Blog do Mark Mobius

26.07.2012 - 12h13

Um destino interessante para as férias e para IPOs

Diversos investidores ocidentais provavelmente não teriam nenhuma dificuldade em falar o nome da maior oferta pública de ações (IPO) deste ano nos Estados Unidos, mas eles provavelmente não sabem que dois dos três maiores IPOs globais deste ano, até agora, aconteceram em uma ilha nação que é, provavelmente, mais conhecida como um destino para férias do que um lugar para investimentos.

O país em questão é a Malásia, no qual uma história interessante está acontecendo no mercado de IPOs. O calendário de IPO de 2012 incluiu duas companhias que, ambas, receberam fortes compromissos de investimentos que as catapultaram entre as três maiores ofertas públicas de ações realizadas no mundo.

A popularidade do mercado de IPO da Malásia é uma evidência da sua liquidez doméstica, na minha opinião, e manteve os nossos analistas na região trabalhando bastante! Ainda que a participação estrangeira no mercado da Malásia tenha sido modesta, acredito que estes IPOs em meio a incerteza do mercado global ganhou a atenção dos investidores e abriu os olhos para um país que é comumente negligenciado. O nível de participação dos investidores, seja estrangeiros ou domésticos, é uma marca de valor percebido, potencial de crescimento e a expectativa de retorno versus outras alternativas de investimento. Se a Malásia conseguir concluir as reformas econômicas que prometeu, acredito que são boas as chances para que os investidores estrangeiros abracem as ações por lá.

É evidente que a demanda para novos lançamentos vai variar conforme o valor e a atratividade que cada companhia listada possui individualmente, mas ao ver os resultados e o nível de interesse dos últimos acordos, a demanda parece ser muito mais do que adequada. Em geral, os novos IPOs foram listados com avaliações com grandes premium na Malásia, com valores maiores do que alguém esperaria normalmente em outros mercados. Ainda que isto seja benéfico para a empresa e os acionistas originais, níveis inflacionados podem causar preocupação no público investidor, já que podem não ser sustentáveis em longo prazo. Aqui, na Templeton, atuamos como investidores com metodologia de baixo para cima. No fim, é o resultado financeiro trimestral da empresa que vai definir como nós avaliamos uma empresa, uma conclusão que chegamos baseados no dia a dia.

Em um período de turbulência econômica como estamos vendo nos últimos meses, a Malásia se destacou e ganhou a atenção de vários investidores como um destino atraente. Ao contrário de várias nações desenvolvidas que estão muito envolvidas com a crise da dívida, a Malásia conta com superávit em suas contas e possui reservas acima de 130 bilhões de dólares.1 Por mais que a dívida pública total do governo perante ao produto interno bruto (PIB) tenha ultrapassado, no passado, para mais de 50% – uma tendência que nos causa preocupação – a sua dívida externa perante ao PIB (devida para credores externos) está próxima de 30%, o que é algo razoável na nossa opinião. (A dívida externa perante ao PIB dos EUA está em mais de 90%, por exemplo.2) A alta taxa de reservas domésticas da Malásia é um ativo e nós vemos os dados financeiros do país como sólidos no geral. Como várias nações neste ano, o crescimento é esperado para cair um pouco, com o FMI prevendo o aumento do PIB em 4,4% ante os 5,1% de 2011, mesmo que a taxa em 2012 seja maior do que várias economias, especialmente no mundo desenvolvido. Ainda que não seja sem desafios, Malásia vem colhendo os benefícios da prudência financeira na esteira da crise financeira da Ásia em 1998 e há razões para acreditar que o crescimento vai se recuperar em longo prazo.

Na minha opinião, o potencial de crescimento da Malásia é óbvio. O país possui uma população jovem e em crescimento (a idade média é de 26.83) e tem sido uma das principais beneficiárias do ciclo de alta das commodities dos últimos anos. A Malásia exporta petróleo e gás, além de ser um dos três principais produtores do mundo de óleo de palma e também de borracha. O crescimento continuado nos preços dos commodities agrícolas aumentou a renda em comunidades rurais no país, e a liquidez do seu sistema bancário segue em alta. Esses elementos pintam um cenário promissor para forte crescimento potencial do consumo e para a capacidade do setor público e do privado de reinvestir na economia da Malásia.

Diversidade Cultural

A Malásia é um belo país com uma paisagem repleta de contrastes. Florestas tropicais exuberantes, cachoeiras, montanhas e belas praias estão justapostas contra uma infraestrutura moderna, cidades e arranha-céus. O calor do sol tropical da Malásia só pode ser equiparado ao da sua população. Gosto de pensar que as icônica torres Petronas em Kuala Lumpur simbolizam as aspirações da população do país para conquistar alturas maiores e aumentar a qualidade de vida.

As torres Petronas na Malásia

Os sucessos econômicos tangíveis da Malásia estão fartamente documentados, então não tenho a intenção de dar mais detalhes sobre isso. O que quero falar é do que eu acredito que seja uma das suas maiores forças —a diversidade da sua população. Por conta da sua história única entre a Associação das Nações do Sudeste da Ásia (ASEAN, da sigla em inglês), a Malásia possui uma população etnicamente diversificada e multicultural com cada comunidade mantendo a sua cultura e a sua linguagem. Esse fato conecta as pessoas da Malásia não apenas com a comunidade ASEAN, mas também com as maiores economias emergentes como a China e a Índia, assim como com os países islâmicos do Oriente Médio. A grande população muçulmana da Malásia transformou a nação em um hub para investimentos aprovados pela Shariah, que atende princípios islâmicos específicos. Além disso, por ser uma ex-colônia britânica, o inglês segue fluentemente falado em várias partes do país, uma vantagem adicional para as comunicações globais.

A Malásia está localizada estrategicamente entre várias rotas marítimas importantes para o comércio internacional, então, de várias formas, é um candidato natural para se tornar um hub internacional para comércio e finanças. Acredito que melhorias em governança pode melhorar ainda mais as perspectivas para a Malásia, como a garantia da manutenção do estado de direito, o incentivo à transparência, a redução do espaço para corrupção e a criação de políticas consistentes.

Programa de Transformação Econômica

É evidente que o caminho em busca de chegar no status de nação desenvolvida pode estar repleto de pedras e a dependência excessiva de recursos naturais finitos representa uma delas para a Malásia. No entanto, o país está ciente deste perigo e está trabalhando para resolver os seus gargalos econômicos. Em setembro de 2010, o governo lançou o seu Programa de Transformação Econômica (ETP, da sigla em inglês), que cria o modelo para vários dos investimentos e iniciativas de reformas que estão sendo realizadas no país.

Gostaria de incentivar todos os interessados em investir na Malásia a visitar o site governamental sobre o ETP para ver todas as iniciativas e o progresso até o atual momento. Acredito que o ETP seja ambicioso e otimista —como deveria ser para inspirar um grande futuro. (Um dos objetivos do ETP para a Malásia está em conquistar status de “alta renda” de um mercado desenvolvido até 2020.) Para avançar ainda mais, acredito que a Malásia também precisa de investimentos simultâneos em educação, comunicação e infraestrutura. Mas mesmo se apenas uma pequena parte dos objetivos do ETP seja conquistada, a Malásia já vai ter conquistado grandes avanços. Na minha opinião, o sucesso inicial do ETP pode ser o catalizador necessário para gerar ainda mais sucesso econômico e tem o potencial de criar um ciclo virtuoso.

Questão Eleitoral

Na eleição geral deste ano na Malásia deve acontecer antes do final de 2012 e cria uma dúvida sobre o seu futuro. Eleições e transições de liderança sempre criam incertezas, independente do local em que ocorram, e os investidores são geralmente avessos à incerteza. O que é interessante é que esta eleição em particular na Malásia é vista como um teste de aprovação para o atual governo focado em reformas e pode definir a direção para a Malásia nos próximos cinco anos. A última eleição em 2008 registrou um dos piores resultados para a coalizão de situação Barisan Nasional, que pela não via, desde 1969, o resultado menor do que a maioria com dois terços no Parlamento. O fraco resultado forçou mudanças dentro do sistema, o que, por enquanto, parece ter sido benéfico para o desenvolvimento da Malásia.

Acredito que há indícios de maior maturidade política surgindo e há, também, um lento, mas percebível, abandono de políticas radicais como era comum anteriormente. Os holofotes mudaram para dilemas universais como progresso econômico, justiça social e econômica, estado de direito, transparência e corrupção. Independentemente do partido que seja vitorioso na próxima eleição, o cenário futuro mais provável, na minha opinião, é a continuidade do afastamento das práticas antigas responsáveis pelo insucesso. Sigo otimista, cautelosamente, e acredito que a mudança será para melhor, já que as pessoas demonstraram o desejo de uma vida melhor no futuro. Não mais vista como apenas um destino para as férias, acredito que a Malásia, e os investidores por lá, podem aguardar momentos interessantes no futuro.

1. Fonte: Copyright © 2012 por Fundo Monetário Internacional. Todos os direitos reservados.

2. Fonte: Banco Mundial, 2011.

3. Fonte: Central Intelligence Agency CIA WorldFactbook, 2011 est.

 

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