Blog do Mark Mobius

12.09.2012 - 15h56

Os ventos da mudança no mercado

Conforme ultrapassamos o meio do ano, você pode dizer que os mercados de ações e de renda fixa se comportaram de maneira bastante semelhante ao tempo das últimas semanas em várias partes do ano: incerto e com uma tendência de ficar próximo dos extremos. A percepção de um clima econômico tempestuoso motivou algumas avaliações de ações para níveis extremamente baixos, particularmente na Europa, e os investidores começaram a guinar rumo a renda fixa apesar dos rendimentos extremamente baixos.

Para checar a temperatura da Europa e dos mercados emergentes, fomos ouvir o Dr. Mark Mobius, chairman executivo do grupo de mercados emergentes da Templeton, e o Dr. Michael Hasenstab, codiretor do Franklin Templeton Fixed Income Group ® do departamento de títulos internacionais, em busca da perspectiva deles de longo prazo sobre quais mudanças no clima econômico podem ocorrer.

Mark Mobius

  • Não há dúvida que o status das economias da Europa está gerando impactos no sistema financeiro como um todo, mas na minha opinião a situação deve melhorar com o tempo.
  • Ao analisar as empresas ao redor do mundo, de maneira geral, estamos encontrando diversas avaliações muito baratas neste momento.
  • Apesar da possibilidade de um crescimento um pouco menor na economia chinesa neste ano, ainda há várias companhias que eu acredito que possuem boas avaliações e bom potencial de crescimento de rendimentos na China.
  • Na minha opinião, se a Grécia conseguir privatizar as empresas estatais, coletar os impostos que não são pagos e reduzir o tamanho do governo, não deve ser necessário aumentar os impostos.

Mark Mobius

Do ponto de vista de Mobius, os mercados emergentes estão, de maneira geral, em uma boa posição fiscal neste momento se comparados com alguns dos mercados desenvolvidos pressionados pelo endividamento, e, indo além, ele acredita que as taxas de crescimento econômico nos mercados emergentes devem ser maiores do que nos mercados desenvolvidos.

Não há dúvida que o status das economias da Europa está gerando impactos no sistema financeiro como um todo. Os mercados emergentes passaram a reduzir as suas exportações para os Estados Unidos e para a União Europeia, embora a continuação de problemas econômicos (tanto nos EUA quanto na UE) possa ainda significar impacto significativo. A Europa Oriental foi, evidentemente, afetada pelo o que está acontecendo no restante da Europa. Estamos encontrando várias oportunidades lá de companhias que viram as suas avaliações caírem drasticamente, muitas vezes de maneira injusta, o que abre oportunidade para explorações de longo prazo.

A minha opinião sobre a situação europeia é bem diferente de um número grande de economistas. Acredito que a situação deve melhorar com o tempo e na medida que os europeus resolverem os seus problemas fiscais. Um grande exemplo, claro, é a Grécia. A Grécia fazia parte, originalmente, dos mercados emergentes até que entrou na União Europeia, por isso tivemos algumas experiências no passado investindo na Grécia. O desafio atual para o governo é dar passos gigantescos no sentido das reformas. Isso significa privatização das empresas estatais que foram um entrave à produtividade e para as finanças do governo, coletar impostos que são devidos mas não foram pagos, e reduzir o tamanho do governo. Se tais medidas forem tomadas, na minha opinião não será mais necessário aumentar os impostos. Mais do que isso, o empreendedorismo precisa ser encorajado, a Grécia conta com setores fortes de turismo e navegação, o que acho que pode ser as bases fundamentais para o crescimento no futuro.

Ao olhar, de maneira geral, para empresas de todos os lugares do mundo, estamos descobrindo que as avaliações agora parecem bastante interessantes e baratas. A relação entre o preço e a possibilidade de ganhos (P/E da sigla em inglês) em mercados emergentes atingiu a média de 9.6 (baseado no índice MSCI de mercados emergentes para 12 meses à frente por P/E), comparado com o índice mundial de 11.4 (baseado no índice MSCI Mundial para 12 meses à frente por P/E) e a média nos Estados Unidos de 11.9 (baseado no índice MSCI dos EUA para 12 meses à frente por P/E), em julho de 2012.1 A média de dividendos para mercados emergentes foi de 3.0%, enquanto a média mundial foi de 2.9% e nos EUA foi de 2.2%, no mês de julho, baseado nos índices MSCI de mercados emergentes, no mundial e no dos EUA.1 Portanto, como investidores de valor, a nossa equipe foi capaz de encontrar diversas oportunidades nesses mercados e que acreditamos que podem ter bons resultados em longo prazo.

Apesar da possibilidade do crescimento em ritmo menor na economia chinesa neste ano, há várias empresas na China que acreditamos que possuem boas avaliações e contam com bom potencial de crescimento dos rendimentos. Países do sudeste asiático também estão indo muito bem do nosso ponto de vista, em especial a Tailândia, por que a economia vem crescendo em um bom ritmo e está tendo benefícios da expansão da China.”

Alguns outros países no radar de Mobius incluem lugares que investidores com espírito de aventura menor podem nem considerar no atual momento.

“Acreditamos que assumir uma estratégia de baixo para cima, focada nas empresas, é a melhor por possibilitar que seja possível encontrar oportunidades em locais que outras pessoas estão ignorando. Estamos empolgados sobre os mercados de fronteira, particularmente na África, já que os países africanos veem crescendo em um ritmo muito rápido. Das 10 economias que crescem mais rapidamente no mundo nos últimos 10 anos até 2010, seis delas eram africanas.2 E, em um país como o Paquistão, que muitos especialistas consideram ser um lugar arriscado, ainda estamos encontrando oportunidades simplesmente por não ser um destino popular.”

Michael Hasenstab

  • Alguns dos mercados que viram saídas e vendas por medo de contágio ou do ‘Armagedom’ começaram agora a se recuperar.
  • Vemos muito valor em vários mercados emergentes, mas é preciso estar conscientes da possibilidade de riscos de inflação no longo prazo.
  • Os mercados emergentes são, provavelmente, os mais vulneráveis aos impactos inflacionários imediatos da ação massiva global de quantitative easing.
  • Não vemos valor nos países que estão imprimindo dinheiro e derrubando o valor das suas moedas.

Michael Hassenstab

A crise da zona do Euro gerou uma grande tempestade nos mercados neste ano, mas Hasenstab manteve-se firme na sua opinião que os líderes da região iriam encontrar soluções e que as previsões de tragédias, provavelmente, não foram justificadas. Ele não descarta mais situações de agito para o restante do ano, mas está vendo sinais de condições mais calmas.

“Acredito que a recuperação foi um pouco preocupante até agora e, de fato, não retornou o valor justo completo de vários desses mercados, mas acredito que estamos no caminho. Ainda acreditamos que há um longo trecho a ser cruzado, mas há cerca de 10 ou 11 meses, estávamos em um período de uma incerteza muito maior. Foi durante esse período que n´s realmente reforçados a nossa convicção ao longo prazo que a zona do Euro não iria se dividir por conta do Banco Central Europeu (BCE) que, em última instância, seria quem forneceria crédito no último caso (apesar dos problemas que ainda subsistem na Grécia), e que a taxa de crescimento na China iria ficar mais moderada mas não seria o caso de um pouso forçado. Conforme o ano avançou, vimos cada vez mais evidências que estas convicções cruciais eram justificadas. Acredito, agora, que estamos nos movendo mais próximo de maior clareza que o BCE vai, provavelmente, prevenir o colapso da zona do Euro e que países chave como a Espanha e Itália estão tomando passos para melhorar as suas finanças em longo prazo. O fato é que o apoio do BCE deve ser acompanhado por condições é positivo por duas razões: pode prevenir a criação de um ciclo vicioso e oferece liquidez, e também fornece algum tipo de disciplina fiscal. Isto gerou um pouco de tranquilidade nos mercados e, como resultado disso, alguns dos mercados que viram saídas e vendas por medo de contágio ou do ‘Armagedom’ começaram agora a se recuperar.

Em um mundo em que não existe mais ativos livres de risco, acredito que as pessoas precisam aceitar algum grau de volatilidade do mercado, mas acredito que a nossa capacidade de nos manter fiéis as convicções de longo prazo e de não entrar em pânico, e não tomar decisões por conta da volatilidade do mercado, está sendo benéfica.”

Voltando o nosso foco para a China, um mercado que alguns especialistas prevem que está se encaminhando para um pouso forçado por conta do que veem como agressiva redução do ritmo de crescimento, Hasenstab acredita que, até o final do ano, o crescimento chines deve ganhar um pouco mais de altitude ou, pelo menos, ficar em um nível estável. Mudanças estruturais na economia estão criando novos desafios, ele afirma, mas ressalta que a China possui “mais recursos,” caso necessite criar novas medidas para estimular a economia.

“Na China, há algumas reformas estruturais de longo prazo muito importantes que estão sendo realizadas. As reformas na China que começaram no final dos anos 1970s estão agora entrando na sua quarta fase. A primeira fase foi a reforma do setor agrário, a segunda fase foi com a reforma das empresas estatais, a terceira foi se abrindo para o livre-comércio, e esta é a próxima fase, quase no final, que seria a liberalização dos mercados financeiros. É, provavelmente, uma das fases mais empolgantes da reforma chinesa e, se a China tiver sucesso nisso —e temos todas as razões para acreditar que a China vai conseguir —tem a possibilidade real de elevar a China de um pais com renda média para uma nação de alta renda na próxima década.”

Como Mobius, Hasenstab reconhece valor em vários mercados emergentes no atual momento. Contudo, ele é cauteloso sobre a exposição perante a taxa de juros nestes países em longo prazo por acreditar que as políticas monetárias relaxadas tocadas por vários bancos centrais ao redor do mundo nos últimos anos pode deixar várias economias emergentes vulneráveis à inflação.

“Estes mercados emergentes, de maneira geral, não possuem problemas de endividamento que os países desenvolvidos, em geral, possuem atualmente. Ainda que o crescimento absoluto dos emergentes esteja reduzindo em termos relativos, a taxa de crescimento dos emergentes segue muito mais saudável do que as taxas equivalentes nos países desenvolvidos. Há algumas exceções, mas em geral o que vemos é muito valor em vários destes países, mas teríamos cautela por conta dos riscos inflacionários. Acreditamos que seria bom para moedas, mas estaríamos cautelosos sobre assumindo muito risco perante a taxa de juros.

Temos, neste momento, o Banco da Inglaterra, a Federal Reserve nos Estados Unidos, o Banco do Japão, o Banco Central Europeu, o Banco Nacional da Suíça, todos eles imprimindo uma quantidade sem precedentes de dinheiro. Nunca na história dos bancos centrais passamos por impressões desta quantidade de dinheiro e pensar que não haverá consequências de longo prazo a isso é ingênuo. Os efeitos podem não ser sentidos imediatamente, mas, no fim, o dinheiro impresso naqueles países vai fluir pelos vários países do mundo, e os mercados emergentes são provavelmente os mais vulneráveis para o impacto inflacionário imediato da ação massiva de quantitative easing.

Do lado da moeda, não vemos valor em países que estão imprimindo dinheiro e derrubando o valor das suas moedas —seguimos procurando oportunidades em países que não estão imprimindo dinheiro.”

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Quais são os riscos?

Todos investimentos envolvem riscos, incluindo a perda potencial do principal. Os preços das ações flutuam, algumas vezes rapidamente e dramaticamente, por conta de fatores que afetam companhias individualmente, mercados em particular ou setores, ou condições gerais dos mercados. Os preços dos títulos movem, geralmente, em direção oposta em relação as taxas de juros. Assim, conforme os preços de títulos em um portfólio de investimento se ajustam perante as taxas de juros, o valor do portfólio pode cair. Riscos especiais estão associados com investimentos estrangeiros, incluindo flutuação cambial, instabilidade econômica e acontecimentos políticos. Investimentos em mercados desenvolvidos envolvem riscos reforçados relacionados aos mesmos fatores, somados aqueles que são associados com o seu relativo tamanho menor e liquidez menor. A incerteza política atual relacionada com a União Europeia (UE) e os seus membros pode aumentar a volatilidade do mercado. A instabilidade financeira de alguns países na UE, incluindo Grécia, Itália e Espanha, junto com o risco de impacto em países mais estáveis pode aumentar o risco econômico de investir em empresas na Europa.

 

1. Fonte: Índice MSCI de mercados emergentes, Índice MSCI Mundial, Índice MSCI dos EUA, em julho de 2012. Os índices não são gerenciáveis e não é possível investir diretamente em um índice. Todas as informações da MSCI são fornecidas “como estão.” A MSCI não oferece garantias expressas ou implícitas ou representações e não terá qualquer responsabilidade relacionada com qualquer dado da MSCI contido aqui. As informações da MSCI não podem ser redistribuídos ou usado como base para outros índices ou qualquer produto financeiro ou títulos. Este relatório não foi aprovado, revisto ou produzido pela MSCI. Desempenho no passado não é indicativo de resultados no futuro.

A relação entre o preço e a possibilidade de ganhos (P/E da sigla em inglês) para uma ação individual compara o preço da ação com os ganhos da companhia por ação. (Este número é normalmente calculado usando os ganhos dos últimos 12 meses, mas alguns utilizam a previsão de ganhos.) O P/E indica quanto o mercado vai pagar pelos ganhos de uma empresa. Um alto resultado de P/E pode indicar uma forte crença na capacidade da empresa de aumentar estes ganhos. Uma baixa P/E indica que o mercado possui menos confiança que os ganhos da empresa vão subir.

O total de dividendos é a soma dos dividendos anuais da empresa por ação dividido pelo atual preço da sua ação. É normalmente expresso como uma porcentagem.

2. Fonte: Fundo Monetário Internacional; 2001-2010.

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