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Blog do Bolívar Lamounier

06.02.2012 - 18h57

Corrupção, greve da PM e privatização: o PT só não aprenderá se não fizer a lição de casa

Caminhando para o seu décimo ano de poder na esfera federal, o PT  continua muito aquém do que deveria ser, a meu juízo, para merecer as imensas votações que têm recebido.

Para um partido que sabidamente aposta num projeto de longo prazo – e  periga realmente de permanecer no poder por mais tempo -,  ainda  lhe falta  amadurecimento intelectual e político, competência técnica e senso de responsabilidade.

Essa é a minha opinião;  e quem de vez em quando me lê, petista ou não petista, sabe que não há novidade alguma no que estou dizendo.  Faz um bom tempo que venho dizendo isso.

Posso imaginar  alguns leitores  já de dedo em riste: “e o PSDB? Por que não fala do PSDB?” Eu poderia responder  essa pergunta de várias formas,  mas  nenhuma delas tem realmente a ver com o que me ocorre escrever hoje.

O que eu quero dizer  é muito simples. Para mim, o PT no poder  vem tendo um desempenho horrível, mas eu ainda prefiro esse  PT atual  ao dos velhos tempos. Sim, eu sei: o PT  atual não separa  os patrimônios  público e  privado com o rigor que a Constituição  prescreve;   não joga o jogo democrático com a  lealdade  e a responsabilidade desejáveis,  e não  se notabiliza pela coerência em relação aos princípios que costumava proclamar.  Mesmo assim, como comecei a dizer,  esse PT  me parece melhor , muito melhor – por razões que exporei em seguida -,  que o PT das catacumbas.

Como preferir  o PT atual  àquele  dos primórdios, que se  proclamava tão  puro de intenções, que  prometia ouvir  todo mundo o tempo todo sobre todos os assuntos, enfim  aquele  que  semeou  tantas esperanças?

Ora, exatamente porque  aquele  PT  original só  fazia  isso: apresentava-se  como um paladino da moral e da justiça, esparramava  uma infinidade de tolices  sobre “democracia direta” pelo Brasil afora, e despertava  esperanças. Milhões  de  adeptos e eleitores não  entenderam direito o script, mas o lance era converter  toda aquela pureza e todas aquelas  esperanças  em capital político.

Para efeito de raciocínio, podemos dizer que o capital político  era de três tipos, mas é óbvio que os três se interligavam e se alimentavam mutuamente : (1) capital sob a forma de acesso às comunicações  para  criticar  a “elite” – ou seja, para dizer que todos os outros  (políticos, empresários, jornais etc) compunham uma elite compacta, gananciosa, e era a única responsável pelas mazelas  sociais, educacionais etc  do Brasil; (2) capital eleitoral, ou seja, votos na urna  e uma vasta mão-de-obra: a famosa “militância”;  (3) capital sob a forma de  financiamento ao partido.

Faço aqui uma pausa, pois já percebo a impaciência de alguns  leitores. Estou então dizendo que tudo foi uma grande farsa?  Que os fundadores e dirigentes do PT  se valeram da credulidade de milhões de brasileiros? Que   lhes venderam essa empulhação sem tamanho?

É  claro que não. De modo algum. Se eu pensasse isso, que sentido haveria em contrapor o PT malandro dos tempos atuais com o PT “puro” de  priscas eras?  Do que os articuladores e estrategistas pensaram, eu não faço a menor idéia.  O que afirmo sem pestanejar é que  muita gente se deixou levar  por aquele  clima de cristianismo primitivo, acreditando ver pureza  e ética  onde a superficialidade  e o maniqueísmo eram os produtos de fato abundantes.  Se me perguntarem, então, por que o PT  antigo me parece pior que o atual, eu  respondo rápido e rasteiro: porque  prefiro a realidade, por complexa e dura que ela seja, às conhecidas  fantasias  do romantismo político. Porque  sempre preferi Flaubert, ou Machado, ou Nelson Rodrigues   a  Madame Deli.

Acabei me estendendo e não expliquei o por que deste post.  Por que  cargas d’água, justo hoje, encasquetei de pensar sobre o PT?

Por uma, ou melhor, por  três razões muito simples, coincidentemente  estampadas ao mesmo tempo  nos  jornais de hoje.

Lá em cima eu expressei  um certo  desgosto ante o modo petista de lidar com a separação entre os patrimônios  público e  privado, e logo hoje a imprensa noticia a posse do novo ministro das Cidades. Eu suponho que a presidente Dilma, que  já se viu forçada a demitir  mais de meia dúzia por corrupção, deve ter examinado com atenção  as credenciais  do mais novo integrante de sua equipe de governo.

Eu disse também que o PT  não parece  compreender  direito  certos requisitos de lealdade  e responsabilidade  que a vida pública envolve. Poucos dias atrás, quando da ação de reintegração de posse na favela Pinheirinho, um integrante da legenda que  no momento ocupa um cargo de alta responsabilidade se valeu descaradamente  dos recursos  de comunicação do Planalto para tentar solapar a autoridade do governador de São Paulo.  Diante dos acontecimentos ora em curso na Bahia – estado governado pelo PT -, o  referido personagem faria bem em meditar  aonde o país chegaria se todos os protagonistas políticos optassem por se comportar como ele  diante de situações de tal gravidade.

Eu também assinalei que os petistas, uma vez chegados ao governo, não se notabilizam  por comportamentos notavelmente coerentes com os  princípios que costumavam proclamar.  Ainda bem, isso é ótimo – me permito agora acrescentar. Foi o que eu disse em 2003, quando o recém-eleito presidente Lula descartou pura e simplesmente  os seus resquícios de romantismo  econômico  e deu continuidade às políticas do presidente Fernando Henrique.  E  em nome de quê eu haveria de negar o meu aplauso à incoerência  que se materializou hoje?

Hoje, com efeito, os jornais  fizeram a cobertura do leilão de privatização de três aeroportos.  Um sucesso, sem dúvida, não só pelos valores envolvidos, mas também pela razoável confiança  com que a Fifa e o organismo brasileiro responsável  pela organização  da Copa do Mundo passam a trabalhar a partir deste momento.  Mesmo se ficarem aquém do ideal, as condições aeroportuárias  de 2014  já começam a sair da condição de fiasco anunciado em que se encontravam.

Não me surpreenderei se algum petista retardatário  se referir à presidente Dilma  como uma “vendida ao neoliberalismo”, mas, convenhamos,  resquícios ideológicos, um aqui, outro ali, sempre ficam. Nenhum processo político zera completamente a pauta – e me parece muito  bom que assim seja.

Eis, portanto, o resumo da ópera: (1) só por ser parte da realidade e não da fantasia, o PT atual já apresentava melhoras sensíveis em relação  ao  seu antecedente romântico;   (2) mas a realidade  política e econômica  vem-lhe oferecendo numerosos temas para reflexão e chances de amadurecimento.  Ele só não as aproveitará plenamente se não quiser.

 

 

 

Último comentário por Bolívar Lamounier : Falou e disse.

Comentários (2) 

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  • Mateus Santana M. dos Santos

    O Brasil cresce e soberano ! Corrupção? Quem pode negar que é cultural? Quem pode mudar é a educação! Quanto tempo demora pra se formar uma geração u...

  • Bolívar Lamounier

    Falou e disse.

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