Faz tempo que os cubanos desenvolveram uma notável engenhosidade para superar as dificuldades econômicas de seu dia-a-dia.
A imprensa oficial nunca a mostrava, mas passou a fazê-lo a partir do modesto arejamento que surgiu com a ascensão de Raúl Castro à chefia do Estado. Até o Granma, jornal oficial, passou a dar informações sobre a corrupção, os roubos e as espertezas que maltratam o país.
O Granma fez, por exemplo, um detalhado relato sobre a crise da fábrica de conservas La Conchita. Fundada em 1937, nos seus bons tempos La Conchita chegou a processar 28 toneladas de tomate e 18 de goiaba por temporada, mas logo os cubanos ficaram sabendo que a ilha importava coco do Sri Lanka, goiaba do Brasil e tomate da China. A razão? A falta de condições das empresas agrícolas estatais de fornecer à indústria de enlatados as frutas e as verduras que muitas vezes apodrecem nos campos.
Em um programa de rádio, o tenente-coronel da polícia, Angel Díaz revelou a recente “desarticulação” de uma fábrica clandestina de latas de leite condensado, um dos muitos produtos que faltam em Cuba. No dia 17 de junho, o Granma publicou que, como parte da “ofensiva contra a indisciplina social”, foram fechadas em Havana 13 oficinas de trabalho manuais e 10 armazéns clandestinos, em uma operação policial, na qual foram apreendidos 1.938 pratos, 1.575 vasilhas, 2.049 pinças para cabelo, assim como maquinário para a fabricação de objetos de plástico e alumínio”. Foram abertos dez processos por “atividade econômica ilícita” e 50 dos envolvidos receberam multas entre 500 e 200 pesos cubanos (entre 12 e 52 euros). Um economista cubano, ao tomar conhecimento da notícia, comentou: “não se pode concordar com a ilegalidade, mas alguém deveria analisar por que o Estado não é capaz de produzir e resolver necessidades que os particulares solucionam com meios precários. “Essas pessoas, depois de serem multadas, deveriam ser condecoradas e ter permissão para abrir uma pequena empresa.”
Antes que algum leitor petista ou nostálgico da revolução cubana comece a resmungar contra o meu reacionarismo ou contra o “neoliberalismo” do PSDB, quero informar que os trechos acima não são meus . São do jornalista Maurice Vincent, numa excelente matéria publicada nos dias 1 e 2 de julho de 2008 no El País, de Madrí. Fiz apenas ligeiras alterações editoriais no parágrafo que usei como abertura.
Qualquer pessoa medianamente informada percebe a enorme distância que existe entre a Cuba atual e aquela de meio século atrás, que despertou esperanças por toda parte. Não preciso recontar a história toda . Embriagada com a idéia romântica de mudar o mundo da noite para o dia, milhares (ou centenas de milhares) abraçaram o mito da Revolução. Acreditaram que só o que se requeria para realizar o paraíso socialista era a ideologia na cabeça e disposição para matar uns tantos “burgueses”, “pequeno-burgueses” e contra-revolucionários em geral.
Cinquenta anos se passaram e o paraíso socialista não deu o ar de sua graça. O que aconteceu – bingo ! – foi que o Partido Comunista se aboletou no poder e se transformou numa casta de parasitas.
Eis senão quando o velho comandante, do alto de seus 84 anos, dá uma entrevista à revista Atlantic Monthly, dos Estados Unidos – reproduzida hoje nos jornais brasileiros -, e diz, nem mais nem menos, que o modelo econômico cubano “não funciona mais”.
Antes que me esqueça, eu procurei, mas não consegui encontrar em meus arquivos uma matéria sobre o programa de privatização deflagrado pelo comandante Raúl Castro, que teve auspicioso início com a privatização dos serviços de barbearia e manicure.
Jeffrey Goldberg, o entrevistador da Atlantic, perguntou a Fidel se ainda fazia sentido tentar exportar o modelo comunista cubano para outros países.”‘O modelo cubano não funciona mais nem para nós”, Fidel lhe respondeu.
A entrevista, com sua admissão do colapso do modelo cubano, endossa, ainda que obliquamente, as reformas que Raúl Castro, no poder desde 2008, vem tentando implantar, e que obviamente não são do agrado de uma boa parcela do Partido Comunista. Julia Sweig, que também participou da entrevista, interpretou as palavras de Fidel Castro como uma ajuda ao irmão Raúl.
A crítica de Fidel Castro foi ao modelo econômico que ele mesmo implantou na ilha. Sobre democracia ele não disse nada. Mas vamos com calma. A fala do comandante já foi um milagre - e milagre, quando ocorre, é só um por dia.






















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