BioAgroEnergia

03.07.2012 - 08h22

Soja – conjuntura comercial e econômica pune a indústria

Na maior parte de minha vida profissional tive como função primordial de trabalho buscar a antecipação. Seja gerenciando ativos ou projetos e particularmente em atividades de trading físico ou de futuros, o que conta no final do dia é que um operador ou administrador consiga antecipar fatos, problemas e tendências. Para isto tem que estar atento a todas as influencias que possam afetar um mercado ou uma atividade empreendedora, desde os princípios básicos de oferta e demanda na parte comercial até o extremo dos fatores políticos e macroeconômicos globais, sem qualquer aparente relação direta com o negócio que esteja cuidando, per se. Aqui em BioAgroEnergia temos procurado fazer o mesmo. Um exemplo recente ocorreu com a questão de aumento do preço dos combustíveis (aliás, ainda não encerrada), que vem sendo alertada em nosso blog um bom tempo antes de ter efetivamente acontecido. Nada de adivinhação ou bola de cristal. Apenas observação, análise e uma certa dose de coragem para colocar por escrito um pensamento ou expectativa fundada neste espaço tão privilegiado e de grande responsabilidade.

Toda esta introdução para dizer que não me perdoo, ao ler notícia desta semana que passou e preparar este artigo que agora escrevo, ao encontrar um meu rascunho de 4 de maio passado que começava um post dizendo o seguinte: “O Brasil corre este o ano o sério risco de assistir a uma situação absolutamente impensável: ter que importar soja  na parte final do ano para atender a demanda da indústria de processamento local. Explica-se: os números finais da safra 2011-12 serão visivelmente inferiores à safra passada, particularmente por conta das adversas condições climáticas no Sul do país, ainda grande produtor de cereais e oleaginosas (e maior consumidor de farelo de soja em consequência à concentração de produção de carne, particularmente frangos e suínos).” Deixei-o iniciado para dar andamento, mas uma inesperada viagem de trabalho ao exterior acabou por deixá-lo esquecido nos escaninhos virtuais da pasta de rascunhos. Grande oportunidade perdida em antecipar uma situação, até certo ponto mais ou menos óbvia para quem acompanha o mercado de commodities agrícolas há tanto tempo!

Pois bem, dizem as notícias de agora que “em meio à escassez de soja e aos preços recordes no mercado doméstico, tradings e processadoras começaram a buscar nos países vizinhos uma alternativa para assegurar o abastecimento no segundo semestre.” Na verdade consta que as grandes multinacionais que dominam o setor importaram em menos de dez dias cerca de 100 mil toneladas de soja de Argentina, Uruguai e Paraguai, ou seja o dobro do esperado para o ano safra todo. O volume é quase insignificante quando comparado ao total já exportado, comercializado para entrega futura e ainda a ser embarcado este ano. Porém este movimento atípico nesta época apenas antecipa a indisponibilidade da oferta para os próximos meses. A situação, como dizíamos em nosso esquecido  rascunho, é explicada por uma queda de mais de 10 milhões de toneladas na produção da região Sul combinada com a forte procura externa.

Quem vai pagar a conta deste desiquilíbrio é a indústria nacional, não apenas a da soja mas também a da carne. Os altos preços praticados em busca da pouca soja que resta a ser comercializada acirra a concorrência entre exportadores que necessitam cobrir suas posições e esmagadores voltados apenas para o mercado doméstico, penalizando o lado industrial. Os preços internacionais continuam em elevados patamares, contratos de exportação tem que ser cumpridos e a importação vai atingir níveis proibitivos em termos de preços (e disponibilidade, repita-se). Já se sabe de indústrias que estão com capacidade ociosa, particularmente no Rio Grande do Sul. No início do ano, os gaúchos trouxeram soja de Mato Grosso, Goiás e Paraná. Agora, a única opção é mesmo buscar o produto nos países vizinhos, onde o excesso também não é notável. O reflexo imediato vai para a indústria de carne. Um certo desaquecimento econômico doméstico mantém o preço das aves e da carne suína estabilizados (mais a concorrência da carne bovina, cuja produção está com os custos controlados em função das chuvas que renovam a vida das pastagens) enquanto o preço do farelo de soja vai para as alturas.

A história neste segundo semestre não vai parar por aí, com consequências imprevisíveis tanto para a balança comercial brasileira, onde o complexo soja é o carro-chefe do agronegócio de exportação, como para a nossa indústria moageira que vai cerrar portas mais cedo e ainda para os preços e até mesmo o suprimento normal de carnes para o mercado doméstico e a exportação, outro importante item de nossa pauta no comércio exterior.

Foto: “Soja”, de Roosewelt Pinheiro, da Agência Brasil, encontrada em commons.wikimedia.

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