19.02.2013 - 17h07

Grãos/infraestrutura – não sou eu quem diz

BioAgroEnergia já alertou o quanto devia sobre os problemas que o escoamento de nossas supersafras de soja e milho poderiam encontrar este ano. Para maior azar, este tempo excessivamente chuvoso só vem piorar o que difícil já é. Mais ainda, um início prematuro do corte de cana e consequente exportação de açúcar mais cedo do que o normal pode ser outro complicador para a disponibilidade de caminhões e vagões, armazenagem de granéis e operações portuárias. Mas vejamos o que diz a imprensa, repercutindo informações que vem direto do campo:

1)Super safra sem saída - Defasada, infraestrutura terá dificuldade para escoar colheita recorde de 185 milhões de toneladas de grãos: em fevereiro, o agronegócio brasileiro entra em contagem regressiva para o caos. Com o avanço da colheita de uma supersafra de grãos, o setor teme um apagão logístico. A estrutura de escoamento da produção – incluindo armazéns, estradas, portos e ferrovias – mostra que terá dificuldade como nunca para transportar a produção recorde de 185 milhões de toneladas. Um cenário que custa caro para o setor produtivo e preocupa os importadores, que, neste ano, contam com a produção nacional para saciar seu apetite.” (Gazeta do Povo, Curitiba/PR).

2) “Deficit de estocagem se agrava com safra cheia – Com o aumento da produção de grãos esperado para 2013, o Brasil deverá registrar um rombo de cerca de 40 milhões de toneladas em sua capacidade de armazenagem neste ano, aumentando a pressão sobre a infraestrutura de transporte e portuária e os custos da produção. Segundo analistas e representantes do setor, indústrias, agricultores e governo precisariam investir até R$ 10 bilhões apenas para zerar o déficit atual e até R$ 28 bilhões para acompanhar o crescimento da produção ao longo da próxima década. A Organização da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO) considera ideal que os países sejam capazes de armazenar 120% de sua produção agrícola – no caso brasileiro, isso significaria uma capacidade de 216 milhões de toneladas. Mas, se as previsões se confirmarem, a correlação deverá ficar abaixo de 80%. (Valor Economico, SP).”

3) “Caminhoneiros estão há mais de 10 dias parados em atoleiro no MT - Carreteiros e caminhoneiros estão há mais de 10 dias parados em atoleiros na MT-170, na região Noroeste, entre Juruena e Aripuanã. As constantes chuvas e a falta de manutenção na via resultaram no surgimento de pontos muitos críticos onde só passam puxados por tratores.” (SóNotícias, Sinop/MT)

Para sorte do setor, também há os eternos otimistas, que encontram alegria até nas maiores dificuldades. Vejam esta nota da oficial Agencia Brasil:

4) “Safra recorde indica necessidade de investimento em logística e armazenamento – Uma série de fatores contribuíram para que o Brasil possa bater, novamente, recorde na produção e na produtividade de grãos estimada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O que, por um lado, é uma ótima notícia para o país, por outro deixou mais evidentes algumas dificuldades para escoar e armazenar grãos. ‘Falta de [locais] para armazenagem é [em certo aspecto] bom, porque é um indicador de que a produção está avançando. Até porque a produção cresce mais rápido do que armazenagem [para, a partir desse cenário, haver estímulos para novos investimentos]‘, disse o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Neri Geller, durante a divulgação do levantamento da safra de grãos 2012/2013.”

Foto: Estrada de terra no MT, por Amilton Reis, encontrada em commons.wikimedia

15.02.2013 - 15h26

Porto de Santos: reinvenção e desafios

Quando termina a descida da via Anchieta, nota-se à esquerda, pouco antes da entrada da cidade de Santos, uma sucessão de bateria de tanques de armazenagem de graneis líquidos. Ali fica o terminal da Alemoa. Seguindo em frente, logo se contorna à esquerda, no Saboó, e inevitavelmente se encontra o coração pulsante do histórico complexo portuário de Santos. Quando a exportação realmente “pega”, lá pelo fim de maio, o movimento das carretas graneleiras e de ensacados, caminhões tanque, containeres, veículos de entidades envolvidas com os embarques, sejam agentes de exportação e importação, supervisores de peso e qualidade, portuários de diferentes classes, que se misturam em uma confusão aparente que dá a nítida impressão que a qualquer momento tudo vai travar.

Mas Santos se reinventa permanentemente, superando os grandes gargalos que se nota logo à chegada. Seja com a evolução do porto para os lados de Cubatão (onde fica o terminal da Cosipa) e depois, na margem esquerda, Conceiçãozinha, já no Guarujá (movimentando fertilizantes, soja, farelo e açúcar), o fato é que os números são superados ano após ano. Temos ainda a ilha Barnabé, com o terminal Copape, para etanol e a inauguração prevista para 2013 do superporto da Embraport (Odebrecht). O fato concreto é que no ano passado o porto de Santos movimentou um volume de 104.543.783 toneladas, 7,6% acima do registrado em 2011 (97.170.308 toneladas), apesar do cenário de crise internacional.

Para atingir estes números foram fundamentais os aumentos verificados nos embarques de milho (119,4%) e de soja em grãos (14,8%), consequencia de grandes safras nacionais e a abertura ou ampliação de novos mercados internacionais em decorrência de quebras de safras em países produtores, particularmente os EUA.

As exportações por Santos totalizaram 71.952.023 toneladas e as importações 32.591.760 toneladas. Os sólidos a granel atingiram 50.798.166 toneladas, os líquidos a granel 15.707.583 toneladas e a carga geral 38.038.034 toneladas. Por duas vezes, em 2012, a movimentação de cargas, no mês suplantou a marca de 10 milhões de toneladas e estabeleceu novos recordes mensais. (v. Nota do Autor, no final)

Mas 2013 vai trazer desafios inéditos. Em primeiro lugar, de ordem prática, com os embarques de soja e seus derivados, de milho e de açúcar sobrepondo-se mais fortemente do que o usual durante alguns meses do ano. Explica-se: as colheitas de novas grandes safras de soja e milho de verão estão atrasadas, por conta das chuvas algo extemporâneas no Centro Oeste do Brasil e o corte da cana deve ser antecipado, pela necessidade de produção de etanol o mais cedo possível (e também porque há uma expectativa de grande safra, que tem que começar a ser moída tão logo as condições de clima permitam).

O segundo, de ordem política, que pode ocasionar sérios problemas em vários setores de operação. O fato é que Brasilia debate a Medida Provisória 595, que mexe com toda a estrutura existente na atual Lei dos Portos, de 1993, que ainda não foi totalmente implantada. A MP está sendo discutida sob a ameaça de greves, pressão de empresários e enfrenta 646 emendas no Congresso. O Executivo não admite mexer em dois pontos fundamentais da MP 595, justamente os mais polêmicos nesta alteração do marco regulatório dos portos: a liberação de novos terminais privativos sem a exigência de carga própria e a relicitação de terminais públicos arrendados à iniciativa privada antes de 1993.

Quem conhece a força de lobby das partes envolvidas pode imaginar o tamanho do problema que podemos ter em breve. Aí sim, Santos vai travar e não vai ser só impressão.

Foto: Porto de Santos (trapiche) no Século XIX, por Marc Ferrez, fotógrafo franco-brasileiro nascido no Rio de Janeiro, que deixou o mais importante retrato histórico do segundo Império e início da República.

Nota do Autor: Nos granéis sólidos os destaques ficaram com o açúcar (16.781.676 toneladas, granel e sacaria), complexo soja (13.657.425 toneladas) e o milho (10.026.576 toneladas). O volume exportado de soja em grãos superou as expectativas e se manteve, no ano passado, em torno de 11.212.835 toneladas, um crescimento em torno de 14,8% em relação a 2011. Cerca de 80% desse volume teve como destino a China, que concentra o maior parque industrial de esmagamento da oleaginosa.

13.02.2013 - 18h46

Agricultura dá samba! Vila Isabel é campeã no Rio

A Escola de Samba Unidos de Vila Isabel conquistou o título do Carnaval do Rio de Janeiro ao realizar um desfile sobre a agricultura que empolgou a Marquês de Sapucaí, embalada por um samba composto por Martinho de Vila e Arlindo Cruz. A agremiação foi a vencedora com o samba-enredo “A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – água no feijão que chegou mais um”, em que trouxe a vida do campo para a Marquês de Sapucaí.

A nossa alegria é ver o reconhecimento do povo pela riqueza trazida ao país pela gente do mundo agrícola. Com 3.700 componentes, espalhados em 31 alas, a Vila Isabel transformou a passarela do samba no “caminho da roça” por meio de imagens identificadas com a vida no interior. A bateria batucou com fantasias de espantalho e a ala das baianas rodopiou com roupas de joaninhas.

O refrão “festa no arraiá, é pra lá de bom; ao som do fole, eu e você; a Vila vem colher felicidade no amanhecer” embalou a passagem da escola pela avenida, num enredo que contou os hábitos da vida simples do povo do campo e do interior, incluindo um “arraiá” da bateria de espantalhos.

Fontes: Exame.com, portais G1 e UOL.

Foto da Assessoria de Imprensa da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

07.02.2013 - 16h07

Atrás do trio elétrico!

Nunca BioAgroEnergia ficou tanto tempo sem dar notícias. Perguntaram-me se tirei férias ou estive doente. Infelizmente e felizmente, não. Estava em crise existencial verde-amarela. Durante o mês de janeiro e primeiros dias de fevereiro mergulhei na leitura e análises de uma profusão de notícias que me tiraram do equilíbrio que me restava. Só agora, com os dados da inflação recém publicados, estou saindo deste momento, bem a tempo de assistir às mesmices dos nossos desfiles da Sapucaí e outros sambódromos (nossa, que mau humor!).

Vamos lá, primeiro sintoma, logo na entrada de 2013: ”O governo não conseguiu atingir sua meta fiscal para 2012, mesmo com as manobras contábeis (o que é isto, gente?) feitas no fim do ano. Para tentar cumpri-la, o governo federal realizou algumas “manobras financeiras” nos últimos dias úteis do ano: resgate de R$ 12,4 bilhões do Fundo Soberano do país; a elevação do abatimento da meta dos gastos com o PAC, o pagamento de R$ 4,7 bilhões em dividendos pela Caixa Econômica Federal e de R$ 2,3 bilhões pelo BNDES”. Assim mesmo, não deu para fechar a conta. Só o incorrígivel otimista Ministro Mantega disse que foi bom – não entendi até agora o que foi bom para ele.

Segundo sintoma: “O aporte que o Tesouro Nacional precisará fazer para garantir o corte nas contas de luz subiu consideravelmente e chegará a R$ 8,4 bilhões. Em 2014, conforme já admitiram autoridades do setor elétrico, deverá crescer ainda mais. Inicialmente, quando divulgou o plano de redução das tarifas de energia, o governo estimava contribuição de R$ 3,3 bilhões do Tesouro para compensar a retirada de encargos. Para propiciar o corte de tarifas sem prejudicar as metas fiscais com esse novo ônus, o governo teve que recorrer a um arranjo contábil (outro!), com a antecipação de receitas que tem para receber até 2023, relacionadas a empréstimo feito no passado à Itaipu Binacional”.

Último comentário por Paulo Costa : Obrigado, Augusto, pela leitura. Acabei ficando quietinho na minha querida Amparo, interior de São Paulo. Estou recuperado! Abraços do Paulo ...
24.01.2013 - 11h24

Cana-de-açúcar – algumas reflexões

1. A Crise: Tivemos nos últimos anos grande mudança estrutural no segmento, que alterou significativamente o perfil cultural e corporativo da indústria sucroalcooleira energética, com a entrada de grupos estrangeiros poderosos e também a chegada da indústria petrolífera. Infelizmente duas para três safras de cana desastrosas impediram que estas mudanças provocassem os efeitos esperados. O momento mais difícil da crise foi sem dúvida esta safra que agora se encerra. Isto porque o setor vinha de um ano extremamente difícil, operacional e financeiramente, com uma quebra de safra enorme. Com isto, a “travessia da ponte” que ocorreu nesta safra, foi complicada mas serviu para muitos ensinamentos.

2. A safra 2013/14: Ainda vai ser um ano difícil nesta safra que entra e algumas empresas que estão com dificuldades financeiras vão ter que tomar um caminho radical de venda ou fechamento para não “quebrarem”. No entanto uma safra certamente maior vai trazer possibilidades de “saída do buraco” para as empresas que estejam profissionalizadas e preparadas para um novo momento. Os primeiros números para a produção de cana no Centro-Sul, embora prematuros, apontam para uma subida (contra as cerca de 535 milhões de toneladas que foram processadas nesta safra) ao nível de 580 a 590 milhões de toneladas.

3. Os preços e resultados: Vamos começar a safra com preços baixos, particularmente para o açúcar, onde a Bolsa de NY deve oscilar entre 18 e 21 cts/lb, tudo correndo dentro do esperado no mercado global. A grande expectativa de um ano melhor fica com a certeza de um aumento no preço interno dos combustíveis, em particular a gasolina, que vai trazer a possibilidade de um reajuste dos valores de venda do etanol, tanto o anidro como o hidratado. No caso do açúcar, uma não tão improvável depreciação do Real, auxiliaria as receitas das vendas para exportação. O mundo está com um estoque de açúcar bastante alto,  em função de uma queda da demanda causada pela crise econômica e boas produções em outros países, particularmente a Índia e a Rússia. Isto pode não se repetir este ano, propiciando um aumento gradual dos preços do açúcar brasileiro. A produção de cana-de-açúcar tende a aumentar, até como conseqüência de replantio adequado, realizado este ano, bem como entrada de algumas áreas novas que substituíram a cultura da laranja no Estado de São Paulo.

4. O setor e o Governo: O Governo pode contribuir com o setor dando-lhe maior segurança em termos de regulação. Isto vai desde o ponto mais óbvio que refere-se à ANP e sua política de uso do etanol combustível, até a questão complexa da aquisição de terras rurais por empresas estrangeiras. Os participantes diretos do setor, usineiros, produtores de cana e indústria de bens de capital tem que se unir de uma vez por todas para fazer um trabalho conjunto em termos de representatividade institucional. O setor precisa recuperar sua credibilidade, urgentemente, para voltar a atrair investimentos. O BNDES faz sua parte, é bom que se diga. Linhas de crédito foram destinadas para plantio e replantio de cana-de-açúcar e para a estocagem de etanol a custo competitivo. O grande problema é que estas linhas são repassadas por bancos comerciais que exigem contrapartidas em termos de garantias que a maior parte do setor não está em condições de oferecer.

5. O futuro: O açúcar continua a ser a fonte de energia alimentar mais barata que se encontra no mundo. O etanol é um combustível limpo e já temos uma frota de carros flex necessitada de suprimento muitas vezes maior do que nossa capacidade de produção. A cogeração de energia elétrica a partir da biomassa vai ser uma realidade mais cedo ou mais tarde. O setor está se profissionalizando rapidamente e com um nível interessante de concentração em mãos fortes. O que mais é preciso para este setor ser bem sucedido? Persistir, é nossa resposta.

Foto: Campo de cana-de-açúcar, encontrada em commons.wikimedia

15.01.2013 - 13h27

Energia – Lobão, as chuvas e a sugestão

O preclaro Ministro de Minas e Energia, Edison Lobão jamais passou, em sua já muito longa carreira política, onde sempre ocupou cargos de notoriedade, por um momento astral e midiático tão favorável como este. Afinal de contas, um dia após garantir firmemente à Nação de que não vamos ter racionamento de energia, a chuva despencou em doses abundantes e já cobre todo o território nacional (exceto o pobre sertão pernambucano – afinal, ninguém é perfeito). A maneira como contrariou a opinião de importantes analistas demonstra que o Ministro já estaria de posse de informações colhidas diretamente com São Pedro, dizem os comentários maldosos das redes sociais.

O fato é que ele tem todas nossas termelétricas acionadas a pleno vapor, movidas por carvão, óleo ou gás. Com isto ainda traz um benefício paralelo, pois aumenta a receita da Petrobras com compras de gás natural. Tais usinas, como se sabe, tem baixo custo de investimento e alto custo operacional. A eletricidade do País está sendo gerada a valores caros, no mesmo momento em que a Presidenta Dilma Rousseff sancionou a Medida Provisória 579, que prevê regras para redução das tarifas de energia elétrica, em média, de 20,2% no mês que vem, para todos os consumidores brasileiros. Sem problemas: o Tesouro Nacional dá uma ajuda para que a promessa seja cumprida.

No mesmo momento, e com profunda tristeza, leio que “ o interesse de usinas sucroalcooleiras por investimentos em cogeração com bagaço de cana-de-açúcar se apresenta entre os mais baixos dos últimos anos. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o principal financiador desse tipo de negócio no país, tem hoje em carteira apenas dois projetos de cogeração!” Valha-me Deus!

Com base nisto tudo, venho sugerir ao Ministro Lobão, respeitosamente, que aproveite este momento tão oportuno e sugira à nossa Presidenta que crie um Ministério absolutamente independente do seu, que cuide exclusivamente das Energias Renováveis. Para começar não precisa fazer muito – basta incluir nesta Pasta a geração de energia da biomassa, da energia solar e da eólica. Não é preciso grande orçamento para gerir um Ministério como este - a iniciativa privada cuida sozinha. Basta que o Governo lhe dê os instrumentos adequados para conseguir produzir eletricidade com economia de escala e vendê-la a preços competitivos. Não preciso enumerar o sem número de benefícios que isto traria ao País.

Acima de tudo, pouparia nosso Ministro Lobão de passar por sustos tão grandes como este (do risco de racionamento) que se seguiram a outros tantos com os “apaguinhos” do segundo semestre passado. Bom para ele e bom para nós…

Ilustração: “Heavy Rain”, por Bidgee, encontrada em commons.wikimedia

Último comentário por Augusto Barbosa Lima : Já pensou, Paulo, se o Guido Mantega possui os mesmos dons de assertividade na área econômica que o Lobão no ...
11.01.2013 - 12h35

Balança Comercial 2012 – agronegócio bate recordes

Mais um ano em que o agronegócio sustenta de forma exuberante os números da balança comercial brasileira. Em 2012 o saldo foi ainda maior, com a queda dos valores de importações (US$ 16,4 bilhões, 6,2% menor que 2011). Os números oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior  indicam que as exportações brasileiras do agronegócio somaram US$ 95,8 bilhões em 2012, com aumento de 1% ante o ano anterior. Isto resulta em um saldo recorde de US$ 79,41 bilhões, um número impressionante, particularmente se considerarmos as dificuldades de infraestrutura que o segmento tem que superar.

Mais notável ainda referir que as vendas externas foram prejudicadas pela redução dos valores de mercado de alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil, em função da crise econômica mundial, como diz a nota do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os preços caíram, em média, 7,1%, enquanto o volume total exportado teve aumento de 8,6%.

Os setores que tiveram maior crescimento percentual de arrecadação nas vendas foram o complexo soja; fumo e seus produtos; cereais, farinhas e preparações; fibras e produtos têxteis; e animais vivos. O milho contribuiu como destaque para o aumento das vendas, que dobraram, beneficiando-se de grande quebra na produção dos EUA. A venda do cereal ao exterior passou de US$ 2,63 bilhões em 2011 para US$ 5,29 bilhões. A pecuária teve grande importância também: as vendas de carne bovina registraram alta de 7,4% no faturamento das exportações, somando US$ 5,74 bilhões em 2012, valor recorde.

A China continua sendo de forma crescente o principal destino dos produtos do agronegócio brasileiro, responsável por receber 18,8% das exportações, equivalentes a US$ 17,975 bilhões em 2012. Em seguida, aparecem Estados Unidos, Países Baixos, Japão e Alemanha.

O melhor de tudo é que o quadro não deve se alterar em 2013, primeiro ano em que o Brasil deve se tornar o maior produtor de soja do mundo.

Foto: Exportação de Soja pelo porto de Santos, encontrada em commons.wikimedia.

09.01.2013 - 23h02

Terras para Estrangeiros – TJ/SP abre precedente

Talvez por ter sido divulgada pela imprensa logo na virada do ano, importante decisão do Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo - que abre precedente quanto ao entendimento sobre a propriedade de terras por estrangeiros - ganhou pouca repercussão. De se notar que o Órgão Especial do TJ-SP  reúne 25 desembargadores: o presidente do TJSP, doze dos mais antigos e doze eleitos. Por este motivo suas decisões tem relevante importância.

Neste caso específico, julgando um Mandado de Segurança,  os desembargadores autorizaram o registro de terras rurais por uma companhia brasileira controlada por capital estrangeiro. Tal empresa, fabricante de papel, não estaria sujeita às restrições da Lei nº 5.709, de 1971 que regula a aquisição de imóvel rural por estrangeiro. O registro havia sido negado pela Corregedoria-Geral da Justiça do Estado de São Paulo, que seguiu o Parecer nº LA-01, de agosto de 2010, da Advocacia-Geral da União (AGU). Porém, o Órgão Especial do TJ-SP decidiu, com apenas um voto contrário, pela averbação de ato de incorporação societária em Cartório de Registro de Imóveis da comarca de Casa Branca, no interior do estado.

Há uma peculiaridade a ser observada neste caso: não houve uma relação de compra e venda de terras, mas a incorporação de uma sociedade que detinha imóveis rurais. De toda forma, o entendimento do Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo criou jurisprudência pois, baseado no entendimento do Tribunal, o corregedor-geral da Justiça de São Paulo, revendo orientação normativa da própria Corregedoria, aprovou parecer que dispensa os tabeliães e os oficiais de registro de aplicarem a Lei nº 5.709 e o Decreto nº 74.965, de 1974 a casos de aquisição de imóveis rurais por pessoas jurídicas brasileiras com maioria do capital social em poder de estrangeiros.

Importante observarmos os desdobramentos que esta fundamental decisão vai provocar a nível nacional. Trata-se de uma alteração profunda em entendimento bastante conflituoso, e quem vem impedindo a entrada de grande volume de investimento estrangeiro no País. Um  temor infundado de nossas autoridades – em um ambiente institucional tão estável como o nosso basta haver os controles adequados para que investimentos não especulativos mas produtivos sejam legalmente efetuados.

Foto: “Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo”, por Asdrubol, encontrada em commons.wikimedia.

Fonte: Valor de 02.jan.2013

Último comentário por Paulo Ramiro Rodrigues : Dr. Paulo, ainda temos pessoas coerentes e que entedem o real valor dos investimentos estrangeiros para o crescimento do Brasil. ...
06.01.2013 - 22h26

Transnordestina: embrulhando peixe com jornal*

Véspera de  “réveillon” em Amparo, minha terra. Filhos e netos obrigam-me a abster da leitura de jornais e revistas ou assistir tevê. Só poderia ver a São Silvestre, o que convenhamos, não tem mais qualquer graça. Estou cumprindo a determinação…ou melhor, estava até ter ido buscar um pintado para o almoço de família. O peixeiro, velho conhecido do Mercado Municipal, como de hábito, embrulhou-o com jornal, uma das mais antigas tradições de nosso gostoso interior. Por obra do destino, com as duas páginas centrais do caderno de Economia do ‘Estadão’ de domingo. Adivinhe o título, meu leitor? “Impasse atrasa ainda mais obra da Transnordestina”.

Fiquei muito curioso – fazia algum tempo que não lia nada sobre a construção desta ferrovia, muito importante para o Nordeste, para o escoamento da soja produzida na região do Mapitoba (Maranhão, Piauí, Tocantins e  Bahia), com repercussão em importantes e sofridas regiões de Pernambuco e ainda interligação com o transporte hidroviário do Rio São Francisco. A ferrovia está em construção desde 2006 sob a tutela da concessionária Transnordestina Logística S/A (TLSA), controlada pela Companhia Siderúrgica Nacional – CSN  e é um dos projetos incluídos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Há três anos atrás a onipresente construtora Odebrecht foi contratada para “tocar” a obra.

O fato é que a Transnordestina talvez seja o exemplo mais acabado de como os projetos de infraestrutura no Brasil sofrem de uma multiplicidade de problemas, falta de planejamento e desencontros de toda ordem. O grande impasse que acaba imperando sobre obras deste porte é sempre de ordem financeira e os intermináveis “ajustes e reajustes” em seus custos. Quando da assinatura do protocolo de intenções, em 2005, ela custaria 4,5 bilhões de reais e estaria pronta em 2010, ao final do segundo governo Lula. Em 2008, o valor já havia mudado para 5,4 bilhões e já se sabia que não terminaria no prazo estimado. Hoje a concessionária TLSA quer 8,2 bilhões e a Presidenta Dilma resiste em mexer grandemente nos valores. Mais ainda, quer a ferrovia pronta em 30 de dezembro de 2014, véspera de seu último dia de Governo. Doce ilusão!

Dos 1.728 km de extensão da ferrovia (o trajeto já mudou tantas vezes que é difícil acreditar neste número tão exato) apenas 345 km estão prontos. Mantido o andamento atual, a obra ficaria pronta em 2036 (valha-me Deus!). Na verdade, há um ano atrás 13.900 operários estavam envolvidos nos trabalhos e hoje eles são 4.700, segundo a própria TLSA. O ponto central da ferrovia está em Salgueiro, no estado de Pernambuco. De lá, saem três braços, em direção aos portos de Pecém, no Ceará e Suape, no mesmo Pernambuco. O terceiro trecho liga a ferrovia à sua origem, no município de Eliseu Martins, no Sul do Piauí.

Para quem quiser fazer apostas sobre a data provável de inauguração aqui vai um dado adicional, na verdade, mero detalhe: um “probleminha” que atrasa as obras é a morosidade nas desapropriações, a cargo dos Estados. No Piauí, o mais complicado, cerca de 400 pequenas propriedades deverão ser desapropriadas, mas parte dos proprietários não consegue reunir os documentos que comprovem sequer a posse da terra. Um exemplo de planejamento, não é verdade?

 * “Jornal da véspera só serve p’ra embrulhar peixe”. Essa é uma das famosas frases que sintetizam o cotidiano do jornalista. Ou seja, o trabalho começa diariamente do zero – a matéria publicada ontem não interessa mais a ninguém hoje. (jornalista Mauricio Stycer)

Nota do Autor: este artigo foi escrito originalmente em 30 de dezembro de 2012. Quando em revisão um  dos meus filhos percebeu meu deslize e confiscou meu laptop. Só hoje, 6 de janeiro, dia de Reis, consegui reavê-lo. Mas o tema continua atual… Ah! O pintado na brasa estava excelente, graças à arte de um genro gaucho!

Ilustração: foto de domínio público encontrada em commons.wikimedia

 

27.12.2012 - 23h04

Agro 2013: Que bom! Que pena…Que tal?

O título deste artigo final do ano deveria ter outra redação: “Agro 2013 – retrato de um Brasil que não quer crescer!”. Comentando com minha esposa ela argumentou que era muito negativo para um momento em que a esperança deve prevalecer, às vésperas de iniciarmos um novo ciclo. Rendi-me às suas colocações e aceitei a sugestão que me deu. Então vamos lá:

Que bom! Nossas principais safras agrícolas e a produção pecuária vão ter um ano especial. Tudo leva a crer que – pela primeira vez na história – a produção de soja brasileira vai ser a maior do mundo, superando os EUA. Os níveis de produtividade serão excelentes e o Mato Grosso vai ser firmar como o maior Estado do mundo em volume. O milho também pode repetir o grande ano que acaba de ter e, auxiliado pela importante quebra da safra norte-americana, conseguir preços remuneradores. A safra de cana-de-açúcar não pode repetir os desastres que foram os dois últimos anos agrícolas e será bem melhor, já refletindo um replantio necessário e bem feito. Apesar da situação financeira difícil do setor canavieiro, espera-se produção boa de açúcar e particularmente aumento necessário e bem vindo no volume de etanol combustível. A produção de café deve cair, seguindo seu ciclo natural, mas os preços e o câmbio vão compensar esta queda. Nas carnes o Brasil vai continuar a ter posição entre os líderes mundiais em produção e exportação. Que bom!

Que pena… que  nossa infraestrutura não vai suportar o escoamento adequado de todas as nossas safras. Que pena que todos os grandes e mirabolantes projetos de concessão de portos, aeroportos, construção de estradas e ferrovias, estão todos anunciados e pensados mas vão levar anos para sair do papel e do discurso. Que pena que setores fundamentais que necessitam de firme regulação governamental, não os tem; e com isto os mais do que prementes investimentos estrangeiros (e nacionais, por que não?) não vão chegar na velocidade devida. Que pena que o nível educacional de nosso povo está completamente defasado de nossas necessidades de mão de obra qualificada. Que pena…

Que tal? Que tal nossos três Poderes tentarem se equalizar como deveriam? Após um ano em que o Poder Judiciário finalmente conseguiu mostrar sua força, com julgamentos de importância para a cultura da Nação, o Legislativo continuou a demonstrar sua fragilidade, seu corporativismo, sua desconexão com o Poder Executivo e com as demandas do povo brasileiro. Que tal o Poder Executivo, centralizado nas expectativas de um governo “técnico” da Presidente Dilma, deixe de se perder por si só, incapaz de firmar uma linha de conduta clara, coerente e lúcida e pare de se debater entre os problemas de controle da inflação, da taxa cambial adequada e – principalmente – do diálogo com o Legislativo e com forças econômicas da Nação? Que tal o Governo Federal, pelo seu Executivo, deixe de anunciar planos e execute mais projetos? Que tal todos pararem de confundir movimento com ação? Que tal terminarmos o ano lembrando da letra de Vinicius de Moraes em seu Canto de Ossanha? Aqui vai uma parte dela:

“O homem que diz  ‘dou’, não dá! Porque quem dá mesmo, não diz! O homem que diz ‘vou’, não vai! Porque quando foi já não quis! O homem que diz ‘sou’ não é! Porque quem é mesmo ‘é’, não sou! O homem que diz ‘tou’ não tá porque ninguém tá quando quer.”

Então vamos todos falar menos e fazer mais neste ano que vai se iniciar. Porque o agronegócio precisa continuar a crescer para o bem do Brasil e como está, não dá!

Ilustração: “New Year Fireworks over Kristiansten Festning”, foto de Mortel, encontrada em FlickR/Commons.Wikimedia. O forte de Cristiansten está localizado em Trondheim, na Noruega. Construído em 1685 para proteger o país dos ataques da Suécia, transformou-se em ponto turístico, inclusive pelos fogos de artifício do Ano Novo.