Blog do Mark Mobius

04.07.2012 - 11h52

A próxima fronteira

Em uma entrevista recente, fui questionado se estava me tornando um “desbravador” na minha busca pela próxima grande oportunidade de investimento. É verdade que várias aventuras de investimento recentes aconteceram em mercados de fronteira – os primos menores e menos desenvolvidos dos mercados emergentes. Vejo os mercados de fronteira como regiões com termendo potencial para os investidores de longo prazo, se —e aqui está um gigantesco “se”— você é capaz de ser paciente e mostrar alguma perseverança. Apenas algumas décadas atrás, a China e a Índia eram consideradas mercados de fronteira , e quando eu comecei a minha carreira como investidor o Japão era considerado um mercado emergente. Então, é possível ver agora como o avanço econômico e o desenvolvimento de mercados normalmente caminham ombro a ombro.

Os mercados de fronteira podem ser vistos como um subconjunto de mercados emergentes. Os mercados de fronteira possuem geralmente menos liquidez e não contam com a mesma capitalização do mercado que mercados emergentes ou desenvolvidos. A classificação de um país como “emergente” ou “de fronteira” está geralmente baseada em critérios como desenvolvimento econômico, tamanho, liquidez e acessibilidade aos mercados. O índice de mercados de fronteira da MSCI 1 fornece uma referência útil para os investidores e eles utilizam os seus próprios critérios para determinar as classificações, mas não é algo que nós adotamos em todos os momentos.

Conforme a renda nos países de fronteira começa a crescer, e os mercados de ações se tornam mais desenvolvidos e passam a ser fáceis de acessar para os investidores internacionais, esses mercados podem fazer a transição para o status de mercado emergente.

Quem não conhece o tema pode cometer o errado de associar os mercados de fronteira com nações pobres, mas, na verdade, eles compõem uma ampla gama de desenvolvimento econômico, variando de países nos quais a renda média anual por cidadão é incapaz de comprar um carro usado para alguns dos países mais ricos do mundo. Os mercados de fronteira estão em todos os lugares do globo, incluindo Panamá e a Argentina na América Latina, a Bulgária e a România na Europa Oriental, a Arábia Saudita e o Catar no Oriente Médio e o Cambodja e o Vietnã na Ásia, apenas para citar alguns nomes. África é uma área que tenho interesse particular atualmente. Todas as nações da África, com a exceção da África do Sul, podem ser classificadas como mercados de fronteira. A África está em um região de crescimento bem rápido —de 2001 a 2010, seis dos 10 países com taxa de crescimento mais rápida do mundo estavam na África.2 Então, estamos muito interessados em ver as possibilidades de investimentos naqueles países. (Veja a minha trilogia “Investindo no Berço da Civilização” para mais sobre a África.)

Assim como acontece com todos os nossos investimentos, nós precisamos fazer o dever de casa. Visitamos cada país e cada companhia em que investimos. Analisamos os fundamentos exclusivos de cada país, e para cada empresa nós examinamos o histórico de divulgação de perdas e lucros, balanços e outros materiais que apoiam uma previsão para cinco anos. É um processo intensivo. Olhamos para empresas que, especialmente, parecem ter perspectivas sólidas de crescimento em longo prazo (suportadas por uma população jovem e uma classe média crescente) e boa governança corporativa. Também preferimos quem possui uma cultura de dividendos.

Os riscos de investir

Por mais intensivo que o nosso processo seja, ele não pode garantir o sucesso e, é óbvio, não elimina os riscos de investimentos. E, ao contrário do que acontece em mercados desenvolvidos, os riscos dos mercados de fronteira ainda não foram completamente estudados. É neste momento em que eu e minha equipe realmente entramos em cena. O risco político é comumente citado como uma preocupação em novos mercados e, como eu notei nestas páginas antes, tais riscos podem criar volatilidade, mas também podem culminar em oportunidades. Por exemplo, quando há tensão no Oriente Médio, vimos investidores correrem para mercados conhecidos como “refúgios garantidos” na região, como os Emirados Árabes Unidos (considerados um mercado de fronteira).

A corrupção é um problema encontrado em quase todos os mercados, mas pode ser aumentado em mercados nos quais o poder e os recursos estão concentrados nas mãos de poucos e as punições não são uniformemente aplicadas. A boa notícia, na minha opinião, é que hoje a corrupção está sendo discutida abertamente, o que é um bom primeiro passo na busca de criar um sistema mais justo e igualitário.

Em visita recente que eu fiz para a Nigéria, conversei com uma autoridade proeminente do governo que, em vez de tentar varrer a história de corrupção no país embaixo do tapete, discutiu candidamente como eles estão tentando fazer a limpeza. Acredito que vários líderes de mercados de fronteira estão entendendo o fato que a corrupção precisa ser atacada para conseguir prosperar em escala global e estão trabalhando em implementar políticas para garantir a eficiência do estado de direito. É também importante lembrar que ainda que as manchetes de jornais e revistas mostrem o país como algo negativo, empresas individuais podem parecer muito atraentes para uma perspectiva de investimento, com possibilidade de crescimento dos seus negócios no mercado doméstico (e inclusive no internacional). Por exemplo, percebi o uso generalizado de telefones celulares na África, não apenas para comunicação básica, mas para serviços como transferência de dinheiro para que os aparelhos atuem como uma espécie de agência bancária para atender as pessoas nos locais em que elas não existem. Os consumidores estão ganhando influência e estão adotando novos produtos e serviços.

Outro risco comummente associados com mercados de fronteira é a liquidez, o que pode ser uma faca de dois gumes. Uma pequena base de investimento em um mercado subdesenvolvido pode tornar desafiante a compra e a venda de ações sob demanda e com um preço de mercado justo. Contudo, a falta de liquidez pode representar uma vantagem, já que podemos pegar ações que vemos como atraentes que ninguém está interessado em e com preço de barganha. Pode levar algum tempo para construir uma posição em uma determinada ação (algumas vezes vários meses), mas se o mercado reconhecer o valor destas companhias com o tempo, ter grande blocos de ações reconhecidas é, evidentemente, algo bastante desejável.

Algumas vezes sentimos que pode haver riscos que são grandes demais para serem encarados. As nossas maiores preocupações incluem os controles sobre o capital e a expropriação de ativos. Nós temos que ter a capacidade de retirar o nosso dinheiro se precisarmos fazer isso. Por enquanto, isso não foi um grande problema na maior parte dos países que nós visitamos, mas é algo que sempre estamos mantendo em nossas mentes.

Crescimento e Diversificação

Na minha opinião, a principal razão para investir em mercados de fronteira é o potencial de crescimento de longo prazo. Quando você compara a taxa de crescimento de várias nações desenvolvidas com aquelas dos mercados de fronteira, é possível encontrar grande discrepância. Por exemplo, o produto interno bruto dos Estados Unidos em 2011 ficou abaixo dos 2%, enquanto um país que acabei de citar acima, a Nigéria, viu o seu PIB chegar aos 6.9%.3 O crescimento em uma economia deve levar a avanço nos resultados empresariais.

Para um investidor, os mercados de fronteira também oferecem potencial para diversificação, já que descobrimos que há pouquíssima correlação entre o desempenho destes mercados e os mercados desenvolvidos.

Há um engano comum que coloca os resultados econômicos dos mercados de fronteira preso aos preços das commodities. Ainda que seja verdade que vários deles são ricos em recursos naturais e possuem uma saudável taxa de exportações, outros dependem mais do consumo doméstico para crescer. O Quênia, por exemplo, tem orientação mais à agricultura e é mais focado no mercado doméstico, enquanto a Nigéria é mais dependente das exportações de petróleo.

As fontes de crescimento podem evoluir de maneira positiva. Por exemplo, para ajudar a diversificar a sua economia, a Nigéria está buscando começar a refinar o seu petróleo para produzir exportações com maior valor agregado. Está desenvolvendo, também, mais indústrias domésticas para alimentar, vestir e construir as casas para a sua população em crescimento.

Por todo o seu crescimento e potencial de diversificação, é importante estar preparado para as inevitáveis dores de crescimento e os desafios inesperados em mercados de fronteira. Contudo, as rendas crescentes, os padrões de via em alta e as melhorias em infraestrutura e comércio têm o potencial de oferecer ao investidor paciente oportunidades excitantes em áreas como construção civil, transporte, serviços bancários, finanças e telecomunicações.

Há, ainda, muito trabalho a ser feito nestes países, mas é interessante ser capaz de testemunhar em primeira mão a inovação e o crescimento acontecendo na fronteira.

 

1. Os índices de mercado de fronteira da MSCI oferecem uma ampla representação da oportunidade de investimentos ao redor de 31 países ao mesmo tempo em quem leva em conta as exigências para a realização de aportes para cada mercado. Ninguém pode investir diretamente em um índex.

2. Fonte: FMI 2012

3. Fonte: CIA – World FactBook, junho de 2012.

 

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