11.12.2011 - 17h03

Europa; Mais um passo na direção correta

Os mercados abrem suas negociações nesta semana sob o impacto de uma serie de medidas tomadas na ultima reunião dos diretores do Banco Central Europeu e no encontro de cúpula das nações que fazem parte da Comunidade Européia. Como vem acontecendo nos últimos meses as opiniões estão divididas em dois grandes blocos; o primeiro é formado pelos analistas que não acreditam que os problemas que atingem este espaço econômico comum possam ser equacionados e que a ruptura do Acordo de Maastricht – que completa agora vinte anos – é apenas uma questão de tempo. No segundo bloco estão os que ainda acreditam que os lideres políticos do Velho Continente conseguirão encontrar o caminho de reformas que corrijam, ainda em tempo, as falhas do Acordo hoje em vigor e que são conhecidas por todos.
Para os céticos, as medidas de consolidação de uma institucionalidade fiscal comum a todas as nações, usem elas ou não o euro como moeda comum, aprovadas na ultima Cúpula não são suficientes para salvar o projeto de unificação econômica. O peso das dividas publicas nacionais, em um ambiente de desconfiança dos investidores, e a política de ajuste dos déficits fiscais nos países mais endividados vai levar a uma ruptura definitiva. Para eles os mercados vão pouco a pouco se convencer do caráter irreversível deste final dramático e forçar uma rendição sem glória para o euro.
Para os menos pessimistas – grupo no qual eu me insiro – as medidas tomadas estão na direção correta embora algumas novas decisões políticas precisarão ainda ocorrer, mais à frente, para estabilizar de forma definitiva a zona do euro. Neste período os recursos financeiros já mobilizados – e que o serão nos próximos meses – serão suficientes para trazer de volta a operacionalidade dos mercados de dividas soberanas da Europa. Por outro lado, as novas regras definidas pelo BCE para prover liquidez aos bancos europeus são suficientes para estabilizar a situação sem que ocorram quebras ou liquidação forçada. Finalmente, com as novas regras fiscais que deverão ser colocadas em vigor nos próximos meses, o BCE pode ter uma posição mais agressiva nos mercados de divida soberana e trazer de volta os recursos privados.
Mas mesmo os mais otimistas reconhecem que para se chegar ao fim desta crise vários obstáculos e armadilhas terão que ser enfrentadas pelos lideres da Europa. Nos países mais envidados e sujeitos a um processo de ajuste draconiano não se sabe como reagirão a opinião publica e os partidos políticos que sustentam hoje os governos no poder. Por isto considera-se como um cenário possível nos próximos anos a retirada voluntaria de alguns países e na consolidação de uma Zona Econômica menor e mais forte. Não será mais possível deixar de lado uma alternativa legal – por mais delicada e difícil que seja – de saída de algum país que hoje pertence a este clube fechado que é a Comunidade Européia.

27.11.2011 - 10h49

27 de novembro 2011: Uma revisão na dinâmica da Crise européia

27 de novembro 2011: Uma revisão na dinâmica da Crise européia

Nas ultimas semanas houve uma clara piora na crise européia em função da diferença entre a velocidade da deterioração das condições econômicas e financeiras na Zona do Euro e a reação das autoridades nacionais na busca de uma solução institucional de mais longo prazo. Estas diferentes velocidades fazem parte de uma dinâmica comum às democracias modernas – e, portanto, não me surpreende – principalmente porque as dificuldades políticas em um arranjo institucional como o da Europa Unida são claramente mais pronunciadas do que as encontradas em crises apenas nacionais. Afinal não existe na história da humanidade uma experiência tão complexa e rígida como a que encontramos hoje no projeto europeu.
O fato de não haver um caso semelhante ao da Europa de hoje no passado não permite que analistas e lideranças políticas possam buscar ensinamentos históricos que os auxiliem no entendimento da crise e na busca de possiveis soluções em casos exitosos de superação das dificuldades atuais. Esta é uma constatação importante e que nos obriga a buscar paralelos apenas parciais no passado para tentar entender os acontecimentos de hoje. Um exemplo pode ser encontrado nas experiências nacionais de sistemas rígidos de currency board, qunado moedas de fora de um país são usadas para ancorar moedas nacionais e impor padrões de comportamentos externos à uma sociedade.
No caso europeu de hoje podemos tomar estas semelhanças, mas em uma escala multinacional. O euro como moeda nacional da Grécia e Alemanha trazem as mesmas dificuldades – e inconsistências políticas e sociais – que a Argentina encontrou para ancorar o peso a uma taxa fixa com o dólar americano.
Se esta semelhança for verdadeira – e infelizmente penso que sim – o futuro do euro como ele é hoje definido é incompatível com a história da Europa e uma revisão radical do Tratado da Europa terá que ocorrer em um futuro não distante. Aliás, para um conhecedor da História da Europa os princípios que definiram a criação do espaço comum de uma união monetaria nunca deixaram de constituir uma grande Utopia e que, em algum momento, teriam que ser revistos. Neste sentido a busca de uma integração ainda maior na zona do euro como única solução de longo prazo parece ser uma aventura ainda maior do que a atual. Visto deste prisma as duas soluções politicamente possíveis para a crise que vivemos hoje parecem ser uma ruptura total e uma volta às moedas nacionais ou uma redução drástica dos números dos países ligados por uma mesma moeda e sujeitos a regras fiscais ainda mais rígidas.
Mas a lembrança de 20 anos de crescimento e melhora nas condições de vida dos europeus que dividem a mesma moeda ainda faz com que, no nível da opinião publica o apoio à manutenção do euro seja majoritária, mesmo em países como Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália. Por isto, antes de uma solução radical que estabilize a experiência de uma moeda comum, uma tentativa de reforma será certamente buscada, com possibilidade muito reduzida de sucesso.
Se estiver certo nesta minha visão o drama europeu vai continuar ainda por muito tempo. O que não tenho certeza é se nesta busca impossível não chegaremos a uma situação de ruptura não controlada pelas lideranças européias.

06.11.2011 - 18h55

27 de novembro 2011: Uma revisão na dinâmica da Crise européia

27 de novembro 2011: Uma revisão na dinâmica da Crise européia

Nas ultimas semanas houve uma clara piora na crise européia em função da diferença entre a velocidade da deterioração das condições econômicas e financeiras na Zona do Euro e a reação das autoridades nacionais na busca de uma solução institucional de mais longo prazo. Estas diferentes velocidades fazem parte de uma dinâmica comum às democracias modernas – e, portanto, não me surpreende – principalmente porque as dificuldades políticas em um arranjo institucional como o da Europa Unida são claramente mais pronunciadas do que as encontradas em crises apenas nacionais. Afinal não existe na história da humanidade uma experiência tão complexa e rígida como a que encontramos hoje no projeto europeu.
O fato de não haver um caso semelhante ao da Europa de hoje no passado não permite que analistas e lideranças políticas possam buscar ensinamentos históricos que os auxiliem no entendimento da crise e na busca de possiveis soluções em casos exitosos de superação das dificuldades atuais. Esta é uma constatação importante e que nos obriga a buscar paralelos apenas parciais no passado para tentar entender os acontecimentos de hoje. Um exemplo pode ser encontrado nas experiências nacionais de sistemas rígidos de currency board, quando moedas de fora de um país são usadas para ancorar moedas nacionais e impor padrões de comportamentos externos à uma sociedade.
No caso europeu de hoje podemos tomar estas semelhanças, mas em uma escala multinacional. O euro como moeda nacional da Grécia e Alemanha trazem as mesmas dificuldades – e inconsistências políticas e sociais – que a Argentina encontrou para ancorar o peso a uma taxa fixa com o dólar americano.
Se esta semelhança for verdadeira – e infelizmente penso que sim – o futuro do euro como ele é hoje definido é incompatível com a história da Europa e uma revisão radical do Tratado da Europa terá que ocorrer em um futuro não distante. Aliás, para um conhecedor da História da Europa os princípios que definiram a criação do espaço comum de uma união monetaria nunca deixaram de constituir uma grande Utopia e que, em algum momento, teriam que ser revistos. Neste sentido a busca de uma integração ainda maior na zona do euro como única solução de longo prazo parece ser uma aventura ainda maior do que a atual. Visto deste prisma as duas soluções politicamente possíveis para a crise que vivemos hoje parecem ser uma ruptura total e uma volta às moedas nacionais ou uma redução drástica dos números dos países ligados por uma mesma moeda e sujeitos a regras fiscais ainda mais rígidas.
Mas a lembrança de 20 anos de crescimento e melhora nas condições de vida dos europeus que dividem a mesma moeda ainda faz com que, no nível da opinião publica o apoio à manutenção do euro seja majoritária, mesmo em países como Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália. Por isto, antes de uma solução radical que estabilize a experiência de uma moeda comum, uma tentativa de reforma será certamente buscada, com possibilidade reduzida de sucesso. Se esta busca levar a uma reforma institucional que amarre de forma mais eficiente os países da região do euro, principalmente na questão de harmonia fiscal e de endividamento publico, o ajuste que terá que ser feito nos países da periferia nos anos seguintes pode criar uma situação social insustentável. Nestas condições o questionamento sobre a viabilidade política das novas condições estabelecidas deve levar – em questão de poucos anos – a uma nova crise e a uma retirada destes países do euro e uma volta às moedas nacionais e a uma economia com maiores graus de liberdade. Para mim a situação da Italia seria a mais difícil pelo seu tamanho e pelas dificuldades de se manter isolada do espaço europeu integrado.
Se estiver certo nesta minha visão o drama europeu vai continuar ainda por muito tempo. O que não tenho certeza é se nesta busca de uma Europa com dois blocos econômicos não chegaremos a uma situação de ruptura não controlada e a uma crise mais grave do que a vivemos hoje.
Primeira etapa: uma maior integração fiscal com um programa financeiro de emergência
A ação dos lideres da Europa Unida está entrando em uma nova fase com a ação voltada para duas questões centrais: a primeira busca criar mecanismos financeiros que aliviem as pressões sobre o mercado de títulos soberanos e criem algum espaço para a rolagem de curto prazo das dividas dos países mais afetados e que estão fora dos programas já em andamento como é o caso da Espanha e Italia. A segunda está voltada para a definição de regras mais duras para limitar o campo de ação dos governos nacionais na gestão fiscal.
Dada a deterioração da confiança dos investidores e a negativa da Alemanha e outros paises da região norte da Europa de aceitar uma intervenção mais agressiva do Banco Central europeu nos mercados de divida, os passos já dados para enfrentar a primeira questão são hoje insuficientes e mesmo que na próxima reunião dos ministros das finanças sejam definidas as regras de funcionamento do Fundo de estabilização os mercados vão continuar sobre tensão. Os recursos deste Fundo, mesmo com algum tipo de alavancagem a ser criado, serão insuficientes para acomodar as necessidades da Espanha e Italia e reduzir as taxas de rolagem da divida destes países. A solução que envolve uma ação mais abrangente do BCE neste mercadoUma alternativa que certamente está sendo considerada é a de trazer o FMI para financiar programas de apoio a estes dois países com recursos adicionais a serem mobilizados por países fora da Europa, principalmente na Asia e em outros países emergentes como o Brasil.
Em relação ao segundo ponto – novas regras de integração fiscal – começa a haver um consenso de que uma mudança via uma aprovação via referendum em todos os países da região levaria um tempo demasiadamente longo. Por isto já se avalia alguns mecanismos emergenciais como mudanças voluntarias nas constituições nacionais ou na formação de um grupo de nações com regras definitivas e que criassem um núcleo duro dentro da região do euro. Neste caso poderia haver a emissão de títulos supra nacionais, com risco de credito muito superior ao dos países isolados e que limitassem o contagio que hoje existe na egião.

30.10.2011 - 13h41

Europa: o abismo foi evitado…por agora

O pacote de medidas aprovado pelos governantes europeus veio em linha com as expectativas dos analistas econômicos de maior profundidade e menos charme mediático. Os mercados reagiram positivamente com a alta das cotações nas principais Bolsas de Valores do mundo e o enfraquecimento do dólar americano nos mercados de cambio. Tudo de acordo com o script criado pelos investidores e especuladores, quando o risco de ruptura é menor; quando os pessimistas ganham ocorre o contrario, com Bolsas de valores em queda e dólar em alta.

Desta vez o movimento dos preços foi magnificado em função das enormes posições construídas pelos pessimistas ao longo dos últimos meses. È o fenômeno chamado de short covering. Ao longo dos próximos dias, quando este movimento de perde ganha diminuir poderemos ter uma posição mais clara sobre os rumos dos mercados no ultimo trimestre do ano. Na próxima sexta feira serão divulgados os números de emprego nos Estados Unidos e, se ele vier acima do esperado, poderemos ter uma nova rodada de alta das ações e das moedas de países emergentes como o Brasil.

Para que o leitor deste Blog possa entender melhor todos estes movimentos é preciso voltar um pouco no tempo – talvez uns três meses – e acompanhar as apostas dos mercados. Com o agravamento da crise da divida soberana dos chamados PIIGS, passou a ser quase um consenso no segmento mais especulativo dos operadores financeiros de que caminhávamos para o precipício representado por uma crise financeira de grandes proporções. Em outras palavras, para um calote de vários governos e uma ruptura do segmento financeiro europeu, com quebra de vários bancos internacionais importantes na Itália, França e mesmo na Alemanha. A liquidação extrajudicial do banco belga DEXIA, ocorrida há um mês, seria apenas a ponta do Iceberg.

Com o pânico tomando conta dos mercados esta força destruidora atingiria aos bancos americanos que ainda estão se recuperando da crise do sub prime de dois anos atrás. Este verdadeiro tsunami de expectativas negativas chegou a atingir o mundo emergente, com as ações de bancos sólidos e rentáveis como os brasileiros sofrendo pesadas perdas nos mercados de ações. Todo este cenário destruidor era cantado em versos e prosa pela mídia internacional – especializada ou não – que dava espaço diário a verdadeiros charlatões travestidos de especialistas em finanças. As poucas instituições financeiras e investidores que procuravam pautar seus investimentos por certa racionalidade perdiam dinheiro, enquanto uma espécie de marginalia intelectual vivia tempos de bonança e prestigio. Foi este pessoal que, na ultima quinta feira, saiu correndo para cobrir suas posições vendidas em euro, dólar australiano, dólar canadense e real brasileiro no segmento de moedas e nas Bolsas de Valores de todo o mundo.

Nos próximos dias, passado este período de ajuste de contas, vamos voltar a ver analises mais sensatas sobre o futuro da economia na Europa. Creio que a maioria dos analistas vai reconhecer que o pacote afasta a crise mais grave e abre espaço para que os políticos consigam tratar das questões estruturais que levaram a experiência com um espaço econômico comum quase ao desastre. Nestes últimos dois anos, mas principalmente nos últimos meses, aprofundou-se muito o diagnostico sobre o funcionamento do arranjo europeu em momentos de crise e dificuldades. Desde a aprovação do Tratado de Maastrich, ainda na ultima década do século passado, o euro não havia enfrentado um questionamento tão profundo como agora.

E o resultado desta terapia coletiva foi o aparecimento de falhas estruturais e operacionais gravíssimas e que precisam ser corrigidas rapidamente. Este trabalho de reparação com o barco andando em águas revoltas não vai ser fácil e sem idas e vindas perigosas, principalmente porque os mercados vão mais uma vez apostar contra.

Muita água ainda vai passar debaixo desta ponte…

Mas hoje vamos comemorar como brasileiros e interessados em que o mundo não mergulhe no precipício o sucesso das medidas tomadas em Bruxelas.

24.10.2011 - 19h10

meu blog fica para a próxima quinta feira

normalmente escrevo meu Blog para a EXAME no domingo à noite; nesta semana não o fiz porque a noticia mais importante – as novas medidas para establizar a zona do Euro – foi adiada para a próxima quarta feira. Prefiro esperar pelas medidas,fazer minhas reflexões sobre elas e, principalmente, ousar algumas previsões para os próximos meses.

até lá

luiz carlos

16.10.2011 - 16h23

uma linha do tempo para a crise na europa

O leitor deste Blog sabe que considero a solução da crise européia – ou pelo menos a definição de uma agenda de ações por parte dos governos mais importantes da região que tenha credibilidade junto aos mercados financeiro – o passo necessário para afastar o cenário de ruptura financeira na região do euro e que arrastaria o mundo para um novo mergulho na recessão e, talvez até, em uma segunda depressão econômica do tipo que atingiu o mundo na década dos trinta do século passado. Durante as próximas duas semanas teremos vários encontros definitivos que poderão definir este cenário de maior tranquilidade para o ano de 2012. Por isto traço a seguir uma linha do tempo que permita ao leitor da Exame acompanhar os acontecimentos com certa clareza.

De inicio cabe contextualizar o que pode se decidido pelos governos antes do encontro do G20 na França no inicio de novembro. São pelo menos quatro elementos fundamentais:

1) Bancos – capitalização da ordem de 200 bilhões seria o necessário nos cenários de stress do EBA (regulador europeu) para manter o core tier 1 capital perto de 9% nos cenários de stress com “haircut” nos papéis soberanos de acordo com os preços atuais no mercado. Se for 9% seria bem mais alto que o consenso até semana passada (entre 7 e 8%). Naturalmente há brutal resistência dos bancos, que veriam forte diluição de seu capital em muitos casos. Detalhes ainda não definidos: quanto e como? Quanto tempo haverá para os bancos buscarem capital privado? Será primeiro no nível nacional e só depois, no caso da periferia, usando a EFSF? E etc. Dos detalhes dependerá a credibilidade destas medidas.

2) Soberanos – é preciso quebrar o link entre perda de qualidade soberana e bancos em dificuldades. Para tanto será preciso isolar os solventes, na prática dando acesso a estes países a recursos ilimitados em troca de ajustes estruturais. Espanha e Itália são os óbvios aqui. Para tanto, precisa aumentar o poder de fogo da EFSF. Aparentemente são consideradas duas possibilidades: (1) transformá-la em banco e dar acesso ao redesconto do ECB (parece improvável pela resistência do ECB e por ser controversa legalmente); (2) alavancar os recursos por meio de garantias parciais (mais provável, ao que parece). Outro assunto fundamental é quanto haverá de disponibilidade na EFSF depois dos compromissos já assumidos com Irlanda, Portugal, Grécia (a ver como fica o segundo pacote que está em negociação) e para os bancos (já que provavelmente um pedaço deve ir para bancos da periferia). O risco é que sobre poucos recursos para alavancar o fundo, o que não daria a credibilidade necessária para blindar Itália e Espanha. A ver, mas certamente este é o assunto mais espinhoso. Outra possibilidade real é a EFSF alavancada conviver com o SMP (o programa de compras de títulos do ECB). Isto é, o ECB pode continuar atuando em paralelo. É muito difícil antecipar completamente as possibilidades aqui.

3) Grécia – o desembolso da 5ª tranche que adia a “quebra” por 3 meses sairá no início de novembro, pois a missão da Troika foi concluída e será esta a recomendação. Os europeus querem empurrar Grécia por mais algum tempo para terem espaço de construir proteções sistêmicas nos itens (1) e (2). Há aceitação que o acordo de julho precisa ser revisto, muito provavelmente aumentando o haircut privado de 21% para até 50%. Isso pode trazer ruído grande, mas não deve ser julgado individualmente e sim em conjunto com as outras medidas. Uma reestruturação crível da Grécia é vista como parte da solução.

4) Reformas estruturais profundas da CE: os europeus podem ganhar em credibilidade se chegarem a um acordo de princípios mais fortes sobre os passos para uma maior união fiscal. É importante entender o seguinte: a oposição alemã a uma maior união não deve ser considerada de forma ligeira, com se fosse por princípio. Ao contrário, os alemães parecem querer uma contrapartida na forma de governança interna na zona do euro que permita ao sistema evitar desequilíbrios fiscais e macroeconômicos e, assim, limite a conta a ser paga pelos países centrais no longo prazo. Mesmo entre os membros do Bundesbank há uma clara disposição de caminhar no sentido de mais governança fiscal (regras de orçamento equilibrado em todas as constituições nacionais, por exemplo) como requisito de maior integração. E a integração, por sua vez, não precisa ser total. É perfeitamente concebível que um fundo comum de recursos, alocados segundo as instituições e costumes nacionais, possa ser mais do que suficiente para dar credibilidade à moeda única. A ver o que avançarão nas questões de longo prazo no comunicado dos chefes de estado.

Dito tudo isso, nada do que será feito garante que a crise acabe. O risco de recessão e de um crunch de crédito é real. E os desequilíbrios acumulados demandam um ajuste muito forte não apenas do lado fiscal, mas do lado macro, por exemplo, para reduzir os déficits em conta corrente de Portugal, Espanha e Grécia contra o resto da zona do Euro, já que o setor privado não está mais disposto a financiar estes déficits. Isso implica na necessidade de coordenação de políticas macro, em um grau que hoje ainda parece muito distante. Aí está uma fragilidade de fundo que ainda não foi tratada na intensidade necessária. Ou seja, será um longo caminho, sujeito a tropeços e as coisas podem sim voltar para trás.

Abaixo a linha de tempo:

decisão sobre o desembolso de recursos para a Grécia no início de novembro. Vão jogar Grécia mais três meses para frente com este desembolso. Neste meio tempo, o segundo pacote está em processo de reavaliação, sendo que é muito provável uma reestruturação mais forte, com maior PSI (haircut além dos 21% acordados com os bancos em julho). O quanto isso adiciona contágio, depende de quão efetivas serão as medidas anunciadas para os bancos e para blindar os outros soberanos.

15 e 16 de outubro encontro dos ministros da economia do G20 – IMPORTANTE (conversas de reforço dos recursos do FMI em andamento. Não creio que aqui esteja um pedaço determinante da solução para a Europa, que precisa na prática mobilizar os recursos que tem – e os tem – internamente, o que é um processo essencialmente político. Mesmo assim, os headlines de cooperação do G20 certamente ajudam neste momento. Não é provável que saia nada de definitivo nesta reunião dos ministros, mas certamente haverá rumores e ensaios até o encontro dos chefes de Estado no inicio de novembro, quando as decisões serão formalizadas.

20 de outubro revisão do programa de auxilio à Irlanda Sem problemas aqui. Irlanda está sendo vista como caso de sucesso. Não há até o momento um desvio fiscal em relação às metas e os resultados de crescimento e ajuste externo estão satisfatórios).

23/24 de outubro Reunião do Conselho dos governantes dos países da Comunidade da Europa (ponto focal para a decisão política).

24 de outubro encontro entre Comunidade da Europa e China pode ser relevante. (Vamos ficar atentos)

27 de outubro eleição presidencial na Irlanda

03 de novembro encontro dos governantes do G20; encontro crucial para que os mercados finalmente se acalmem; G20 pressionando fortemente os europeus e há uma vontade de mostrar coordenação, depois de dois anos de hesitação no G20. Restaurar o espírito de abril 2009, quando a coordenação do G20 se mostrou um “game changer” para controlar a crise, é um objetivo. Se o resultado do European Council do dia 24 for positivo, o G20 pode adicionar ao “bom humor”. Mas não devemos esperar muito, além de declarações de princípio e, talvez, algum reforço dos recursos do FMI).

09.10.2011 - 17h58

O consumidor brasileiro paga a conta dos desajustes de natureza micro econômica

O leitor deste BLOG conhece bem minhas preocupações com o caminho que o governo escolheu para enfrentar as deficiências micro econômicas da economia brasileira. Ao invés de fazer uma leitura estrutural dos problemas que enfrentamos de competitividade com os nossos principais parceiros comerciais e tentar resolve-los pelo caminho de importantes reformas estruturais optou pelo surrado e perigoso protecionismo. Usando a tal da Guerra Cambial como desculpa esfarrapada – como se dizia antigamente – está dando claros sinais de que vai proteger a indústria brasileira aumentando as tarifas sobre as importações. Como em muitos setores já temos uma carga de impostos de importação limite dentro das regras da organização Mundial do Comércio – este é o caso do setor de veículos automotores – o governo vai ter que apelar para instrumentos ilícitos, como foi o caso do recente aumento do IPI.
Na decisão recente sobre os veículos automotores estão presentes pelo menos duas espertezas: a primeira é o prazo do novo IPI – em 2012 apenas – que visa diminuir as chances de uma contestação imediata na OMC; a segunda é um programa de incentivos, via redução deste imposto, para as empresas que já tem fabricas no Brasil, deixando o impacto do aumento inteiramente sobre as fabricas asiáticas que ainda não vieram para cá. Na pratica, o que o governo aprovou mesmo foi um aumento do imposto de importação sobre as empresas mais modernas e eficientes como a coreana e a chinesa.
A proteção garantida pelo imposto de importação de 30% – teto permitido pela OMC, antes do artifício de um IPI de 30% – era de 2,2 vezes. Isto é, o preço de um carro importado para o consumido nas revendas no Brasil era mais do que o dobro do valor do produto no momento do embarque em seu país de origem. Com o aumento do IPI, a nova proteção passou a multiplicar por 2,82 o preço original do exportador, um aumento de mais de 28%.
O governo Dilma disse que o aumento do IPI era necessário para proteger o emprego do metalúrgico brasileiro ameaçado pelas importações. Segundo a presidenta ela sempre fará tudo que estiver ao seu alcance para evitar a exportação de empregos para outros países. A presidenta teria toda razão se as causas da ameaça das importações não fossem outras; aumento dos custos internos das empresas montadoras de auto veículos no Brasil por deficiencias nossas. Por exemplo, recentemente as empresas concederam aumentos de mais de 15% ao ano para o dissídio da categoria para deste ano e o mesmo valor para o do próximo. Dada a simultaneidade destes eventos – aumento dos salários e aumento do IPI – parece que eles foram articulados previamente.
Em função destas pressões de custos ao longo dos últimos anos, a antiga proteção de 30% via imposto de importação, deixou de representar uma restrição às vendas de carros importado no Brasil. Produtos de muito melhor qualidade e o desenvolvimento de uma extensa rede de revendedores em todo o território nacional, em um mercado em que o consumidor exigente como o brasileiro viu sua renda média aumentar, fizeram com que as importações representassem quase um terço do total. Com isto, ajudados por um real forte, os produtores internos tiveram que reduzir seus preços de venda para não perder ainda mais sua parcela no mercado. A chegada de varias empresas chinesas no segmento de carros de menor valor e que representam o grosso das vendas das montadoras brasileiras parece ter sido a gota d’água neste processo.
No quadro abaixo mostro a relação entre o aumento dos preços de automóveis comparados com a inflação ao consumidor. Como base de comparação vou usar os preços em dezembro de 2005 (índice=100)

Mês indice

Dezembro 2005 100

Outubro 2007 106

Outubro 2008 105

Outubro 2009 93

Julho 2010 92

Setembro 2011 89

os indeices acima mostram que a deflação dos preços de automóveis em relação á inflação media, entre dezembro 2005 e setembro 2011, foi de 16 %.

Certamente nos próximos meses vamos ver um aumento neste índice pois, como o novo espaço criado pelo IPI de 30% vai encarecer os carros importados as empresas brasileiras vão tentar recuperar suas margens de lucros perdidas nos últimos anos. Em outras palavras, o consumidor brasileiro vai pagar a conta da pouca eficiência de nossas montadoras em função de questões estruturais e, agora, da força dos sindicatos dos metalúrgicos.

Termino este Blog alertando o leitor para os riscos que este tipo de política protecionista pode ter sobre toda a economia brasileira se o aumento do IPI diferenciado for estendido a outros setores da indústria que clamam por proteção.

Pobre consumidor brasileiro, nesta toada ele vai se juntar ao de outros países como a Argentina que isolam seus mercados da competição externa.

02.10.2011 - 11h18

Nove meses do governo Dilma na economia

Vou dividir com o leitor deste Blog uma apresentação que fiz aos seis governadores do PSDB reunidos na ultima sexta feira em Goiânia. Procurei resumir os pontos principais que para mim marcam o governo da presidente Dilma, principalmente na economia. Faço também uma primeira varredura do que poderá ser a economia em 2012, a partir de dois cenários para a economia mundial.

Os primeiros nove meses do governo Dilma na economia

Uma transição tranqüila, ainda sem o fantasma de Lula;
Este fato serviu para fortalecer a posição internacional do Brasil;
As pesquisas de opinião mostram um forte apoio popular, embora menor do que o de Lula no final de seu governo;
A presidente está se afirmando, com uma personalidade própria, muito diferente da de Lula;
Na política tenta diminuir a dependência forte do PMDB;
Na economia ela mostra que vai seguir o pragmatismo de Lula, mas com instrumentos de política econômica que resgatam os velhos conceitos do PT (UNICAMP);
Já deu mostras que não vai trilhar o caminho das reformas que tratem dos reais problemas da economia;

Mas a maior marca nestes seis meses foi a mudança dos marcos da política econômica herdada de Lula. Dilma está rapidamente trazendo as idéias e valores do velho PT para dentro de seu governo. Com o agravamento da crise na Europa e a ameaça de um novo mergulho deflacionário no G7 o ministro Mantega cruzou fronteiras importantes e que foram respeitadas nos anos do presidente Lula. A mais importante delas foi a independência operacional do BC e aceitar a inflação mais alta para buscar um crescimento econômico fixado ex antes pelo governo. Já deu mostras, também, que não vai trilhar o caminho das reformas que tratem dos reais problemas da economia; no seu lugar vamos ter a volta das medidas protecionistas e de intervenção do governo nas forças de mercado. A seguir alguns pontos importantes da nova postura do governo Dilma na economia:

• Existe claramente uma decisão de governo de reduzir os juros nominais da economia – a mensagem é a de realizar a estabilidade definitiva do Real – de maneira intempestiva e independente do comportamento inflação e de outras variáveis econômicas;
• Também a política cambial mudou, deixando de lado o que se chama de flutuação suja e se fixando na busca de uma taxa de cambio mais desvalorizada com a utilização de medidas de intervenção como o IOF;
• Outra mudança foi a adoção de medidas protecionistas para proteger a indústria em função dos crescentes aumentos de seus custos internos em dólares;
• Um dos objetivos da política de aumento da proteção da indústria é claramente o de permitir aumentos salariais superiores ao de nossos concorrentes externos; o caso do IPI dos carros e caminhões é exemplar;
• Estamos caminhando para a forma argentina de administrar a economia, com a inflação sendo a variável de ajuste em função da prioridade dada ao crescimento como objetivo de governo;

A crise internacional e os principais canais pelos quais ela vai chegar ao Brasil;

Os principais canais que devem ligar a crise internaconal á economia brasileira me parecem ser:

1. Termos de troca, com queda dos preços de commodities;
2. Cambio com a fuga de capitais de curto prazo e eventual redução dos investimentos diretos;
3. Inflação

Os efeitos de cada um destes canais vai depender do cenário mundial para 2012; eu vejo hoje dois caminhos mais prováveis:

Cenário pessimista: Depressão e crise financeira, com a China em forte desaceleração;

 continua a fuga de capitais financeiros para o dólar, com o real podendo chegar a R$2,20 por dólar;
 os investimentos diretos no país desaceleram bastante (20 bi por ano);
 os termos de trova voltam ao nível de 110, com uma queda de 205 do pico em 2010;
 o canal externo impacta de forma importante a inflação que, com a insistência do governo de manter o crescimento, chegar a 8% em 2012;
 se o BC levar os juros nominais a 9% aa o quadro da inflação pode ser ainda pior, chegando a quase 10%% no final de 2012;
 neste cenário os sindicatos vão se mobilizar por correções semestrais de salários;

Cenário otimista; Recessão na Europa e baixo crescimento nos USA, mas sem crise financeira e com a China crescendo 8% ao ano;

• Depois de um movimento de redução de risco nos mercados emergentes os capitais financeiros e de investimentos voltam ao mundo emergente;
• As taxas de cambio voltam se valorizar em relação ao dólar, com o real voltando a valer R$1,80 por dólar;
• Este movimento do real provoca um choque de desinflação pelo canal do cambio, embora deva ocorrer uma recuperação dos preços de commodities;
• mas este choque deflacionário não vai trazer o IPCA ao nível de 4,5% pelo efeito da inflação de serviços e preços administrados, que representam 50% deste índice;

25.09.2011 - 15h06

De volta á crise mundial

Depois de duas semanas de ausência estou de volta a este Blog. Neste período a economia no mundo continuou a refletir principalmente a crise na Europa Unida em sua marcha em direção a alguma coisa muito ruim. Para alguns “esta coisa muito ruim” é vista como um verdadeiro colapso do mundo global do tipo crise de 1930. Segundo estes analistas – que cada vez mais ganham espaço junto a investidores e outros agentes econômicos – a crise que vivemos em 2008 e 2009 vai ser brincadeira perto do que deve acontecer nos próximos meses. Os mais otimistas recuam cada vez mais e, na melhor das hipóteses falam hoje de uma recessão no mundo desenvolvido sem uma ruptura financeira em grande escala. O cenário de um G7 crescendo a taxas baixas, mas sem entrar em recessão parece hoje coisa do passado…
A deterioração da crise fiscal em um crescente numero de países no continente europeu está fazendo com que todo o sistema bancário – inclusive os bancos alemães – seja colocado em cheque devido ao volume de quase 500 bilhões de euros em créditos aos governos centrais em seus balanços. E não estamos mais falando de Grécia, Portugal e Irlanda apenas, mas de um grupo de países que representam mais de 50% do PIB da região. Em outras palavras, a parte considerada como sadia da CEE já é menor do que a que pode sofrer seriamente com a crise de solvência de seus governos.
Para estancar este processo será preciso que os governos europeus acelerem o processo de enfrentamento da crise fiscal antes que a contaminação dos bancos chegue a um ponto terminal. Mas as dificuldades de natureza política – hoje identificadas pela grande maioria dos analistas – estão paralisando os governos do Norte da Europa e impedindo qualquer decisão neste sentido. Por outro lado, principalmente na Grécia, a profunda recessão econômica e um nível de desemprego elevadíssimo estão criando as condições perfeitas para uma crise política, com mudança do governo, e uma volta atrás no programa de ajuste fiscal em andamento.
Na ultima semana os mercados financeiros – que são o melhor termômetro para uma avaliação dos riscos que existem hoje – tiveram uma nova onda de piora com as Bolsas voltando a cair em todo o mundo. Mas dois eventos mostram que mais do que uma simples ciclotimia dos investidores, os preços dos principais ativos apontam para uma piora clara das expectativas em relação ao futuro. A primeira mensagem veio dos mercados emergentes, que até agora eram considerados como um porto mais seguro nestes tempos de mar agitado no hemisfério Norte. Pela primeira vez houve uma corrida dos investidores internacionais para trocar seus haveres em moeda local por títulos do governo americano denominados em dólares. E como a porta de saída destes mercados é bem mais estreita, a desvalorização de suas moedas foi de grandes proporções. O dólar australiano, uma das moedas mais estáveis na Ásia, sofreu em poucos dias uma desvalorização de mais de 8%. O real brasileiro, moeda vista como menos estável do que a australiana, perdeu no seu pior momento quase 15% de seu valor. O BC brasileiro foi forçado a intervir pesado para trazer esta perda para algo como 9%, próximo, portanto do chamado Aussie.
Outra mudança de comportamento dos assustados investidores pode ser notada na queda expressiva das cotações do ouro e de outros metais. Sempre visto como alternativa ao dólar americano, o ouro chegou a mais US$ 1.900,00 a onça, com uma valorização expressiva nos últimos meses. Pois na ultima sexta feira ele foi negociado com uma queda em relação ao pico de suas cotações de mais de 10%. O grande ganhador foi sem duvida a moeda americana em mais uma prova de que é ainda considerada a mais segura do mundo, apesar da agencia de risco S&P e da crise política nos Estados Unidos. Para mim este é um sinal muito ruim, pois estas mudanças de escolhas apontam para uma insegurança ainda maior dos investidores, que só pode ser explicada por um cenário realmente catastrófico para a economia do mundo.
Eu ainda espero que a situação na Europa não termine em uma ruptura financeira que arraste o mundo para uma depressão, pois acredito que, diante do precipício, o sistema político europeu encontre forças para avançar de forma mais agressiva na direção de um ajuste que acalme novamente os mercados. Mas não tenho hoje a confiança nesta saída que tinha quando viajei de ferias para Londres com minha neta Luiza há duas semanas.

28.08.2011 - 19h57

estamos no olho do furacão?

Os furacões, apesar de toda a energia destruidora que carregam, tem um ponto onde a calma e a estabilidade prevalecem: ele é chamado de OLHO DO FURACÃO. Esta imagem pode ser aplicada para explicar o comportamento dos mercados financeiros mundiais na ultima sexta feira. Depois de duas semanas de quedas impressionantes nos preços das ações negociadas nas mais importantes Bolsas  de Valores do mundo, alguns mercados importantes como Wall Street  ensaiaram uma forte recuperação. Uma das causas destes movimentos pode ter sido a apresentação calma e com alguma dose de otimismo do presidente do FED no importante encontro anual em Jackson Hole nos Estados Unidos.

Esta tradicional reunião de expoentes economicos do setor publico e do setor privado serviu como uma pausa na histeria coletiva das ultimas semanas. E as palavras de Ben Bernanke foram como um balsamo para os estressados operadores dos mercados no mundo todo. Na próxima segunda feira poderemos avaliar se foi apenas a passagem do olho do furacão que  vivemos ou se vamos, a partir de agora,  encarar as dificuldades no mundo desenvolvido com mais serenidade e profundidade. Certamente esta é uma condição necessaria – embora não suficiente -para que possamos caminhar no sentido da superação da crise que já dura mais de tres anos.

Como sempre acontece em situações criticas como a que estamos vivendo, desde que o banco Lehman Brothers quebrou o tempo é um elemento importante na busca de soluções. Por se tratar de uma situação pouco frequente e de extraordinaria complexidade é preciso que haja uma conjugação de energia e conhecimentos para que seja possivel uma identificação clara dos problemas que deverão ser enfrentados pelos governos e pelo setor privado. Quando a crise se instalou nos Estados Unidos, uma serie de analistas chamaram a atenção para o carater especial de uma recessão criada a partir do estouro de uma bolha financeira especulativa. Esta leitura foi, em um primeiro momento, deixada de lado pelo governo Bush que entendia que a maior economia do mundo estava vivendo uma crise economica ciclica tradicional e que, por isto, não deveriam ser mobilizados instrumentos especiais, chamados pelos liberais de heterodoxos.

Com a chegada ao poder do presidente Obama, a terapia mudou radicalmente e todo um arsenal de medidas já estudadas e discutidas anteriormente por um pequeno grupo de economistas – entre os quais o proprio presidente do FED Ben Bernanke – foi mobilizado. Hoje, passados já dois anos do inicio desta terapia Keynesiana, é unanime a leitura de que elas não foram suficientes para restaurar a funcionalidade do sistema bancário no primeiro mundo e reverter o quadro de desemprego elevado e baixos niveis de consumo. Certamente a conjugação de crises secundarias que se desenvolveram – principalmente na Europa e Japão –  a partir da crise central no sistema bancario americano tiveram efeitos importantes na baixa eficiencia da terapia aplicada em 2009 e 2010.

Por  esta razão vivemos neste ano de 2011 uma sensação de medo por não se conhecer alternativas melhores e mais eficientes do que a conjugação de uma politica monetaria extraordinariamente expansiva, com a garantia de juros proximos de zero por mais dois anos e uma nova rodada de aumento dos deficits fiscais dos governos das economias mais afetadas pela retração quase histérica do consumidor. Mesmo assim, não se tem hoje nos mercados a confiança de que elas vão funcionar desta vez.

Pior ainda, um grande numero de paises embarcaram, por pressão dos detentores de titulos emitidos por seus governos, em uma agressiva politica de redução de gastos, pressionando ainda mais para baixo a demanda agregada nas suas economias. Nos Estados Unidos, por razões politicas, tambem o governo Obama parece não ter instrumentos para aprovar na Camara de Representantes uma nova rodada de estimulos fiscais. Com isto, parece fechado o caminho de tentar recolocar a demanda privada em marcha via redução de impostos  e aumento do emprego. Como a eficacia da politica monetaria, nas condições atuais de juros e expansão do balanço dos Bancos Centrais, não pode ser aumentada a recuperação da economia – nos Estados Unidos e na Europa – fica muito dificil. O canal do comerio exterior, aproveitando o dinamismo do mundo emergente,  é limitado. Poucos paises como a Alemanha tem um volume de exportações liquidas significativo em relação a seu PIB para explorar este canal.

Por tudo isto é que realmente temo que, passado o OLHO DO FURACÃO, voltaremos a viver dias muito dificeis nos mercados.