Há alguns dias, a TV Globo me convidou a comentar um estudo preparado pela FIESP sobre a questão dos juros altos no Brasil. Para quem tiver paciência de ver o vídeo, o arquivo está aqui.
É normal que as partes puxem a brasa para suas sardinhas no debate de questões econômicas. Afinal, não há verdades indiscutíveis e, convenhamos, o juro realmente é muito alto no Brasil. Não conheço brasileiro que não deseje ver as taxas menores.
Feito o comentário, há um limite a partir do qual a adoção de artimanhas retóricas para a defesa de teses reconhecidamente falsas beira o desrespeito. O estudo apresentado é um festival de equívocos que salta aos olhos mesmo quando se leva em conta o baixo nível geral da discussão cotidiana sobre assuntos econômicos por aqui.
O que leva uma entidade tradicional a arranhar a reputação de forma tão pouco lisonjeira?
O fato de os juros serem altos no Brasil é amplamente conhecido. Ao fazer alarde para o fato, a FIESP anuncia com solenidade o descobrimento da América. A parte interessante e inacreditavelmente simplória do estudo é a conclusão de que o fenômeno é obra perversa de quem não quer que a economia brasileira se desenvolva.
Na tentativa de dar credibilidade a esta preciosidade, o estudo lança mão de falácias que não sobrevivem até mesmo a uma inspeção diagonal das páginas. Uma delas é tão óbvia que foi rapidamente identificada por uma pessoa de bom senso – não economista – que estava perto enquanto passava os olhos pela obra prima antes da entrevista.
Mencionar aqui, por exemplo, o problema tão conhecido de relações espúrias seria alçar o trabalho a um patamar de seriedade que, evidentemente, ele nunca teve a pretensão de alcançar. O espetáculo vai longe e envolve seleção parcial e criteriosa de dados favoráveis ao argumento, adoção de vínculos causais inexistentes – enfim, um verdadeiro laboratório para quem quiser ver na prática a aplicação da “arte de estar correto” de Schopenhauer.
As tentativas honestas para explicar o fenômeno dos juros altos têm consumido neurônios de alguns dos melhores economistas do país – vejam, por exemplo, este texto e a bibliografia sugerida. A questão é complicada e nenhuma explicação isolada é capaz de explicar satisfatoriamente o problema.
Provavelmente, os juros são altos por uma soma de fatores como (i) o histórico de instabilidade (felizmente cada vez mais distante), (ii) a atrofia do mercado de crédito (e o fato dela estar diminuindo), (iii) as restrições à alocação livre de recursos financeiros, (iv) a atuação maciça do governo como emprestador de recursos com taxas subsidiadas, (v) a lentidão do judiciário e a precariedade das regras de proteção ao credor e (vi) a propensão a gastar do setor público.
Apesar de tudo isso, os juros têm caído sistematicamente, indicando que a superação gradual de alguns óbices e a condução da política monetária com responsabilidade (procedimento que a FIESP propõe implicitamente abandonar) têm feito com que, gradualmente, a jabuticaba deixe de existir – o ponto é corretamente frisado pelo Sardenberg no vídeo.
A questão realmente relevante – que a FIESP em momento algum procura responder – é saber por que a demanda agregada cresce tanto aqui no Brasil apesar do patamar elevado das taxas de juros (agradeço ao Bernard Appy por me fazer olhar a questão sob este prisma). Alternativamente, deve-se indagar porque a inflação resiste em cair apesar dos juros recordistas. Ou ainda, porque os juros altos não inibem a demanda de crédito.
O Genilson Santana – vulgo Totó – criticou-me por escrever textos longos e, nesta altura, passei novamente do razoável. Comentarei oportunamente estas questões em um próximo post.
Em tempo, tenho amigos de longa data que trabalham na FIESP e que, tenho certeza, não concordam com uma vírgula do que está na apresentação – independentemente de terem ou não participado do projeto.




















Expandir todos os 3
Fabio Kanczuk é engenheiro pelo ITA e PhD em economia pela UCLA com pós-doutorado em Harvard. É professor livre-docente de macroeconomia da USP.
Celso Toledo é Doutor em economia pela USP, diretor de macroeconomia da LCA e da E2 economia e estratégia.
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Grande parte do crédito não sofre influência da taxa SELIC. Temos os créditos direcionados, e os créditos subsidiados (como o financiamento do BNDES à emp...
Marcelo Korez Amorim
Grande parte do crédito não sofre influência da taxa SELIC. Temos os créditos direcionados, e os créditos subsidiados (como o financiamento do BNDES à empresas ligadas à FIESP) à TJLP.
A FIESP deveria calcular também o impacto das operações de capitalização do BNDES feitas pelo Tesouro, que levaram a um aumento da dívida bruta. Outro fator que contribuiu para o aumento do endividamento foram as intervenções do BC no mercado de câmbio (e os empresários acham ainda que o BC deve ser mais ativo). A acumulação de reservas entre 2007 e início de 2011 teve um custo estimado de R$140bi para os cofres públicos.
Murilo Ramos Rodrigues de Paula
Muito bom o post! Só não entendi a explicação iv) para os juros reais elevados no Brasil. O senhor poderia discorrer um pouco mais sobre ela?
Murilo Ramos Rodrigues de Paula
Muito bom o post!
Só não entendi a explicação iv) para os juros reais elevados no Brasil. O senhor poderia discorrer um pouco mais sobre ela?
BH
acabou o blog? nunca mais vcs escreveram....
BH
acabou o blog? nunca mais vcs escreveram….