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Blog do Bolívar Lamounier

17.09.2010 - 13h13

Me engana que eu gosto : raízes do comodismo da classe média

A pergunta que mais tenho ouvido é por  que o povo brasileiro se mostra apático diante de tantos escândalos e  tão claras ameaças à democracia.  Por que metade ou mais dos eleitores tende a apoiar nas urnas um governo e um partido que  a todo momento atropelam e até debocham da Constituição e das leis ? 

Começo pelo óbvio.  A grande maioria dos eleitores – três em cada cinco, no mínimo – vota com o bolso. E  examina só a situação de curto prazo . Se há crescimento, aumento da renda e do emprego, ótimo, eu quero é que continui assim. Se sou beneficiário de uma Bolsa-Família, melhor ainda.

Segundo, a idolatria pelo Lula. Para muitos, os “bons tempos” que o país está vivendo devem-se a ele. Para outros,  ele é um Padre Cícero em tamanho grande. Outros tantos sentiam-se  (ou foram levados a se sentir) por baixo, humilhados pela “elite”. Lula, ao contrário, é um dos “nossos”. 

Estes três fatores -  Lula, o bolso e a avaliação positiva do governo – explicam a facilidade com que Lula implantou a candidatura Dilma no meio do “povão”.

Atribuir o voto em Dilma Rousseff   – ou, mais amplamente,  aquela passividade a que me referi no inicio  – ao baixo nível de escolaridade da  maioria dos eleitores,  é um grande equívoco .

Basta lembrar que Fernando Henrique também se elegeu duas vezes, recebendo grande votação em todas as regiões e camadas sociais. Por que será que os semi-analfabetos votaram “certo” daquela vez ?

Pelas mesmas razões : a melhoria econômica que ele efetivamente produziu, como ministro da Fazenda e como presidente,  e  a identificação de sua pessoa pelos eleitores como o autor do milagre.  

O controle da inflação de fato melhorou a situação econômica e tornou a vida diária muito mais confortável para todos.  Em 1998, a maioria optou pela continuidade,  e por isso rejeitou a oposição, personificada, à época, por Lula e pelo PT.

Os argumentos acima me permitem expor agora  o meu ponto principal.

A cabeça que requer análise mais detida não é  a  do “povão”, mas a das camadas médias e altas da sociedade. Não tanto a da base,  mas a da parte alta da pirâmide social.

Eleitores de renda média e alta não têm porque votar só em função do bolso . Mais capacitados, no geral, a contextualizar as informações que recebem, eles podem ver as questões do país num horizonte de tempo mais dilatado. 

Não têm por que levar a sério a cantilena de que o governo Lula “fez” mais  que o de Fernando Henrique. E têm menos tendência à idolatria – com as exceções de praxe.

Por que, então, uma parcela importante dessas camadas vota na candidata oficial e parece indiferente à  corrupção, às ameaças de “controle social da mídia” e a todo o ranço ideológico autoritário do PT ?  

Comecemos outra vez pelo óbvio : há uma decepção, diria até um rancor com a oposição. Em que grau essa decepção é ou não justa, eu não posso discutir aqui.  O fato é que há.

Uns sentem que faltou uma atitude realmente oposicionista nos últimos 8 anos. Outros acham que o candidato  deveria ter sido Aécio Neves. Outros…  etc etc .  

Mas daí a entender tantas incursões de gente de um mesmo governo pela esfera do ilícito como um simples fruto do acaso,  convenhamos, é dose prá leão. 

Para mim essa aceitação de “tudo o que aí está”  deve ser procurada em certas formas de pensar das camadas médias e altas brasileiras. Falo em formas de pensar que vêm de longe, não de algo que tenha surgido agora, no calor da campanha. 

Ignorando, via de regra, a história do Brasil, a evolução política que bem ou mal temos tido, e a formação de nossas instituições,  desde o século 19, mesmo os segmentos altamente escolarizadas se entregam com incrível  facilidade à visão de que aqui nada mudou desde Pedro Álvares Cabral.

É negativismo no verso e desesperança no reverso.

A forma atual e mais virulenta dessa lenga-lenga sobre a história brasileira é a do PT. A companheirada se convenceu – e conseguiu convencer muita gente – de que só dá para falar em democracia a partir da fundação de seu partido. Ou seja, de trinta anos para cá. Antes disso, no Brasil, não houve história política que precise ser levada em conta.

Trata-se de uma falcatrua intelectual sem tamanho, e seu corolário é óbvio. Se não há história nem instituições democráticas a defender, se sempre vivemos imersos numa gosma autoritária, que diferença faz se o Lula “extirpa” ou não a oposição, e se a Dilma vai ou não impor um “controle social” à mídia ? 

Essa visão tem outro ponto de apoio que é preciso pôr em relevo : a idéia da democracia dispensável.  Esta é muito mais antiga que o PT. Sempre foi muito difundida em nossa cultura . 

Democracia dispensável . O argumento funciona assim : “tudo bem, a democracia é uma coisa muito boa, mas não é uma prioridade, muito menos um valor em si mesma.  Deve permanecer SE permitir o desenvolvimento do país e  uma rápida erradicação da pobreza. Se não, não”.  

Um minuto de atenção e reflexão honesta é o suficiente para se perceber que é um argumento sem pé nem cabeça.

Pelo mundo afora, muitos governantes o invocaram para quebrar ou abastardar democracias que bem ou mal funcionavam. O resultado foi que seus países ficaram com a mesma pobreza e, de quebra, com ditaduras muito difíceis de derrubar.

Uma variante bem conhecida dessa asneira é a idéia do “ditador benévolo”. Se em tal ou qual país as coisas deram errado, foi porque eles não arranjaram o tipo certo de ditador.

O Brasil, sortudo como é, não vai passar por esse tipo de dificuldade. A ditadura de que necessitamos, e uma hora vamos ter, será boa, sábia e competente.

Então, tá. Me engana que eu gosto.

Último comentário por Bolívar Lamounier : A única democracia que existe é a democracia representativa, cujo fundamento são eleições limpas e livres. Esta condição por sua ...

Comentários (35) 

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  • Botelho Pinto

    Caro Lamounier, vejo que na maioria dos textos sempre há uma menção ao controle social da mídia. É esse o maior medo da oposição hoje. Por isso o engajam...

  • Bolívar Lamounier

    Meu caro Botelho : eu sei que você sabe que eu não concordo com nada do que você diz no corpo de sua mensagem. Vou comentar só a fina ironia do PS ; você s...

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