Blog do Mendonça de Barros

25.09.2011 - 15h06

De volta á crise mundial

Depois de duas semanas de ausência estou de volta a este Blog. Neste período a economia no mundo continuou a refletir principalmente a crise na Europa Unida em sua marcha em direção a alguma coisa muito ruim. Para alguns “esta coisa muito ruim” é vista como um verdadeiro colapso do mundo global do tipo crise de 1930. Segundo estes analistas – que cada vez mais ganham espaço junto a investidores e outros agentes econômicos – a crise que vivemos em 2008 e 2009 vai ser brincadeira perto do que deve acontecer nos próximos meses. Os mais otimistas recuam cada vez mais e, na melhor das hipóteses falam hoje de uma recessão no mundo desenvolvido sem uma ruptura financeira em grande escala. O cenário de um G7 crescendo a taxas baixas, mas sem entrar em recessão parece hoje coisa do passado…
A deterioração da crise fiscal em um crescente numero de países no continente europeu está fazendo com que todo o sistema bancário – inclusive os bancos alemães – seja colocado em cheque devido ao volume de quase 500 bilhões de euros em créditos aos governos centrais em seus balanços. E não estamos mais falando de Grécia, Portugal e Irlanda apenas, mas de um grupo de países que representam mais de 50% do PIB da região. Em outras palavras, a parte considerada como sadia da CEE já é menor do que a que pode sofrer seriamente com a crise de solvência de seus governos.
Para estancar este processo será preciso que os governos europeus acelerem o processo de enfrentamento da crise fiscal antes que a contaminação dos bancos chegue a um ponto terminal. Mas as dificuldades de natureza política – hoje identificadas pela grande maioria dos analistas – estão paralisando os governos do Norte da Europa e impedindo qualquer decisão neste sentido. Por outro lado, principalmente na Grécia, a profunda recessão econômica e um nível de desemprego elevadíssimo estão criando as condições perfeitas para uma crise política, com mudança do governo, e uma volta atrás no programa de ajuste fiscal em andamento.
Na ultima semana os mercados financeiros – que são o melhor termômetro para uma avaliação dos riscos que existem hoje – tiveram uma nova onda de piora com as Bolsas voltando a cair em todo o mundo. Mas dois eventos mostram que mais do que uma simples ciclotimia dos investidores, os preços dos principais ativos apontam para uma piora clara das expectativas em relação ao futuro. A primeira mensagem veio dos mercados emergentes, que até agora eram considerados como um porto mais seguro nestes tempos de mar agitado no hemisfério Norte. Pela primeira vez houve uma corrida dos investidores internacionais para trocar seus haveres em moeda local por títulos do governo americano denominados em dólares. E como a porta de saída destes mercados é bem mais estreita, a desvalorização de suas moedas foi de grandes proporções. O dólar australiano, uma das moedas mais estáveis na Ásia, sofreu em poucos dias uma desvalorização de mais de 8%. O real brasileiro, moeda vista como menos estável do que a australiana, perdeu no seu pior momento quase 15% de seu valor. O BC brasileiro foi forçado a intervir pesado para trazer esta perda para algo como 9%, próximo, portanto do chamado Aussie.
Outra mudança de comportamento dos assustados investidores pode ser notada na queda expressiva das cotações do ouro e de outros metais. Sempre visto como alternativa ao dólar americano, o ouro chegou a mais US$ 1.900,00 a onça, com uma valorização expressiva nos últimos meses. Pois na ultima sexta feira ele foi negociado com uma queda em relação ao pico de suas cotações de mais de 10%. O grande ganhador foi sem duvida a moeda americana em mais uma prova de que é ainda considerada a mais segura do mundo, apesar da agencia de risco S&P e da crise política nos Estados Unidos. Para mim este é um sinal muito ruim, pois estas mudanças de escolhas apontam para uma insegurança ainda maior dos investidores, que só pode ser explicada por um cenário realmente catastrófico para a economia do mundo.
Eu ainda espero que a situação na Europa não termine em uma ruptura financeira que arraste o mundo para uma depressão, pois acredito que, diante do precipício, o sistema político europeu encontre forças para avançar de forma mais agressiva na direção de um ajuste que acalme novamente os mercados. Mas não tenho hoje a confiança nesta saída que tinha quando viajei de ferias para Londres com minha neta Luiza há duas semanas.

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