Onde conseguir dinheiro para abrir um negócio

Conheça alguns caminhos possíveis para conseguir recursos para financiar seu empreendimento e avalie suas vantagens e desvantagens

São Paulo – A falta de capital é uma barreira para que muitas ideias saiam do papel. Para contornar a dificuldade, alguns empreendedores optam por se desfazer de bens, outros batem à porta de amigos e parentes e outros optam ainda por levantar fundos junto a bancos e investidores.

Seja qual for o caminho escolhido, os especialistas são unânimes em aconselhar: planeje-se muito bem antes de começar a gastar para evitar prejuízos e dores de cabeça. “Ter um plano de negócios detalhado é fundamental para saber exatamente de quanto dinheiro você vai precisar, por quanto tempo e qual a taxa que você poderá pagar”, aconselha a professora do PROCED/FIA (Programa de Capacitação da Empresa em Desenvolvimento da Fundação Instituto de Administração) Dariane Castanheira.

O documento também vai ajudar na hora de convencer o investidor – seja ele um ente querido ou uma instituição financeira – de que realmente vale a pena colocar dinheiro no seu negócio.

Com um bom plano de negócios em mãos, confira a seguir algumas alternativas para financiar seu empreendimento:

Recursos próprios

Uma prática comum entre quem abre um negócio é se valer de recursos próprios. Muitos executivos aposentados aplicam as economias acumuladas ao longo da carreira no empreendimento e outros ainda se desfazem de bens como carros e imóveis para financiar a empreitada. “É o melhor dinheiro, porque o empreendedor não vai pagar juros nem ter que dividir o negócio com ninguém”, argumenta Alexandre Chaia, professor de Economia e Finanças do Insper.

É necessário, no entanto, ter cautela para não colocar em risco todo o patrimônio adquirido. “É preciso ter caixa para segurar o negócio até que ele comece a dar lucro. É natural que no primeiro ano ele dê prejuízo, mas muitos empresários não conseguem passar dessa fase por falta de planejamento”, aponta Alcides Leite, professor de economia da Trevisan Escola de Negócios.

Amigos e familiares

A ajuda de amigos e parentes – recurso conhecido como “love money” nos Estados Unidos – é outra alternativa para quem precisa de quantias relativamente pequenas de dinheiro para abrir um negócio. A vantagem é que dificilmente seus entes queridos vão bancar os agiotas para o seu lado.

No entanto, ao optar por essa “linha de crédito” especial, é importante formalizar o empréstimo. “Faça um documento detalhado com prazos e taxas para não ter problemas depois”, recomenda Leite. Como contrapartida, ele aconselha definir uma taxa de remuneração ao “investidor” que fique abaixo daquilo que você pagaria para o banco, mas que seja maior do que ele ganharia em uma aplicação financeira convencional, como a poupança.


Sócio investidor

Na falta de um ente querido, o empreendedor também pode buscar um sócio investidor com quem não tenha necessariamente vínculos afetivos. “É uma boa alternativa, porque você tem um parceiro a longo prazo”, opina Chaia. A fórmula tradicional, em que um sócio entra com o dinheiro e outro com o trabalho, pode dar certo desde que as regras do jogo fiquem claras desde o início. A porcentagem de cada sócio no negócio deve ser definida em contrato logo de saída, assim como as obrigações e direitos de cada um na sociedade.

Empréstimo

Pedir um empréstimo ao banco é outro recurso à disposição do empreendedor, mas deve ser usado com parcimônia. As linhas de crédito convencionais cobram taxas de juros que podem acabar por comprometer o sucesso do negócio. “É preciso fazer um bom planejamento para avaliar se, mesmo após o pagamento dos juros, o negócio continuará rentável”, alerta Dariane.

O empresário que está começando do zero também pode ter dificuldades para conseguir oferecer as garantias necessárias para levantar os recursos de que necessita. “O que vai ser levado em consideração é seu histórico como pessoa física, seu relacionamento com o gerente da conta e os bens que ele pode oferecer como garantia”, explica Chaia.

Uma alternativa, para quem não tem um patrimônio para empenhar, é recorrer aos fundos garantidores. “É uma  espécie de seguro que isenta o empreendedor de oferecer garantias próprias”, detalha Dariane. Em qualquer um dos cenários, o importante é fazer cálculos criteriosos e provisões conservadoras para evitar assumir dívidas difíceis de serem quitadas no futuro.

BNDES

Uma alternativa para fugir dos altos juros dos empréstimos tradicionais são as linhas de fomento do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES). A instituição oferece diferentes linhas de acordo com a necessidade do negócio, abrangendo capital de giro, aquisição de máquinas, insumos e serviços e até investimentos em inovação. Para identificar qual é a opção mais adequada para o seu tipo de negócio, é necessário um mergulho no site do banco.

“Algumas linhas oferecem crédito com juros a partir 20% ao ano”, conta Dariane. “É mais simples de conseguir do que pode parecer à primeira vista”, testemunha a professora, que ofereceu consultoria a empresas que captaram recursos junto à instituição recentemente.


Capital de risco

O capital de risco vem crescendo em ritmo acelerado no Brasil. A previsão, segundo um levantamento do Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital (GVcepe) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), é que sejam investidos  US$ 17,8 bilhões nos próximos 3 a 5 anos no Brasil. A boa notícia para o pequeno empresário é que grande parte deste montante será investida em negócios em fase inicial de desenvolvimento. Fundos de capital semente e investidores anjo são as melhores alternativas para quem ainda está tirando o negócio do papel. “É interessante porque ele assume o risco junto com o empreendedor”, destaca Chaia. Outra  vantagem deste tipo de investidor é que ele pode dar uma apoio ao empreendedor que vai além do dinheiro, ajudando-o a ampliar seu networking e a administrar melhor o negócio.

Para ir buscar este tipo de recurso, no entanto, é necessário ter uma proposta inovadora de negócio. Os investidores de risco buscam empresas com alto potencial de crescimento – já que o seu objetivo final é multiplicar o capital investido –, portanto o modelo de negócio tem que ser escalável e repetível. Isso significa que a empresa tem que ter possibilidades claras de expansão, seja atingindo novas geografias ou novos segmentos de consumidores. É importante ter em mente também que, neste tipo de operação, o investidor fica com um porcentual da empresa. Saber negociar é fundamental para não acabar cedendo uma fatia muito grande do seu negócio em troca dos recursos.

Incubadoras

Para quem desenvolve pesquisas no ambiente universitário, uma saída para transformar o projeto em negócio é recorrer às incubadoras. Nem todas aplicam recursos diretos na empresa, porém a maioria delas fornece recursos subsidiados – como instalações físicas e serviços básicos compartilhados – que tornam os custos para manter o negócio bem mais viáveis. Para ser aceito, é preciso passar por uma “peneira” – fique atento às chamadas de inscrição no site da incubadora de seu interesse.

Subvenção

A subvenção econômica é um dos recursos mais interessantes para empresas que estão bem no início da sua trajetória, pois em muitos casos os recursos investidos não precisam ser devolvidos. Este é o caso do programa PRIME, da FINEP, que entra em sua segunda etapa em 2011. Na primeira fase, iniciada em 2008, foram apoiadas 1331 empresas com até dois anos de vida. Cada uma delas recebeu 120 mil reais não-reembolsáveis para investir no aprimoramento da gestão e dos seus produtos.

“Em geral, o dinheiro é investido em serviços de consultoria financeira ou técnica. O objetivo é que a empresa se organize e fique apta a produzir”, explica Murilo Azevedo Guimarães, superintende de subvenção e cooperação da FINEP. O processo de seleção das empresas contempladas é feito por meio de incubadoras, que atuam como agentes do programa. Como no caso do capital de risco, a prioridade também é para negócios inovadores e de potencial alto impacto.


Financiamento colaborativo

O financiamento colaborativo – ou “crowdfunding”, como é mais conhecido – é uma nova alternativa para financiar alguns tipos de empreendimento – em especial, projetos ligados a arte e cultura. Em plataformas como o Catarse, o empreendedor apresenta seu projeto e angaria doações que são recompensadas com “mimos”, que vão desde um simples crédito de agradecimento ao doador até prêmios mais substanciais, como CDs, DVDs, ingressos e jantares – o perfil da recompensa varia conforme o teor do projeto.

É uma alternativa interessante do ponto de vista financeiro, já que o empreendedor tem apenas que ceder uma comissão sobre o valor levantado aos administradores da plataforma – em geral, 5%. Mas o campo de atuação do empresário fica bastante restrito, já que as plataformas de crowdfunding são voltadas a segmentos específicos, geralmente ligados à criatividade e à inovação.