Um “Linkedin” para os salões

Pedro Henrique Tavares

O Brasil é o país do futebol, do carnaval… e dos salões de beleza. São pelo menos 7.000 novas unidades abertas por mês país afora. No total, o país tem mais de 480.000 estabelecimentos que faturam cerca de 46 bilhões de reais por ano. E este número pode ser ainda maior se considerados os empreendimentos informais: de acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, são mais de um milhão.

É um mundo em que uma startup de São Paulo viu uma enorme oportunidade. Em 2013, o Carreira Beauty lançou uma plataforma gratuita que hospeda o perfil de esteticistas, manicures e cabeleireiros que procuram por oportunidades. O objetivo é alavancar a contratação de novos profissionais – mal comparando, uma espécie de LinkedIn da Beleza. Seu criador, Rui Miadaira, comandava uma rede de SPAs quando se deu conta da dificuldade de encontrar mão de obra na área, dominada pela informalidade.

São mais de 1,5 milhão de profissionais em atividade no país e, apesar da oferta, muitos dizem ter dificuldade para encontrar emprego. No Carreira Beauty, os cabeleireiros, barbeiros, manicures e maquiadoras podem divulgar seu trabalho e encontrar novas oportunidades de negócios, seja para novos postos de trabalho ou para a captação de clientes.

Três anos depois de lançado, o sistema tem mais de 100.000 usuários mensais. A empresa já recebeu aportes de dois dos mais renomados fundos de investimento em tecnologia no país – o Monashees, sócio da 99 Taxis, e o Redpoint, sócio da PSafe e da Minuto Seguros– e ainda foi acelerada por uma das mais icônicas aceleradoras do Vale do Silício, a 500 Startups.

A crise está ajudando na expansão. A procura por emprego e a necessidade de empreender fazem do Carreira Beauty uma plataforma alternativa para que trabalhadores desempregados busquem recolocação profissional. Mesmo com a abundância de salões de beleza, grandes ou pequenos, o setor mostra sinais de retração. Conforme pesquisa divulgada pela Associação Brasileira de Salões de Beleza (ABSB), 2015 registrou uma retração de 9,78% nos serviços prestados nos salões em comparação com o ano anterior. Ou seja: os salões continuam lá, só encontram mais dificuldades de atrair clientes, e de fazer serviços mais caros.

A Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec) aponta que, mesmo com a retração nos salões, o mercado da beleza deve aumentar o faturamento de 2% a 3%. Não ganha da inflação, mas é muito melhor que dezenas de outros setores. O grande problema da Carreira Beauty é outro, bem conhecido de startups de tecnologia: ganhar dinheiro. Nenhum dos 100.000 profissionais cadastrados na empresa paga para estar lá.

Como faturar é importante, Miadaira lançou neste ano o Ahazou!, uma ferramenta que auxilia cabeleireiros, manicures e esteticistas a fazer bonito nas redes sociais com fotos, vídeos, links. “Enquanto o Carreira Beauty cuida dos contato de trabalho, o Ahazou! ajuda na captação de novos clientes”, explica. Os planos de adesão giram em torno de 100 a 300 reais. “É a nossa primeira tentativa de monetização dentro da startup. E os números são promissores”, conta.

Miadaira precisa continuar inovando também para ficar à frente da concorrência. Outros serviços brasileiros surgiram para ganhar um quinhão desse mercado. Entre eles, o Beauty Date, de Curitiba, que possibilita o agendamento de horários no salão de beleza. E o negócio tem chamado a atenção dos investidores – o Valor Capital comprou um pedaço da empresa por 28 milhões de reais. Há outros tantos aplicativos sendo lançados a cada semana, como o Booksy, o Hora do Salão, o Agenda Chic. A maioria tem como foco unir salões e clientes. Mercado não há de faltar: segundo o instituto Data Popular, mais de 30 milhões de brasileiras acima de 18 anos vão mensalmente aos salões.