Blog do Mark Mobius

31.08.2012 - 12h07

A evolução Russa

Pode ser tentador dizer que “tudo o que era velho está novo de novo” na Rússia, por conta da volta de Vladimir Putin para a presidência depois de um hiato de quatro anos, um acontecimento interessante na evolução política do país. Acredito que a Rússia também evoluiu bastante como um destino de investimento nas duas últimas décadas e possui grande potencial, ainda que seja necessário continuar trabalhando para abrir os mercados e aumentar a confiança dos investidores.

A Rússia é o maior país do mundo em termos de extensão territorial (17 milhões de quilômetros quadrados),1 abrange nove fusos horários e conta com uma história rica e bastante antiga, tem abundância de recursos naturais e uma população bem educada. A taxa de alfabetização é próxima de 100% é há mais de 1,000 instituições de educação secundária que contam com mais de 8 milhões de estudantes.2 A Rússia foi tradicionalmente definida por conta do seu clima difícil, e a sua economia passou por desafios igualmente difíceis pela história. Deixo as lições de história para os livros, mas do ponto de vista econômico as duas últimas décadas foram caracterizadas por períodos de crescimento e de crises que culminaram com passos para frente, com evolução – para depois voltar atrás.

Por mais que seja fácil criticar erros políticos, acredito que há razões para ser otimista em relação a economia e as finanças da Rússia. No primeiro trimestre de 2012, a Rússia foi a única nação dos BRIC (as economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia e China) a experimentar aceleração no crescimento do Produto Interno Bruto em relação ao trimestre anterior (de 4.9% perante 4.8%)3. A Rússia também conta com níveis invejáveis de tão baixos de alavancagem na sua economia; a sua relação dívida ante ao PIB estava em 8.7%3 em 2011 e o crédito doméstico como porcentagem do PIB estava em 45.9%.4 O país tem em seus cofres 500 bilhões de dólares em reservas em moeda estrangeira e é um dos principais produtores globais em diversas commodities, incluindo energia e metais preciosos.

A economia da Rússia pode estar se movendo rumo a outro estágio de evolução já que acaba de se tornar o membro de número 156 da Organização Mundial do Comércio (OMC). É provável que exista ajustes em curto prazo (por exemplo, a remoção de tarifas e subsídios que podem atrapalhar algumas indústrias), mas isso tem o potencial de gerar apoio de longo prazo para a expansão do comércio exterior, investimento estrangeiro e crescimento econômico. De acordo com o Banco Mundial, a entrada na OMC pode alimentar o PIB da Rússia até 2020 para 11% acima do que seria sem a participação na organização, e a população russo poderia se beneficiar dos resultados como aumentos na renda e a melhoria no padrão de vida.

As algemas petrolíferas na economia da Rússia

O setor de energia é, evidentemente, extremamente importante para a Rússia, representando cerca de três quartos das suas exportações. A Rússia é o maior produtor do mundo de petróleo bruto, extraindo cerca de 10 milhões de barris por dia, o que representa cerca de 12% do petróleo do mundo.5 O país também conta com a maior reserva de gás natural do mundo e a segunda maior de carvão mineral. Com isso, as empresas de energia são responsáveis por uma grande parte do mercado do país. Entre os principais destinos das exportações estão a União Europeia (que recebe quase metade das suas exportações de petróleo), China e Turquia. Ainda que Putin tenha prometido diversificar a economia da Rússia e criar orçamentos que são menos dependentes das receitas oriundas dos impostos sobre as petrolíferas, o futuro da Rússia está, ainda, bastante dependente do preço do petróleo. A volatilidade no preço do petróleo, assim, também contribuiu para a volatilidade do mercado de ações russo.

Os preços mais altos não ajudam necessariamente as empresas petrolíferas e, ao mesmo tempo, preços baixos não significam necessariamente que elas estão tendo problemas. Com os preços mais altos do petróleo, as petrolíferas russas normalmente precisam suportar o peso das taxas mais altas. As empresas preferem preços estáveis ou, talvez, aumentando ligeiramente, em vez de flutuações drásticas que são mais difíceis de planejar e reagir. Nós gostamos de buscar oportunidades em todo o setor de energia, incluindo em empresas que se dedicam a exploração, produção, refino e comercialização.

O período de crise na Europa (e as perspectivas de crescimento em ritmo menor em vários outros países neste ano) contribuiu para o declínio no preço do petróleo na primavera e no verão no hemisfério norte, mas a nossa equipe não está prevendo uma dramática queda nos preços do petróleo. Diversas empresas individuais na Rússia foram capaz de prosperar independentemente das quedas, principalmente pelo custo da produção do commodity ser tão baixo que cada companhia era capaz, ainda assim, de conseguir lucrar. Acreditamos que no pior cenário possível para o preço do petróleo já pode estar precificado nas validações das empresas petrolíferas russas. É evidente que, se houver uma depressão severa na Europa ou nos Estados Unidos, é bem provável que exista um impacto negativo no preço, não apenas no petróleo mas também em outras commodities— mas não acreditamos que é provável que isso aconteça em curto prazo.

No longo prazo, acreditamos que há uma possibilidade maior de nova subida na inflação das commodities, na medida em que Bancos Centrais ao redor do mundo estão empenhados em relaxar as políticas monetárias para estimular crescimento e garantir a liquidez. Isto pode ser bastante favorável para o mercado russo, desde que a inflação não fique fora de controle.

Mercado de ações e Clima de Investimentos na Rússia

No início da década de 1990, o mercado de ações da Rússia era primitivo. As negociações começavam às três da tarde, um pouco antes ou um pouco depois, quando um veículo chegava ao prédio carregando muito dinheiro. Os corretores sentariam em longas mesas esperando pelos trabalhadores e cidadãos comuns que receberam vales-ações – que poderiam ser trocados por ações nas recentemente privatizadas companhias russas – para vendê-los na Bolsa. Ao redor das seis, o veículo iria retornar para coletar os vales que os corretores compraram com preço baixo.

Como investidores lá, nós enfrentamos ambiente extremamente instável e ouvimos várias vezes “confie em nós!” com pouca base para tanto. E, a grande maioria das ações russas eram tão pouco  comercializadas que tínhamos que esperar dias, ou até semanas, para concretizar uma negociação. Como as coisas mudaram! As recentemente fundidas Moscow Interbank Currency Exchange (MICEX) e Russian Trading System (RTS) oferecem comercialização de uma ampla gama de ações, opções e mercados de futuros de commodities —em uma plataforma eletrônica, de dia ou de noite. O MICEX-RTS divulgou o volume anual de comercialização de acima de 10 trilhões de dólares em 2011.

Na primeira metade deste ano o mercado da Rússia sofreu com o sentimento negative de investidores. Uma boa parte do capital do Ocidente levantou voo, e os investidores locais também perderam a confiança. O problema é que há muita incerteza sobre o que um novo mandato presidencial de Putin significa para o país. Alguns acreditam que o governo Putin desencoraja o crescimento do setor privado e que a economia vai se mover mais ainda na direção do controle estatal do que já está. Por outro lado, há aqueles que afirmam que o investimento estrangeiro está sendo encorajado por uma série de mecanismos governamentais. O juri ainda não tomou uma decisão sobre o caso.

Como investidores de valor, isso significou que nós podemos escolher e ficar com as ações em verdadeiras barganhas. Do nosso ponto de vista, a Rússia parece ser um dos mercados mais atraentes na Europa emergente a partir do viés da valorização, com a média na relação preço/lucro (P/E) de cerca de 5 na primeira metade do ano .6 Para atrair mais capital estrangeiro e reforçar a confiança, a MICEX-RTS anunciou que planeja realizar reformas que podem afetar novos entrantes, incluindo a exigência de publicação de relatórios trimestrais em inglês e esforços para se encaminhar rumo a um processo mais tradicional para liquidação de transação comercial em dinheiro e em securities.

Do ponto de vista do investimento, estamos buscando oportunidades não apenas no setor de energia, mas também em áreas incluindo bens de consumo e serviços, e transporte de carga. O transporte de carga em contêineres por ferrovias é uma área que acreditamos que terá crescimento apoiada pelo aumento da demanda dos consumidores, uma melhoria potencial no cenário macroeconômico e o desenvolvimento do potencial do país de área de trânsito entre Ásia e Europa. Aumentar os esforços de privatização neste setor e em outros na Rússia pode ajudar a estimular ainda mais os investimentos. O esforço da Rússia para construir um centro de alta tecnologia fora de Moscou (similar ao “Vale do Silício” dos Estados Unidos) é também um projeto interessante que merece ser acompanhado de perto.

Independente do que o futuro reservar, a Rússia—e a sua população—se provaram resilientes muitas e muitas vezes. Espero, ansioso, para o próximo estágio da evolução econômica da Rússia.

 

1. Fonte: Departamento de Estado dos Estados Unidos, Março de 2012.

2. Fonte: Departamento de Estado dos Estados Unidos, Estimativa de 2008.

3. Fonte: CIA World FactBook, 2011.

4. Fonte: Banco Mundial,“Crédito Doméstico ao Setor Privado– % do PIB,” 2011.

5. Fonte: EUA Energy Information Administration.

6. Fonte: Bloomberg L.P.

 

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