Recentemente foi apresentada uma pesquisa feita pelo Citibank sobre as escolhas de investimentos feitas pelos milionários globalmente. Foi identificado um comportamento de aversão ao risco, criado após o estouro da bolha do subprime e posterior derretimento do mercado de ações em 2007. Hoje os milionários estão menos dispostos a investir em mercados considerados de risco do que algum tempo atrás, provavelmente depois de terem gerado perdas em ações no período.
É impressionante, mas a comunidade de investidores individuais, analistas, gestores e imprensa especializada entre outros participantes do mercado não entendem a importância do comportamento humano na formação dos preços dos ativos e derivativos nos mercados de bolsa. Por mais que uma empresa possa estar “barata” em termos de avaliação dos seus múltiplos, o seu valor de mercado não irá aumentar se não existirem pessoas interessadas em pagar um preço maior pelas ações e os vendedores aceitarem se desfizer dos papéis também a um preço maior. Ou seja, no final das contas, o desejo de comprar e a falta de desejo de vender são os principais fatores que produzem uma oscilação positiva nos preços. Se quem tem os recursos está com medo de comprar ações, elas não apresentarão um comportamento positivo!
Esse desejo pode ser gerado apenas por fatores emocionais, como por exemplo, o otimismo ou pessimismo. Durante uma bolha financeira, as pessoas ficam absurdamente otimistas, enquanto que numa crise o pessimismo reina. Não podemos deixar de mencionar o ciclo auto alimentado que um movimento positivo nos preços gera. Uma alta nos preços reforça o otimismo daqueles que estão comprados há mais tempo, enquanto traz mais compradores que não estavam tão convencidos assim da alta, mas frente ao movimento positivo ficam mais otimistas e finalmente compram, o que traz mais alta e mais otimismo. Geralmente as notícias seguem o comportamento dos investidores. Um topo no preço das ações quase sempre marca um pico de otimismo.
O mesmo processo auto alimentado ocorre no sentido inverso, quando o pessimismo toma conta do mercado. Quedas nos preços geram mais pessimismo que geram mais vendas e mais quedas. Os fundos serão momentos de extremo pessimismo. Os fundos de longo prazo são formados nos piores cenários possíveis.
Outro fator que exponencializa o processo é o comportamento de massa. Tendemos a nos sentir mais seguros seguindo aquilo que a maioria está fazendo. Afinal de contas, ninguém está no mercado para perder dinheiro, não é mesmo? Os próprios analistas que produzem recomendações tendem a concordar com os seus colegas numa atitude de autodefesa, visto que um possível erro de avaliação será menos questionado se todos cometerem o mesmo erro.
Além disso, existem fatores externos à saúde das empresas negociadas em bolsa, como por exemplo, as regulamentações governamentais e os ciclos de contração ou expansão do crédito levados a cabo pelas autoridades financeiras. Além de uma contração no crédito piorar as vendas das empresas, por exemplo, ela também diminuirá a capacidade de investimento dos participantes do mercado, enquanto uma expansão no crédito gera mais combustível para as tendências de alta.
Percebam quantas variáveis estão em jogo a todo momento. Por conta disso creio ser muito difícil atribuir num determinado momento o motivo correto e único de uma alta ou baixa nos preços.
Além da complexidade do quadro apresentado, ainda existem as próprias informações que alimentam os participantes do mercado, como as informações sobre faturamento, lucro, endividamento, a forma que a empresa é administrada, os lançamentos de produtos, a concorrência, as normas, a economia em geral, enfim, tudo aquilo que pode gerar um impacto positivo ou negativo na empresa e nas suas ações.
Ainda por cima essas informações chegam aos diversos participantes em tempos e formas diferentes. Às vezes uma variável extremamente importante fica escondida dos participantes ou é informada de forma mascarada nas demonstrações contábeis, enquanto em outros momentos algo não tão importante é divulgado com certo alarde, criando reações mais fortes e descabidas. Tudo no mercado é questão de percepção. Os pequenos investidores recebem com atraso informações importantes comparativamente aos grandes players.
Diante do quadro apresentado, como pode se posicionar o sujeito interessado em extrair lucros especulando ou investindo no mercado de bolsa? A pior forma possível seria seguir a sua intuição e o comportamento padrão de “pescar” algumas informações e dicas para tomar as suas decisões. Seguir o senso comum é o segredo para ser um perdedor consistente. No longo prazo, mais de 70% dos players perde dinheiro.
Uma possibilidade é aproveitar o comportamento emocional e irracional do mercado, aproveitando especialmente os momentos de extremo pessimismo para comprar ativos de bons fundamentos com desconto, como preconiza o Benjamin Graham, um dos gurus do Warren Buffet. Nesse caso você precisa desenvolver uma grande capacidade de avaliar as empresas para focar as compras naquelas que estão “baratas”. A grande limitação dessa estratégia é utilizar dados do passado para estimar resultados no futuro, além da dificuldade em saber se os dados realmente estão corretos. As quebras recentes de grandes empresas demonstram como informações importantes podem sistematicamente serem escondidas dos investidores.
Outra possibilidade é deixar todas as informações de lado e buscar os padrões de movimentação dos preços, foco de atuação do sujeito que usa a Análise Técnica para tomar as decisões. O analista técnico não quer saber se a alta nos preços é produzido por um fato positivo ou por um boato. O que importa é identificar a entrada de força compradora ou força vendedora e aproveitar tal movimento para lucrar, aproveitando o máximo do movimento.
Tal analista para virar um trader de sucesso precisa associar à análise um sistema de alocação de recursos e stops, com uma taxa de acerto e uma expectativa matemática positiva. Em nenhum momento será possível acertar 100% das vezes. A incerteza é uma característica inerente ao próprio mercado, o que importa é ter uma correta relação entre a taxa de acerto, o ganho médio dos acertos e o prejuízo médio dos erros, além de não correr um risco demasiado em cada aposta.
Coloco todas as informações na mesa, pois é importante para qualquer participante ter consciência do que está acontecendo de fato no mercado. Milhões de pessoas ao redor do globo vão para frente dos seus monitores e acompanham as piscadas positivas e negativas dos preços e não entendem o que está por trás daquele emaranhado de números. A compreensão dos principais fatores de movimentação dos preços pode aumentar a confiança e o resultado da estratégia escolhida para navegar nesses mares revoltos do mercado.