Blog do Mark Mobius

11.06.2012 - 16h25

Os desafios reais para o Brasil

Brasil, o “B” na entidade formada por mercados emergentes conhecida como os países “BRIC” (Brasil, Rússia, Índia, China), entrou naquilo que eu posso descrever com franqueza como o difícil caminho do crescimento lento. Desde a minha última atualização sobre o Brasil, o país está enfrentando desafios econômicos acentuados que ameaçam a sua posição competitiva.

Em 2011, o crescimento no Brasil caiu para 2.7% depois de ter registrado 7.5% em 2010.1 A crise na zona do Euro e o impacto de um Real mais forte na competitividade da indústria brasileira são parcialmente responsáveis pela redução no ritmo do crescimento. Fatores como uma moeda forte, a falta de recursos humanos em áreas de alta tecnologia e a resistência de permitir a importação de materiais estratégicos podem estar colocando o Brasil em posição perigosa de perder o seu diferencial competivivo.

Apesar do crescimento em ritmo menor, o Brasil vem aproveitando um boom nas exportações, auxiliado pela demanda da China pelos commodities brasileiros e pelas políticas monetárias expansionistas dos Estados Unidos e outras nações desenvolvidas. Ainda que a combinação ideal de preços globais maiores e maior demanda ajudaram a fomentar a compra de commodities brasileiros, a exportação de produtos manufaturados sentiu impactos negativos por conta do Real mais forte e o crescimento nos custos com a força de trabalho, o que tornou mais difícil a competição contra outras economias em mercados emergentes.

A boa notícia é que os políticos brasileiros estão atentos aos novos desafios e parecem estar levando a economia para a direção correta.

 

Com o objetivo de estimular a economia, o Banco Central do Brasil decidiu, em abril, reduzir a sua taxa de juro de curto prazo, a Selic, em 75 pontos base para 9%. Desde agosto de 2011, a taxa Selic foi cortada em mais de 350 pontos base.

Além de tais medidas, o Banco Central também aumentou a intervenção no mercado de câmbio para ajudar a diminuir o valor do Real, e aumentou os controles sobre a entrada de capital. O governo brasileiro também tem criado uma série de ações para apoiar a exportações de bens manufaturados. Entre elas estão incluídas várias reduções de impostos, incluindo a eliminação da taxa de 20% sobre a folha de pagamento para fabricantes que dependem de mão de obra intensiva como peças de carros, têxteis, plásticos e calçados. A oferta de financiamento do banco estatal para desenvolvimento, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), foi reforçada para permitir mais crédito em taxa abaixo do mercado ou períodos diferentes de prazo. O BNDES é a principal fonte de financiamento de longo prazo no Brasil e oferece às empresas exportadoras linhas preferenciais para exportação.

Para ajudar a minimizar a perda dos impostos das medidas de apoio para a manufaturas, o governo anunciou a criação de novas taxas em outros setores específicos. Os importadores serão taxados em valores maiores do que os produtores domésticos. De maneira geral, o total de impostos no Brasil em porcentagem perante ao Produto Interno Bruto é relativamente alto e vem crescendo. Acredito que a alta taxa combinada como um sistema fiscal complexo cria um entrave à produtividade. Para aumentar a produtividade, acredito que o Brasil precisa limitar os aumentos nos custos trabalhistas, melhorar a infraestrutura e a educação, reduzir a burocracia e aumentar a flexibilidade no mercado de trabalho.

Mais do que isso, acredito que há a necessidade do governo de reduzir os seus gastos e se focar mais em investimentos. No mundo ideal, deveria se focar nas reformas e concessões para aumentar os investimentos, altamente necessários, para o país. Ainda que o corte de impostos seja bem-vindo, deve ser feito de maneira linear e não apenas para indústrias selecionadas. Por fim, acredito que a estratégia ‘mãos na massa’ do governo para a economia gera mais danos do que benefícios já que aumenta a incerteza sobre as regras e também a volatilidade cambial.

Do lado positivo, acredito que o governo percebeu que não pode realizar todos os investimentos sozinho e quebrou um tabu no partido da presidenta Dilma Rousseff ao começar a privatizar aeroportos. Ao mesmo tempo, reformas foram aprovadas para diminuir o peso das generosas aposentadorias dos funcionários públicos. Ainda que os novos esquemas de aposentadoria só funcionem para os novos funcionários públicos, acredito que é uma iniciativa positiva.

Apesar de todos estes desafios, a minha equipe de pesquisa e eu continuamos a gostar das perspectivas de investimento em longo prazo no Brasil. É, de longe, o país mais populoso da América do Sul, o que significa renda crescente e aumento no padrão de vida de uma população jovem e trabalhadora, o que tem o potencial de incentivar o consumo doméstico. Particularmente, gostamos dos setores de energia, financeiro e de matérias-primas. Se tais tendências continuarem, o crescimento lento no Brasil pode se tornar um boom de avanço no futuro.

 

 

1. CIA – The World Factbook, 3 de maio de 2012.

 

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