21.12.2011 - 16h43

URSS, Coréia do Norte, Cuba e o que alguns chamam de “sonho socialista”

De alguns anos para cá, graças a umas poucas fotos e seqüencias de televisão,  pudemos ter pelo menos uma vaga  noção a respeito da Coréia do Norte.  Com a morte de  Kim Jong-il e a confirmação de seu  filho para o comando do país,  mais algumas imagens  e informações fragmentárias chegaram ao Ocidente.

Pelas  informações eu passo batido, pois não sei que valor têm.  Pelas imagens, devo confessar que  tenho um enorme interesse.

Se  a frase acima levou o leitor  a me imaginar decifrando a alma de um país distante  através de  fotografias, apresso-me  a esclarecer que não se trata disso. Não sou  possuidor desse  ou de qualquer outro dom misterioso. A  alma que eu tento decifrar não é a dos norte-coreanos, é a nossa mesmo: a dos brasileiros, ou dos latino-americanos, como queiram. A alma de uma parte ponderável da nossa juventude, especialmente.

Junto com Cuba, a Coréia do Norte é o que sobrou do antigo sonho socialista (leia-se: marxista-leninista).

Do ponto de vista econômico, a situação da Coréia do Norte deve ser parecida com a de Cuba. O que a torna diferente é o seu poder de chantagem. Rigorosamente militarizado, o país tem um programa nuclear (sabe Deus em que estágio) e uma razoável capacidade para disparar mísseis de médio alcance. Disto sabem muito bem os coreanos do Sul e os japoneses.

Sim, a Coréia do Norte é um país paupérrimo, e a pobreza obviamente reforça o seu jeitão macabro. E a Alemanha Oriental, na antiga e orgulhosa Prússia, tinha um jeito alegre e jovial? Outro dia eu falei sobre o filme “A vida dos outros” e me perguntei por que  os jovens que ainda cultivam o mito da revolução não se munem de coragem para assisti-lo.  De coragem e de honestidade intelectual para refletir sobre ele.

Volto, porém, às fotos e imagens de TV. E ao que chamei de velho sonho socialista. Olho de novo a foto do jovem Kim Jong-un em uniforme militar, tento imaginar o cotidiano da sociedade que ele de um jeito ou de outro encarna, e  me pergunto: ainda há no mundo alguém capaz de se inspirar nisso?

Estarei por acaso forçando a barra? Minha indagação é capciosa? Duas interpelações eu antecipo sem nenhuma dificuldade.  A  primeira: “a Coréia do Norte pode não inspirar, mas por que você não fala de Cuba?”

De Cuba eu não  tenho falado porque não vejo necessidade.   Temos tido muitas notícias de lá, e aqueles a quem Deus aquinhoou com a virtude da paciência podem até entrar no site do Granma, o órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista cubano. Os textos que ele imprime não estão em coreano, estão em espanhol, e o próprio governo já desistiu de fazer segredo. Diz para quem quiser ouvir que a situação da ilha é catastrófica.

Segunda interpelação: “nenhum ‘caso concreto’ invalida o sonho socialista. Você está falando do ‘socialismo realmente existente’, não do socialismo como sonho, teoria e projeto histórico”.

Isso é verdade: falei de dois “casos concretos”. O sonho, a teoria e o projeto  surgiram em meados do século 19: cerca de 160 anos atrás. Levado à prática , a ferro e fogo, o projeto transformou a URSS numa grande potência militar. Finda a guerra de 1939-45, a URSS logo atingiu a paridade com os Estados Unidos em capacidade destrutiva e dominou direta ou indiretamente quase metade do planeta.

Chegou até à insensatez  – vejam só – de atender  a um desatinado pedido do companheiro Fidel Castro: instalou mísseis com ogivas nucleares em Cuba. Mas, como diz o conhecido refrão, o mundo roda e a Lusitana voa. Ao completar  75 anos, a grande potência não se agüentava mais. Desmoronou como um castelo de cartas.

E sobre a teoria e o sonho, que posso dizer neste exíguo espaço? Não muito, evidentemente, mas o meu desejo, de qualquer forma, é tocar só em dois pontos.

Vladmir I. Lênin podia ter mil defeitos, mas tinha duas grandes qualidades: dizia o que pensava e escrevia com uma clareza de dar inveja.  Após a Revolução de 1917, com a experiência  que havia adquirido em debates com os socialistas na Rússia e fora dela, ele logo avisou, curto e grosso: a teoria é uma só e a interpretação correta é a do Partido.  Doa em quem doer.

E, de fato, doeu em muita gente. Morto em janeiro de 1924, Lênin não chegou a ver  em quanta gente, mas realmente não foi em pouca. Em todos os “casos concretos” do “socialismo realmente existente”, sem exceção, o partido e a polícia política desenvolveram técnicas assaz eficientes para impedir discordâncias teóricas ou oníricas.

Meu segundo e último ponto é sobre o lugar da psicologia na teoria marxista. Há nela um axioma  não-escrito que ao fim e ao cabo se revelou mais importante que a maioria dos axiomas escritos que a compõem. Ele diz que, do ponto de vista psicológico, os líderes marxistas são inteiramente homogêneos. São todos iguais, rigorosamente equivalentes – e admiráveis. Nenhum é maluco, mau caráter ou paranóico.  Todos altruístas, fortes, destemidos, equilibrados etc.

Este pilar não-escrito da teoria  nenhum marxista de destaque jamais conseguiu questionar…e permanecer no partido. Lênin, se não tivesse falecido, talvez o fizesse. No leito de morte, ele redigiu e deixou com sua mulher o que veio a ser conhecido como seu “testamento”. Era para ser lido no próximo congresso do PC.

Nesse documento, Lenin fazia uma recomendação ao mesmo tempo grave e enfática: o partido precisava tirar Stálin da Secretaria Geral – a posição de poder em que ele se abotoara. No lugar dele, era imprescindível – vou citar literalmente – colocar alguém “mais tolerante, mais leal,mais cortês, que tenha mais consideração pelos camaradas, que seja menos caprichoso etc”.

Para bom entendedor, pingo é letra.

21.11.2011 - 21h11

Rebeldes sem causa (II): sem trocadilho, a rebeldia estudantil tem causas?

Retomo hoje, a contragosto, o tema que iniciei no dia 09.11: as recentes manifestações e o comportamento dos estudantes da USP.

Para quem não teve oportunidade de ler o post anterior, faço um breve resumo. Por um motivo totalmente fútil, os estudantes armaram um fuzuê e se viram na necessidade de aumentá-lo cada vez mais para tentar revesti-lo de alguma seriedade.

Foi assim que o micro-assunto da maconha se transformou num protesto contra o que eles denominam “militarização do campus”, e por esse caminho chegaram à convocação de uma greve. Nessa escalada eles invadiram o prédio da Reitoria, desobedeceram à ordem judicial de desocupação e disseram-se afrontados por serem levados a uma delegacia e indiciados.

Nos últimos poucos dias surgiram indícios de que alguns deles talvez queiram ir mais longe, recorrendo a táticas para as quais infelizmente só há um nome: violência.

Esses a que me refiro – queira Deus que sejam uma pequena minoria -, alegando que a assembléia votou pela greve, começaram a entrar em algumas salas com o objetivo de impedir a continuidade de aulas em andamento. É óbvio que a esta altura já estamos falando de pressão violenta. De pressão, não, porque toda pressão violenta pressupõe um ânimo violento. Falhando a pressão, o que vem em seguida? Uma retirada pacífica?  Ou a violência física? Qualquer que seja a resposta, está claro que a liberdade e a autoridade do professor não lhes interessava a mínima.

Não é necessário muito esforço para se perceber a sensação de impunidade que permeia esses fatos. A que se deve tal sensação? Esta pergunta talvez nos leve à raiz dos problemas; raiz, apresso-me a acrescentar, no que se refere aos estudantes: não quero dizer que eles sejam a única parte errada no panorama universitário de São Paulo, ou do país.

A que, repetindo, se deve tal sensação de impunidade? De imediato, ocorrem-me duas hipóteses, não mutuamente excludentes.

A primeira é paradoxal: a mencionada minoria de estudantes parece ter perdido o senso das coisas não por estar amargando os horrores de uma péssima universidade e de um regime político idem, mas pela razão oposta. Matriculada na melhor universidade da América Latina e nela estudando sem nada pagar, ela subitamente começou a se sentir “poderosa” e   se arrogar direitos que decididamente não figuram no Direito positivo brasileiro.

A segunda hipótese é menos intuitiva, mas quiçá mereça discussão. Não será um surto de romantismo político, esse comportamento que estamos testemunhando na USP?

Por romantismo político eu entendo uma mescla de atrevimento com uma auto-imagem “revolucionária”. Um estado de alma meio fora do mundo; um desejo de suspender as rotinas e convenções sociais e fazer algo radical. Um desejo de instaurar um mundo novo, com o qual possamos nos identificar plenamente.

Eu não sei se o romantismo político tem componentes psicológicos – esta parte eu deixo para os especialistas. Mesmo que tenha, eu acredito que em certas situações – no serviço militar, ou num emprego que não queira perder de jeito nenhum – o romântico refreará seus arroubos.

Seja como for, aqui me refiro a uma condição objetiva. Além de favorecer certa arrogância, a condição estudantil acima descrita não seria também propícia ao romantismo?

Para reforçar esta hipótese, pensemos na memória e na experiência política dos alunos que andaram forçando professores a interromper aulas. Que idade têm os mais velhos dentre eles? Vinte e três, vinte e cinco?

Pensem bem: nós estamos em 2011; a campanha das Diretas-Já esses moços só devem ter visto, se é que viram, em vídeo. Do que foi o regime militar, eles não fazem a menor idéia,  e  o pré-64 para eles deve ser uma espécie de pré-história.

Longe de mim querer fazer o gênero “mais velho”, com aquele discurso “condescending”. Não mesmo. Quero apenas dizer que esses estudantes estão tentando formar sua identidade política dentro de um prolongado vácuo; do tédio, da falta de excitação e heroísmo de uma “mera” democracia estável. “O que pode haver de pior”, devem alguns deles se perguntar.

Minha crença nas duas hipóteses expostas decorre de um fato muito simples: não consigo imaginar outras. O que mais poderia ser? Seriam esses jovens violentos por natureza? Não creio. Seriam fascistas? Eu quero ser a última pessoa no planeta a acusá-los disso.

Seria marxismo, ou uma particular vivência do marxismo? Mas o que sabem eles de marxismo – ou dos países que padeceram (dois ou três ainda padecem) sob regimes marxistas?

09.11.2011 - 18h40

Rebeldes sem causa: reflexões sobre as recentes manifestações estudantis na USP (I)

Dias atrás, ao serem retirados da reitoria da USP,  alguns dos estudantes que a haviam ocupado ensaiaram uma triste evocação dos movimentos estudantis de outras épocas. Disseram –não sei se exatamente com estas palavras – que a universidade voltara a viver sob uma ditadura.

Depois que o sindicato dos funcionários pagou a fiança e a polícia liberou os 73 detidos,  alguns dos centros acadêmicos da universidade convocaram uma assembléia para deliberar sobre o que denominaram a iminente  “militarização da segurança da universidade“.

Convenhamos: talvez por estudarem na melhor universidade do país, esses rapazes e moças às vezes fazem pouco da inteligência alheia.  A desocupação da reitoria – isto ninguém ignora – foi uma operação policial, e operações policiais têm como pressuposto o uso da força; e foi uma operação policial porque eles  recorrendo à força, haviam ocupado um próprio público e em seguida se recusado a obedecer à ordem judicial de desocupação.

Longe, portanto, de configurar uma ditadura, o que o episódio indica é que existe no Brasil uma democracia em efetivo funcionamento. Nesse regime, todos nós – dentro e fora da universidade –  temos direitos iguais e estamos igualmente obrigados  a observar  determinados limites de comportamento. O Estatuto da universidade não confere “direitos” especiais aos estudantes, e nem seria concebível que o fizesse, uma vez que acima dele existem as leis estaduais e a  Constituição Federal.

UMA REPÚBLICA ESTUDANTIL, COM LEIS PRÓPRIAS?

O segundo ponto que me proponho comentar é tão óbvio quanto o anterior, mas às vezes o óbvio precisa ser dito. Como foi amplamente divulgado, o que deflagrou o episódio da USP  foi a detenção pela PM de dois estudantes que fumavam maconha. Nada a ver com questões ou princípios relevantes para a instituição universitária. A mobilização estudantil deveu-se por conseguinte a um motivo fútil, ou quem sabe pior que isso: numa suposição inconsciente mas nem por isso menos estapafúrdia de que a condição universitária de certa forma implicasse a descriminalização do  consumo de drogas. Este permanece interditado para os cidadãos em geral, mas não para os estudantes, que a esse respeito teriam um status jurídico diferenciado.

Mas o motivo, valha a redundância, é apenas o início da história. Em relação a movimentos estudantis, ninguém ignora que a participação nas assembléias é extremamente baixa, que há uma chance elevada de os participantes de hoje serem os mesmos de ontem e, não menos importante, de serem muitos deles militantes dos partidos de extrema esquerda.  Isto obviamente  não configura ilegalidade alguma, mas suscita algumas indagações importantes.

Por que os estudantes universitários – e aqui não me refiro só aos da USP – até hoje não adotaram, em proveito da transparência e da democracia, os procedimentos de discussão e votação universalmente conhecidos, e usados pelos mais diversos segmentos e até em reuniões de condomínio?  Sem um mínimo de formalização, é inevitável que a representatividade de suas assembléias seja posta em dúvida.

A ocupação da reitoria da USP foi decidida por cerca de 500 estudantes, num total de 80 mil. Terão os 79.5 mil ausentes implicitamente concordado com tal decisão?  Os que não compareceram à assembléia foram devidamente convocados e previamente informados da pauta a ser discutida? As discussões e votações  foram conduzidas com clareza e imparcialidade?

01.11.2011 - 18h26

Diferenças salariais inaceitáveis entre homens e mulheres: eis um bom retrato do atraso brasileiro

Poucos temas têm uma radioatividade comparável ao das diferenças entre homens e mulheres em distintas atividades. Talvez tenha sido sempre assim, mas atualmente todo cuidado é pouco. Nesta era do “politicamente correto”, qualquer deslize pode ser fatal.

O que me trouxe o assunto acima à mente foi uma curiosa coincidência: eu ter feito hoje duas leituras bastante díspares, diria mesmo opostas e antagônicas. A primeira foi de um texto que  eu  havia lido algum tempo atrás, e que muito apreciei; a segunda, que deixo para comentar depois, foi uma matéria enviada de Nova York pelo jornalista Gustavo Chacra, correspondente do Estadão.

O autor a que me referi  parte da premissa de que o segredo e a diligência são essenciais ao bom exercício de funções de governo. Daí se segue – ele assevera – “…que as mulheres, sendo por natureza indolentes e incapazes de guardar segredos, geralmente não se saem bem em cargos públicos”. Para reforçar seu ponto de vista, ele lembra que as mulheres são frequentemente reféns de suas emoções, o que as faz perder o senso da razão e da justiça”.

Ponderado, ele lembra que toda regra comporta exceções, e “…esta era em que vivemos é pródiga em exemplos femininos positivos”. Apesar disso, ele reitera que “… as mulheres são frágeis, carecem daquele vigor masculino imprescindível na administração pública, isto sem mencionar que elas raramente conseguem governar sem apelar para uma exploração baixa de sua condição feminina, ou sem cometer atos de injustiça e crueldade, frutos de sua desordenada subordinação às emoções”.

Meus eventuais leitores e leitoras com certeza já perceberam aonde eu pretendo chegar. Alguns séculos atrás, a ascensão ocupacional das mulheres esbarrava em preconceitos não só arraigados, mas generalizados, tanto assim que um homem como Armand-Jean du Plessis, homem da Igreja e do Estado francês, também conhecido  como Cardeal Richelieu, não se pejou de escancarar o que pensava a respeito em seu Testamento Político.

Mas isso não impediu que, decorridos quase quatro séculos, a França fosse o país admirável que é hoje, com relações de gênero muito mais  igualitárias que o Brasil. Não impediu – uma leitora muito pessimista poderá objetar -, mas levou quase quatro séculos! Quanto tempo nós precisaremos esperar? Bem, quanto a isto o melhor que podemos dizer é que o tempo atual é mais acelerado; não creio que levemos quatro séculos para atingir uma situação semelhante à dos franceses, mas quem garante que não levaremos um ou dois?

Aqui é que entra a matéria publicada hoje pelo jornalista Gustavo Chacra. O título é curto e grosso: “[O Brasil] é um dos piores do mundo na questão da diferença salarial entre homens e mulheres. Tomando como base um ranking de desigualdade elaborado pelo World Economic Forum, Chacra informa que nesse indicador o Brasil ocupa a 82ª posição. Quando se comparam homens e mulheres que exercem uma mesma função, há casos em que elas ganham a metade do que eles recebem. Neste aspecto, o Brasil ocupa o último lugar na América do Sul. Trata-se, portanto, de um vexame prá ninguém botar defeito.

Os responsáveis pela elaboração do ranking atribuem a má colocação do Brasil na questão salarial a um desempenho muito fraco no combate à desigualdade, e este por sua vez se deveria segundo eles a uma presença muito baixa das mulheres em cargos de direção na política e na economia.

Na política, mesmo com a eleição da presidente Dilma Rousseff no ano passado, o Brasil não aparece entre os cem primeiros colocados. É  o 103º e 111º no que se refere a mulheres em cargos ministeriais e parlamentares, respectivamente – um desempenho considerado péssimo para um país com uma das maiores economias e democracias do mundo.

Agora sou eu que pergunto: temos que receber o recado e ponto final, ou temos algum espaço para nos “defendermos”? Por favor, notem as aspas; longe de mim querer apelar para o verde-amarelismo num assunto tão grave.

Mas acho, sim, que há espaço para dúvidas e talvez até para contra-argumentação no que tange à presença da mulher em cargos políticos elevados e, pois, de forma indireta, sobre a posição brasileira no ranking.  Primeiro, não estou seguro de que o tratamento numérico esgote o assunto. Segundo, além do número e da importância dos cargos ministeriais ocupados por mulheres, creio ser  necessário  levar também em conta a  preponderância do Executivo federal nas estruturas política e econômica brasileiras.

Nos Legislativos, de fato,  os percentuais de participação feminina são baixos, mas a média mundial (algo entre 15 e 20%) também não impressionam.  Nem o crescente recurso a cotas produziu alterações realmente expressivas.

Em altas funções executivas, é a partir de 1964, salvo engano, que as mulheres começam a despontar. Foi naquela década, já no período dos governos militares, que a então deputada Sandra Cavalcanti foi nomeada presidente do recém-criado BNH (Banco Nacional da Habitação) pelo presidente Castelo Branco, e foi durante o governo Geisel que Maria Ester de Figueiredo Ferraz veio a ocupar a pasta da Educação.

Como ministra da Fazenda do governo Collor, Zélia Cardoso de Mello acumulou uma enorme soma de poder na área econômica; no governo Itamar Franco, Luísa Erundina foi ministra-chefe da Administração Federal; no governo Fernando Henrique, Ruth Cardoso não comandou uma pasta específica, mas pôde renovar amplamente a área da política social;  no governo Lula, Marina Silva foi ministra do Meio Ambiente e a própria Dilma Roussef ocupou os ministérios de Minas e Energia e da Casa Civil. Acrescente-se que o terceiro maior orçamento do país, o do município de São Paulo, foi comandado por Luíza Erundina e por Martha Suplicy.

Permitam-me concluir com algumas observações de caráter impressionista. No Brasil, a posição da mulher era realmente de total subordinação até os anos cinqüenta do século passado. No mercado de trabalho, sua presença mais visível limitava-se ao serviço público e ao magistério. Mas a mudança ganhou momentum a partir dos anos 60, tornando-se progressivamente perceptível tanto em termos de vestuário e de comportamento quanto no tocante ao leque de opções profissionais, que finalmente se abriu de forma irreversível.

Naquela década as mulheres começaram a marcar presença nos estádios de futebol; atualmente várias delas atuam no futebol como juízas, e muitas como jogadoras. Muitas têm sido atraídas para a carreira policial, algumas até para a pilotagem de aeronaves.

As observações acima são, como disse, impressionistas. Por si sós elas obviamente não invalidam os dados quantitativos compilados pelo World Economic Forum quanto à presença da mulher em cargos políticos, e menos ainda quanto a diferenciais de remuneração entre homens e mulheres. Mas parecem-me úteis como indicação de que os preconceitos sociais já mudaram bastante, e continuam mudando.

25.10.2011 - 15h14

“A corrupção aumentou monumentalmente”: texto de minha entrevista ao O Globo de 23.10.2011

‘A corrupção aumentou monumentalmente’

Bolívar Lamounier, entrevista a O Globo, 23/10/11

Para cientista político, problema sempre ocorreu, mas foi intensificado no governo Lula, que ‘perdeu o controle’

Tatiana Farah tatiana.farah@sp.oglobo.com.br

SÃO PAULO. Mesmo desfocado e com pouco impacto nas ruas, o movimento anticorrupção no Brasil tem dado um recado claro aos políticos sobre a insatisfação da sociedade com os malfeitos do Legislativo e do Executivo. Esta é a opinião do cientista político e sociólogo Bolívar Lamounier, que critica os que veem um viés de direita no movimento afirmando que, desde os anos 50, os protestos contra a corrupção são chamados de “direitistas”, “udenistas”, “lacerdistas”. “Estão defendendo a Constituição”, diz Bolívar, citando o artigo que trata da probidade do poder público.

Como vê o movimento anticorrupção?

BOLÍVAR LAMOUNIER: Há intensidade no protesto, principalmente na internet. O problema é o que você faz com ele, para onde canaliza o protesto. Se vai à rua contra o ministro que superfaturou, é um protesto contra a Dilma ou a favor? Ninguém sabe. Ela toma providências, então o protesto pode ser interpretado como apoio ao que ela está fazendo. Outros pensam protestar contra o governo. Não há foco.

Acredita que o movimento seja mais contra a política que contra a corrupção?

BOLÍVAR: Exatamente. E este é o lado ruim da história. Política virou um nome feio, no mundo inteiro, e o Legislativo é o nome mais feio. É muito mais transparente, é mais fácil saber o que aconteceu. O Legislativo é o Judas da História. Esse é o mecanismo pelo qual a corrupção enfraquece a democracia. Por infeliz coincidência, estamos tendo no Brasil um Congresso muito medíocre. Nunca vi nada igual. A corrupção aumentou monumentalmente.

Quando? No governo Dilma, Lula, Fernando Henrique?

BOLÍVAR: A afirmação é contundente, mas aumentou no governo Lula. Chegou um número grande de pessoas, não digo que todas mal-intencionadas, mas com pouca experiência política, experiência da máquina, muitas mal-intencionadas. Começou um processo de relaxamento das normas de licitação, contratação e superfaturamento. Lula, que tem 80 qualidades, a meu ver tem uns 60 defeitos. Se tivesse tomado providências no início, logo no caso Waldomiro Diniz (CPI dos Correios), teria controlado 50% do problema.

O governo Fernando Henrique também é criticado no caso das privatizações.

BOLÍVAR: Nada foi provado. Fizeram uma bateria de fuzilamento contra o Eduardo Jorge (Caldas) e não tem acusação contra ele. A mesma coisa contra o Luiz Carlos Mendonça de Barros. O PT, que fazia fiscalização 24 horas por dia no governo FH, não conseguiu provar nada. Não estou dizendo que o Brasil nunca teve corrupção. Isso seria uma bobagem. Estou dizendo que agora saiu de controle. O governo Lula perdeu o controle.

Cidadão está preocupado com gastos públicos

E o governo Dilma?

BOLÍVAR: Vejo a Dilma galopando em dois cavalos. Com um pé ela faz a faxina, e, com outro, agrada à base aliada. Do jeito que está indo, todo mês tem acusação contra alguém. Ela vai lá e faz faxina. O dia em que bater em alguém graúdo do PMDB ou do PT, vai fazer o quê? É capaz de se desmoralizar. O governo tem de mandar para a rua o sujeito com acusações graves e criar mecanismos de reduzir o problema.

Há viés de direita nesses movimentos, como dizem setores de esquerda?

BOLÍVAR: No Brasil existe tradição de rotular todo protesto contra a corrupção como de “direita”. Vem dos anos 50, quando o Partido Comunista e todo o grupo nacionalista, quando começava uma crítica à administração do Getúlio, que era do PSD, diziam: “isso é lacerdismo”, “é udenismo”, “é protesto da classe média moralista”. Eu achava que já tinham esquecido isso, mas não. Eles se esquecem de ler o artigo 37 da Constituição. Ali está escrito que a administração pública se pautará pela probidade, pela impessoalidade e pela eficiência. Protestar a favor da Constituição é ser de direita? Não dá pé, né?

Esta é uma manifestação moralista?

BOLÍVAR: Não tem ninguém propondo ou protestando contra um programa de governo. O problema é a corrupção, que é suficientemente importante. É uma questão moral, é uma questão do uso do seu dinheiro, a carga tributária é muito pesada. É também um protesto de auto-interesse e de cumprimento da Constituição, pela reforma do gasto público. É um protesto moral, mas moralista, não.

O movimento vai evoluir?

BOLÍVAR: Acho que vai permanecer, mas não sei se vai evoluir no sentido de trazer novas bandeiras. Para mim, é irreversível. Está ligado com a consciência tributária do cidadão. Agora, acho que vai crescer e se transformar. Mas precisa achar uma espinha dorsal. Sem bandeiras mais concretas, ele se perde.

A nova classe C está engajada nesse protesto?

BOLÍVAR: O que chamamos de classe C, estatisticamente, corresponde a algo mais que 40% da população. Então, é muito diferenciada internamente. Tenho certeza de que grande parte dela está protestando. Acho que no início foi uma boa idéia dizerem que não querem partidos. Querem caracterizar que é um protesto de cidadãos, de gente que paga imposto. É um movimento predominantemente preocupado com a tributação e o gasto público. A válvula pela qual vem essa ira é a corrupção.

Muitos políticos acham que é um movimento menor.

BOLÍVAR: A mensagem anti-política eles já estão recebendo. A indignação e o ressentimento contra a classe política estão à vista de todos. Basta abrir os olhos. Os políticos demorarem muito a enxergar também não me surpreende. É comum no Brasil.

21.10.2011 - 19h23

Do Maranhão à China via Brasília: três cenas de um descasamento

No tempo em que os animais falavam, os adeptos do marxismo-leninismo  vendiam-no como a ante-véspera da única sociedade verdadeiramente fraterna que o mundo viria a conhecer: a comunista.  Na  URSS, o “homem novo” já estaria começando a surgir dos escombros do tsarismo.

Na Europa, especialmente, alguns dos mais reverenciados intelectuais  rezavam essa litania; das grimpas de seu prestígio,  Jean-Paul Sartre, por exemplo, sentenciou:  “o marxismo é um humanismo”. Nos quatro cantos do planeta, comovidos, milhões de rapazes e moças varavam noites sorvendo toda aquela sabedoria. Para muitos deles,  a relação que aí se iniciava ia muito além de uma compreensão meramente intelectual. Tinha  um quê de religioso. Era como  um compromisso pré-matrimonial que assumiam com o divino e maravilhoso, ainda que as núpcias propriamente ditas  devessem ficar para depois da revolução.

Eu às vezes olho para trás e me pergunto por que não senti de maneira mais direta aquele sopro que os iluminados diziam provir ao mesmo tempo de Marx, de Deus e da História. Deve ter sido porque  a crença de minha geração na vinda do “homem novo”  discrepava bastante de minha avaliação não muito lisonjeira sobre os seres humanos de modo geral.  Mas não descarto que a causa verdadeira tenha sido  a preguiça que me acometia toda vez que eu tentava ler as diversas bíblias daquela religião.

Mas a certeza de que o mencionado casamento acabou de vez  só me chegou agora, nesta semana que  hoje se encerra, devido a três fatos que vou relatar daqui a pouco.  Com toda a água que passou por baixo da ponte nas últimas três ou quatro décadas, a minha aposta é que os jovens vão optar por núpcias menos espirituais  e  aqui neste mundo, deixando o “homem novo” para o outro. Comparado aos três fatos que vou relatar, eu me inclino o impacto da queda do muro de Berlim e do desmoronamento da URSS foi relativamente pequeno.

Vou começar por um fato relativamente folclórico para a nossa conversa não ficar pesada logo no início. Vocês sem dúvida se lembram de que, na juventude, a atual governadora Roseana Sarney  conseguiu (ou quase conseguiu) falar com aquela trindade a que me referi lá em cima: Marx, Deus e a História. Socialista furibunda não me consta que ela tenha sido, mas alguma inspiração de esquerda ela deve ter recebido, quem sabe do próprio pai, cuja extensa carreira política teve início numa ala “progressista” da antiga UDN – whatever that means, como os americanos gostam de dizer.

Pois então: esta semana a governadora enviou à Assembléia Legislativa maranhense, em regime de urgência, um projeto deveras inusitado. Propunha, nada mais e nada menos, a estatização da Fundação José Sarney, entidade criada, segundo as piores línguas deste  país, para cultuar o umbigo de seu (dela) genitor. Eu já ouvi dizer que os deputados maranhenses  estariam entre os mais destacados, altivos e independentes do país, o que me fez temer pela sorte de um projeto de tal relevância. Mas não, uma sólida maioria não só entendeu o objetivo cultural que o projeto visa atender como descartou liminarmente qualquer insinuação de nepotismo. O projeto também me pareceu positivo por uma razão adicional. Não subestimando o valor  que a governadora atribui a iniciativas de ordem cultural, eu não creio que ela vá  liberar sequer um real do erário público enquanto todos os hospitais de seu estado não dispuserem de todos os equipamentos, remédios etc indispensáveis. Neste sentido, a estatização da Fundação José Sarney parece portadora de uma informação alvissareira.

A semana que ora finda teve um segundo fato notável, mas  posso relatá-lo concisamente, para gáudio do leitor.  Refiro-me ao desempenho do  PCdoB no Ministério dos Esportes.  Comandada pelo Sr. Orlando Silva, a brava agremiação vem aplicando os recursos da pasta não só com um notável tirocínio, mas também com uma comovedora fidelidade aos ideais do socialismo.

O tirocínio e a fidelidade aos ideais socialistas demonstrados pelo pessoal do PCdoB receberam um tratamento por assim dizer gráfico num dos grandes jornais de São Paulo. Uma foto estampada na primeira página mostra um campo de futebol  financiado com recursos do Ministério na localidade chamada Novo Gama, estado de Goiás. O piso de terra talvez seja impróprio para a prática do ludopédio, mas essa possível desvantagem é amplamente compensada pela sutil e encantadora  harmonia que mantém com a pobreza do lugar. Traves e redes ainda não se vêem, mas eu sou leigo na matéria; tecnicamente, o correto deve ser deixá-las para a etapa final da construção.

Acima e mais importante que tudo isso, a imagem que eu quis destacar desde o começo é porém a  do garoto que aparece na foto.  Ocupando o primeiro plano  da foto, com o pé direito apoiado numa bola em estado lastimável, mas  suficiente para evocar  uma poses clássicas desse esporte, ele ali nos impressiona como uma efetiva reencarnação do homem novo em pleno Planalto Central.

O terceiro acontecimento que me propus relatar  tem também a ver, e de maneira mais direta,  com o real desenvolvimento de valores de solidariedade nos países socialistas. Vou falar de uma situação ocorrida na China, mas justo agora me ocorreu dizer também algo sobre    um recente número especial sobre Cuba publicado pela Revista de Estudos Avançados da USP. Eu postei aqui um comentário sobre essa publicação algumas semanas atrás. São 15 textos de intelectuais cubanos e um do brasileiro Frei Betto, abrangendo variados aspectos da experiência socialista na ilha. Nem preciso (ou será que preciso?) dizer que todos se derramam em louvores à Revolução, a Fidel Castro e, principalmente, à cultura de fraternidade que o regime teria possibilitado.

No texto de abertura, o professor Aurelio Alonso faz diversas referências à esfera dos valores, ressaltando com bastante ênfase a densidade da ética socialista de solidariedade. Trata-se, segundo ele, de “…uma solidariedade indicativa de valores que só uma sociedade que se libera, no sentido da liberdade, que não é o do liberalismo, pode atingir” (pág.17).

Eu estou me esforçando para não me estender demasiado neste comentário sobre os depoimentos cubanos, mas vou citar um parágrafo do Dr. Alonso  sobre a solidariedade advinda da experiência socialista:

“O ano de 1975 marcou o começo da operação de solidariedade mais significativa e dispendiosa em termos de esforço e vidas jamais protagonizada pela sociedade cubana. Em aproximadamente 12 anos, cerca de 350 mil cubanos passaram por Angola, a maioria como combatentes, todos voluntários. À geração que estava na infância durante o triunfo da revolução coube a oportunidade de participar de uma façanha que acabou com o domínio do regime do apartheid, além de deixar assegurada a independência de Angola e da Namíbia. Aquela resultou ser a missão mais generosa e significativa em que o povo se envolveu entre os anos 1970 e 1980: a de contribuir decisivamente para impedir que a dominação do racismo se perpetuasse no continente africano” (págs.11-12, grifo meu).

Relendo este trecho, não posso deixar de me impressionar com a modéstia – com o understatement, melhor dizendo – do relato do Dr. Aurelio Alonso.  Pelo visto, o envio de tropas a Angola  deve ter sido a missão militar  “mais generosa e significativa”  não só da história cubana, mas da história universal. Em que outro país e em que época jovens envolvidos em gratificantes experiências educacionais ou exercendo ocupações de boa qualidade e condignamente remuneradas deixaram tudo isso e  foram aos quartéis se inscrever como voluntários para acabar com o racismo na África?

Altruísmo dessa qualidade –  nas palavras do autor -  só é concebível numa “sociedade que se libera”, jamais no “liberalismo”. Medra, portanto, naquelas estufas “libertárias” – e aqui eu prefiro empregar a minha própria terminologia-,  naquelas estufas que só regimes fundados no controle total da economia, no partido único totalitário e na arregimentação ideológica são capazes de construir e manter subjugadas por longos períodos.

Não pretendo exagerar; não acho que a organização e os valores macro-políticos de uma sociedade expliquem tudo o que acontece dentro dela. Mas como  será que o Dr. Alonso explicaria o fato que comoveu a China esta semana? “Liberal” a China com certeza não é; e se o “socialismo” (vide o meu parágrafo anterior) facilita o desenvolvimento da solidariedade, naç descabe traçar um paralelo entre as experiências cubanas e chinesa.

A quem por acaso não tenha visto a notícia, informo que na China, esta semana, uma menina de dois anos foi atropelada por dois veículos e ignorada durante 7 minutos por 18 pessoas que a viram e não moveram uma palha para lhe prestar socorro. Finalmente recolhida e levada a um hospital,   ela veio a morrer. O hospital informou que ela sofreu falência múltipla dos órgãos.

Uma matéria da BBC Brasil reproduzida no site da UOL traz este complemento: “O caso, que ocorreu na quinta-feira da semana passada, gerou milhões de mensagens e discussões na internet na China e ao redor do mundo. Muitas delas questionam os valores morais dos chineses. “A sociedade está seriamente doente. Nem mesmo gatos e cachorros deveriam ser tratados dessa maneira”, diz um comentário no microblog chinês Weibo”.

15.10.2011 - 13h22

Três ou quatro coisas que eu sei sobre a democracia representativa; hoje, os ídolos do mercado

No post anterior, ao discorrer sobre os primórdios da democracia brasileira,  eu  me esforcei por defenestrar os ídolos da caverna, aquelas avaliações superficiais, baseadas em meras aparências ou no ouvir dizer. Espero ter liquidado inclusive o responsável pela propagação de um disparate recente, o de que a nossa democracia teria surgido há apenas três décadas e como obra exclusiva de um partido.

Meus adversários de hoje serão os ídolos do mercado: fetiches que disseminam idéias imprecisas, paralelos mal escolhidos e até palavras utilizadas de forma incorreta com o intuito de embaciar nossa reflexão.

Reparem que Bacon e eu empregamos a palavra “mercado” para designar o espaço onde os cidadãos da antiguidade se reuniam para trocar idéias sobre os assuntos da cidade; os gregos diziam “ágora”. Na busca de um conceito consistente de democracia, engajar-se nessas discussões sem ordem equivale a percorrer desatento um trajeto coalhado de cascas de banana, sabendo-se que entre elas há três tipos especialmente escorregadios:

  1. Juízos de valor e visões utópicas: argumentos à primeira vista sedutores, mas carentes de sentido seja em termos puramente lógicos ou por exigirem o que nenhum sistema político e nenhuma sociedade pode  dar;
  2. O problema da “parte pelo todo”: indicações demasiado estreitas ou demasiado presas à realidade de determinados países,  carentes, portanto, da generalidade que nossa reflexão requer;
  3. E a questão especialmente traiçoeira do formal versus substantivo, isto é, de conceitos que pendem demais para o lado formal (das instituições) ou para o lado substantivo (da redução das desigualdades sociais).

UTOPIAS E JUÍZOS DE VALOR DISFARÇADOS

Flagrantemente utópico seria, por exemplo, definir a democracia como uma sociedade totalmente igualitária, fraternal, ética e altruísta. Ou em que as autoridades governassem com vistas exclusivamente ao bem comum; ou como uma sociedade em que todos ou quase todos os cidadãos tivessem plena consciência de seus direitos e os exercessem de maneira efetiva;  em que compreendessem e se informassem regularmente sobre todos os programas e ações do governo; ou em que nenhum eleitor ficasse tiririca da vida ao constatar a vitória de um candidato pouco qualificado.

Para aprimorar um cenário de tantas maravilhas, faltaria apenas substituir os deputados e senadores por um coro de anjinhos acompanhado por duas dezenas de harpas.

Não faz muito tempo, num evento, eu ouvi um ‘gênio’ dizer que toda criação de impostos e alterações de alíquotas deveria ser submetida a plebiscito.

Pelas regras adotadas, eu não podia retomar a palavra; se pudesse, teria observado que imposto se chama imposto exatamente por ser imposto (e não meramente solicitado) pelo Estado, mediante decisões mescladas do Legislativo e do Executivo. Se dependesse da aprovação dos contribuintes, deixaria de ser imposto, passaria a ser voluntário; a denominação exata, nesse caso, deveria ser “Aceito”. Aí teríamos o AR – Aceito de Renda, o API, o ACMS etc etc. O único problema com esse enfoque é que as democracias e os próprios Estados, desprovidos de recursos, deixariam de existir.

No campo político, em particular, há muito nonsense contrabandeado como discussão séria. Um bom exemplo é a sinonímia que muitas vezes se estabelece entre democracia com anarquia. Não estou fazendo blague nem me referindo a cacoete ideológicos de esquerda ou de direita, mas a um caso de pura lambança conceitual.

O problema, neste caso, é uma definição (implícita ou explícita, não importa) de  democracia como uma progressiva dissolução do poder em todas as suas formas: um  amolecimento de todas as hierarquias e um alargamento indefinido da  “base” de uma pirâmide de poder imaginária. A “base” se dilataria graças a um processo infinito de criação de “direitos” sem nenhuma contrapartida em termos de instituições ou instâncias de poder capazes de cobrar efetivamente a observação de quaisquer deveres.

A idade necessária para o direito de voto, por exemplo, foi rebaixada para 16 anos pela Constituição de 1988, mas eu não estranharei se dentro de alguns anos surgirem propostas de rebaixá-la mais uma vez, para 14 ou para 12 anos. Acrescente-se que esse tipo de pensamento geralmente se associa a um desdém pela democracia “meramente eleitoral”; assim, a idéia de rebaixar ainda mais a idade um dia parecerá insuficiente; dir-se-á que a democracia “verdadeira” só poderá desabrochar quando toda a coletividade se mantiver reunida numa  espécie de assembléia permanente, vale dizer, num macro-happening político com autoridade para decidir diretamente sobre todos os assuntos.

Estou aqui resvalando na idéia de democracia direta, tema que espero abordar mais extensamente no quarto e último post desta série. No momento, estou apenas ressaltando que não entendo a  democracia (poder de muitos) como  sinônimo de ‘anarquia’ (ausência de poder). Bem ao  contrário: para mim, a democracia e qualquer ordem política são inconcebíveis onde não exista um Estado (vide Somália).

Estado, neste contexto, significa um poder capaz de arbitrar com razoável neutralidade as disputas, de impor aos contendores  a observação das regras do jogo e, por último, mas não menos importante, de garantir os direitos e a incolumidade física dos cidadãos. Onde não exista um poder central com tais capacidades, haverá ditadura ou desordem, não democracia.

Fantasias à parte, a democracia que conhecemos como realidade histórica não é anárquica (nenhum poder) nem monárquica (um centro único de poder), e sim poliárquica: múltiplos pólos de poder coexistindo em relações mistas de competição e cooperação.

Como qualquer outro, o Estado democrático concentra e exerce uma enorme soma de poder. Quando necessário, ele recorre evidentemente à força; o que o distingue de Estados ditatoriais é que o faz dentro de restrições constitucionais, políticas e até culturais em geral severas.

A PARTE PELO TODO

Outra casca de banana que me parece exigir atenção tem a ver com argumentos demasiado específicos, ou demasiado estreitos.

Considere-se, por exemplo, certas interpretações que se tem dado ultimamente ao critério de gênero, quero dizer, aos direitos políticos da mulher. Há quem diga que 50% das cadeiras legislativas devem ser ocupadas por mulheres. Em princípio eu nada tenho a opor, os meios para atingir tal meta é que merecem um bom debate.

O problema surge quando os defensores dessa tese contestam o caráter democrático de um país que não cumpra na prática a condição mencionada.  Aqui a coisa obviamente complica, pela singela razão de que nenhum país a cumpre. Adotada uma definição desse tipo, esvaem-se numa fração de segundo todos os regimes tradicionalmente conceituados como democráticos.

Estarei exagerando? É possível, mas o que desejo ressaltar é mais a lógica que o conteúdo do argumento. Eu acredito que a democracia brasileira ficaria  mais robusta e veraz se, digamos, as bancadas na Câmara dos Deputados fossem exatamente proporcionais às populações dos respectivos estados;  se adotássemos o voto distrital, puro ou misto; ou se conseguíssemos não só evitar a proliferação, mas reduzir efetivamente o número de partidos políticos. Parece-me entretanto despropositado negar a natureza democrática do regime brasileiro em função da ausência de um ou de todos estes dispositivos que considero desejáveis. Despropositado por se tratar de uma preferência, não de uma unanimidade, e por ser falacioso tomar tais pontos como uma “representação” suficiente do sistema em seu conjunto.

O INSTITUCIONAL E O SUBSTANTIVO

Conceitos, como sabemos, são em grande medida arbitrários; devem ser avaliados em função do objeto a que se referem, isto é mais que óbvio,  mas também à luz de sua utilidade para a pesquisa ou reflexão em que estejamos empenhados.

Na presente inquirição,  é importante distinguir entre os conceitos substantivo e político-institucional da democracia, ou seja, conceitos mais recheados de conteúdos sociais e culturais, de um lado, e conceitos enxutos, centrados nos aspectos constitucionais e no próprio jogo político.

Sem embargo de suas possíveis utilidades, a abordagem substantiva associa-se a alguns graves equívocos, o pior deles sendo provavelmente o discurso da democracia “dispensável”. Refiro-me aqui à logorréia que considera “verdadeira” tão-somente a democracia que realiza (presumivelmente num prazo curto) a justiça social, ou que surge após  um outro regime (ditatorial, evidentemente) que a tenha realizado. Mais que uma conceituação, isso é na verdade uma forma oblíqua de negar o valor da democracia. No folclore político brasileiro tal negação aparece através do   familiar “voto não enche barriga”, mas pedigree europeu é o que não lhe falta, cabendo aqui destacar suas raízes no fascismo italiano.

A crítica do parágrafo anterior à tese da “democracia dispensável” tem sido por sua vez criticada como sintoma de uma visão “meramente formal” da democracia, e até de uma suposta indiferença em relação às mazelas da sociedade. Esse velho exercício  não vale uma nota de três reais.

No Brasil e em toda a América Latina, como ninguém ignora, o regime democrático convive com níveis infamantes de pobreza, desigualdade e  corrupção, mas reiterar isto não valida a tese da democracia “dispensável” nem invalida uma conceituação mais voltada para o aspecto institucional (à qual farei referência um pouco adiante).

Entre nós, com altíssima probabilidade, o resultado de uma eventual “dispensa” do regime democrático seria a superposição de uma ditadura às mesmas desgraças sociais que conhecemos. Nunca é demais lembrar que nenhuma  democracia teve origem em sociedades precedentemente igualitárias;  na Europa e nos Estados Unidos, todas nasceram em sociedades fortemente estratificadas e seu desenvolvimento foi uma das causas, não uma das conseqüências, da expansão dos direitos e da melhoria das condições de vida da maioria.

Não por acaso, o entendimento predominante na literatura internacional da Ciência Política é hoje o de que a  democracia é um regime político, vale dizer, um arcabouço institucional para o equacionamento pacifico das contendas relacionadas à conquista e ao exercício do poder de Estado.

As democracias consolidadas possuem um conjunto de organizações materiais e de regras formais e informais bem estabelecidas, cuja violação implica custos políticos elevados para os responsáveis. Esse conjunto não é fruto do acaso nem de um amadurecimento misteriosamente “natural” da sociedade, e sim de uma construção institucional levada a cabo durante várias décadas, como sugeri no post anterior.

De fato, o funcionamento das democracias modernas – com seus enormes  eleitorados e toda a pluralidade subjacente de interesses sociais e econômicos – depende de complexos sistemas de delimitação, contenção e controle do poder público e de quaisquer organizações ou grupos capazes de influenciar decisivamente as contendas eleitorais ou a tramitação de projetos no Legislativo.

Eis porque – com variações verbais de pouca importância -,  a noção atualmente mais aceita de democracia é a de um sistema no qual o acesso legítimo ao poder político se dá mediante eleições periódicas, limpas e livres e os governos governam e se mantêm responsabilizáveis (accountable) graças a restrições constitucionais, entre outras.

No entendimento acima, a política democrática tem como fundamento a competição eleitoral pacífica entre partidos políticos. O poder é exercido pelo partido vencedor, mas o perdedor têm garantias asseguradas pela Constituição e por uma imprensa livre, entre outros mecanismos,  para atuar como oposição e para  enfrentar de novo o “incumbent” em futuras eleições.

Este é o tipo de conceituação “enxuta” ou predominantemente “institucional” a que antes me referi. Assim definida, a democracia é o (sub)sistema político da sociedade, não o todo que engloba os subsistemas econômico, cultural etc.

ETAPAS E COMPONENTES DA CONSTRUÇÃO

Listo a seguir, de modo esquemático, as principais etapas e componentes de minha visão histórico-institucional da democracia:

  1. A construção do Estado no sentido de uma autoridade central capaz de arbitrar disputas;
  2. A opção constitucional por um regime representativo;
  3. O  paulatino estabelecimento de uma maquinaria legislativa, eleitoral e partidária; isto significa que a “competição  eleitoral” só se configura plenamente onde exista um  “espaço ” regulamentado de luta política, vale dizer, um subsistema representativo, compreendendo todos os  procedimentos referentes ao alistamento, às  votações e respectivas contagens de votos,  à conversão  dos números das votações populares em bancadas legislativas e à diplomação dos eleitos, além, é claro, de um marco jurídico para a formação e atuação dos partidos;  trata-se portanto de um processo histórico extenso e nada  trivial;
  4. A expansão do sufrágio, isto é, a ampliação do corpo de votantes na medida necessária para remover discriminações que o sentimento moral da sociedade passe a considerar injustificáveis e para que o simples volume numérico torne os resultados eleitorais fundamentalmente incertos (isto é, insuscetíveis de controle mediante ações clientelistas privadas ou públicas ou qualquer outra forma de cabal determinação por qualquer dos contendores);
  5. O mútuo reconhecimento de sua legitimidade pelos contendores: a consagração, portanto, na cultura política, da figura da oposição legítima;
  6. A aceitação pelos referidos contendores da competição eleitoral como única via legítima para a conquista do poder”: “the only game in town”, na feliz expressão de Juan Linz;
  7. Um nível adequado de apoio na opinião pública às instituições e às regras do jogo democrático enquanto tais, e não apenas quando pareçam aptas a produzir resultados substantivos tidos como desejáveis pela maioria ou por setores especialmente poderosos.

Frisemos, à guisa de conclusão, que tendo sido “construídas”, as democracias também podem ser (e muitas foram) “desconstruídas”, vale dizer, quebradas ou derrubadas. Fatores externos, econômicos e outros geralmente interferem em tais casos, mas um democratic breakdown pode decorrer tão-somente da obtusidade, intransigência ou radicalização dos líderes políticos. Para tanto, basta a evidência irretorquível de quebra das regras politicamente fundamentais da Constituição; das regras sucessórias, por exemplo.

ANTECIPAÇÃO

No quarto e último texto desta série, tratarei dos “ídolos do teatro”, farei algumas observações sobre “democracia direta” e discorrerei sobre o status atual e a qualidade da democracia no Brasil.

13.10.2011 - 19h24

Três ou quatro coisas que eu sei sobre ela: origens do modelo político representativo no Brasil (2/4)

Atuando como ventríloquo de Francis Bacon, eu ontem recomendei o máximo possível de atenção aos ídolos da tribo, isto é, a certos sentimentos, paixões e preconceitos  comuns a toda à tribo (ou ‘raça’) humana. Sempre à espreita, esses miseráveis dedicam-se full-time a nos turvar a mente, dificultando o nosso empenho em formar conceitos claros e corretos.

Mas engana-se redondamente quem pensa que já podemos abaixar a guarda. O post de hoje é outro combate de vida ou morte, desta vez contra os ídolos da caverna: opiniões geralmente aceitas só porque circulam por aí, passadas de boca em boca;  o saber de orelhada, e sobretudo certas avaliações constituídas a partir de meras aparências, sem um exame aprofundado.

Desta espécie, não há exemplo melhor que a convicção com que se costuma proclamar a inviabilidade da democracia no Brasil. A robustez deste ídolo é notável, mas fitai-o com atenção e logo percebereis que não é tão jovem. Não lhe falta muito para completar dois séculos de idade. Sim, dois séculos, como explicarei a seguir.

Foi de bate-pronto, quase no calor da hora, que se começou a bradar contra o suposto equívoco cometido ao tempo da Independência: a opção pelo regime representativo como princípio constitucional. Dessa época até hoje, centenas de autores ensinaram ao senso comum, ou com ele aprenderam, que o Brasil tinha um encontro marcado com o despotismo político. Esse seria o seu ‘destino manifesto’.

Mas se assim era,  por que então nos empenhamos durante mais duas décadas, até a maioridade do outro Pedro (1840), em reforçar a construção iniciada em 1822? Por que insistimos no “erro” de querer implantar no mataréu tropical daqueles tempos o modelo político monárquico, constitucional e representativo estipulado na Constituição de 1824?

Não podendo dedicar a esta questão o espaço que seria desejável, permito-me aqui sugerir a leitura do primeiro capítulo de meu livro “Da Independência a Lula: dois séculos de política brasileira”.

Na verdade, a indagação acima pode ser respondida com outra indagação: qual teria sido a “boa” alternativa? Não adotar Constituição nenhuma? Adotar uma que meramente reafirmasse o absolutismo em toda a sua extensão, deixando prá lá aquela conversa de “representação”? Seriam tais opções suficientes para dar aos conflitos daquele momento o devido enquadramento? Esta é a questão que 9.5 de cada 10 historiadores evitam como o diabo à cruz.

A resposta que eles tradicionalmente nos oferecem é a das “idéias fora do lugar”. A Constituição e todas as providências tomadas no sentido de reorganizar o sistema de autoridade não seriam mais que um verniz, um tipo de enfeite importado que a elite dirigente da época apreciava.

A corrente marxista sempre se destacou na defesa desse ponto de vista. Para Nelson Werneck Sodré (citado no primeiro capítulo de meu livro), por exemplo, as agitações políticas do período não teriam tido maior importância; foram, no entender dele, “uma pequena pausa na inexorável pressão pelo domínio absoluto da classe proprietária, um rápido hiato, até que ela reorganizasse as suas fileiras…”. Se os conflitos não eram graves, segue-se evidentemente que a reorganização do Estado em decorrência do fim do regime colonial seria por sua vez uma tarefa simples. E nada tinha a ver, segundo ele, com altas abstrações constitucionais. A absorção de alguns aspectos do pensamento liberal  europeu e norte-americano pela elite brasileira nada mais seria então que um “sintoma de inconformismo” (expressão de Sodré), jamais um interesse potencialmente prático.

Noutro livro citado em meu trabalho, Manoel Maurício de Albuquerque parte das mesmas premissas e do mesmo diagnóstico de Werneck Sodré quanto à inexpugnabilidade da classe dominante, que deveria portanto ser capaz de manter o controle da situação “sem obstáculos maiores”.  No entanto, com o correr da pena,  a gravidade potencial de certos acontecimentos acaba se impondo à sua atenção. Ao deparar-se com a conjuntura de 1831, ele avalia que a turbulência atingira proporções consideráveis:

“A abdicação de D. Pedro I colocou diante da oposição vitoriosa as perspectivas ameaçadoras representadas por uma possível anarquia ou ditadura militares (devido à importância que o setor armado tivera naquela decisão do soberano), da proclamação da república como o desejavam setores mais radicais, ou de uma guerra civil que poderia levar à quebra da unidade nacional”.

Pela exposição acima o leitor pode aquilatar quão insidiosa chega a ser a ação dos ídolos da caverna. Quando abrem os olhos, os cultores da tese das “idéias fora do lugar”  percebem – como não poderia deixar de ser -, que as duas primeiras décadas do Brasil independente transcorreram num ambiente tenso, incerto, com elevado potencial de ruptura. Mas esta constatação não lhes aguça o apetite por hipóteses não convencionais. O clima político real era grave, mas o abrandamento do absolutismo teria obedecido apenas ao bovarismo caipira de uma elitezinha que se pudesse pegava o próximo navio para a Europa. A discórdia política pode beirar a guerra civil, mas isso não é problema; na hora H, um Leviatã portando chapéu de palha erguer-se-á do meio do canavial e botará ordem na casa.

Não se trata apenas de constatar a ocorrência de um período conflituoso, pois isso se evidencia na simples cronologia dos acontecimentos, com a Guerra da Independência (1822-23); a convocação da Assembléia Constituinte em 1823, sua dissolução e a outorga da Constituição em 1824; a abdicação (forçada) de Pedro I em 1831; o prosseguimento das rebeliões e o início da maior delas, a Farroupilha, em 1835, e finalmente o “golpe da maioridade”, em 1840, alçando ao trono um adolescente de 15 anos, quando parcela ponderável das forças políticas dominantes se convenceu de que nenhum outro caminho levaria à estabilidade.

Instalados em 1826, a Câmara e  o Senado instituídos pela Constituição de 1824 são a origem da tradição parlamentar brasileira. Os debates desse momento e da década seguinte mostram que os deputados e senadores tinham plena consciência da grave agenda e do turbulento entorno em que o nascente Parlamento iria atuar.

A esta altura o leitor e eu temos direito a uma boa pausa. Reflitamos: o que têm as informações acima a ver com a velha descrença brasileira na democracia? Com nossa tendência a dar de barato que nesta terra os únicos frutos políticos com chance de crescer são o mandonismo e o autoritarismo?

Uma parte da resposta eu explicitei suficientemente. Em relação à conjuntura da Independência, poderíamos facilmente admitir que tudo fosse (ou tivesse sido) resolvido  na base da porrada, mas não foi isso o que aconteceu. A democracia não saiu de lá com duas cabeças de vantagem, mas o que prevaleceu tampouco foi o autoritarismo rombudo que certos historiadores se comprazem em pintar. Com o tempo – e foi preciso muito tempo, isto é certo -, o sistema representativo, aquela idéia tão fora do lugar -, foi deitando raízes.

A segunda parte da resposta é que tivemos duas grandes quebras do regime constitucional – a ditadura getulista e o regime militar de 64 -, além de várias ameaças, mas retornamos, bem ou mal, à democracia representativa.  A estabilização desse modelo político, coisa que meio século atrás ainda parecia delírio, hoje parece razoavelmente assegurada. Eu não acredito em  “destino histórico”; na vida das coletividades humanas, destino é o que elas conseguem fazer; é o que resulta de seus erros e acertos. Mas se eu tivesse que apostar, apostaria na continuidade da democracia, não em outra suspensão demorada, e de forma alguma em sua substituição a título definitivo por um regime autoritário.  Da opção inicial pela representação como princípio constitucional, em 1824, até os dias de hoje, o projeto de um Estado democrático e representativo só foi ameaçado de total erradicação durante a ditadura varguista de 1937-1945. 

Por mais que a vitupere, uma grande parcela, talvez a maioria dos cidadãos intúi que só a democracia pode assegurar de forma contínua a liberdade de cada um, a espontaneidade característica de nossa cultura  e o acesso de qualquer indivíduo ou grupo legalmente habilitado para tal aos diferentes canais de participação política.

Chegamos então ao melhor dos mundos? Temos no Brasil uma democracia impecável, de altíssima qualidade? Vamos com calma. Ninguém aqui falou em qualidade. E se Francis Bacon não o disse, digo-o eu: vamos por partes.

12.10.2011 - 17h25

Três ou quatro coisas que eu sei sobre ela: reflexões sobre a democracia representativa (1/4)

Atualmente, quase toda discussão sobre a democracia emperra já no ponto de partida: na imensa teia de equívocos que cerca o conceito. Percebendo estar a um passo de um labirinto escolástico, o leitor em geral tira o time de campo. Há solução para isso?

Transportemo-nos para um enredo de ficção. Por toda parte, milhares ou milhões de cidadãos mostram-se inconformados com o funcionamento do sistema político de seu país. “Chutam o balde” em toda oportunidade que se lhes apresenta; berram sua indignação a plenos pulmões, e talvez fizessem mais que isso, se soubessem o quê e como. Sua raiva tem muitas causas, mas uma lhes parece especialmente chocante.

É democrático – eles perguntam a todo momento – um país em que um senador ignorante, corrupto e prepotente, eleito por um pequeno estado, exerce uma influência avassaladora sobre seus colegas? Merece respeito uma democracia em que um tipo desses, não contente com desmoralizar o Legislativo,  chantageia o presidente da República em todas as votações importantes? E tudo isso à luz do dia, acintosamente, seguro de que os cidadãos continuarão apalermados e impotentes?

Como assinalei, a situação acima evocada é pura ficção. O senador em questão seria no máximo o Seeb Cooley, personagem interpretado por Charles Laughton em Advise and Consent, um filme de 1962, produzido e dirigido por Otto Preminger. Para mim é um dos melhores no gênero político. No Brasil, se bem me lembro, ele foi exibido com o título “Tempestade sobre Washington”.

Em dois pontos, porém, os parágrafos acima mantêm contato com a realidade que pretendo explorar nesta série de artigos. Primeiro, trata-se da democracia representativa – a única, aliás, de que temos conhecimento na realidade histórica. Segundo, por maiores que sejam os seus méritos, a democracia é rejeitada, senão in totum, pelo menos em alguns de seus aspectos; disto até os avestruzes têm consciência.

A democracia representativa funciona graças a uma engrenagem institucional bastante sofisticada; um encadeamento que começa no momento em que o cidadão comparece ao cartório eleitoral para tirar seu título, prossegue com a eleição, passa pela diplomação dos candidatos eleitos e culmina no exercício por esses dos mandatos populares que lhes foram conferidos.

Podemos também pensar a democracia como um jogo. Como todo jogo que se preza, o jogo democrático tem regras. O legislador eleito para um mandato de “x” anos cumpre aqueles “x” anos, ponto final. Aqui nós já resvalamos no célebre senador por North Carolina, aquele que detestamos, mas não temos como tirar. Se ele obteve votos bastantes para se eleger, aos que não o têm em alta conta só resta resmungar. A menos que alguém dê um golpe e derrube o regime inteiro, o mandato dele está garantido.

O “x” do problema é portanto se o jogo institucional está ou não está sendo jogado. No Brasil, como todos se lembram, esta questão foi posta à prova numa eleição histórica: a de 1974. Estávamos em pleno regime militar, o general Ernesto Geisel havia assumido a presidência um ano antes. O Senado compunha-se à época de 66 senadores, um terço (22) dos quais teriam de enfrentar de novo as urnas a fim de renovar seus mandatos. Para surpresa geral, a oposição, então reunida no MDB (Movimento Democrático Brasileiro), abocanhou 16 das 22 cadeiras.

As especulações pareciam não ter fim: os 16 vão tomar posse? Seus mandatos serão garantidos? O general obviamente não gostou, mas não interveio. Mandou o jogo seguir, favorecendo dessa forma a interpretação de que as instituições não eram totalmente ocas, malgrado o caráter em última instância arbitrário do regime.

Voltando ao nosso hipotético senador – a qualquer um que detestemos -, de fato, ao garantir o mandato o que se valida não é uma prerrogativa pessoal, mas a incolumidade da instituição frente aos outros dois Poderes e a eventuais agressões externas. A incolumidade da Casa está corporificada em cada mandato, vale dizer, na pessoa de cada um que o haja conquistado nas urnas.

Mas é igualmente óbvio que as regras do jogo nem sempre produzem os efeitos que desejaríamos (e aqui eu passo batido sobre esse “nós” implícito, que também é ficção); ao contrário, elas dão margem a muitos efeitos indesejáveis ou perversos. Estes por sua vez dão ensejo a questionamentos que muitas vezes transcendem o motivo específico do descontentamento e atingem o próprio regime democrático.

Nas sociedades ‘primitivas’, os contendores partiam para o enfrentamento físico; um subjugava ou matava o outro. Na democracia, um arranjo  moderno, os enfrentamentos são mediatizados pelo referido jogo  institucional; vencem os que têm mais votos, mais força no partido, mais presença no plenário etc. Os perdedores não são liquidados, pelo menos não fisicamente.

A democracia moderna existe para equacionar pacificamente os conflitos, mas aos olhos do cidadão ela é geralmente portadora da mensagem oposta. É um sistema arestoso, conflituoso e desagregador, com o agravante de ser  quase sempre incompreensível. Confortavelmente instalado à frente da TV, ele não se pergunta se a solução ‘primitiva’ era boa, justa ou natural; ele apenas constata que a ‘moderna’ não é de seu agrado.

Subjacente a essa avaliação parece haver uma necessidade de   acreditar que vivemos em um mundo definitivamente pacificado. O cidadão quer reconfirmar essa impressão a todo momento, e por isso rejeita, screens out, toda indicação que traz desarmonia a suas certezas.

Mas isso não é tudo. Como em qualquer sistema político, também na democracia a participação no processo decisório tem como condição a posse de uma fração qualquer de poder. Poder é capital, e capital precisa ser acumulado, conservado e reinvestido.  Se quer sobreviver na política eletiva, o deputado ou senador precisa estar preparado para um combate diário, e em diversas frentes.  É a luta por espaços na mídia, por um cargo na hierarquia do partido, por um lugar na comissão tal ou qual do Congresso etc etc. A eleição tem um significado decisivo, isto é óbvio, mas  do ponto de vista que ora nos interessa ela é um marco temporal entre outros.

Observe-se que os exemplos acima têm a ver com as atividades-meio da vida política. São, digamos assim, formas exteriores e seccionadas  de um processo muito maior – a aquisição ou acumulação de poder -, sem o qual elas carecem de sentido. Não surpreende que uma grande parte dos eleitores, mesmo nos países desenvolvidos, tenha dificuldade em compreendê-las e tenda a rejeitá-las emocionalmente. Eu me aventuraria a especular que o cidadão comum as abomina tanto quanto ao hipotético senador a que nos referimos momentos atrás, e provavelmente mais que a  logorréia inflamada dos parlamentares quando da votação de projetos importantes.

A esta altura, e muito compreensivelmente, a paciência dos meus leitores deve estar por fio. O objetivo deste post não era iniciar uma série de reflexões sobre a democracia? Que proveito tiramos do que foi dito até aqui?

O saldo talvez seja magro, mas vou destacar dois pontos. Primeiro, eu preferi frisar que a democracia é um regime de instituições, em vez de começar já tentando explicar o conjunto do desenho institucional.

Segundo, eu quis evidenciar como a hostilidade atualmente muito difundida contra a política e os políticos mais dificulta que facilita o esclarecimento conceitual que estamos procurando. Inegavelmente, os antagonismos políticos, ou algumas de suas exterioridades, causam muito desconforto aos cidadãos; para muitos destes, o ideal seria  uma democracia tipo buffet, na qual eles se servissem tão-somente do que fosse de seu agrado.

O mais proveitoso do percurso seguido até aqui talvez seja o balizamento metodológico a que bem ou mal chegamos, cuja utilidade será  evidenciada, espero, nos próximos textos.

Em 1613, Francis Bacon ensinou que o primeiro passo na busca do conhecimento é repelir certos fantasmas (‘ídolos’) que se alojam em nossa alma com o intuito de impedir o nosso acesso à verdade. A historieta do senador e os desdobramentos que elaborei a respeito da aversão  do cidadão comum a certos aspectos da política correspondem bastante bem ao primeiro dos quatro tipos de fantasmas da advertência baconiana – os ídolos da tribo, quer dizer, os sentimentos, paixões e preconceitos  de que somos portadores pelo simples fato de pertencermos à ‘tribo’ (ou à ‘raça’) humana.

Na seqüência, precisaremos nos guardar contra os ídolos da caverna: o senso comum, o saber por ouvir dizer, o juízo formado apenas a partir de aparências cotidianas ou meras convenções familiares e sociais.

Em terceiro lugar, os ídolos do mercado: fetiches que se nutrem do emprego incorreto das palavras ou de idéias imprecisas de que ligeiramente nos valemos  em situações de intercurso público.

E, finalmente, os     ídolos do teatro: a pretensa autoridade de determinados pensadores ou correntes de pensamento que tendemos a aceitar sem maior exame ou em razão de seu prestígio.

06.10.2011 - 16h29

Sobre a democracia, conversando pode ser que nos entendamos; sem conversar é impossível

Por que a vida política brasileira é tão frustrante? Por que avançamos tão pouco na construção de uma democracia séria, capaz de resistir com energia à corrupção e disposta a ouvir com seriedade os pleitos dos cidadãos?

Vou tentar escrever uns quatro ou cinco textos sobre este tema, começando amanhã (07.10.11). Para chegar a respostas sensatas e consistentes, eu acredito que pelo menos três pontos precisam ser examinados.

Primeiro – e peço perdão pela obviedade-, o próprio conceito de democracia. Mesmo com o conceito bem elaborado, não há como refletir sobre a democracia sem enfrentar certas áreas de turbulência.

O tema suscita emoções, isto é óbvio. Por isso, o primeiro passo é portanto estabelecer com a maior clareza possível o significado que vamos dar ao termo – ou seja, sobre o que vamos falar.

Segundo, o balizamento histórico e comparativo da questão. Em nosso caso, a formação colonial, a escravidão, as desigualdades sociais e o Estado patrimonialista pesam no prato negativo da balança, quanto a isso não cabe dúvida.

Mas nosso nível de desenvolvimento econômico e nossa história político- institucional são bastante razoáveis… – ou não? Se não fossem, se tivéssemos as nossas patas bem plantadas no autoritarismo português, como teríamos  conferido direitos políticos iguais a mais de 130 milhões de pessoas? Como se explicaria termos tido um ex-operário e agora uma mulher na presidência da República?

Podemos eventualmente divergir sobre a significação desses três fatos, mas primeiro reconheçamos que são fatos, realidades não construídas na maioria dos países atualmente existentes.

Existem, com efeito, diversos tipos de regime político no mundo atual. No balanço periódico que tem publicado, a revista The Economist, por exemplo, distingue quatro tipos: democracias plenas, democracias defeituosas, regimes híbridos e regimes autoritários. É um bom ponto de partida.

As democracias obviamente variam muito em qualidade, e já adianto que o Brasil é classificado como uma democracia “defeituosa”. Ocupa o 47º lugar numa escala de “democraticidade”: um pouco acima da Argentina e um pouco abaixo da Índia. Será boa essa posição? Será ruim? Razoável? Vamos ver, a partir de amanhã.

Em terceiro lugar, é preciso levar em conta o “processamento” da política na consciência da sociedade. Em que medida e em que termos nós  apoiamos a democracia? Damos de fato o nosso apoio às instituições, em quaisquer circunstâncias, ou só quando elas funcionam a nosso favor?

Este é o fascinante reino das atitudes em relação à democracia. Atitudes de indiferença e até de rejeição existem em todos os países democráticos. Formam-se e se espalham em função de dificuldades econômicas, desde logo, mas não só, muitos outros fatores podem contribuir para que isso aconteça. Unanimidade a favor do regime não existe em lugar algum, nem na Escandinávia.

Neste aspecto, a história brasileira e em geral a da América Latina transborda de exemplos. Por toda parte, intelectuais, pseudo-intelectuais e estudantes desencantados, religiosos agoniados pelo contato com a pobreza, militantes de extrema-direita e extrema-esquerda têm propensão a  beber na mesma fonte.

Atraídos pela música de suas respectivas sereias,  sonham com mudanças radicais; saem em busca de soluções ab ovo e julgam tê-las ao alcance da mão sempre que avistam algum novo desfile de fantasias.