A pergunta que mais tenho ouvido é por que o povo brasileiro se mostra apático diante de tantos escândalos e tão claras ameaças à democracia. Por que metade ou mais dos eleitores tende a apoiar nas urnas um governo e um partido que a todo momento atropelam e até debocham da Constituição e das leis ?
Começo pelo óbvio. A grande maioria dos eleitores – três em cada cinco, no mínimo – vota com o bolso. E examina só a situação de curto prazo . Se há crescimento, aumento da renda e do emprego, ótimo, eu quero é que continui assim. Se sou beneficiário de uma Bolsa-Família, melhor ainda.
Segundo, a idolatria pelo Lula. Para muitos, os “bons tempos” que o país está vivendo devem-se a ele. Para outros, ele é um Padre Cícero em tamanho grande. Outros tantos sentiam-se (ou foram levados a se sentir) por baixo, humilhados pela “elite”. Lula, ao contrário, é um dos “nossos”.
Estes três fatores - Lula, o bolso e a avaliação positiva do governo – explicam a facilidade com que Lula implantou a candidatura Dilma no meio do “povão”.
Atribuir o voto em Dilma Rousseff – ou, mais amplamente, aquela passividade a que me referi no inicio – ao baixo nível de escolaridade da maioria dos eleitores, é um grande equívoco .
Basta lembrar que Fernando Henrique também se elegeu duas vezes, recebendo grande votação em todas as regiões e camadas sociais. Por que será que os semi-analfabetos votaram “certo” daquela vez ?
Pelas mesmas razões : a melhoria econômica que ele efetivamente produziu, como ministro da Fazenda e como presidente, e a identificação de sua pessoa pelos eleitores como o autor do milagre.
O controle da inflação de fato melhorou a situação econômica e tornou a vida diária muito mais confortável para todos. Em 1998, a maioria optou pela continuidade, e por isso rejeitou a oposição, personificada, à época, por Lula e pelo PT.
Os argumentos acima me permitem expor agora o meu ponto principal.
A cabeça que requer análise mais detida não é a do “povão”, mas a das camadas médias e altas da sociedade. Não tanto a da base, mas a da parte alta da pirâmide social.
Eleitores de renda média e alta não têm porque votar só em função do bolso . Mais capacitados, no geral, a contextualizar as informações que recebem, eles podem ver as questões do país num horizonte de tempo mais dilatado.
Não têm por que levar a sério a cantilena de que o governo Lula “fez” mais que o de Fernando Henrique. E têm menos tendência à idolatria – com as exceções de praxe.
Por que, então, uma parcela importante dessas camadas vota na candidata oficial e parece indiferente à corrupção, às ameaças de “controle social da mídia” e a todo o ranço ideológico autoritário do PT ?
Comecemos outra vez pelo óbvio : há uma decepção, diria até um rancor com a oposição. Em que grau essa decepção é ou não justa, eu não posso discutir aqui. O fato é que há.
Uns sentem que faltou uma atitude realmente oposicionista nos últimos 8 anos. Outros acham que o candidato deveria ter sido Aécio Neves. Outros… etc etc .
Mas daí a entender tantas incursões de gente de um mesmo governo pela esfera do ilícito como um simples fruto do acaso, convenhamos, é dose prá leão.
Para mim essa aceitação de “tudo o que aí está” deve ser procurada em certas formas de pensar das camadas médias e altas brasileiras. Falo em formas de pensar que vêm de longe, não de algo que tenha surgido agora, no calor da campanha.
Ignorando, via de regra, a história do Brasil, a evolução política que bem ou mal temos tido, e a formação de nossas instituições, desde o século 19, mesmo os segmentos altamente escolarizadas se entregam com incrível facilidade à visão de que aqui nada mudou desde Pedro Álvares Cabral.
É negativismo no verso e desesperança no reverso.
A forma atual e mais virulenta dessa lenga-lenga sobre a história brasileira é a do PT. A companheirada se convenceu – e conseguiu convencer muita gente – de que só dá para falar em democracia a partir da fundação de seu partido. Ou seja, de trinta anos para cá. Antes disso, no Brasil, não houve história política que precise ser levada em conta.
Trata-se de uma falcatrua intelectual sem tamanho, e seu corolário é óbvio. Se não há história nem instituições democráticas a defender, se sempre vivemos imersos numa gosma autoritária, que diferença faz se o Lula “extirpa” ou não a oposição, e se a Dilma vai ou não impor um “controle social” à mídia ?
Essa visão tem outro ponto de apoio que é preciso pôr em relevo : a idéia da democracia dispensável. Esta é muito mais antiga que o PT. Sempre foi muito difundida em nossa cultura .
Democracia dispensável . O argumento funciona assim : “tudo bem, a democracia é uma coisa muito boa, mas não é uma prioridade, muito menos um valor em si mesma. Deve permanecer SE permitir o desenvolvimento do país e uma rápida erradicação da pobreza. Se não, não”.
Um minuto de atenção e reflexão honesta é o suficiente para se perceber que é um argumento sem pé nem cabeça.
Pelo mundo afora, muitos governantes o invocaram para quebrar ou abastardar democracias que bem ou mal funcionavam. O resultado foi que seus países ficaram com a mesma pobreza e, de quebra, com ditaduras muito difíceis de derrubar.
Uma variante bem conhecida dessa asneira é a idéia do “ditador benévolo”. Se em tal ou qual país as coisas deram errado, foi porque eles não arranjaram o tipo certo de ditador.
O Brasil, sortudo como é, não vai passar por esse tipo de dificuldade. A ditadura de que necessitamos, e uma hora vamos ter, será boa, sábia e competente.
Então, tá. Me engana que eu gosto.


















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Caro Lamounier, vejo que na maioria dos textos sempre há uma menção ao controle social da mídia. É esse o maior medo da oposição hoje. Por isso o engajam...
Botelho Pinto
Caro Lamounier, vejo que na maioria dos textos sempre há uma menção ao controle social da mídia. É esse o maior medo da oposição hoje. Por isso o engajamento ferrenho da imprensa na candidatura do Serra. Sem a imprensa o PSDB não estaria a 16 anos no poder em SP, onde essa imprensa é ainda muito forte. Você fala que o povo gosta de ser enganado, mas na verdade o povo está é cansado desse golpe baixo em véspera de eleições. Essa tabelinha de reportagem da Veja, que repercute na FOLHA, sai no Jornal Nacional e aparece no programa do Serra já esgotou a paciência. Isso não é nada republicano. Não existe o direito de resposta, o contraditório(porque não há um colunista de esquerda no PORTAL EXAME?). Pega-se alguns fatos verídicos, junta-se algumas meia-verdades e outras inverdades, elabora-se uma reportagem de 5, 6 páginas, é repercutida em todos os meios da coligação e está feito o estrago. Quando se começa a desvendar as maracutais e as armadilhas, a imprensa faz de conta que nada aconteceu e aparece com outras denúncias no mesmo formato, até o fim das eleições. A única mídia livre hoje no Brasil é a internet. Lá direita e esquerda batalham ferozmente e democraticamente. Gostaria muito de ver seus comentários nos “blogs sujos”.
PS.: Quando o Aécio sair, você vai junto? ou vai morrer abraçado com o Serra e FHC? ele fala que não sai, mas se a intenção dele é conquistar votos pelo Brasil, não consiguirá muita coisa com o FHC pendurado no pescoço.
Bolívar Lamounier
Meu caro Botelho : eu sei que você sabe que eu não concordo com nada do que você diz no corpo de sua mensagem. Vou comentar só a fina ironia do PS ; você s...
Bolívar Lamounier
Meu caro Botelho :
eu sei que você sabe que eu não concordo com nada do que você diz no corpo de sua mensagem. Vou comentar só a fina ironia do PS ; você sabe como eu aprecio uma boa ironia.
O Aécio vai sair ? A mim ele não disse nada, nem teria porquê. Ir junto com ele para onde ? Você acha, seriamente, que eu assumo posições políticas ou partidárias em função de pessoas, por importantes que sejam ? Você é meu leitor recente ?
Morrer abraçado com Serra e FHC ? No sentido literal, não, espero que não. No sentido figurado, político, o que eu posso dizer é que tenho grande respeito e admiração pelos dois. São homens públicos de grande capacidade e integridade, coisa infelizmente muito rara atualmente.
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