Com sua habitual agudeza, Renata LoPrete comentou outro dia na Folha de S. Paulo ”o surrealismo de uma candidata que ninguém conhece, embora tenha 50% nas pesquisas”. E acrescentou, fazendo referência ao estapafúrdio episódio de Lula sair em defesa dela no horário gratuito :
”No time de Dilma, é Lula quem arma, ataca e defende ; [...] sempre que ele aparece em todo o seu tamanho, ela, apesar do favoritismo eleitoral inconteste, fica pequena. Não por acaso, a candidata teve de vir ontem a público afirmar que é [...] capaz de se defender sozinha”.
O problema, infelizmente, não se resume na falta de jeito da candidata oficial como comunicadora . Neste aspecto, há um tríplice empate entre ela, Serrra e Marina.
Tampouco se trata apenas de tática eleitoral, por óbvia que esteja a intenção de evitar o envolvimento de Dilma em embates mais ásperos. Noutros tempos, os ataques violentos ao adversário eram feitos pelos chamados “bocas de aluguel”, mas este ano Lula inovou, indo ele mesmo à televisão. Antes assim.
Mas há, por baixo disso tudo, uma questão realmente importante, e pouco discutida. Refiro-me a este fato extraordinário : o Brasil está prestes a colocar na chefia do Estado uma pessoa sobre a qual não sabe rigorosamente nada.
O normal na carreira política é um indivíduo galgar postos mais altos à medida em que vai se tornando conhecido dos eleitores e ganhando experiência .
É por etapas, degrau por degrau, que se chega ao ápice da pirâmide de poder . Quem chega lá em cima, com certeza já teve sua competência, suas credenciais políticas e morais, diria até sua vida, examinadas ao microscópio pela imprensa e pela opinião pública.
Esse é o padrão normal nas democracias , diferente do “dedazo” que prevaleceu no México até poucos anos atrás ou a indicação pelo Alto Comando, como no tempo do regime militar brasileiro.
O ponto que estou levantando não é, pois, um formalismo jurídico irrelevante . Muito pelo contrário. É um ponto-chave, na verdade a conexão mais importante entre a eleição como método de escolha e esse sistema político a que chamamos democracia .
De fato, para que serve a eleição, se a campanha, em vez de propiciar, bloqueia o acesso dos cidadãos ao verdadeiro perfil de cada candidato ? O perfil, a personalidade, enfim a pessoa de verdade, é, evidentemente, a informação mais relevante quando a questão é a escolha de um novo presidente da República.
É com base nessa informação que os eleitores (cada com com seus critérios, seu nível de escolaridade etc) vão avaliar qual dos candidatos lhes parece mais capacitado a bem conduzir os negócios públicos.
O leitor poderá objetar, com toda razão, que o que eu expus é a teoria ou filosofia do regime democrático, não sua prática real . Bem o sei. É uma teoria idealizada. Podemos vê-la como uma das pontas ou polos de um continuum, representando o que ocorreria se uma democracia realmente existente atingisse a perfeição.
No polo oposto do continuum teríamos democracias totalmente de fachada, nas quais a manipulação dos mecanismos eleitorais, dos partidos, da mídia etc anula na prática a disputa.
O problema – agora sim, posso enunciá-lo com razoável exatidão - é que a esse polo democracias reais chegam com certa frequência, e até com alguma facilidade. Isso pode ocorrer por diversas razões ; aqui, o que me interessa sublinhar é que se trata de um plano inclinado, um processo de aguda deterioração, ao cabo do qual o que resta é pouco mais que uma fachada.
Este é o argumento que tenho repetidamente exposto neste espaço : o de que a presente disputa sucessória está pendendo perigosamente para esse polo negativo .
Não vejo como alguém possa honestamente contestar que o presidente da República escolheu sozinho a candidata.
Que a impôs ao PT e à aliança governista na base do velho e bom ”dedazo” mexicano.
Que a presenteou com a quase totalidade das intenções de voto que as pesquisas lhe vêm atribuindo.
E que tudo tem feito para “blindá-la” - ou seja, para vedar qualquer mínima fresta pela qual ela possa ser vista de corpo inteiro, sem o cosmético da marquetagem, longe do padrinho - com seu verdadeiro perfil, enfim.
De fato, o que houve até aqui foi uma operação sistemática - cuidadosamente planejada e meticulosamente executada -, concebida para vencer de qualquer modo a eleição .
Para Lula, sonegar ao eleitor uma informação do mais alto interesse público ( quem, afinal de contas, é Dilma Rousseff ) é um reles detalhe.
Eu poderia me estender neste argumento, mas não o exporia com mais clareza do que o fez a Folha de SP num editorial do dia 27 de agosto.
Nesse texto, um dos mais relevantes que me foi dado ler no transcurso da presente campanha, o jornal tornava público o fato de não ter obtido licença do Superior Tribunal Militar para consultar o histórico da militância e da prisão de Dilma Rousseff no período da luta armada.
Transcrevo abaixo – já como conclusão – o trecho que se relaciona mais diretamente ao argumento deste post :
“É da essência republicana que a biografia de um candidato se exponha ao exame até mesmo impiedoso da opinião pública. Trata-se, afinal, de alguém que pretende assumir o comando do país.
Sabe-se até que ponto, nos Estados Unidos, é levado à risca o princípio de que nenhum aspecto da vida privada de um candidato está, em tese, a salvo do interesse público. Do prontuário médico aos hábitos de consumo, do currículo escolar ao cotidiano doméstico, nada é irrelevante.
Ainda que, no Brasil, tenha-se o costume de resguardar um pouco mais a intimidade de governantes e políticos, é dever da imprensa escrutiná-la quando há motivos razoáveis para supor sua possível influência na condução dos negócios de Estado.
Com os defeitos e virtudes que possa ter, com os erros e acertos que acumulou ao longo de sua biografia, em especial no que diz respeito a suas atitudes políticas, Dilma Rousseff abandona a esfera exclusiva da existência privada a partir do momento em que pretende ocupar o cargo de presidente da República.
Não é exagero dizer que, apesar de seus índices de popularidade, pouco ainda se conhece a seu respeito -exceto aquilo que, graças a uma operação intensiva de marketing, ao peso paquidérmico da máquina oficial e ao desmedido esforço cesarista do presidente Lula, vem sendo imposto artificialmente ao eleitorado”.






















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RAFAEL VALZ
Olá, Bolivar. Em um congresso de medicina, por exemplo, o conferencista sempre explicita no início seus vínculos com laboratórios e empresas de saúde, para mostrar se suas pesquisas têm eventuais conflitos de interesses. Isso chama-se honestidade intelectual e científica. Como intelectual e cientista político, sugiro que o articulista Bolívar coloque na biografia sua filiação ao PSDB. Obrigado.
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Bolívar Lamounier
Prezado Rafael Agradeço-lhe mais uma vez a assiduidade ao meu blog. No Brasil, felizmente, ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão ...
Bolívar Lamounier
Prezado Rafael
Agradeço-lhe mais uma vez a assiduidade ao meu blog.
No Brasil, felizmente, ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. A Constituição é bem clara quanto a este ponto.
Não vejo por que alguém que julgue ou suponha haver desonestidade em meus textos deva continuar lendo-os. Este é um dos grandes beneficios de uma imprensa aberta e altamente competitiva como a brasileira graças a Deus ainda é.
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RAFAEL VALZ
Olá, li o termo de uso e gostaria de saber por que meu comentário não foi publicado. Sequer discordei do conteúdo dos artigos, só fiz uma sugestão.
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