebra” por 3 meses sairá no início de novembro, pois a missão da Troika foi concluída e será esta a recomendação. Os europeus querem empurrar Grécia por mais algum tempo para terem espaço de construir proteções sistêmicas nos itens (1) e (2). Há aceitação que o acordo de julho precisa ser revisto, muito provavelmente aumentando o haircut privado de 21% para até 50%. Isso pode trazer ruído grande, mas não deve ser julgado individualmente e sim em conjunto com as outras medidas. Uma reestruturação crível da Grécia é vista como parte da solução.

4) Reformas estruturais profundas da CE: os europeus podem ganhar em credibilidade se chegarem a um acordo de princípios mais fortes sobre os passos para uma maior união fiscal. É importante entender o seguinte: a oposição alemã a uma maior união não deve ser considerada de forma ligeira, com se fosse por princípio. Ao contrário, os alemães parecem querer uma contrapartida na forma de governança interna na zona do euro que permita ao sistema evitar desequilíbrios fiscais e macroeconômicos e, assim, limite a conta a ser paga pelos países centrais no longo prazo. Mesmo entre os membros do Bundesbank há uma clara disposição de caminhar no sentido de mais governança fiscal (regras de orçamento equilibrado em todas as constituições nacionais, por exemplo) como requisito de maior integração. E a integração, por sua vez, não precisa ser total. É perfeitamente concebível que um fundo comum de recursos, alocados segundo as instituições e costumes nacionais, possa ser mais do que suficiente para dar credibilidade à moeda única. A ver o que avançarão nas questões de longo prazo no comunicado dos chefes de estado.

Dito tudo isso, nada do que será feito garante que a crise acabe. O risco de recessão e de um crunch de crédito é real. E os desequilíbrios acumulados demandam um ajuste muito forte não apenas do lado fiscal, mas do lado macro, por exemplo, para reduzir os déficits em conta corrente de Portugal, Espanha e Grécia contra o resto da zona do Euro, já que o setor privado não está mais disposto a financiar estes déficits. Isso implica na necessidade de coordenação de políticas macro, em um grau que hoje ainda parece muito distante. Aí está uma fragilidade de fundo que ainda não foi tratada na intensidade necessária. Ou seja, será um longo caminho, sujeito a tropeços e as coisas podem sim voltar para trás.

Abaixo a linha de tempo:

decisão sobre o desembolso de recursos para a Grécia no início de novembro. Vão jogar Grécia mais três meses para frente com este desembolso. Neste meio tempo, o segundo pacote está em processo de reavaliação, sendo que é muito provável uma reestruturação mais forte, com maior PSI (haircut além dos 21% acordados com os bancos em julho). O quanto isso adiciona contágio, depende de quão efetivas serão as medidas anunciadas para os bancos e para blindar os outros soberanos.

15 e 16 de outubro encontro dos ministros da economia do G20 – IMPORTANTE (conversas de reforço dos recursos do FMI em andamento. Não creio que aqui esteja um pedaço determinante da solução para a Europa, que precisa na prática mobilizar os recursos que tem – e os tem – internamente, o que é um processo essencialmente político. Mesmo assim, os headlines de cooperação do G20 certamente ajudam neste momento. Não é provável que saia nada de definitivo nesta reunião dos ministros, mas certamente haverá rumores e ensaios até o encontro dos chefes de Estado no inicio de novembro, quando as decisões serão formalizadas.

20 de outubro revisão do programa de auxilio à Irlanda Sem problemas aqui. Irlanda está sendo vista como caso de sucesso. Não há até o momento um desvio fiscal em relação às metas e os resultados de crescimento e ajuste externo estão satisfatórios).

23/24 de outubro Reunião do Conselho dos governantes dos países da Comunidade da Europa (ponto focal para a decisão política).

24 de outubro encontro entre Comunidade da Europa e China pode ser relevante. (Vamos ficar atentos)

27 de outubro eleição presidencial na Irlanda

03 de novembro encontro dos governantes do G20; encontro crucial para que os mercados finalmente se acalmem; G20 pressionando fortemente os europeus e há uma vontade de mostrar coordenação, depois de dois anos de hesitação no G20. Restaurar o espírito de abril 2009, quando a coordenação do G20 se mostrou um “game changer” para controlar a crise, é um objetivo. Se o resultado do European Council do dia 24 for positivo, o G20 pode adicionar ao “bom humor”. Mas não devemos esperar muito, além de declarações de princípio e, talvez, algum reforço dos recursos do FMI).

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