Vale do Silício mostra por que fintechs não são o que você pensa

O cenário de inovação de fintech no Vale do Silício é um pouco diferente do estereótipo de meninos de 20 anos em garagens com startups revolucionárias

Eu representei a ClearSale em duas conferências recentes no Vale do Silício. A primeira foi a Finovate Spring em San Jose, exclusivo para startups e novos produtos para o sistema financeiro. O segundo foi um evento de empreendedorismo, o Endeavor Retreat, com empreendedores de todo o mundo e palestras com alguns dos grandes nomes do Vale.

Por tudo o observado, descrevo aqui o momento de inovação em fintechs, que pode ser bem diferente do imaginado.

1 — Blockchain e a disrupção do sistema bancário

Sem dúvida, há muito que se esperar da tecnologia do Bitcoin, que provou ser seguro o registro altamente confiável de informações sem a presença de um órgão centralizador.

Este artigo da Harvard Business School cita que o Blockchain fará com o sistema financeiro o mesmo que a internet fez com a mídia. Não é incomum encontrar nos fóruns aqui no Brasil gente falando em fim dos bancos e cartórios. Sem dúvida, trata-se de algo de grande potencial.

Entretanto, participando das conferências e escutando especialistas, o que se conclui é que nada disso é para agora. O timing é outro.

Se é verdade que há muitas startups sendo desenvolvidas que fazem uso de blockchain, elas ainda estão no forno.

O assunto não foi mais do que meramente tangenciado nas mais de 150 empresas que apresentaram no Finovate Spring. No Endeavor Retreat, ainda, foi citado que devemos esperar resultados concretos significativos da tecnologia daqui a algo entre 10 e 20 anos.

2 — Fintechs x bancos

Pelo uso intensivo de tecnologia e pela capacidade de inovação, muitos predizem que o surgimento e o crescimento das fintechs representam grande ameaça para os bancos.

Os bancos contemplam uma série de fatores que culminam em falta de inovação , tais como estruturas grandiosas, que por sua vez se traduzem em lentidão, dificuldade de comunicação interna, dificuldade de geração de incentivos apropriados.

As fintechs, por outro lado, seriam ágeis, inovadoras e disruptivas por construção, e trabalhariam na fronteira do conhecimento tecnológico e mobilidade.

Tudo isso faz muito sentido, mas o que se observa dos produtos recém-lançados no mercado de fintechs é que muitas delas estão surgindo como apoio aos bancos e às fintechs já existentes.

Ao observarmos os objetivos das empresas que se apresentaram na Finovate Spring, vemos: simplificação de concessão de hipotecas; sistemas de empréstimos ponta a ponta; sistemas para otimização de análise de crédito, sistemas de comparação de empréstimos e serviços financeiros no geral, plataformas white labels para bancos.

Ou seja, nada que mudaria o sistema financeiro, mas que ajudaria e aperfeiçoaria os players do sistema atual.

3 — Meninos revolucionários

Para quem associa a inovação do Vale do Silício com o sardento Bill Gates ou um cabeludo Steve Jobs na casa dos vinte anos, mais um revés.

Numa contagem aproximada de espectador, percebi mais de 80% das startups foram apresentadas por fundadores e criadores de mais de 40 anos.

O mesmo percebi nos empreendedores de empresas ligadas ao segmento financeiro no Endeavor Retreat. O que pode parecer decepcionante à primeira vista sugere uma percepção simpática: inovação não tem idade.

4 — Startups x Produtos

Nem todas as apresentações da Finovate eram de startups. Empresas maduras e estabelecidas também aproveitam o ecossistema em que o evento está inserido para demonstrar seus produtos recém-lançados que contribuem para o setor de fintechs.

A IBM demonstrou na Finovate seu sistema de detecção de phising, por exemplo.

5 — Fim da fraude?

Num mundo fartamente tecnológico e móvel, na era da informação ultra disponível instantaneamente, não haveria mais espaço para fraude?

Pelo contrário: quanto mais plataformas operando recursos financeiros existem, mais a gestão de riscos de fraude é necessária. Contei pelo menos 10 startups focadas em autenticação, identificação ou em outras formas de prevenção à fraude, seja por centralização de cadastro, biometria, documentoscopia etc.

A tendência americana continua ser de empresas querendo atacar o problema da fraude através da oferta de produtos 100% tecnológicos. A oferta generalizada de ferramentas dificulta ainda mais o trabalho das instituições financeiras de seleção, adoção e combinação das tecnologias para de fato resolverem seus problemas.

Em resumo, há mudanças no horizonte, mudanças grandes. Ainda estamos longe do olho do furacão, mas vemos nuvens pesadas no horizonte do mercado financeiro global.

Atualmente, cabe aos bancos aprenderem a coexistir com este novo ambiente e a conviver com um consumidor que conta com cada vez mais possibilidades e com menos burocracia.

As criptomoedas também já tomam uma dimensão em que fica difícil não passarem por uma regulação. Para o futuro, há que se investir em pesquisa e desenvolvimento em blockchain, já que há muita gente boa que já está fazendo isso.

E o que trago na mala sobre tudo isso para a ClearSale? Novas tecnologias trazem novas possibilidades e é cada vez mais comum mercados inteiros serem transformados, principalmente no contexto digital.

É preciso estar sempre inovando no core business e, se possível, participar e ser protagonista na transformação do nosso próprio mercado.

Texto publicado originalmente no site da Endeavor.

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