Blog do Mark Mobius

03.07.2012 - 19h04

Abandone o pânico, não a zona do euro

Realmente acredito que há benefícios em optar por ter uma visão otimista da vida. Como um investidor de longo prazo, é praticamente algo exigido nos requisitos do trabalho. É possível ver com temor uma crise como um período de perdas e insegurança, mas também é possível escolher vê-las como um período de oportunidade com potencial para mudanças positivas. A crise da Zona do Euro foi o catalisador de um efeito dominó nos mercados globais e vários investidores estão se mostrando pessimistas sobre a saúde da economia e a sustentabilidade da região. Eu? Sempre sou otimista. Mesmo após as eleições na Grécia, ainda há muitas perguntas que seguem sem resposta. Mas, quando tudo for respondido e resolvido, acredito que a Europa vai emergir dessa situação ainda mais forte, independente da saída ou permanência da Grécia na zona do Euro (acredito que o abandono é improvável).

Na minha opinião, as autoridades europeias estão caminhando no sentido certo apesar do impasse político entre países a favor das medidas de austeridade (como a Alemanha) e aqueles que são contrários a isso (como a Grécia). O aspecto mais importante dessa situação, na minha opinião, é que os líderes europeus estão se esforçando ao máximo para entrar em acordo sobre um pacto fiscal para reforçar a aliança e a moeda. Isso vai levar tempo e exige bastante paciência, mas, no fim, acredito que pode render resultados positivos. Os problemas que levaram à crise da dívida precisam ser atacados – e isso está acontecendo agora.

Aparentemente, a primeira eleição da Grécia em maio resultou em fortes protestos dos eleitores contra os partidos políticos tradicionais com a vitória da esquerda radical e de partidos da direita, vários deles que criticaram os termos do pagamento da dívida com a União Europeia (UE) e o programa de reforma fiscal. Na segunda eleição, no dia 17 de junho, parecia que a raiva havia diminuído e uma abordagem mais lógica foi aceita; os partidos moderados mais estabelecidos conquistaram a maioria ao favorecer a aceitação dos termos das reformas da UE.

Zona do Euro

 

Há uma grande discussão sobre se a Grécia deve ficar ou abandornar o Euro, e ainda não temos uma resposta definitiva. Acredito que a Grécia deve ficar e realizar reformas em sua economia buscando o potencial de um futuro mais brilhante, mas apenas se os seus líderes colocarem um fim no desperdício governamental e eliminar barreiras ao crescimento dos negócios. Ironicamente, a redução nos gastos do governo que culminarem com a redução na burocracia governamental e nas regulamentações tem o potencial de ser traduzida em maior crescimento e prosperidade para a Grécia. Contudo, se por alguma razão a UE forçar a saída da Grécia do Euro ou se o governo grego decidir definitivamente que vai sair e começar a imprimir a sua própria moeda, acredito que, no geral, os gregos ainda iriam segurar os seus Euros e isso significa que não é provável a saída completa do sistema de única moeda.

Acredito que a Grécia não é o único país que pode aprender uma coisa ou duas com o que essa crise está ensinando. Alguns países da Europa Ocidental e outros mercados desenvolvidos ao redor do mundo estão sofrendo com folhas super alavancadas e estão procurando soluções. Enquanto isso, diversos mercados emergentes estão em melhor saúde do que países desenvolvidos em termos de dívida e crescimento. Na Europa Oriental, por exemplo, a Polônia foi o único membro da UE que conseguiu evitar a recessão durante a crise financeira de 2008-2009.1

Ainda que a Europa Ocidental ainda seja muito maior do que a Europa Oriental, acredito que a parte oriental possui a vantagem de começar de uma baixa base econômica e, assim, poderia ver tendências mais fortes de crescimento e esforços de reforma. A austeridade necessária vai, sem dúvida, ser dolorosa para alguns países europeus, mas iria forçar países mais fracos na região a arrumar a sua própria casa. Tanto os países europeus orientais e ocidentais possuem grande potencial de cooperar e conquistar melhores resultados econômicos para todos. O Ocidente pode investir no Oriente e o Oriente pode oferecer ao Ocidente produtos de baixo custo e oportunidades de investimentos, assim como mercados expandidos.

Crises podem oferecer barganhas

A Europa está experimentando a crise econômica, mas eu acredito que é importante não abandonar a Europa e, em vez disso, buscar por barganhas de investimento que aparecem por conta da crise. Ao mesmo tempo, acredito que é importante para todos os investidores conseguirem se diversificarem globalmente. Evidente, estou particularmente interessado em mercados emergentes, uma vez que mercados emergentes representam agora 1/3 da capitalização dos mercados de ações. Por conta das boas projeções de crescimento em vários países emergentes, combinadas com as populações jovens e, de maneira geral, melhor relação de dívida com o PIB do que em vários países desenvolvidos, acredito firmemente que tais mercados não devem ser ignorados como uma opção global de diversificação. As preocupações e a incerteza devem provavelmente continuar a criar alguma angústia no mercado global, que pode esbarrar nos mercados emergentes, mas conforme notado anteriormente, vejo incerteza como oportunidade. Vemos, até, algumas marcas de mercados emergentes comprando ativos na Europa por preços de barganha e aumentando a sua presença global.

Alguns investidores parecem ver os mercados emergentes como algo “arriscado demais” pelo o que estão acostumados, mas a experiência na crise da Zona do Euro oferece um forte exemplo de que não existe investimento sem risco. Recentemente, banqueiros europeus me perguntaram sobre a governança corporativa em mercados emergentes, sugerindo que eles acreditam que o tema é bem fraco. A minha resposta foi que a governança ruim pode ser encontrada não apenas em mercados emergentes, mas também na Europa e nos Estados Unidos. Engasgos foram ouvidos na audiência. Expliquei que, ainda que há problemas únicos para cada mercado, a governança corporativa pode ser boa ou ruim em qualquer lugar do mundo. Por exemplo, há empresas dos Estados Unidos nas quais os fundadores podem tomar decisões de bilhões de dólares sem se consultar com qualquer conselho executivo. A governança corporativa é algo que nós sempre precisamos estar vigilantes na nossa busca contínua, vendo cada empresa individualmente, na busca por oportunidades de investimentos.

Dito tudo isso, não estou muito preocupado com as perspectivas de longo prazo para a Europa, mesmo com a incerteza atual. É claro, que a Europa e os EUA entrando em recessão, é provável que tenha um efeito dominó em todos os mercados. Não acredito que isso deve acontecer, contudo. Um fator crucial que eu venho observando é o valor das moedas. Do meu ponto de vista, o Euro tem se mantido relativamente bem pela crise; por enquanto, não caiu dramaticamente e se manteve sobre o seu preço inicial em 1999.2 Isso significa que alguém tem confiança no potencial da Zona do Euro, assim como eu tenho!

 

1.Fonte: CIA World FactBook, May 2012.

2. Fonte: Banco Central Europeu. O preço de fechamento do Euro em 4 de janeiro de 1999 foi de 1,1789 dólar.

Comentários (0) 

  • Termo de uso | Comentários sujeitos a moderação
Expandir todos os 0
Editora Abril

Copyright © Editora Abril - Todos os direitos reservados