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Blog do Bolívar Lamounier

10.09.2010 - 15h14

Quase na presidência sem sair da clandestinidade : um paradoxo chamado Dilma Rousseff

Com sua  habitual agudeza, Renata LoPrete comentou outro dia na Folha de S. Paulo ”o surrealismo de uma candidata que ninguém conhece, embora tenha 50% nas pesquisas”. E acrescentou, fazendo referência ao estapafúrdio episódio de Lula sair em defesa dela  no horário gratuito :

 ”No time de Dilma, é Lula quem arma, ataca e defende ; [...] sempre que ele aparece em todo o seu tamanho, ela, apesar do favoritismo eleitoral inconteste, fica pequena. Não por acaso, a candidata teve de vir ontem a público afirmar que é [...] capaz de se defender sozinha”.

O problema, infelizmente, não se resume na falta de jeito da candidata oficial como  comunicadora . Neste aspecto, há um tríplice empate entre ela, Serrra e Marina. 

Tampouco se trata apenas  de tática eleitoral, por óbvia que esteja a intenção de  evitar o envolvimento de Dilma em embates mais ásperos. Noutros tempos, os ataques violentos ao adversário eram feitos pelos chamados “bocas de aluguel”, mas este ano Lula inovou, indo ele mesmo à televisão. Antes assim.

Mas há, por baixo disso tudo, uma questão realmente importante, e pouco discutida. Refiro-me a este fato extraordinário : o Brasil está prestes a colocar  na chefia do Estado uma pessoa sobre a qual não sabe rigorosamente nada.

O normal na carreira política é um indivíduo galgar postos mais altos à medida em que vai se tornando conhecido dos eleitores e ganhando experiência .

É por etapas, degrau por degrau, que se chega ao ápice da pirâmide de poder . Quem chega lá em cima, com certeza já teve sua competência, suas credenciais políticas e morais, diria até sua vida,  examinadas ao microscópio pela imprensa e pela opinião pública.

Esse é o padrão normal nas democracias , diferente do  “dedazo” que prevaleceu no México até poucos anos atrás  ou a indicação pelo Alto Comando, como no tempo do regime militar brasileiro.

O ponto que estou levantando não é, pois, um formalismo jurídico  irrelevante . Muito pelo contrário. É um ponto-chave, na verdade a conexão mais importante entre a eleição como método de escolha e esse sistema político a que chamamos democracia .  

De fato, para que serve a eleição, se a campanha,  em vez de propiciar, bloqueia o acesso dos cidadãos ao verdadeiro perfil de cada candidato ? O perfil, a personalidade, enfim a pessoa de verdade, é, evidentemente,  a informação mais relevante quando a questão é a escolha de um novo presidente da República. 

É com base nessa informação que os eleitores  (cada com com seus critérios, seu nível de escolaridade etc) vão  avaliar qual dos candidatos lhes parece mais capacitado a bem conduzir os negócios públicos.

O leitor poderá objetar, com toda razão, que o que eu expus é a teoria ou filosofia do regime democrático, não sua prática real . Bem o sei. É uma teoria idealizada. Podemos vê-la como uma das pontas ou polos de um continuum, representando o que ocorreria se uma democracia realmente existente atingisse a perfeição. 

No polo oposto do continuum teríamos democracias totalmente de fachada, nas quais a manipulação dos mecanismos eleitorais, dos partidos, da mídia etc anula na prática a disputa.

O problema – agora sim, posso enunciá-lo com razoável exatidão -  é que a esse polo democracias reais chegam com certa frequência,  e até com alguma facilidade.  Isso pode ocorrer por diversas razões ; aqui, o que me interessa sublinhar é que se trata de um plano inclinado, um processo de aguda deterioração, ao cabo do qual o que resta é pouco mais que uma fachada. 

Este é o argumento que tenho repetidamente exposto neste espaço : o de que a presente disputa sucessória está pendendo perigosamente para esse polo negativo .

Não vejo como alguém possa honestamente contestar que o presidente da República  escolheu sozinho a candidata.

Que a impôs ao PT e à aliança governista na base do velho e bom ”dedazo” mexicano.

Que a presenteou com a quase totalidade das intenções de voto que as pesquisas lhe vêm atribuindo.

E que tudo tem feito para “blindá-la” -  ou seja, para vedar qualquer mínima fresta pela qual ela possa ser vista de corpo inteiro, sem o cosmético da marquetagem, longe do padrinho - com seu verdadeiro perfil, enfim.

De fato, o que houve até aqui  foi  uma operação sistemática - cuidadosamente planejada e  meticulosamente executada -, concebida para vencer de qualquer modo a eleição .

Para Lula, sonegar ao eleitor uma informação do mais alto interesse público ( quem, afinal de contas, é Dilma Rousseff ) é  um reles detalhe.

Eu poderia me estender neste argumento, mas não o exporia com mais clareza do que o fez a Folha de SP num editorial do dia 27 de agosto.

Nesse texto, um dos mais relevantes que me foi dado ler no transcurso da presente campanha, o jornal tornava público o fato de não ter obtido licença do Superior Tribunal Militar para consultar o histórico da militância e da prisão de Dilma Rousseff no período da luta armada. 

Transcrevo abaixo – já como conclusão  – o trecho que se relaciona mais diretamente ao argumento deste post : 

“É da essência republicana que a biografia de um candidato se exponha ao exame até mesmo impiedoso da opinião pública. Trata-se, afinal, de alguém que pretende assumir o comando do país.

Sabe-se até que ponto, nos Estados Unidos, é levado à risca o princípio de que nenhum aspecto da vida privada de um candidato está, em tese, a salvo do interesse público. Do prontuário médico aos hábitos de consumo, do currículo escolar ao cotidiano doméstico, nada é irrelevante.

Ainda que, no Brasil, tenha-se o costume de resguardar um pouco mais a intimidade de governantes e políticos, é dever da imprensa escrutiná-la quando há motivos razoáveis para supor sua possível influência na condução dos negócios de Estado.

Com os defeitos e virtudes que possa ter, com os erros e acertos que acumulou ao longo de sua biografia, em especial no que diz respeito a suas atitudes políticas, Dilma Rousseff abandona a esfera exclusiva da existência privada a partir do momento em que pretende ocupar o cargo de presidente da República.

Não é exagero dizer que, apesar de seus índices de popularidade, pouco ainda se conhece a seu respeito -exceto aquilo que, graças a uma operação intensiva de marketing, ao peso paquidérmico da máquina oficial e ao desmedido esforço cesarista do presidente Lula, vem sendo imposto artificialmente ao eleitorado”.

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Comentários (7) 

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  • RAFAEL VALZ

    Olá, Bolivar. Em um congresso de medicina, por exemplo, o conferencista sempre explicita no início seus vínculos com laboratórios e empresas de saúde, para...

  • Bolívar Lamounier

    Prezado Rafael Agradeço-lhe mais uma vez a assiduidade ao meu blog. No Brasil, felizmente, ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão ...

  • RAFAEL VALZ

    Olá, li o termo de uso e gostaria de saber por que meu comentário não foi publicado. Sequer discordei do conteúdo dos artigos, só fiz uma sugestão.

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