02.12.2011 - 09h32

A FIESP e os juros altos

Há alguns dias, a TV Globo me convidou a comentar um estudo preparado pela FIESP sobre a questão dos juros altos no Brasil. Para quem tiver paciência de ver o vídeo, o arquivo está aqui.

É normal que as partes puxem a brasa para suas sardinhas no debate de questões econômicas. Afinal, não há verdades indiscutíveis e, convenhamos, o juro realmente é muito alto no Brasil. Não conheço brasileiro que não deseje ver as taxas menores.

Feito o comentário, há um limite a partir do qual a adoção de artimanhas retóricas para a defesa de teses reconhecidamente falsas beira o desrespeito. O estudo apresentado é um festival de equívocos que salta aos olhos mesmo quando se leva em conta o baixo nível geral da discussão cotidiana sobre assuntos econômicos por aqui.

O que leva uma entidade tradicional a arranhar a reputação de forma tão pouco lisonjeira?

O fato de os juros serem altos no Brasil é amplamente conhecido. Ao fazer alarde para o fato, a FIESP anuncia com solenidade o descobrimento da América. A parte interessante e inacreditavelmente simplória do estudo é a conclusão de que o fenômeno é obra perversa de quem não quer que a economia brasileira se desenvolva.

Na tentativa de dar credibilidade a esta preciosidade, o estudo lança mão de falácias que não sobrevivem até mesmo a uma inspeção diagonal das páginas. Uma delas é tão óbvia que foi rapidamente identificada por uma pessoa de bom senso – não economista – que estava perto enquanto passava os olhos pela obra prima antes da entrevista.

Mencionar aqui, por exemplo, o problema tão conhecido de relações espúrias seria alçar o trabalho a um patamar de seriedade que, evidentemente, ele nunca teve a pretensão de alcançar. O espetáculo vai longe e envolve seleção parcial e criteriosa de dados favoráveis ao argumento, adoção de vínculos causais inexistentes – enfim, um verdadeiro laboratório para quem quiser ver na prática a aplicação da “arte de estar correto” de Schopenhauer.

As tentativas honestas para explicar o fenômeno dos juros altos têm consumido neurônios de alguns dos melhores economistas do país – vejam, por exemplo, este texto e a bibliografia sugerida. A questão é complicada e nenhuma explicação isolada é capaz de explicar satisfatoriamente o problema.

Provavelmente, os juros são altos por uma soma de fatores como (i) o histórico de instabilidade (felizmente cada vez mais distante), (ii) a atrofia do mercado de crédito (e o fato dela estar diminuindo), (iii) as restrições à alocação livre de recursos financeiros, (iv) a atuação maciça do governo como emprestador de recursos com taxas subsidiadas, (v) a lentidão do judiciário e a precariedade das regras de proteção ao credor e (vi) a propensão a gastar do setor público.

Apesar de tudo isso, os juros têm caído sistematicamente, indicando que a superação gradual de alguns óbices e a condução da política monetária com responsabilidade (procedimento que a FIESP propõe implicitamente abandonar) têm feito com que, gradualmente, a jabuticaba deixe de existir – o ponto é corretamente frisado pelo Sardenberg no vídeo.

A questão realmente relevante – que a FIESP em momento algum procura responder – é saber por que a demanda agregada cresce tanto aqui no Brasil apesar do patamar elevado das taxas de juros (agradeço ao Bernard Appy por me fazer olhar a questão sob este prisma). Alternativamente, deve-se indagar porque a inflação resiste em cair apesar dos juros recordistas. Ou ainda, porque os juros altos não inibem a demanda de crédito.

O Genilson Santana – vulgo Totó – criticou-me por escrever textos longos e, nesta altura, passei novamente do razoável. Comentarei oportunamente estas questões em um próximo post.

Em tempo, tenho amigos de longa data que trabalham na FIESP e que, tenho certeza, não concordam com uma vírgula do que está na apresentação – independentemente de terem ou não participado do projeto.

01.12.2011 - 10h53

Blogs de Economia: Para quê?

Num sonho, a “The Economist” me procurou para falar sobre minha experiência em escrever um blog de economia. Pelo que entendi, será uma reportagem na edição especial de fim de ano, e eles estão falando com muita gente, pelo mundo todo. Havia três questões centrais.

1)      Para que servem os blogs de economia?

Minha opinião é que servem como uma imprensa qualificada. Para o sujeito que quer realmente entender o que se passa, o Jornal Nacional só atrapalha. A revista Exame e a Leitão podem até dar a notícia correta, mas raramente conseguem análise que presta. Tendem a focar no assunto errado, que soa bonito mas não tem relevância quantitativa, e costumam ser irritantemente repetitivos e óbvios. Daí a tem a ACDL, outros blogs, e poucos artigos assinados no jornal, que sempre estão meio atrasados, mas têm algum conteúdo cerebral, ainda que incorreto.

 

2)      Dado que não há um processo de parecerista, não há risco de que o que sai nos blogs esteja errado?

Com frequência sai coisa errada, sem respeito à lógica ou à Teoria Econômica. Dos outros, não de mim. Mas ainda assim, blogueiros erram bem menos do que jornalistas econômicos. Acho que a Economist estava pensando em ver o efeito dos blogs sobre a academia. Mas, em minha opinião, o que é produzido na academia e nos blogs quase não se relaciona.

 

3)      Por que alguém topa escrever um blog?

Fico me perguntando isso com frequência. Caso não saiba, não ganho nem um cruzeiro, e nem a tal assinatura da Veja. Há blogueiros que conseguem se alavancar, vender mais palestras sobre como ser um palestrante campeão. No meu caso, é somente uma questão de ego, e do prazer de falar mal dos outros. Mas toda a vez que o sistema do site da Exame dá pau, o que ocorre com frequência, penso em mandar tudo às favas.

30.11.2011 - 14h56

Coordenação dos BCs para não idiotas

Os bancos europeus têm dificuldade de obter fundos em dólar. Poderiam obter em Euros e utilizar o mercado de câmbio, mas isso está saindo caro. Não o spot, mas o hedge, que está com custo acima do diferencial de juros. (Meio estranho que ninguém arbitra…). O FED, então, estaria diminuindo essa distorção do mercado de hedge cambial.

Pelo que li, a redução de 100bps para 50bps sobre overnight é irrelevante, pois já saia mais barato utilizar o swap do FED do que o mercado de hedge. Mas talvez a medida de reduzir o requerimento de margem seja importante, porque os bancos estão ficando sem colateral. (Claro que a reportagem da Exame nem falou que houve redução de margem…). Além disso, parece que as condições extraordinárias de final de ano sempre pedem por uma ajuda dos Bancos Centrais, independente da existência da crise da Europa.

Se você também não entendeu direito, a medida é irrelevante, mas sinaliza que os BCs estão coordenados, ou alguma coisa assim.

Uma pergunta é se a bolsa reagiu a essa suposta coordenação ou somente aos novos dados americanos e a política monetária chinesa. Outra pergunta é quão feio será o PMI chinês.

29.11.2011 - 13h35

De olho n’ELA

ELA, Assistência Emergencial de Liquidez (Emergency Liquidity Assistance), são fundos que os Bancos Centrais Nacionais (i.e., as subsidiárias do Banco Central Europeu) liberam para bancos privados locais com problemas de liquidez. Para tal, os Bancos Centrais têm de conseguir aprovação do Conselho Europeu, que assim está dando um aval que o soberano em questão conseguirá cobrir os eventuais rombos resultantes das quebras dos bancos (Se os soberanos vão conseguir mesmo ter os recursos necessários é outra história…).

A importância de saber quanto foi o ELA da semana é ter uma ideia da situação dos bancos, se eles estão sofrendo corridas ou não. Agora, estimar exatamente quanto foi o ELA é dureza, já que é uma informação obviamente sensível. Tipicamente, esses fundos são registrados nos Bancos Centrais Nacionais como “outros ativos” ou “outros direitos em instituições creditícias denominadas em Euro”.

Na figura, do nosso amigo JPMorgan, uma indicação de que houve uma elevação relevante na última semana, de que o ELA já está chegando em 100 bi Euros, e que está crescendo a importância da Bélgica (Dexia?).

28.11.2011 - 13h46

Investimento Residêncial nos EUA – A Revanche

Confesso que meio que perdi interesse no tópico, estou de olho no caso brasileiro, que atrai bem mais a atenção. Mas tinha prometido a um grande investidor que ia concluir o raciocínio, para que ele possa comprar suas propriedades nos EUA sem estresse.

Argumentei antes que não está havendo uma mudança comportamental no sentido de postergar a saída da casa da mamãe. Mas ainda ficou em aberto o que explica o aumento do percentual de casas vagas. Para melhorar a compreensão fiz o seguinte.

Primeiro tirei do estoque que casas vagas aquelas que são consideradas “fora do mercado”, por serem segundas residências (“residence elsewhere” e “ocasional use”). Depois, tirei do total de casas existentes (o denominador do quociente) aquelas que têm uso sazonal, i.e., são utilizadas somente em certa estação do ano, tais como “resorts”. Daí, fiquei com uma nova medida de percentual de casas vagas que gosto mais. Essa medida, em minha opinião –  que é a única que  importa – , reflete o estoque de casas que estão realmente encalhadas. Alguém está tentando alugá-las ou vendê-las, mas não consegue, por que o mercado está ruim.

Veja na figura a medida tradicional (azul escuro) e a minha medida (azul claro). Conclusões:

1)      O que está causando o forte aumento da medida tradicional de “vacancy” é uma outra mudança de habito, qual seja, a de ter mais de uma casa. É natural, com o aumento da renda per capita, que as famílias comecem mesmo a ter casas de praia, etc.. Assim, também é natural que está série seja crescente no horizonte.

2)      O estoque de casas realmente encalhadas não parece muito excessivo, e já começou a cair. Em breve, ele estará em nível normal, permitindo que os preços voltem a subir e, com isso, as construções de novas moradias.

28.11.2011 - 13h43

Economista Campeão (dicas para palestrantes)

Este talento nasceu em Coimbra, na aula de direito natural, na manhã em que Pacheco affirmou «que o século XIX era um século de progresso e de luz». O curso começou logo a pressentir, e a affirmar nos cafés da Feira, que havia muito talento em Pacheco: e esta admiração cada dia crescente do curso, communicando-se, como todos os movimentos religiosos, das multidões impressionaveis ás classes raciocinadoras, dos rapazes aos lentes, levou facilmente Pacheco a um premio no fim do anno. A fama desse talento alastrou então por toda a academia — que, vendo Pacheco sempre silencioso, já d’óculos, grave nos seus passos, com tomos gordos debaixo do braço, sentia alli um grande espirito que se concentra e se retesa todoem força íntima. Estageração académica, ao dispersar, levou pelo paiz, até os mais sertanejos burgos, a notícia do immenso talento de Pacheco. E já em escuras boticas de Traz-os-Montes, em lojas palreiras de barbeiros do Algarve, se dizia, com respeito, com esperança: — «Parece que há agora ahi um rapaz de immenso talento que se formou, o Pacheco!»

Pacheco estava maduro para a representação nacional. -Veio ao seu seio trazido por um governo (não recordo qual) que conseguira com dispendiosas manhas apoderar-se do precioso talento de Pacheco. Logo na primeira noite em que elle, em Lisboa, foi ao Martinho tomar chá, se sussurrou pelas mezas, com curiosidade: — «É o Pacheco, rapaz de immenso talento!» E desde que as camaras se constituiram, todos os olhares, os do governo e os da opposição, se começaram a voltar com frequência, quasi com anciedade, para Pacheco, que, na ponta duma bancada,

Conservava a sua attitude de pensador concentrado, os braços cruzados sobre o collete, a fronte um pouco vergada para o lado como sob o peso das riquezas interiores e os óculos a faiscar… Finalmente uma tarde, na discussão da resposta ao discurso da Corôa, Pacheco teve um movimento como para interromper um padre zarolho que fallava «da liberdade». O sacerdote immediatamente estacou com deferencia; os tachygraphos apuraram vorazmente a orelha: e toda a câmara cessou o seu desafogado susurro, para que, n’um silencio condignamente magestoso, se podesse pela vez primeira produzir  o immenso talento de Pacheco. No entanto Pacheco não prodigalisou desde logo todos os seus thesouros. De pé, com o dedo espetado (geito que foi sempre muito seu), Pacheco afrmou num tom que trahia a segurança do pensar e do saber intimo: — «que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a auctoridade!»

Era pouco, decerto: —mas a câmara percebeu bem que, sob aquelle curto resumo, havia um mundo, todo um formidável mundo, de idéas sólidas. Não volveu a fallar durante mezes — mas o seu talento inspirava tanto mais respeito quanto mais invisivel e inaccessivel se conservava lá dentro muito fundo, nas reconditas rogiões do seu sêr. O único recurso que restou então aos devotos d’esse immenso talento (que já os tinha, incontaveis) foi contemplar a testa de Pacheco — como se olha para o céo pela certeza que Deus está por traz. A testa de Pacheco offerecia uma superfície escanteada e larga. E muitas vezes, junto d’elle, conselheiros e directores geraes balbuciavam com respeito: — «Nem é necessário mais! Basta vêr aquella testa!»

Pacheco pertenceu logo ás principaes commissões parlamentares. Nunca porém accedeu a relatar um projecto, desdenhoso das especialidades. Apenas ás vezes, em silêncio, tomava uma nota. E quando emergia da sua concentração, espetando o dedo, era para lançar alguma idéa geral sobre a Ordem o Progresso, o Fomento, a Economia. Havia n’este refolho a evidente attitude d’um immenso talento que (como diziam os seus amigos, piscando o olho com finura) «está á espera, lá em cima, a pairar».

Este immenso talento não podia deixar de entrar nos conselhos da Corôa. Pacheco, n’uma recomposição ministerial (provocada por uma roubalheira) foi ministro: e immediatamente se percebeu que macissa consolidação viera subitamente dar ao governo o immenso talento de Pacheco. Na sua pasta (que era a da marinha) Pacheco não fez durante os longos mezes de gerência «absolutamente nada», como insinuaram tres ou quatro espíritos amargos e estreitamente positivos. Mas pela primeira vez, dentro deste regimen, a nação deixou de ter inquietações e duvidas sobre o nosso Imperio Colonial. Porquê? Porque sentia que pela primeira vez os interesses d’esse Imperio estavam confiados a um verdadeiro talento, ao immenso talento de Pacheco.

Nas cadeiras do poder, Pacheco rarissimamente sahia do seu silencio pensativo e fecundo. Ás vezes porém, quando a opposição se tornava clamorosa, Pacheco descerrava o braço, tomava com lentidão uma nota a lapiz: — e esta nota, traçada com lentidão e madurissimo pensar, bastava para perturbar, acuar a opposição. É que o imenso talento de Pacheco terminara por inspirar, nas camaras, nas commissões, nos centros, um terror salutar! Ai do mesquinho sobre quem viesse a desabar com colera aquelle talento immenso! Certa lhe seria a humilhação irresgatavel! Assim dolorosissimamente o experimentou o moço petulante, que um dia ousou accusar o snr. Ministro do Reino (Pacheco dirigia então o Reino) de descurar a instrucção do paiz! Nenhum ataque podia ser mais sensivel áquelle immenso espirito que, na sua phrase lapidaria e crystallina, ensinára que «um povo sem o curso dos lyceus é um povo incompleto». Com o dedo espetado (geito sempre tão seu) Pacheco replicou ao moço temerario esta coisa tremenda: — «Ao illustre deputado que me accusa só tenho a dizer que enquanto, sobre questões d’Instrucção Publica, s. exc.ª ahi nessas bancadas faz berreiro, eu aqui n’esta cadeira faço luz!» — Eu estava lá, n’esse grande momento, na galeria. E não me recordo de ter jámais ouvido, numa assembléa humana, uma tão commovida e apaixonada rajada de acclamações! Creio que foi d’ahi a dias que Pacheco recebeu a grã-cruz da Ordem de S. Thiago.

O immenso talento de Pacheco pouco a pouco se tornava um credo nacional. Vendo que inabalavel apoio esse immenso talento dava ás instituições que servia, todas o appeteceram. Pacheco começou a ser um director universal de Companhias e de Bancos.

Na primeira vaga penetrou no Conselho de Estado. O seu partido reclamou unanimemente que Pacheco fosse seu chefe. Mas os outros partidos cada dia se soccorriam com submissa veneração do seu immenso talento. Em Pacheco pouco a pouco se concentrava a nação.

Á maneira que elle assim envelhecia, e crescia em influencia e dignidades, a admiração pelo seu immenso talento chegou a tomar no paiz certas fórmas d’expressão — só proprias da religião e do amor. Quando elle foi Presidente do Conselho, havia devotos que espalmavam a mão no peito, com uncção, e reviravam o branco do olho ao céo para murmurar piamente: — «Que talento!» E havia namorados que, cerrando os olhos enlanguecidos, e repenicando um beijo nas pontas juntas dos dedos, balbuciavam a desfallecer de voluptuosidade: — «Ai! Que talento!» E para que o esconder? Outros havia, a quem aquelle immenso talento, como um excessivo e desproporcional privilegio, amargamente irritava. A esses ouvi eu exclamar com furor, atirando patadas ao chão: — «Irra, que é ter talento de mais!»

Pacheco no entanto já não fallava. Sorria apenas. A testa cada vez se lhe tornava mais vasta. Não relembrarei a sua incomparavel carreira. Basta que o meu caro snr. Mollinet percorra os nossos annaes. Em todas as instituições, reformas, fundações, obras, encontrará o cunho de Pacheco. Portugal todo, moral e socialmente, está repleto de Pacheco. Foi tudo, teve tudo. Decerto o seu talento era immenso! Mas immenso se mostrou o reconhecimento da sua patria! Pacheco e Portugal, de resto, necessitavam insubstituivelmente um do outro, e formosamente se completavam. Sem Portugal — Pacheco não teria sido o que foi entre os homens: mas sem Pacheco — Portugal não seria o que é entre as nações! A sua velhice offereceu um caracter augusto. Perdera o cabello completamente. Todo elle era testa. E mais que nunca revelava o seu immenso talento — mesmo nas minimas coisas.

Muito bem me lembro da noite (sendo elle Presidente do Conselho) em que, na sala da Condessa de Arrôdes, alguém lhe perguntou reverentemente o que S. Exc.ª pensava de Canovas d’ el Castillo. Magistralmente, silenciosamente, sorrindo apenas, S. Exc.ª deu com a mão um ligeiro córte horisontal no ar. E foi em torno um murmurio d’admiração, lento e maravilhado. N’aquelle gesto quantas coisas subtis, profundamente pensadas! Eu por mim, depois de muito esgravatar, interpretei-o d’este modo: — «mediocre, meia-altura, o snr. Canovas!» Porque, note o meu cairo snr. Mollinet como aquelle talento, sendo tão vasto — era ao mesmo tempo tão fino!

Rebentou — quero dizer, S. Exc.ª morreu, quasi repentinamente, sem soffrimento, no começo d’este duro inverno. Ia ser justamente creado marquez de Pacheco. Toda a nação o chorou com infinita dôr. Jaz no alto de S. João, sob um mausoleu, onde por suggestão do snr. conselheiro Accacio (em carta ao Diariode Noticias) foi esculpida uma sublime figura de Portugal chorando o Genio.

Mezes depois da morte de Pacheco, encontrei a sua viuva, em Cintra, na casa do dr. Videira. É uma mulher (dizem amigos meus) de singular intelligencia e bondade. Cumprindo um dever de portuguez, lamentei, diante da illustre e affavel senhora, a perda irreparavel que era sua e da patria. Mas quando, commovido, alludi ao immenso talento de Pacheco, a viuva de Pacheco ergueu bruscamente, espantados, os olhos que conservara baixos — e um fugidio, estranho, frio e triste sorriso arregaçoulhe os cantos da bôca fina!… Eterno desaccordo dos destinos humanos! Aquella pobre senhora nunca comprehendera aquelle immenso talento!

Creia-me, meu caro Snr. Mollinet, seu dedicado

— FRADIQUE.

 Eça de Queiroz In CARTAS DE FRADIQUE MENDES 689 (II),REVISTA DE PORTUGAL.

25.11.2011 - 16h52

Por que o Euro continua tão forte?

Como explicar a resistência do Euro (EUR) frente ao dólar (USD) diante de um cenário potencialmente catastrófico para a região?

A bem da verdade, o EUR perdeu cerca de 7% do valor contra o USD no último mês. No entanto, não apenas o EUR, mas praticamente todas as moedas relevantes perderam para a moeda americana.

Como o surto de aversão ao risco tem origem nos problemas da Europa, o impacto negativo sobre o EUR foi maior do que, por exemplo, sobre a Libra Esterlina ou sobre o Iene. Mas, não foi maior do que o impacto sobre a Coroa Dinamarquesa ou sobre o Franco Suíço.

Para entender o problema, consultei blogs, pesquisei a opinião dos grandes economistas, conversei com colegas e, naturalmente, recorri ao sensato e equilibrado FK. Coletei as seguintes ponderações, começando pelas que me parecem menos plausíveis.

1. No agregado, a Zona do Euro apresenta desequilíbrios macroeconômicos menores do que os da economia americana. Por exemplo, enquanto o déficit em transações correntes americano é de cerca de 3% do PIB, o dos 17 países da Zona do Euro é inferior a 1% do PIB;

2. Os grandes países emergentes estariam demasiadamente expostos ao dólar e esforços marginais de diversificação do risco cambial das reservas seriam suficientes para ter impactos relevantes sobre taxas de câmbio;

3. O futuro europeu não é brilhante, mas isto também é verdade para os EUA;

4. A eventual saída dos países fracos deixará a Zona do Euro com um núcleo competitivo. No limite, o Euro deveria se aproximar do que estaria valendo o Marco Alemão;

5. As taxas de juros são maiores na Europa do que nos EUA, tornando caras as apostas contra o EUR e a favor do USD;

6. Os bancos europeus estariam vendendo ativos externos em USD para recompor o capital, puxando para cima o valor relativo do EUR.

Nenhuma tese é totalmente satisfatória. A primeira faria sentido se houvesse chance de os ricos toparem bancar os pobres. Mas isso está cada vez mais difícil. A segunda tese parecia relevante quando o Congresso Americano protagonizou a comédia envolvendo a negociação do limite de endividamento do governo federal. No entanto, a liderança européia não tem se destacado favoravelmente mesmo com uma base de comparação tão pobre.

A terceira tese tem fundo de verdade. Mas, pensar em taxa de câmbio é fazer comparações. O futuro dos EUA tende a ser medíocre, mas menos medíocre do que o da Europa. Apesar de todos os desafios, os EUA têm uma economia mais flexível e um governo capaz de tomar decisões com agilidade.

A quarta tese poderia ser verdadeira se o cenário dos fortes expulsando os fracos fosse claramente o mais provável. No entanto, não se pode descartar a hipótese de que os fortes resolvam sair, transformando o Euro em uma moeda fraca. Além disso, o caos de um rompimento do EUR não parece ser algo positivo para ninguém.

A quinta tese é verdadeira, embora seja difícil, à primeira vista, engolir a idéia de que o Euro está relativamente forte porque os investidores se sentem atraídos a correr o risco de uma grande confusão na Europa para ganhar remuneração extra de algo como 0,80% em uma aplicação de um ano.

Conhecemos gestores que quebraram antes da realidade se movimentar a favor de uma aposta e poucos mercados dependem tanto de “timing” como o de taxas de câmbio. Mas nem todo mundo é prisioneiro da “marcação a mercado” e há uma série de gestores com mandatos de longo prazo. O diferencial de juro seria apetitoso em ambiente livre de risco. Atualmente, qualquer coisinha pode fazer a diferença evaporar.

A última tese faz algum sentido. Ouvi a história de um colega do ramo, em posição privilegiada, que afirmou estar vendo a coisa acontecer de forma bastante pronunciada. De qualquer forma, o efeito desse tipo de fluxo tende a ser temporário.

Resumindo, o fato é que os economistas comem o pão que o diabo amassou para explicar e, principalmente, prever movimentos cambiais. Feita a ressalva, cada vez fico mais convencido que o EUR vai despencar com vontade.

Descartando a hipótese de desintegração da Zona do Euro, demorará muito tempo para que se criem os mecanismos de transferência necessários para manter a coisa funcionando. Enquanto isso não ocorrer, o BCE terá que ligar a impressora – e isso não livrará os países de período longo de vacas magras. É isso, ou o caos. Em qualquer das hipóteses, o EUR perderá.

24.11.2011 - 06h18

Até tu, Alemanha?

Não estava no script que os juros alemães iriam subir. Três possibilidades:

1)    A Alemanha também tem dívida elevada e pouco crescimento. É, portanto, igual a Grécia e Itália.

Duvido. Mesmo se fosse, o Banco Central Europeu entraria monetizando sua dívida.

2)    Mas então se o ECB monetizar, vai ter inflação na Europa e os juros alemães têm de refletir a expectativa de inflação.

Não acho que é isso, tendo em vista a ausência de inflação nos EUA. Mas vamos ver, se as expectativas de inflação aumentarem, e os juros na Itália caírem (pois ela não teria de dar o calote), poderia ser isso.

3)    A sensação de que “estrepou tudo” – Na verdade eu queria usar outro verbo, com significado mais preciso e colorido, mas estou sendo censurado.

Estou marcando essa alternativa como a correta.

23.11.2011 - 09h51

A Eficácia das Compras do Banco Central Europeu

Escutei uma história interessante, de que a compra pelo ECB (European Central Bank) de títulos da Itália seria contraproducente, causando ainda mais elevação dos juros. A lógica é que o ECB se tornaria um credor sênior na ocorrência de um calote, algo que ficou meio estabelecido no caso da Grécia, quando se discutia o envolvimento “voluntário” do setor privado. Assim, quando o ECB compra títulos, o estoque remanescente vai perdendo qualidade, tornando-se cada vez mais júnior, arcando com todo o custo caso haja restruturação. Essa perda de qualidade poderia ser um efeito maior do que o aumento da demanda, fazendo os juros subirem.

Ummm…não comprei. Acho que a realidade é mais simples, que os europeus ainda estão no processo de perceber a seriedade do problema, por incrível que isso pareça. Em papo recente, o Economista Chefe de um grande banco europeu me surpreendeu com sua inabilidade de antecipar as próximas etapas da crise, ainda acreditando que tudo está no caminho correto.

Minha teoria para os juros da Itália não cederem, apesar das compras do ECB, é que está aumentando o número de pessoas que após refletirem muito chegam à conclusão: “Estrepou tudo”  “Antes de melhorar vai ter que piorar muito…”   “Há mesmo imensas complexidades políticas”.

22.11.2011 - 13h35

Efeito do Super Comitê sobre o PIB Americano

O Antoninho Branco quer saber qual o efeito da falta de acordo do Super Comitê para Ajuste Fiscal sobre o PIB dos EUA, para poder usar em suas palestras. Pelo menos ele podia me pagar uma assinatura da LCA.

A partir de 2013 começa um corte de gastos de cerca de US$100 bi por ano, por dez anos. Em 2013 propriamente dito, o esperado é um corte de $75bi, metade disso em Defesa. Essa quantia é cerca de 0,45% do PIB. Daí poderíamos utilizar um multiplicador de 0,70 – pois haveria “crowd in” do setor privado. O produto dá uns 0,3%. Esse seria o suposto efeito negativo sobre o PIB. Mas entendo que talvez seja ainda menos, pois haveria uma diminuição da incerteza sobre o ajuste fiscal, o que melhoraria o ambiente para investimento.

Acho mais interessante pensar o que a falha do Super Comitê significa para a capacidade política de estender a redução dos impostos sobre folha e benefícios aos desempregados, que expiram já no fim desse ano. Note que não se trata de uma questão legal, já que não é essa a responsabilidade do comitê, mas de um “sinal”. E lembre-se que o Obama provavelmente se esforçará para fazer a extensão acontecer.

De toda sorte, caso o imposto volte e o benefício caia, o impacto sobre o PIB será significativo, e já está logo aí na frente. A Goldman estima uma perda de quase 1% no primeiro trimestre de 2012 (em termos anualizados). Eu – que entendo de Economia -, calculo que seria menos, cerca de 0,5%.