Blog do Mark Mobius

13.08.2012 - 15h58

Viva a reforma no México

Eleições vem e vão, mas o verdadeiro teste de um candidato pode ser saber se as promessas feitas durante a campanha eleitoral vão ser realmente colocadas em prática. Enrique Peña Nieto e o seu Partido Revolucionário Institucional (PRI) saiu vitorioso da eleição presidencial mexicana do dia 1º de Julho ao prometer reformas e o fim dos hábitos “antidemocráticos” do país. O mercado de ações do México reagiu de maneira positiva aos resultados eleitorais iniciais; o índice IPC do México (Índice de Preços e Cotações) atingiu um preço mais alto de todos os tempos em junho e subiu acima deste patamar novamente em Julho.1 Ainda que os resultados finais da eleição ainda estejam em jogo, me sinto encorajado pelo progresso econômico feito no México e fico otimista ao ver o potencial do país — isso inferindo que o México não vá andar para trás em políticas e decisões contraprodutivas.

Só o tempo vai dizer se o “novo” PRI realmente modificou os seus velhos hábitos, mas as eleições (e as suas consequências) provaram que o povo do México parece estar ansioso por mudança. Caso a vitória de Nieto seja confirmada mesmo com os questionamentos feitos após as eleições, quando ele for assumir o posto em dezembro próximo ele vai precisar do apoio dos seus aliados nas duas Casas do Congresso do México para garantir que as suas ambiciosas metas avancem. Nieto prometeu uma série de reformas estruturais, como trabalhistas, fiscal, empresarial e de aposentadoria pensadas para alimentar a economia do México.

Do meu ponto de vista, as reformas mais importantes que o México precisa para melhorar a sua competitividade global e reforçar a sua economia são as reformas, já propostas, dos setores fiscal, trabalhista, e de energia. A reforma fiscal busca aumentar o faturamento do governo para melhorar a infraestrutura do México, facilitar investimento, fornecer serviços de qualidade e incentivar o crescimento econômico. O plano para atingir tais objetivos está baseado em reduzir os impostos e aumentar a base de contribuintes. O México possui um grande setor informal (uma parte da economia que, geralmente, segue sem monitoramento e apoio), que comummente não paga impostos. Os objetivos da reforma trabalhista incluem aumentar a produtividade ao melhorar as condições de trabalho, promover a meritocracia dentro das corporações, promover a igualdade entre os funcionários e colocar restrições sobre as greves.

A abundância de petróleo é um dos ativos mais poderosos do México, mas o mercado poderia se beneficiar do aumento na eficiência da produção e novos esforços de exploração que ajudariam a equilibrar uma produção decrescente. A “política chave” de Nieto está em abrir as empresas estatais de petróleo e petroquímicos para o investimento privado. Acredito que um plano para permitir que empresas privadas possuam participação em campos de petróleo por joint-ventures poderia surgir como uma concessão a planos de privatização mais ambiciosos, e pavimentar o caminho para Nieto atacar os monopólios e duopólios em outras indústrias mexicanas.

Proximidade com os Estados Unidos é uma faca de dois gumes

A proximidade do México com o seu vizinho do norte pode ser uma faca de dois gumes. De todas as exportações de produtos do México, cerca de 80% dela vai para os Estados Unidos, além de ser o seu principal fornecedor de petróleo, o que faz a economia mexicana se beneficiar do aumento na demanda dos EUA. Por outro lado, contudo, quando os EUA sofre quedas no ritmo econômico ou crises, o México tende a sofrer em conjunto. A crise financeira nos EUA de 2008 – 2009 teve um efeito cascata na economia mexicana, derrubando o seu Produto Interno Bruto em mais de 6% em 2009, a pior redução no país em décadas.2

No entanto, o México foi rápido para mudar a situação, usando remédios fiscais que incluíram cortes nos gastos governamentais. De acordo com o FMI, o crescimento do PIB do México foi de 5.6% em 2010, e 3.9% em 2011. Neste ano, em que vários países estão lutando para manter o bom momento econômico, o México, no relatório de meio do ano do FMI, teve o seu PIB em 2012 reajustado para 3.9%.3 A taxa de crescimento do México parece ter o potencial de superar a dos EUA neste ano, além de ter também uma taxa menor de desemprego. As reservas em moeda estrangeira do México subiram para registrar mais de 150 bilhões de dólares neste ano,4 e a razão entre dívida perante ao PIB ficou em 37.5% em 2011, abaixo do que algumas das suas contrapartes latino-americanas (incluindo o Brasil).5 Do meu ponto de vista, a economia do México parece estar em condições muito boas para enfrentar os atuais desafios globais.

Riscos e Potencial

México é visto por alguns especialistas como um azarão na América Latina. Há uma série de “se,” mas acredito que pode ser possível para o México conseguir, algum dia, superar o Brasil como a maior economia da América Latina. Melhorias em segurança, a implementação bem sucedida das reformas discutidas acima, e, evidentemente, o desempenho da economia dos EUA, desempenham papéis importantes. Neste exato momento, é possível inclusive argumentar que o México está em melhor forma do que o Brasil por algumas razões; o México possui uma dívida menor, o governo desempenha um papel menor na economia (com base em porcentagem do PIB), e a inflação parece estar mais sob controle no México, ainda que seja um tópico em que a atenção precisa ser contínua.

A taxa de inflação no México atingiu o ponto mais alto em 18 meses com os 4.3% registrados em Junho (conforme medido pelo índice de preço ao consumidor)6, o que é algo que deve preocupar, e acredito que, em parte, explica o porquê o Banco do México deixou a sua taxa de juros base em 4.5% em Julho. Na reunião, o banco central relatou que, ainda que o risco de inflação em curto prazo tenha acelerado, a meta anual de inflação segue estável, dentro das expectativas. O México importa cerca de 20% a 30% do seu consumo de milho, então seco e quente verão deste ano nos EUA que atinge a colheita de milho por lá cria mais risco potencial. O consumidor é muito sensível a aumentos no preço das tortillas, que são uma marca do país. Não ficaria surpreso se o governo realizasse alguma intervenção, e também acho que é possível vermos alguma pequena revisão para cima da meta de inflação. Agora, não é apenas o milho atuando como um fator que representa risco. O preço dos ovos e do frango subiu significativamente por conta de um vírus que atingiu algumas fazendas no México. O vírus não afeta humanos.

Indústria e Comércio

O México está passando por mudanças interessantes. Eu vi, em primeira mão, como o México está evoluindo de uma economia “maquila”, que produz produtos de baixo valor agregado, para um fabricante de produtos de alta tecnologia. Diversas indústrias procurando por mão de obra altamente especializada e de baixo custo estão estabelecendo operações no México, incluindo em áreas que não seriam tão comuns, como aviação e automobilístico. Recentemente visitei um parque industrial em Queretaro que conta com fornecedores e empresas de pesquisa e desenvolvimento, e há centros similares em outras partes da região norte do México.

A proximidade geográfica do México cm os EUA permite que várias empresas norte-americanas fabriquem produtos com custos menores do que na China, aproveitando os benefícios logísticos. Por mais que os fabricantes dos EUA venham realizando o outsourcing da produção para o México há tempos, o aumento de salários na China pode potencializar ainda mais o México como uma alternativa com mão de obra de baixo custo.

Por mais que a maior parte das exportações do México acabem nos EUA, mais de 90% do comércio do México acontece sob acordos internacionais de livre comércio com mais de 50 países incluindo Canadá, Guatemala, Honduras, El Salvador, a zona do Euro e o Japão.2 O México também foi convidado a participar do “Acordo Comercial Transpacífico”, uma ambiciosa nova parceria ao redor do Pacífico que pode ajudar a diversificar a sua base de destinos para exportação.

Nos últimos anos, uma onda de violência altamente divulgada atingiu a imagem do México, e o seu crescimento econômico pareceu pálido perante a outros países latino-americanos. Ainda precisa ser visto como Nieto e o PRI vão lidar com o legado de corrupção e crime, instilar confiança no seu povo e mudar a imagem do México aos olhos do mundo. De qualquer maneira, auxiliado por uma agressiva campanha de relações públicas7, o turismo teve um desempenho muito positivo apesar das notícias negativas; o conselho de turismo do México estima que, neste ano, o número de visitantes internacionais parece próximo de quebrar o recorde do ano passado de 22.67 milhões de pessoas. Ainda que a maior parte dos visitantes ao México venham dos Estados Unidos, um número cada vez maior de turistas de mercados emergentes está reconhecendo a beleza das praias mexicanas e as suas riquezas culturais.

Investindo no México

Os investidores estão reconhecendo a atratividade do México como um destino de investimentos, também. De um ponto de vista de investimento, a minha equipe gosta do setor de energia, já que tem o potencial de se aproveitar dos esforços para reformas. E, ainda que o petróleo esteja sujeito as flutuações de preço em curto prazo, espera-se que o consumo global suba em longo prazo conforme a venda de veículos em nações emergentes como Índia e China devem continuar em uma trajetória positiva e, é claro, pelo seu uso generalizado na indústria. Também gostamos da história dos consumidores. Produtos aos consumidores, o setor bancário e telecomunicações são áreas de interesse, e acreditamos que o aumento das privatizações e investimento externo podem aumentar ainda mais a sua atratividade. A crise na zona do Euro abriu a oportunidade para várias empresas de mercados emergentes de comprar marcas europeias em preços atrativos, e empresas mexicanas estão entre elas.

Sem a maioria no Congresso, é possível que várias discussões aconteçam para que Nieto consiga cumprir as suas promessas de campanha, mas estou otimista que ainda que avanços limitados aconteçam, o futuro tem potencial para o México.

 

1. Desempenho passado não é garantia de resultados futuros. Um índice não é gerenciado e não é possível investir diretamente em um índice.

2. Fonte: CIA World Factbook, Julho de 2012.

3. Fonte: FMI, “Previsão do Cenário Econômico Mundial,” Julho de 2012.

4. Fonte: Banco de México, Junho de 2012.

5. Fonte: CIA World Factbook, Julho de 2012.

6. Fonte: Banco de México, Julho de 2012.

7. Fonte: Ministério Mexicano do Turismo, PRNewswire, Fevereiro de 2012.

 

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