06.02.2012 - 18h57

Corrupção, greve da PM e privatização: o PT só não aprenderá se não fizer a lição de casa

Caminhando para o seu décimo ano de poder na esfera federal, o PT  continua muito aquém do que deveria ser, a meu juízo, para merecer as imensas votações que têm recebido.

Para um partido que sabidamente aposta num projeto de longo prazo – e  periga realmente de permanecer no poder por mais tempo -,  ainda  lhe falta  amadurecimento intelectual e político, competência técnica e senso de responsabilidade.

Essa é a minha opinião;  e quem de vez em quando me lê, petista ou não petista, sabe que não há novidade alguma no que estou dizendo.  Faz um bom tempo que venho dizendo isso.

Posso imaginar  alguns leitores  já de dedo em riste: “e o PSDB? Por que não fala do PSDB?” Eu poderia responder  essa pergunta de várias formas,  mas  nenhuma delas tem realmente a ver com o que me ocorre escrever hoje.

O que eu quero dizer  é muito simples. Para mim, o PT no poder  vem tendo um desempenho horrível, mas eu ainda prefiro esse  PT atual  ao dos velhos tempos. Sim, eu sei: o PT  atual não separa  os patrimônios  público e  privado com o rigor que a Constituição  prescreve;   não joga o jogo democrático com a  lealdade  e a responsabilidade desejáveis,  e não  se notabiliza pela coerência em relação aos princípios que costumava proclamar.  Mesmo assim, como comecei a dizer,  esse PT  me parece melhor , muito melhor – por razões que exporei em seguida -,  que o PT das catacumbas.

Como preferir  o PT atual  àquele  dos primórdios, que se  proclamava tão  puro de intenções, que  prometia ouvir  todo mundo o tempo todo sobre todos os assuntos, enfim  aquele  que  semeou  tantas esperanças?

Ora, exatamente porque  aquele  PT  original só  fazia  isso: apresentava-se  como um paladino da moral e da justiça, esparramava  uma infinidade de tolices  sobre “democracia direta” pelo Brasil afora, e despertava  esperanças. Milhões  de  adeptos e eleitores não  entenderam direito o script, mas o lance era converter  toda aquela pureza e todas aquelas  esperanças  em capital político.

Para efeito de raciocínio, podemos dizer que o capital político  era de três tipos, mas é óbvio que os três se interligavam e se alimentavam mutuamente : (1) capital sob a forma de acesso às comunicações  para  criticar  a “elite” – ou seja, para dizer que todos os outros  (políticos, empresários, jornais etc) compunham uma elite compacta, gananciosa, e era a única responsável pelas mazelas  sociais, educacionais etc  do Brasil; (2) capital eleitoral, ou seja, votos na urna  e uma vasta mão-de-obra: a famosa “militância”;  (3) capital sob a forma de  financiamento ao partido.

Faço aqui uma pausa, pois já percebo a impaciência de alguns  leitores. Estou então dizendo que tudo foi uma grande farsa?  Que os fundadores e dirigentes do PT  se valeram da credulidade de milhões de brasileiros? Que   lhes venderam essa empulhação sem tamanho?

É  claro que não. De modo algum. Se eu pensasse isso, que sentido haveria em contrapor o PT malandro dos tempos atuais com o PT “puro” de  priscas eras?  Do que os articuladores e estrategistas pensaram, eu não faço a menor idéia.  O que afirmo sem pestanejar é que  muita gente se deixou levar  por aquele  clima de cristianismo primitivo, acreditando ver pureza  e ética  onde a superficialidade  e o maniqueísmo eram os produtos de fato abundantes.  Se me perguntarem, então, por que o PT  antigo me parece pior que o atual, eu  respondo rápido e rasteiro: porque  prefiro a realidade, por complexa e dura que ela seja, às conhecidas  fantasias  do romantismo político. Porque  sempre preferi Flaubert, ou Machado, ou Nelson Rodrigues   a  Madame Deli.

Acabei me estendendo e não expliquei o por que deste post.  Por que  cargas d’água, justo hoje, encasquetei de pensar sobre o PT?

Por uma, ou melhor, por  três razões muito simples, coincidentemente  estampadas ao mesmo tempo  nos  jornais de hoje.

Lá em cima eu expressei  um certo  desgosto ante o modo petista de lidar com a separação entre os patrimônios  público e  privado, e logo hoje a imprensa noticia a posse do novo ministro das Cidades. Eu suponho que a presidente Dilma, que  já se viu forçada a demitir  mais de meia dúzia por corrupção, deve ter examinado com atenção  as credenciais  do mais novo integrante de sua equipe de governo.

Eu disse também que o PT  não parece  compreender  direito  certos requisitos de lealdade  e responsabilidade  que a vida pública envolve. Poucos dias atrás, quando da ação de reintegração de posse na favela Pinheirinho, um integrante da legenda que  no momento ocupa um cargo de alta responsabilidade se valeu descaradamente  dos recursos  de comunicação do Planalto para tentar solapar a autoridade do governador de São Paulo.  Diante dos acontecimentos ora em curso na Bahia – estado governado pelo PT -, o  referido personagem faria bem em meditar  aonde o país chegaria se todos os protagonistas políticos optassem por se comportar como ele  diante de situações de tal gravidade.

Eu também assinalei que os petistas, uma vez chegados ao governo, não se notabilizam  por comportamentos notavelmente coerentes com os  princípios que costumavam proclamar.  Ainda bem, isso é ótimo – me permito agora acrescentar. Foi o que eu disse em 2003, quando o recém-eleito presidente Lula descartou pura e simplesmente  os seus resquícios de romantismo  econômico  e deu continuidade às políticas do presidente Fernando Henrique.  E  em nome de quê eu haveria de negar o meu aplauso à incoerência  que se materializou hoje?

Hoje, com efeito, os jornais  fizeram a cobertura do leilão de privatização de três aeroportos.  Um sucesso, sem dúvida, não só pelos valores envolvidos, mas também pela razoável confiança  com que a Fifa e o organismo brasileiro responsável  pela organização  da Copa do Mundo passam a trabalhar a partir deste momento.  Mesmo se ficarem aquém do ideal, as condições aeroportuárias  de 2014  já começam a sair da condição de fiasco anunciado em que se encontravam.

Não me surpreenderei se algum petista retardatário  se referir à presidente Dilma  como uma “vendida ao neoliberalismo”, mas, convenhamos,  resquícios ideológicos, um aqui, outro ali, sempre ficam. Nenhum processo político zera completamente a pauta – e me parece muito  bom que assim seja.

Eis, portanto, o resumo da ópera: (1) só por ser parte da realidade e não da fantasia, o PT atual já apresentava melhoras sensíveis em relação  ao  seu antecedente romântico;   (2) mas a realidade  política e econômica  vem-lhe oferecendo numerosos temas para reflexão e chances de amadurecimento.  Ele só não as aproveitará plenamente se não quiser.

 

 

 

Último comentário por Mateus Santana M. dos Santos : O Brasil cresce e soberano ! Corrupção? Quem pode negar que é cultural? Quem pode mudar é a educação! Quanto tempo ...
28.01.2012 - 15h39

Dilma Rousseff vai à ilha dos irmãos Castro; farol alto, presidente, farol alto!

Dilma Rousseff  desembarcará em Cuba daqui a dois dias.  Dois ou três dias, não estou certo, nem vem ao caso. O que me importa saber é se ela vai como pessoa física ou como pessoa jurídica.

Pessoa física ou jurídica? Como assim?  Já me explico.

Diferentemente de nós, mortais comuns, Dilma Rousseff  tem uma dupla natureza. Não chega a ser uma trindade, mas é uma dualidade. Nela há duas pessoas; duas em uma. Por um lado, ela é uma cidadã, e nisto não se distingue de nós. Mas por outro ela é também a presidente da República, o Chefe do Estado brasileiro, e nisto ela se diferencia totalmente.

O atributo, cargo, função (como queiram) de presidente  nenhum cidadão compartilha com ela. Outros cidadãos (os deputados e senadores) dividem com ela a função de nos representar, ou seja, de representar a nação. Mas o que vai acontecer em Cuba é um encontro entre chefes de Estado, portanto é com ela que a bola vai estar.

Desculpem, eu me apressei e acabei pulando a questão prévia. Ela viaja a Cuba como pessoa física (uma simples cidadã) ou como pessoa jurídica (a chefe do Estado e representante da nação brasileira)?

Se me disserem que ela vai como pessoa física, eu lhe desejo boa viagem e paro por aqui mesmo. Que descanse e aproveite os dias que vai passar lá. Mas o que consta, obviamente, é que se trata de uma viagem oficial. Quando ela começar a descer a escada do Aerolula, é a presidente do Brasil que o comandante Raúl Castro estará vendo.

Nesse caso,  a primeira observação a fazer é a de que Dilma Rousseff  já não se pertence. Quaisquer que sejam suas memórias e imagens de Cuba, seu grau de simpatia ou antipatia pelos irmãos Castro, sua avaliação pessoal sobre o último meio século da ilha etc etc etc, ao estender a mão ao comandante ela estará representando o Brasil. Ou seja, NOS representando. Representando não só os que pensam como ela, não só o PT, não só o pessoal do Itamaraty, que sem dúvida a “briefou” até a exaustão…, mas ao país inteiro. A todos nós.

A premissa que acabo de expor tem algumas implicações relevantes, a primeira delas já no terreno das atitudes. Dilma  não vai a Cuba para encontrar velhos amigos, ou tios que não vê há muito tempo. Vai como autoridade máxima de um país soberano para encontrar as autoridades máximas de um país também soberano. Previna-se, portanto, para não repetir o triste espetáculo que Lula e sua trupe encenaram dois anos atrás: um espetáculo com revestimento externo de camaradagem e um miolo de indisfarçável subserviência.

Segundo,  a presidente brasileira viaja como líder de uma nação democrática.  De um país que procura respeitar os direitos humanos e se empenha por vê-los respeitados em todo o mundo.

Sim, já sei; já quase ouço aqueles sussurros de sempre: “o Brasil tem investimentos em Cuba”, “há interesses econômicos em jogo”, “dos direitos humanos nós estamos tratando em foros multilaterais”, “não convém…”, “não é bom…”.

Ora, pois. Em primeiro lugar, os valores a que acima me referi não são matéria para interpretação. Estão na Constituição brasileira. São mandamentos. Em segundo, investimentos vultosos em Cuba são mais uma razão para a presidente expressar os valores brasileiros, não para omiti-los. Para os enunciar – observando as formalidades e os melhores modêlos diplomáticos, isto é óbvio -, não para emudecer e enfiar o rabo entre as pernas.

Por  último, a viagem em questão não diz respeito apenas a Cuba; aliás, toda visita oficial a outro país  tem projeções noutros países.

Que país a presidente Dilma quer projetar? Um país que tenta esconder  sua fraqueza econômica e política atrás de uma cortina de bom-mocismo, ou a potência emergente que seu governo não se cansa de cantar em prosa e verso? Um grande exagero, como sabemos, mas antes este que o exagero anterior, de sentido oposto: o exagero da fraqueza.

Eu suponho – e como poderia supor outra coisa? – que a presidente quer encarnar o país em que acredita, em que tem fé, em que confia. O país  que espera ver bem mais adiantado dentro de poucos anos.

Ora, se assim é, senhora presidente, assuma com a indispensável formalidade, mas também com altivez, a causa da democracia e dos direitos humanos. Diga que deseja se avistar com representantes da oposição. Peça esclarecimentos  sobre  essas mortes de dissidentes que vem se sucedendo nas prisões cubanas. Pergunte por que uma revolução socialista consolidada há várias décadas antepõe tantas dificuldades a viagens de  cidadãos seus ao exterior.

Senhora presidente: isso aí lhe parece mesmo tão difícil?

23.01.2012 - 17h13

Cracolândia e Pinheirinho: ah, que bom se sempre houvesse uma opção boa e outra ainda melhor!

Um ano e meio atrás, como todo mundo se recorda, setores do PT  saíram por aí batendo bumbo em torno do PNDH-3 – a terceira versão de um Plano Nacional de Direitos Humanos.

Não se requeria muita argúcia para perceber os objetivos de tal movimentação.  Com a campanha sucessória presidencial em andamento,  o barulho servia, de um lado,  para acordar e motivar a militância; do outro, para ir encostando o sucessor de Lula na parede, forçando-o a se comprometer com o Plano (mesmo se fosse Serra).

Uma das barbaridades mais facilmente perceptíveis do texto dizia respeito a conflitos fundiários – especificamente ao caso de propriedades invadidas. Configurada tal situação, o texto propunha o afastamento da Justiça, passando a responsabilidade da pendência para uma comissão de arbitragem.

Quem tinha de entender, logo entendeu. Os proprietários de terra captaram imediatamente o significado da proposta. Trocada em miúdos, ela dizia o seguinte: “eu estou em minha propriedade, na terra que cultivo, e de repente sou invadido; até agora o procedimento tem sido recorrer à Justiça e à polícia, mas isso não vai valer a partir da aprovação do Plano; daí em diante, precisarei negociar com os invasores para juntos nos submetermos à arbitragem”.

Tratava-se portanto de fazer uma revolução sui generis: abolia-se a propriedade privada sem gastar sequer a tinta  de uma esferográfica.

Dá-se, entretanto, que um fato translúcido para a parcela rural de nossa sociedade muitas vezes se apresenta opaco para a parcela urbana, e vice-versa. Dentro desta última há muita gente que nunca viu uma vaca e não atina com o significado do termo estiagem, mas cuja opinião a respeito dos  “ latifundiários” não difere muito da do MST; considera-os odiosos, a não ser,  naturalmente, quando saboreia uma boa picanha.

Os meus caros leitores, se existem, devem estar se perguntando se a peroração acima tem algo a ver com a Cracolândia e o Pinheirinho.

É lógico que tem. Tem tudo a ver. Com uma diferença. Os dois episódios deram-se no meio urbano; portanto, não está em jogo uma diferença entre visões urbanas e rurais. Diferença meramente aparente, convenhamos. Quem não está acampado na Cracolândia nem ocupando terreno alheio e, de quebra, mora longe dos dois locais a que estou me referindo, pode perfeitamente entrar no coro: “Absurdo! Violência! Por que não se sentaram com os envolvidos e procuraram uma solução junto com eles? Como acionar a polícia num país onde milhões carecem de habitação condigna?”

Um rapaz que no momento “está” ministro não precisou mais  que dois minutos para  perceber que o noticiário ruim para o governador e o prefeito de São Paulo devia ser bom para o seu partido. Rápido no gatilho, foi logo sacando o argumento da “discussão” e da “negociação”. Se alguém me disser que o viu vertendo algumas lágrimas, acreditarei.

Ora, ora, meus amigos! Até onde vamos com todo esse bom-mocismo, tantos equívocos e tanta hipocrisia?

Antes de contra-argumentar quanto à substância, quero porém me antecipar a certos pseudo-argumentos que os setores politicamente interessados habitualmente esgrimem com invejável destreza.

Não, não sou “insensível” ao sofrimento das pessoas que optaram pelo suicídio lento – os viciados em drogas em geral, não só os da Cracolândia- ou que não têm um local adequado para morar. Tampouco estou fazendo vistas grossas a abusos eventualmente cometidos pela polícia nas duas operações; se aconteceram, o governador Alckmin e o prefeito Kassab estão legal e moralmente obrigados a tomar providências.

Dito isto, eu pergunto a todos quantos tenham honestamente criticado as duas operações o que teriam feito se a responsabilidade estivesse em suas mãos e não na das autoridades citadas. Deixariam ficar para ver como é que fica? Escudar-se-iam na mais recente preciosidade jurídica – “não há que executar a reintegração de posse quando o proprietário for um especulador”?  Convocariam o Sr. Jean-Jacques Rousseau para deixar tudo o que estiver fazendo no século 18 e vir correndo nos ajudar na negociação com  os invasores?

Realmente, o lado preocupante da atual situação brasileira é que muita gente está optando por ignorar ou deslegitimar a ordem jurídica – o que por si já seria grave -, e por fazê-lo com base em argumentos no mínimo estapafúrdios. “Suspenda-se a aplicação das leis”! Que voltem a ser aplicadas só depois que toda a sociedade tiver acesso  aos bens e serviços básicos de que atualmente carece!”.

É uma tese formidável; quem a leva a sério deve também acreditar que um avião é capaz de fazer uma parada em pleno ar, sustentando-se sem necessidade do movimento. Sim, chamemos o Sr. Rousseau. Entrem as atuais autoridades em férias coletivas; por ora elas não terão do que se ocupar.

Para a parcela da sociedade que não possui terra e não está ocupando terrenos alheios, fantasias desse tipo provavelmente continuarão a fazer sentido por algum tempo. Enquanto isso, mãos à obra, vamos deslegitimar a ordem jurídica.

 

20.01.2012 - 18h48

Do “affair Dreyfus” e Rui Barbosa aos nossos dias: afinal, ecordar não é viver?

Caríssimos leitores e leitoras: o meu  post de hoje tem um formato diferente do habitual.  Vou relatar  três  fatos e deixar para vocês a reflexão e a tarefa de tirar eventuais conclusões.

PRIMEIRO  FATO

Cerca de 15 anos atrás, eu escrevi um pequeno  livro sobre Rui Barbosa. Intitulei-o  “Rui Barbosa e a Construção Institucional da Democracia Brasileira”.

Um parêntesis:  ao  publicar o meu texto, a  Fundação Casa de Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, à época dirigida pelo Dr. Mário Machado, valorizou-o  imensamente, pois   incluiu no mesmo volume  uma série de  lindas  fotos  tomadas  em sua sede  por Cristiano Mascaro, um profissional que não carece de ser apresentado.  Fecha parêntesis.

Posteriormente, em várias discussões sobre o meu estudo,  eu pude constatar  diretamente uma coisa que  a rigor não ignorava:  a indiferença, para não dizer  o preconceito, dos cientistas sociais  em relação à  figura de Rui Barbosa. Chato, superficial, moralista, reacionário e  “jurisdicista” são alguns dos adjetivos que   me lembro de ter ouvido à época.

SEGUNDO FATO

Neste trecho eu não vou citar literalmente, mas vou ficar bem rente ao texto de um  excelente estudo de Homero Senna, também publicado pela Fundação Casa de Rui Barbosa.

Em 1894, o capitão de artilharia Alfred Dreyfus, em função junto ao Estado-Maior do Exército francês, foi  acusado de ter fornecido planos secretos da defesa francesa ao adido militar alemão em Paris.

Nessa época  a França atravessava  um período de intenso anti-semitismo, numa excitação profundamente irracional,  piorada pela memória da sova que levara dos alemães na guerra franco-prussiana de 1871.

Num texto publicado junto com o de Homero Senna, Batista Pereira  discorre sobre tal clima e informa , especificamente, que um de seus fomentadores  mais ativos era um certo Edouard  Drumont, jornalista do tipo panfletário, cujo anti-semitismo não conhecia limites. Drumont  mostrava-se especialmente  empenhado em incutir o anti-semitismo no Exército: levá-lo a pensar que  os judeus presentes em suas fileiras representavam uma parte importante da força do inimigo.

Descendente de judeus alsacianos, com 35 anos de idade, Dreyfus foi então submetido a um conselho de guerra constituído por sete oficiais superiores, seus colegas de armas, e  acabou condenado  por unanimidade à  exautoração (perda da função, da honra e das insígnias militares) e ao degredo perpétuo.

Homero Senna  conta-nos a terrível cerimônia da exautoração. “De uma crueldade moral sem limites, o episódio teve lugar no pátio da Escola Militar, em Paris, na manhã de sábado, 5 de janeiro de 1895. Comandava a parada o General Darras, que, a cavalo, depois da leitura pelo escrivão da sentença condenatória, desembainhou a espada e pronunciou as palavras implacáveis: ‘Alfred Dreyfus, sois indigno de vestir a farda! Em nome do povo francês, vos degradamos’.  Ato contínuo, um sargento lhe quebra a espada, arranca rapidamente os botões do dólmã, os números da gola, os galões de ouro do quepe e as demais insígnias da honra militar”.

Condenado ao degredo perpétuo, Dreyfus  foi mandado para a Ilha do Diabo, uma pedreira que  fazia   perfeitamente  jus ao nome, ali perto da Guiana Francesa. As condições  da prisão eram indescritíveis.

Um irmão de Dreyfus  começou a lutar pela revisão do processo. Pouco a pouco , foi ganhando adesões.  Com o passar dos anos, o affair  Dreyfus radicalizou  completamente  a situação francesa. Cito  outra vez o texto do Senna: “Crescia o numero dos partidários da revisão do processo. Ao contrário do que de início acontecia, já havia dreyfusards  e antidreyfusards , posições que aos poucos se tornariam radicais, abalando o país, dividindo a sociedade em dois campos nitidamente opostos e atiçando as paixões políticas e religiosas, sobretudo o anti-semitismo”.

Daí em diante, a história é bem conhecida.  Em meados de 1898, veio-se a descobrir que o processo contra Dreyfus fora todo baseado num documento falso. Antes porém, a  13 de janeiro –  liderando um grupo dentre os mais destacados intelectuais franceses  engajados na luta pela  reabertura do processo – , o escritor Émile Zola publicou  no jornal  L’Aurore  o seu célebre  “J’Accuse”.  Em 1899, Dreyfus foi levado a Paris para um segundo julgamento e…novamente condenado: mais 10 anos; mas não tardaria a ser indultado  e posto em liberdade pelo presidente Loubet.  Lutando, no entanto, pelo reconhecimento de sua inocência,  só o lograria em 1906.

TERCEIRO FATO

Os leitores que tiveram a bondade de me acompanhar  até aqui  devem estar se perguntando: “Formidável, mas que tem o caso Dreyfus a ver com suas querelas acadêmicas sobre Rui Barbosa?”

No fundo, é muito simples. Voltando ao início do parágrafo anterior, reparem que o  célebre e merecidamente celebrado protesto dos intelectuais franceses a favor de Dreyfus aconteceu em janeiro de 1898. Rui também protestou. Não só protestou como  publicou seu protesto, já com todo um arrazoado jurídico condenando o famigerado julgamento. Querem saber quando o fez?  É  fácil: seu texto foi publicado no dia 07 de janeiro de 1895, exatos DOIS DIAS após a terrível cerimônia da exautoração.

Como foi isso possível? Como pôde Rui demonstrar tamanha rapidez no gatilho? Mais uma vez, a explicação é muito simples. Exilado pelo presidente Floriano Peixoto – vocês se lembram, não é: o famoso “marechal de ferro” -, ele  fora residir em Londres e de lá acompanhara minuciosamente  o que a imprensa publicava sobre o affair.

 

 

 

15.01.2012 - 14h30

Totalitarismo, Hitler e Stálin: a alguns de meus antigos alunos, com carinho

 

Hoje, ao reler velhas anotações dos meus tempos de professor, lembrei-me com muito carinho de alguns  estudantes de esquerda que torciam o nariz quando eu começava a explicar o conceito de “totalitarismo”, e bufavam de ódio quando eu incluía Stálin e outros menos votados entre os governantes mais notoriamente totalitários do século 20.

Foi recordando aquela época que tive a idéia de postar aqui os apontamentos abaixo.

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No pólo oposto ao das democracias liberais avançadas encontramos regimes totalitários como o da URSS e o nazi-fascismo. Ambos  mantiveram uma aparência de legalidade – a Constituição alemã de 1919 aliás nunca foi abrogada – mas eram claramente  incompatíveis com a idéia de uma ordem constitucional digna do nome.

Sendo o terror uma peça-chave em seu funcionamento, os regimes totalitários a rigor nem deveriam ser designados como tal, pois neles a questão não é a simples carência   de um padrão previsível, é o zelo com que os aparatos de poder impedem a estabilização de uma ordem até por obra da “tradicionalização” ou da   inércia social .

Em seu livro “Hitler – a Study in Tiranny”, pág. 403, Alan Bulock cita um texto publicado em 1936 pelo Dr. Hans Frank, um dos mais destacados juristas da Alemanha nazista:    “Our Constitution – escreveu esse Frank – “is the will of the Führer”.

Ou seja, não havia Constituição alguma. Frank estava certíssimo. Não creio que alguém tenha dúvidas a esse respeito, mas  vou rememorar alguns fatos, just in case.

No fim de março de 1933, um parlamento intimidado pela violência nazista passou a Enabling Law, que na prática suspendia a Constituição.

A 29-30 de junho de 1934, Hitler ordena a execução de Röhm e de todos os demais dirigentes da S.A, afastando dessa forma o único grupo capaz de desafiá-lo dentro do partido [págs. 302-6]; no dia 13 de julho, ele “explica” ao Reichstag por que ordenou o extermínio em vez de levar o grupo aos tribunais, e ameaça de forma não tão velada com a mesma sorte todo aquele que se antepusesse aos objetivos do novo Estado alemão (306-309].

No dia 02 de agosto, uma hora após a confirmação da morte do presidente von Hindenburg, é anunciada a fusão dos cargos de presidente da República e primeiro-ministro, doravante concentrados nas mãos do Führer – ou seja, dele, Hitler.

Agora vem a melhor parte. Prestem atenção.

No mesmo dia do mencionado anúncio, a oficialidade do Exército é convocada a jurar lealdade ao novo Comandante-em-Chefe.

The form of the oath was significant – escreve Bulock, p. 309; the Army was called on to swear allegiance not to the Constitution, or to the Fatherland, but to Hitler personally:

“I swear by God this  holy oath : I will render unconditional obedience to the Führer of the German Reich and People, Adolp Hitler, the Supreme Commander of the Armed Forces, and will be ready, as a brave soldier, to stake my life at any time for this oath”.

Dezenas de medidas poderiam ser lembradas, mas a listinha acima  deve ser suficiente para ilustrar meu argumento.

Àquela altura, na URSS, o regime stalinista já estava montado, mas Stalin, num surto de humor negro, mandou inserir o habeas corpus na Constituição soviética de 1936. E vejam só que coincidência mais macabra: foi a primeira vez na história que o habeas corpus  apareceu  na legislação russa: apareceu justo na ante-véspera dos famosos “julgamentos de Moscou”.

21.12.2011 - 16h43

URSS, Coréia do Norte, Cuba e o que alguns chamam de “sonho socialista”

De alguns anos para cá, graças a umas poucas fotos e seqüencias de televisão,  pudemos ter pelo menos uma vaga  noção a respeito da Coréia do Norte.  Com a morte de  Kim Jong-il e a confirmação de seu  filho para o comando do país,  mais algumas imagens  e informações fragmentárias chegaram ao Ocidente.

Pelas  informações eu passo batido, pois não sei que valor têm.  Pelas imagens, devo confessar que  tenho um enorme interesse.

Se  a frase acima levou o leitor  a me imaginar decifrando a alma de um país distante  através de  fotografias, apresso-me  a esclarecer que não se trata disso. Não sou  possuidor desse  ou de qualquer outro dom misterioso. A  alma que eu tento decifrar não é a dos norte-coreanos, é a nossa mesmo: a dos brasileiros, ou dos latino-americanos, como queiram. A alma de uma parte ponderável da nossa juventude, especialmente.

Junto com Cuba, a Coréia do Norte é o que sobrou do antigo sonho socialista (leia-se: marxista-leninista).

Do ponto de vista econômico, a situação da Coréia do Norte deve ser parecida com a de Cuba. O que a torna diferente é o seu poder de chantagem. Rigorosamente militarizado, o país tem um programa nuclear (sabe Deus em que estágio) e uma razoável capacidade para disparar mísseis de médio alcance. Disto sabem muito bem os coreanos do Sul e os japoneses.

Sim, a Coréia do Norte é um país paupérrimo, e a pobreza obviamente reforça o seu jeitão macabro. E a Alemanha Oriental, na antiga e orgulhosa Prússia, tinha um jeito alegre e jovial? Outro dia eu falei sobre o filme “A vida dos outros” e me perguntei por que  os jovens que ainda cultivam o mito da revolução não se munem de coragem para assisti-lo.  De coragem e de honestidade intelectual para refletir sobre ele.

Volto, porém, às fotos e imagens de TV. E ao que chamei de velho sonho socialista. Olho de novo a foto do jovem Kim Jong-un em uniforme militar, tento imaginar o cotidiano da sociedade que ele de um jeito ou de outro encarna, e  me pergunto: ainda há no mundo alguém capaz de se inspirar nisso?

Estarei por acaso forçando a barra? Minha indagação é capciosa? Duas interpelações eu antecipo sem nenhuma dificuldade.  A  primeira: “a Coréia do Norte pode não inspirar, mas por que você não fala de Cuba?”

De Cuba eu não  tenho falado porque não vejo necessidade.   Temos tido muitas notícias de lá, e aqueles a quem Deus aquinhoou com a virtude da paciência podem até entrar no site do Granma, o órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista cubano. Os textos que ele imprime não estão em coreano, estão em espanhol, e o próprio governo já desistiu de fazer segredo. Diz para quem quiser ouvir que a situação da ilha é catastrófica.

Segunda interpelação: “nenhum ‘caso concreto’ invalida o sonho socialista. Você está falando do ‘socialismo realmente existente’, não do socialismo como sonho, teoria e projeto histórico”.

Isso é verdade: falei de dois “casos concretos”. O sonho, a teoria e o projeto  surgiram em meados do século 19: cerca de 160 anos atrás. Levado à prática , a ferro e fogo, o projeto transformou a URSS numa grande potência militar. Finda a guerra de 1939-45, a URSS logo atingiu a paridade com os Estados Unidos em capacidade destrutiva e dominou direta ou indiretamente quase metade do planeta.

Chegou até à insensatez  – vejam só – de atender  a um desatinado pedido do companheiro Fidel Castro: instalou mísseis com ogivas nucleares em Cuba. Mas, como diz o conhecido refrão, o mundo roda e a Lusitana voa. Ao completar  75 anos, a grande potência não se agüentava mais. Desmoronou como um castelo de cartas.

E sobre a teoria e o sonho, que posso dizer neste exíguo espaço? Não muito, evidentemente, mas o meu desejo, de qualquer forma, é tocar só em dois pontos.

Vladmir I. Lênin podia ter mil defeitos, mas tinha duas grandes qualidades: dizia o que pensava e escrevia com uma clareza de dar inveja.  Após a Revolução de 1917, com a experiência  que havia adquirido em debates com os socialistas na Rússia e fora dela, ele logo avisou, curto e grosso: a teoria é uma só e a interpretação correta é a do Partido.  Doa em quem doer.

E, de fato, doeu em muita gente. Morto em janeiro de 1924, Lênin não chegou a ver  em quanta gente, mas realmente não foi em pouca. Em todos os “casos concretos” do “socialismo realmente existente”, sem exceção, o partido e a polícia política desenvolveram técnicas assaz eficientes para impedir discordâncias teóricas ou oníricas.

Meu segundo e último ponto é sobre o lugar da psicologia na teoria marxista. Há nela um axioma  não-escrito que ao fim e ao cabo se revelou mais importante que a maioria dos axiomas escritos que a compõem. Ele diz que, do ponto de vista psicológico, os líderes marxistas são inteiramente homogêneos. São todos iguais, rigorosamente equivalentes – e admiráveis. Nenhum é maluco, mau caráter ou paranóico.  Todos altruístas, fortes, destemidos, equilibrados etc.

Este pilar não-escrito da teoria  nenhum marxista de destaque jamais conseguiu questionar…e permanecer no partido. Lênin, se não tivesse falecido, talvez o fizesse. No leito de morte, ele redigiu e deixou com sua mulher o que veio a ser conhecido como seu “testamento”. Era para ser lido no próximo congresso do PC.

Nesse documento, Lenin fazia uma recomendação ao mesmo tempo grave e enfática: o partido precisava tirar Stálin da Secretaria Geral – a posição de poder em que ele se abotoara. No lugar dele, era imprescindível – vou citar literalmente – colocar alguém “mais tolerante, mais leal,mais cortês, que tenha mais consideração pelos camaradas, que seja menos caprichoso etc”.

Para bom entendedor, pingo é letra.

21.11.2011 - 21h11

Rebeldes sem causa (II): sem trocadilho, a rebeldia estudantil tem causas?

Retomo hoje, a contragosto, o tema que iniciei no dia 09.11: as recentes manifestações e o comportamento dos estudantes da USP.

Para quem não teve oportunidade de ler o post anterior, faço um breve resumo. Por um motivo totalmente fútil, os estudantes armaram um fuzuê e se viram na necessidade de aumentá-lo cada vez mais para tentar revesti-lo de alguma seriedade.

Foi assim que o micro-assunto da maconha se transformou num protesto contra o que eles denominam “militarização do campus”, e por esse caminho chegaram à convocação de uma greve. Nessa escalada eles invadiram o prédio da Reitoria, desobedeceram à ordem judicial de desocupação e disseram-se afrontados por serem levados a uma delegacia e indiciados.

Nos últimos poucos dias surgiram indícios de que alguns deles talvez queiram ir mais longe, recorrendo a táticas para as quais infelizmente só há um nome: violência.

Esses a que me refiro – queira Deus que sejam uma pequena minoria -, alegando que a assembléia votou pela greve, começaram a entrar em algumas salas com o objetivo de impedir a continuidade de aulas em andamento. É óbvio que a esta altura já estamos falando de pressão violenta. De pressão, não, porque toda pressão violenta pressupõe um ânimo violento. Falhando a pressão, o que vem em seguida? Uma retirada pacífica?  Ou a violência física? Qualquer que seja a resposta, está claro que a liberdade e a autoridade do professor não lhes interessava a mínima.

Não é necessário muito esforço para se perceber a sensação de impunidade que permeia esses fatos. A que se deve tal sensação? Esta pergunta talvez nos leve à raiz dos problemas; raiz, apresso-me a acrescentar, no que se refere aos estudantes: não quero dizer que eles sejam a única parte errada no panorama universitário de São Paulo, ou do país.

A que, repetindo, se deve tal sensação de impunidade? De imediato, ocorrem-me duas hipóteses, não mutuamente excludentes.

A primeira é paradoxal: a mencionada minoria de estudantes parece ter perdido o senso das coisas não por estar amargando os horrores de uma péssima universidade e de um regime político idem, mas pela razão oposta. Matriculada na melhor universidade da América Latina e nela estudando sem nada pagar, ela subitamente começou a se sentir “poderosa” e   se arrogar direitos que decididamente não figuram no Direito positivo brasileiro.

A segunda hipótese é menos intuitiva, mas quiçá mereça discussão. Não será um surto de romantismo político, esse comportamento que estamos testemunhando na USP?

Por romantismo político eu entendo uma mescla de atrevimento com uma auto-imagem “revolucionária”. Um estado de alma meio fora do mundo; um desejo de suspender as rotinas e convenções sociais e fazer algo radical. Um desejo de instaurar um mundo novo, com o qual possamos nos identificar plenamente.

Eu não sei se o romantismo político tem componentes psicológicos – esta parte eu deixo para os especialistas. Mesmo que tenha, eu acredito que em certas situações – no serviço militar, ou num emprego que não queira perder de jeito nenhum – o romântico refreará seus arroubos.

Seja como for, aqui me refiro a uma condição objetiva. Além de favorecer certa arrogância, a condição estudantil acima descrita não seria também propícia ao romantismo?

Para reforçar esta hipótese, pensemos na memória e na experiência política dos alunos que andaram forçando professores a interromper aulas. Que idade têm os mais velhos dentre eles? Vinte e três, vinte e cinco?

Pensem bem: nós estamos em 2011; a campanha das Diretas-Já esses moços só devem ter visto, se é que viram, em vídeo. Do que foi o regime militar, eles não fazem a menor idéia,  e  o pré-64 para eles deve ser uma espécie de pré-história.

Longe de mim querer fazer o gênero “mais velho”, com aquele discurso “condescending”. Não mesmo. Quero apenas dizer que esses estudantes estão tentando formar sua identidade política dentro de um prolongado vácuo; do tédio, da falta de excitação e heroísmo de uma “mera” democracia estável. “O que pode haver de pior”, devem alguns deles se perguntar.

Minha crença nas duas hipóteses expostas decorre de um fato muito simples: não consigo imaginar outras. O que mais poderia ser? Seriam esses jovens violentos por natureza? Não creio. Seriam fascistas? Eu quero ser a última pessoa no planeta a acusá-los disso.

Seria marxismo, ou uma particular vivência do marxismo? Mas o que sabem eles de marxismo – ou dos países que padeceram (dois ou três ainda padecem) sob regimes marxistas?

09.11.2011 - 18h40

Rebeldes sem causa: reflexões sobre as recentes manifestações estudantis na USP (I)

Dias atrás, ao serem retirados da reitoria da USP,  alguns dos estudantes que a haviam ocupado ensaiaram uma triste evocação dos movimentos estudantis de outras épocas. Disseram –não sei se exatamente com estas palavras – que a universidade voltara a viver sob uma ditadura.

Depois que o sindicato dos funcionários pagou a fiança e a polícia liberou os 73 detidos,  alguns dos centros acadêmicos da universidade convocaram uma assembléia para deliberar sobre o que denominaram a iminente  “militarização da segurança da universidade“.

Convenhamos: talvez por estudarem na melhor universidade do país, esses rapazes e moças às vezes fazem pouco da inteligência alheia.  A desocupação da reitoria – isto ninguém ignora – foi uma operação policial, e operações policiais têm como pressuposto o uso da força; e foi uma operação policial porque eles  recorrendo à força, haviam ocupado um próprio público e em seguida se recusado a obedecer à ordem judicial de desocupação.

Longe, portanto, de configurar uma ditadura, o que o episódio indica é que existe no Brasil uma democracia em efetivo funcionamento. Nesse regime, todos nós – dentro e fora da universidade –  temos direitos iguais e estamos igualmente obrigados  a observar  determinados limites de comportamento. O Estatuto da universidade não confere “direitos” especiais aos estudantes, e nem seria concebível que o fizesse, uma vez que acima dele existem as leis estaduais e a  Constituição Federal.

UMA REPÚBLICA ESTUDANTIL, COM LEIS PRÓPRIAS?

O segundo ponto que me proponho comentar é tão óbvio quanto o anterior, mas às vezes o óbvio precisa ser dito. Como foi amplamente divulgado, o que deflagrou o episódio da USP  foi a detenção pela PM de dois estudantes que fumavam maconha. Nada a ver com questões ou princípios relevantes para a instituição universitária. A mobilização estudantil deveu-se por conseguinte a um motivo fútil, ou quem sabe pior que isso: numa suposição inconsciente mas nem por isso menos estapafúrdia de que a condição universitária de certa forma implicasse a descriminalização do  consumo de drogas. Este permanece interditado para os cidadãos em geral, mas não para os estudantes, que a esse respeito teriam um status jurídico diferenciado.

Mas o motivo, valha a redundância, é apenas o início da história. Em relação a movimentos estudantis, ninguém ignora que a participação nas assembléias é extremamente baixa, que há uma chance elevada de os participantes de hoje serem os mesmos de ontem e, não menos importante, de serem muitos deles militantes dos partidos de extrema esquerda.  Isto obviamente  não configura ilegalidade alguma, mas suscita algumas indagações importantes.

Por que os estudantes universitários – e aqui não me refiro só aos da USP – até hoje não adotaram, em proveito da transparência e da democracia, os procedimentos de discussão e votação universalmente conhecidos, e usados pelos mais diversos segmentos e até em reuniões de condomínio?  Sem um mínimo de formalização, é inevitável que a representatividade de suas assembléias seja posta em dúvida.

A ocupação da reitoria da USP foi decidida por cerca de 500 estudantes, num total de 80 mil. Terão os 79.5 mil ausentes implicitamente concordado com tal decisão?  Os que não compareceram à assembléia foram devidamente convocados e previamente informados da pauta a ser discutida? As discussões e votações  foram conduzidas com clareza e imparcialidade?

01.11.2011 - 18h26

Diferenças salariais inaceitáveis entre homens e mulheres: eis um bom retrato do atraso brasileiro

Poucos temas têm uma radioatividade comparável ao das diferenças entre homens e mulheres em distintas atividades. Talvez tenha sido sempre assim, mas atualmente todo cuidado é pouco. Nesta era do “politicamente correto”, qualquer deslize pode ser fatal.

O que me trouxe o assunto acima à mente foi uma curiosa coincidência: eu ter feito hoje duas leituras bastante díspares, diria mesmo opostas e antagônicas. A primeira foi de um texto que  eu  havia lido algum tempo atrás, e que muito apreciei; a segunda, que deixo para comentar depois, foi uma matéria enviada de Nova York pelo jornalista Gustavo Chacra, correspondente do Estadão.

O autor a que me referi  parte da premissa de que o segredo e a diligência são essenciais ao bom exercício de funções de governo. Daí se segue – ele assevera – “…que as mulheres, sendo por natureza indolentes e incapazes de guardar segredos, geralmente não se saem bem em cargos públicos”. Para reforçar seu ponto de vista, ele lembra que as mulheres são frequentemente reféns de suas emoções, o que as faz perder o senso da razão e da justiça”.

Ponderado, ele lembra que toda regra comporta exceções, e “…esta era em que vivemos é pródiga em exemplos femininos positivos”. Apesar disso, ele reitera que “… as mulheres são frágeis, carecem daquele vigor masculino imprescindível na administração pública, isto sem mencionar que elas raramente conseguem governar sem apelar para uma exploração baixa de sua condição feminina, ou sem cometer atos de injustiça e crueldade, frutos de sua desordenada subordinação às emoções”.

Meus eventuais leitores e leitoras com certeza já perceberam aonde eu pretendo chegar. Alguns séculos atrás, a ascensão ocupacional das mulheres esbarrava em preconceitos não só arraigados, mas generalizados, tanto assim que um homem como Armand-Jean du Plessis, homem da Igreja e do Estado francês, também conhecido  como Cardeal Richelieu, não se pejou de escancarar o que pensava a respeito em seu Testamento Político.

Mas isso não impediu que, decorridos quase quatro séculos, a França fosse o país admirável que é hoje, com relações de gênero muito mais  igualitárias que o Brasil. Não impediu – uma leitora muito pessimista poderá objetar -, mas levou quase quatro séculos! Quanto tempo nós precisaremos esperar? Bem, quanto a isto o melhor que podemos dizer é que o tempo atual é mais acelerado; não creio que levemos quatro séculos para atingir uma situação semelhante à dos franceses, mas quem garante que não levaremos um ou dois?

Aqui é que entra a matéria publicada hoje pelo jornalista Gustavo Chacra. O título é curto e grosso: “[O Brasil] é um dos piores do mundo na questão da diferença salarial entre homens e mulheres. Tomando como base um ranking de desigualdade elaborado pelo World Economic Forum, Chacra informa que nesse indicador o Brasil ocupa a 82ª posição. Quando se comparam homens e mulheres que exercem uma mesma função, há casos em que elas ganham a metade do que eles recebem. Neste aspecto, o Brasil ocupa o último lugar na América do Sul. Trata-se, portanto, de um vexame prá ninguém botar defeito.

Os responsáveis pela elaboração do ranking atribuem a má colocação do Brasil na questão salarial a um desempenho muito fraco no combate à desigualdade, e este por sua vez se deveria segundo eles a uma presença muito baixa das mulheres em cargos de direção na política e na economia.

Na política, mesmo com a eleição da presidente Dilma Rousseff no ano passado, o Brasil não aparece entre os cem primeiros colocados. É  o 103º e 111º no que se refere a mulheres em cargos ministeriais e parlamentares, respectivamente – um desempenho considerado péssimo para um país com uma das maiores economias e democracias do mundo.

Agora sou eu que pergunto: temos que receber o recado e ponto final, ou temos algum espaço para nos “defendermos”? Por favor, notem as aspas; longe de mim querer apelar para o verde-amarelismo num assunto tão grave.

Mas acho, sim, que há espaço para dúvidas e talvez até para contra-argumentação no que tange à presença da mulher em cargos políticos elevados e, pois, de forma indireta, sobre a posição brasileira no ranking.  Primeiro, não estou seguro de que o tratamento numérico esgote o assunto. Segundo, além do número e da importância dos cargos ministeriais ocupados por mulheres, creio ser  necessário  levar também em conta a  preponderância do Executivo federal nas estruturas política e econômica brasileiras.

Nos Legislativos, de fato,  os percentuais de participação feminina são baixos, mas a média mundial (algo entre 15 e 20%) também não impressionam.  Nem o crescente recurso a cotas produziu alterações realmente expressivas.

Em altas funções executivas, é a partir de 1964, salvo engano, que as mulheres começam a despontar. Foi naquela década, já no período dos governos militares, que a então deputada Sandra Cavalcanti foi nomeada presidente do recém-criado BNH (Banco Nacional da Habitação) pelo presidente Castelo Branco, e foi durante o governo Geisel que Maria Ester de Figueiredo Ferraz veio a ocupar a pasta da Educação.

Como ministra da Fazenda do governo Collor, Zélia Cardoso de Mello acumulou uma enorme soma de poder na área econômica; no governo Itamar Franco, Luísa Erundina foi ministra-chefe da Administração Federal; no governo Fernando Henrique, Ruth Cardoso não comandou uma pasta específica, mas pôde renovar amplamente a área da política social;  no governo Lula, Marina Silva foi ministra do Meio Ambiente e a própria Dilma Roussef ocupou os ministérios de Minas e Energia e da Casa Civil. Acrescente-se que o terceiro maior orçamento do país, o do município de São Paulo, foi comandado por Luíza Erundina e por Martha Suplicy.

Permitam-me concluir com algumas observações de caráter impressionista. No Brasil, a posição da mulher era realmente de total subordinação até os anos cinqüenta do século passado. No mercado de trabalho, sua presença mais visível limitava-se ao serviço público e ao magistério. Mas a mudança ganhou momentum a partir dos anos 60, tornando-se progressivamente perceptível tanto em termos de vestuário e de comportamento quanto no tocante ao leque de opções profissionais, que finalmente se abriu de forma irreversível.

Naquela década as mulheres começaram a marcar presença nos estádios de futebol; atualmente várias delas atuam no futebol como juízas, e muitas como jogadoras. Muitas têm sido atraídas para a carreira policial, algumas até para a pilotagem de aeronaves.

As observações acima são, como disse, impressionistas. Por si sós elas obviamente não invalidam os dados quantitativos compilados pelo World Economic Forum quanto à presença da mulher em cargos políticos, e menos ainda quanto a diferenciais de remuneração entre homens e mulheres. Mas parecem-me úteis como indicação de que os preconceitos sociais já mudaram bastante, e continuam mudando.

25.10.2011 - 15h14

“A corrupção aumentou monumentalmente”: texto de minha entrevista ao O Globo de 23.10.2011

‘A corrupção aumentou monumentalmente’

Bolívar Lamounier, entrevista a O Globo, 23/10/11

Para cientista político, problema sempre ocorreu, mas foi intensificado no governo Lula, que ‘perdeu o controle’

Tatiana Farah tatiana.farah@sp.oglobo.com.br

SÃO PAULO. Mesmo desfocado e com pouco impacto nas ruas, o movimento anticorrupção no Brasil tem dado um recado claro aos políticos sobre a insatisfação da sociedade com os malfeitos do Legislativo e do Executivo. Esta é a opinião do cientista político e sociólogo Bolívar Lamounier, que critica os que veem um viés de direita no movimento afirmando que, desde os anos 50, os protestos contra a corrupção são chamados de “direitistas”, “udenistas”, “lacerdistas”. “Estão defendendo a Constituição”, diz Bolívar, citando o artigo que trata da probidade do poder público.

Como vê o movimento anticorrupção?

BOLÍVAR LAMOUNIER: Há intensidade no protesto, principalmente na internet. O problema é o que você faz com ele, para onde canaliza o protesto. Se vai à rua contra o ministro que superfaturou, é um protesto contra a Dilma ou a favor? Ninguém sabe. Ela toma providências, então o protesto pode ser interpretado como apoio ao que ela está fazendo. Outros pensam protestar contra o governo. Não há foco.

Acredita que o movimento seja mais contra a política que contra a corrupção?

BOLÍVAR: Exatamente. E este é o lado ruim da história. Política virou um nome feio, no mundo inteiro, e o Legislativo é o nome mais feio. É muito mais transparente, é mais fácil saber o que aconteceu. O Legislativo é o Judas da História. Esse é o mecanismo pelo qual a corrupção enfraquece a democracia. Por infeliz coincidência, estamos tendo no Brasil um Congresso muito medíocre. Nunca vi nada igual. A corrupção aumentou monumentalmente.

Quando? No governo Dilma, Lula, Fernando Henrique?

BOLÍVAR: A afirmação é contundente, mas aumentou no governo Lula. Chegou um número grande de pessoas, não digo que todas mal-intencionadas, mas com pouca experiência política, experiência da máquina, muitas mal-intencionadas. Começou um processo de relaxamento das normas de licitação, contratação e superfaturamento. Lula, que tem 80 qualidades, a meu ver tem uns 60 defeitos. Se tivesse tomado providências no início, logo no caso Waldomiro Diniz (CPI dos Correios), teria controlado 50% do problema.

O governo Fernando Henrique também é criticado no caso das privatizações.

BOLÍVAR: Nada foi provado. Fizeram uma bateria de fuzilamento contra o Eduardo Jorge (Caldas) e não tem acusação contra ele. A mesma coisa contra o Luiz Carlos Mendonça de Barros. O PT, que fazia fiscalização 24 horas por dia no governo FH, não conseguiu provar nada. Não estou dizendo que o Brasil nunca teve corrupção. Isso seria uma bobagem. Estou dizendo que agora saiu de controle. O governo Lula perdeu o controle.

Cidadão está preocupado com gastos públicos

E o governo Dilma?

BOLÍVAR: Vejo a Dilma galopando em dois cavalos. Com um pé ela faz a faxina, e, com outro, agrada à base aliada. Do jeito que está indo, todo mês tem acusação contra alguém. Ela vai lá e faz faxina. O dia em que bater em alguém graúdo do PMDB ou do PT, vai fazer o quê? É capaz de se desmoralizar. O governo tem de mandar para a rua o sujeito com acusações graves e criar mecanismos de reduzir o problema.

Há viés de direita nesses movimentos, como dizem setores de esquerda?

BOLÍVAR: No Brasil existe tradição de rotular todo protesto contra a corrupção como de “direita”. Vem dos anos 50, quando o Partido Comunista e todo o grupo nacionalista, quando começava uma crítica à administração do Getúlio, que era do PSD, diziam: “isso é lacerdismo”, “é udenismo”, “é protesto da classe média moralista”. Eu achava que já tinham esquecido isso, mas não. Eles se esquecem de ler o artigo 37 da Constituição. Ali está escrito que a administração pública se pautará pela probidade, pela impessoalidade e pela eficiência. Protestar a favor da Constituição é ser de direita? Não dá pé, né?

Esta é uma manifestação moralista?

BOLÍVAR: Não tem ninguém propondo ou protestando contra um programa de governo. O problema é a corrupção, que é suficientemente importante. É uma questão moral, é uma questão do uso do seu dinheiro, a carga tributária é muito pesada. É também um protesto de auto-interesse e de cumprimento da Constituição, pela reforma do gasto público. É um protesto moral, mas moralista, não.

O movimento vai evoluir?

BOLÍVAR: Acho que vai permanecer, mas não sei se vai evoluir no sentido de trazer novas bandeiras. Para mim, é irreversível. Está ligado com a consciência tributária do cidadão. Agora, acho que vai crescer e se transformar. Mas precisa achar uma espinha dorsal. Sem bandeiras mais concretas, ele se perde.

A nova classe C está engajada nesse protesto?

BOLÍVAR: O que chamamos de classe C, estatisticamente, corresponde a algo mais que 40% da população. Então, é muito diferenciada internamente. Tenho certeza de que grande parte dela está protestando. Acho que no início foi uma boa idéia dizerem que não querem partidos. Querem caracterizar que é um protesto de cidadãos, de gente que paga imposto. É um movimento predominantemente preocupado com a tributação e o gasto público. A válvula pela qual vem essa ira é a corrupção.

Muitos políticos acham que é um movimento menor.

BOLÍVAR: A mensagem anti-política eles já estão recebendo. A indignação e o ressentimento contra a classe política estão à vista de todos. Basta abrir os olhos. Os políticos demorarem muito a enxergar também não me surpreende. É comum no Brasil.