Calma, calma, não vou dizer que Lula é palhaço. Nem desqualificar o agora deputado Tiririca em razão de seu ofício profissional .
Se dependesse de mim, nenhum dos dois estaria exercendo função de autoridade pública. Lula não seria presidente. Tiririca não teria sido eleito deputado. Não votei neles.
Neste post, o que eu quero fazer é contrastá-los. Vou dizer que Lula não vacila em solapar as instituições a fim de satisfazer suas ambições de poder ou para atender às conveniências de seu protuberante ego.
Tiririca, ao contrário – ou por enquanto -, é o oposto : um rebento direto de certos defeitos das regras institucionais vigentes – do nosso sistema de voto proporcional, especificamente.
Lula em campanha é pura ‘pessoa física’. Uma pessoa privada. Está presidente, mas comporta-se como se não estivesse.
No momento estou pensando nos relatos da imprensa a respeito da reunião de estratégia da campanha de Dilma Rousseff realizada ontem na residência oficial da presidência da República.
Criticado por seus excessos no primeiro turno (“extirpar” a oposição, ataques à imprensa), Lula não se fez de rogado. Disse, com a cara mais limpa do mundo, que precisou ser veemente para garantir a eleição de seus senadores. E que vai mudar de estilo no segundo turno.
Sai de cena o Lula furibundo e retorna o “Lulinha paz e amor”.
Sem ofensa, posso pois afirmar que Lula se vê como um ator . Encenou um papel no primeiro turno, vai encenar outro no segundo. Tem portanto algo de palhaço, uma vez que palhaços o que são afinal, senão atores ?
Na versão de ontem, a acidez e a gravidade institucional dos ataques de Lula à imprensa e à oposição passam por uma súbita metamorfose. Seus destemperos adocicam-se. Tornam-se irrelevantes.
Pelas responsabilidades constitucionais e simbólicas de seu papel como presidente de todos os brasileiros, pela posição de autoridade de que se acha investido e pela liturgia do cargo, Lula parece às vezes estar se lixando.
Até porque ele encarna ao mesmo tempo o Executivo, o Judiciário e a Constituição. Ao considerar que seus malfeitos carecem de importância apesar de sua condição de presidente da República, ele mesmo (perdão pela redundância) se auto-anistia.
Para o Lula patrono e cabo eleitoral da Sra. Dilma, o sistema institucional da democracia parece se reduzir a um simples conjunto de aborrecimentos. Nada que ele precise observar ao pé da letra. O que lhe importa é o poder. É conservar o poder que já tem – e tentar aumentá-lo.
Esse é Lula, um ente privado, solto no ar, inalcançável pelas restrições democráticas que normalmente se aplicam aos demais agentes públicos . Um personagem de Shakespeare. Puro cálculo de poder. Alguma vaidade. Boa dose de cinismo. E não raro uma torneira aberta de bílis e ressentimento.
E Tiririca ?
Terá ele semelhanças com Lula ? Será bondoso, autoritário, corrupto, altruísta, totalmente idiota, um espertalhão …? Não faço a menor idéia, e aposto que minha situação é idêntica à de 99.9% dos cidadãos que votaram nele.
Pelo Tiririca pessoa física eu até tendo a ter alguma simpatia, pois presumo que palhaços são pessoas ternas, afetuosas com as crianças etc etc.
Palhaços têm o direito de se candidatar a um cargo eletivo ? É claro que têm. Têm o direito de o fazer encarnando um protesto ou um sentimento difuso de hostilidade ao Congresso ? É lógico que sim .
Tiririca não é o começo nem o fim dessa relação terrivelmente azeda que existe atualmente entre a sociedade e o Legislativo. Se me pedissem uma lista dos personagens que mais contribuíram para azedá-la de algum tempo para cá, eu começaria pelo Lula (o dos “300 picaretas”, lembram-se ?) .
Mas o azedume a que me refiro é uma questão, como direi, psico-social (na antiga linguagem dos militares), ou cultural, como preferem os sociólogos e antropólogos. E mudar esse traço cultural de hostilidade ao Legislativo é assunto para gerações, não para alguns anos. Sem esquecer que ele existe, em maior ou menor grau, em todas as democracias.
Vamos, pois, à vaca fria.
O fenômeno Tiririca tem basicamente dois responsáveis : o partido político pelo qual ele se candidatou e o sistema eleitoral (falo aqui do sistema de voto proporcional vigente no Brasil).
O partido que lançou Tiririca foi o PR (o mesmo que lançou Anthony Garotinho no Rio de Janeiro).
Nesta altura eu peço ao leitor para me perguntar qualquer coisa, menos o que pensa, que programa tem ou do que vive tal partido. Trata-se de um partido “republicano”, isto é o que eu posso informar. Temos tido “PRs” desde as últimas décadas do século 19, todos eles significando Partido Republicano.
O outro responsável pelos tiriricas, como adiantei, é o voto proporcional. Como em todo sistema de voto proporcional, há uma transferência de votos dos candidatos mais para os menos votados.
Se a votação do candidato fulano excede o número necessário para ele se eleger, os candidatos beltrano e sicrano, que não obtiveram aquele mínimo, beneficiam-se dos votos excedentes.
Em São Paulo, o PR coligou-se a vários partidos, inclusive o PCdoB e o PT, que conseguiram eleger um e dois deputados federais, respectivamente, graças aos votos excedentes do Tiririca. O mesmo fenômeno se verificou no Rio, graças, no caso, aos votos de Garotinho.
Todo sistema eleitoral tem qualidades e defeitos ; e um mesmo mecanismo, como esse que descrevi acima, pode ser “ruim” num caso e “bom” noutro – não quero generalizar . E nem posso discutir aqui o problema dos juízos de valor (o que é bom para mim pode não o ser para outra pessoa).
É porém inegável – pela razão já acima exposta – que o voto proporcional favorece muito mais a “tiriricagem” que o chamado voto distrital (mais apropriadamente denominado majoritário).
No sistema de voto distrital, a escolha de um deputado segue a mesma mecânica da de um prefeito. Em cada distrito, cada partido apresenta um (e sómente um) candidato ; o mais votado é o eleito. Os demais ficam de fora.
Tomemos o exemplo de São Paulo, que tem 70 deputados federais. O estado seria dividido em 70 distritos, cada um elegeria um deputado.
Esta é a engrenagem básica, também conhecida como “voto distrital puro”. É tipicamente a praticada nos Estados Unidos e na Inglaterra . Existem numerosos sistemas “mistos”, cuja descrição não cabe num post como este.
No voto distrital, fenômenos como o Tiririca são poderosamente desestimulados, por duas razões.
Primeiro, por inexistir a transferência de votos excedentes (explicação acima). Não existe ”excesso”. Para vencer, um candidato precisa ser o mais votado, só isso.
Tanto faz se tem uma quantidade de votos um pouco ou devastadoramente maior. E os votos do perdedor ou dos perdedores não servem para nada : são “esterilizados”, da mesma forma que na eleição de prefeitos.
Segundo, porque cada distrito, comportando um só candidato por partido, dificilmente entregaria a chance de se candidatar a um indivíduo desprovido de lastro político, de experiência etc. A um paraquedista. Esse candidato potencial e o partido teriam que atravessar um filtro de pressões sociais e políticas muito mais rigoroso que os porventura existentes no presente sistema brasileiro.
Valeria então a pena reformar o nosso sistema, substituindo o modelo proporcional por um distrital ?
Eu não tenho dúvidas a esse respeito. Estou seguro de que vale a pena. Batalhei durante muitos anos pela implantação de um modelo distrital (puro ou misto : deixo isto para outro dia).
Mas a resistência a tal reforma sempre foi colossal. Sempre houve “resistentes” de vários tipos : ideológicos (sobretudo os pequenos partidos de esquerda) ; intelectuais (que invocavam argumentos legítimos, técnicos ou de princípio) ; ignorantes (o tipo não li e não gostei) ; e, não menos importante, os meramente clientelistas .
Diante da “ameaça” de alguma reforma, esses diferentes tipos de resistência tendem a se unir num front dos mais sólidos. Comportam-se como se fossem aliados de sempre, desde a mais tenra infância.























Expandir todos os 13
Bolívar Lamounier
A Arte da Guerrilha
Advogado Corporativo
Aqui no Brasil
BioAgroEnergia
Blog da Análise Técnica
Blog do Bolívar Lamounier
Blog do Empreendedor
Blog do Instituto Millenium
Blog do Management
Blog do Mark Mobius
Blog do Mendonça de Barros
Blog do Rio
Blog do Shinyashiki
Blog do Site EXAME
Brasil no mundo
Blue Chips
Cabeça de Líder
Direito e Desenvolvimento
Educação, Economia & Cia.
É legal
Faria Lima
Gestão Positiva
Gestão de Gente
Inovação na prática
Loading com Marcelo Tripoli
Mídias Sociais
Mundo do Marketing
Novas Arenas
O Mar é minha Terra
O Negócio é o Seguinte
Primeiro Lugar on-line
Termômetro Global
Você e o dinheiro
Primeiro Lugar On-line
RAQUEL BARBOSA
Bolívar Também gostaria que o Brasil tivesse o voto distrital. Eu fiquei muito triste com a eleição do Tiririca. Raquel
RAQUEL BARBOSA
Bolívar
Também gostaria que o Brasil tivesse o voto distrital. Eu fiquei muito triste com a eleição do Tiririca.
Raquel
Dacio Helen Junior
Bolívar, sabe quando faremos um país de primeira usando gente de terceira?? Sou solidário aos seus questionamentos. Sei que isso não basta, mas conforta....
Dacio Helen Junior
Bolívar, sabe quando faremos um país de primeira usando gente de terceira??
Sou solidário aos seus questionamentos. Sei que isso não basta, mas conforta…
Saci da Silva
Sem dúvida que a eleição de Tiririca só demonstra que o voto proporcional pode dar vez a uma legítima "palhaçada", no sentido literal da palavra. No enta...
Saci da Silva
Sem dúvida que a eleição de Tiririca só demonstra que o voto proporcional pode dar vez a uma legítima “palhaçada”, no sentido literal da palavra.
No entanto o Jornal Nacional, mais uma vez, foi de uma gravíssima imprecisão em 05/10/2010. Como segue:
“Ou faltou lição de casa para o JN ou sobrou assessoria do Daniel Dantas.
O Art. 175 do Código Eleitoral é claro no sentido de que, caso a impugnação ocorra após uma eleição, OS VOTOS NÃO SÃO ANULADOS e ficam com o partido/coligação que o elegeu. Portanto, caso Tiririca seja punido, José Genoíno, primeiro suplente da coligação, seria eleito Deputado Federal. Os 3 deputados mostrados no JN não correm qualquer risco com relação a Tiririca (Apenas o Deputado Wanderley Sidraque – PT perderia o cargo caso Maluf seja considerado “ficha-suja”).
Segue o Art. 175 do Código Eleitoral (ou da “Constituição” como o JN gosta de falar) e os parágrafos esclarecedores sobre o caso: http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/anotada/2323586/art-175-do-codigo-eleitoral-lei-4737-65
§ 3º Serão nulos, para todos os efeitos, os votos dados a candidatos inelegíveis ou não registrados. : (Parágrafo renumerado pelo art. 39 da Lei 4.961 , de 4 5.66)
§ 4º O disposto no parágrafo anterior não se aplica quando a decisão de inelegibilidade ou de cancelamento de registro for proferida após a realização da eleição a que concorreu o candidato alcançado pela sentença, caso em que os votos serão contados para o partido pelo qual tiver sido feito o seu registro. (Incluído pela Lei nº 7.179 , de 19.12.1983)
Para desespero de Daniel Dantas e tristeza de alguns jornalistas (inclusive dentro da Rede Globo), o – ínclito, como você diz – Delegado Protógenes Queiroz está definitivamente ELEITO !”