Em 2011, as percepções a respeito da composição da economia mundial passaram por uma mudança radical — ao invés de os Estados Unidos serem considerados como o principal motor de crescimento do mundo, os investidores começaram a perceber que grandes economias emergentes como a China e a Índia estavam aumentando a sua contribuição para o PIB global.
Enquanto os EUA viam o rebaixamento da sua nota de crédito em longo prazo em agosto e a zona do euro foi o centro de preocupações cada vez maiores sobre a dívida interna por um longo período do ano, algumas economias emergentes viram crescimento positivo em 2011.
Mas isso não significa dizer que não houve desafios. Na medida em que a maior parte das nações desenvolvidas continua a implementar políticas monetárias muito frouxas e inundou o sistema financeiro global com liquidez, diversos países emergentes tiveram que lidar com preços mais altos para bens e serviços, com valorização de suas moedas e, em alguns casos, inflação “importada”.
Na batalha deles contra a inflação alta, diversos bancos centrais de mercados emergentes começaram a adotar aperto nas políticas monetárias em boa parte do ano, o que gerou preocupações nos investidores em relação às perspectivas de crescimento econômico.
De fato, o ritmo acelerado de crescimento de economias como a China e outros países emergentes da Ásia e da América Latina diminuiu um pouco com o passar do ano, mas para nós eles parecem destinados a ter uma ‘aterrizagem’ muito mais suave do que as suas contrapartes de mercados desenvolvidos.
Preocupações também surgiram durante o ano sobre o impacto do ritmo menor de exportações nos mercados emergentes por conta do crescimento reduzido em parceiros de negócios como os Estados Unidos e a Europa. No entanto, a forte demanda interna foi um fator fundamental para a expansão em alguns desses mercados, em especial na Rússia, na Turquia e na Ásia, com as exportações entre diferentes emergentes assumindo também um papel maior em fomentar o crescimento.
Esta dinâmica ressaltou as forças fundamentais do mundo emergente, no qual diversos países possuem relação baixa entre dívida e PIB e reservas maiores do que várias das nações desenvolvidas.
Os títulos dos mercados emergentes não ficaram imunes à volatilidade que afetou o mercado global de ações em 2011. A turbulência começou no início do ano com a agitação política no Norte da África e no Oriente Médio, a chamada “Primavera Árabe”, que culminou com a queda de regimes antigos e com o crescimento exponencial das incertezas, o que colaborou para a alta nos preços no mercado de petróleo e gás.
O Japão então sofreu o maior terremoto já registrado, seguido de um tsunami e de um acidente nuclear, o que gerou declínios agressivos no mercado global de ações. Durante a segunda metade de 2011, preocupações com a dívida soberana significaram um sentimento global esperando o pior e a aversão ao risco atingiu um novo pico. Esse movimento gerou a retirada de recursos de títulos de emergentes para ativos que a maior parte dos investidores consideram mais seguro, como títulos dos EUA ou dinheiro vivo.
Com o ano próximo ao fim, os políticos europeus tomaram passos concretos para resolver a crise de dívida da região. Além disso, os investidores começaram a reconhecer a força dos resultados corporativos nos EUA e a China tomou a decisão de caminhar rumo a uma política monetária com mais estímulos, algo que não acontecia há três anos.
Estes passos restauraram a confiança dos investidores até certo ponto, mas os mercados emergentes como um todo ainda assim fecharam o ano com declínios em dígitos duplos.[1] As maiores quedas foram registradas em países como Egito, que teve agitação política durante a maior parte do ano, além de mercados do leste europeu – como Turquia, Hungria e Polônia, afetados por preocupações regionais- e a Índia, que passou por uma série de apertos na sua política monetária na batalha do banco central contra a inflação crescente.[1]
Contudo, alguns mercados emergentes selecionados tiveram desempenho consideravelmente melhor, notadamente aqueles no sudoeste asiático como a Indonésia, que fechou o ano com sinais positivos, assim como a Malásia, Filipinas e a Tailândia.[1]
Previsão para 2012
Por mais que várias economias desenvolvidas estejam ainda enfrentando preocupações por conta dos níveis da dívida soberana, diversos países emergentes são caracterizados por altas taxas de crescimento, relação baixa entre dívida e PIB e com boas reservas de moeda estrangeira.
Nós acreditamos que esses pontos fortes devem continuar nos próximos meses e anos no futuro e, com o tempo, eventualmente vão ser refletidos nos ganhos e nos preços das ações de corporações oriundas dos mercados emergentes.
Com a expectativa de um crescimento mais baixo nos mercados desenvolvidos e repleto de desafios fiscais, nós acreditamos que a demanda doméstica em vários países emergentes vai desempenhar um papel ainda mais importante nas suas perspectivas de crescimento futuro. Boa parte do avanço no consumo doméstico pode ser motivado pelo aumento na renda e pelo amadurecimento de uma população jovem e trabalhadora.
Com o passar do tempo, alguém pode apontar o risco de alta inflação — apesar de a inflação estar relativamente baixa em diversos países emergentes, ela subiu fortemente durante 2011.
Recentemente, a inflação diminuiu um pouco de ritmo em algumas nações, permitindo que elas adotassem uma política monetária mais focada em estímulos. Brasil e Indonésia, por exemplo, já reduziram a taxa básica de juros e a China diminuiu os requerimentos de reservas aos bancos, algo que não acontecia desde 2008.
Esta tendência pode continuar em 2012, uma vez que, em um ambiente de crescimento global diminuindo e menores pressões inflacionárias, os mercados emergentes mudarem a sua atenção para estimular o crescimento econômico. Os governos também vão precisar formular políticas apropriadas para gerar mais empregos e combater a desigualdade.
Outro risco é a volatilidade do mercado. Sempre haverá fatores que não foram previstos e circunstâncias que podem se tornar catalizadores de mudanças ainda maiores no cenário global, como nós pudermos ver nos eventos do ano que acabou de terminar.
Nós não podemos exatamente prever quando a próxima correção de mercado vai nos atingir ou quão grande ou pequena será, mas nós podemos nos conscientizar que a volatilidade do mercado veio para ficar. Apesar disso, com cada crise chega também uma oportunidade potencial. Logo, nós continuamos a investir em companhias com bons horizontes de longo prazo, fundamentalmente fortes e crescendo, e aquelas que nós acreditamos que podem enfrentar tempos difíceis.
Ao olhar a situação por uma perspectiva de longo prazo, nós continuamos a ter uma visão positiva das economias emergentes. Na nossa opinião, equilibrar crescimento, inflação e competitividade global será um desafio constante de vários países emergentes nos próximos meses que virão. Nós acreditamos que os mercados de ações dos emergentes podem ser muito maiores do que são hoje e, no longo prazo, o valor deles combinado tem potencial para superar o valor dos mercados de ações dos EUA, do Japão e da Europa.


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O americano Mark Mobius, um dos investidores mais respeitados do mundo, é o chairman executivo do Templeton Emerging Markets Group.
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