São Paulo – Explicar para o cliente final o destino de cada centavo pago por um produto: essa é a filosofia adotada pela marca de bolsas Catarina Mina há cerca de um ano. A opção pela transparência veio como uma estratégia de sobrevivência frente à competição com produtos asiáticos e se mostrou uma ótima ideia: o negócio cresceu 70% em dois anos e já está chamando a atenção no exterior.

Uma peça da marca cearense custa no mínimo 295 reais, chegando até 860 reais. Feitas em chochê, as bolsas são produzidas por artesãs locais e têm um impacto positivo no orçamento de suas famílias. Porém, começou a ficar difícil competir com produtos importados bem mais baratos.

“Cheguei a perder grandes clientes que decidiram comprar tudo da China. E me questionei: como nós pequenos podíamos interferir nessa lógica de mercado? Todo mundo valorizava a nossa filosofia de trabalhar com artesãs, mas ficaria inviável economicamente se o nosso produto fosse comparável com algo que vinha da China”, afirma a empreendedora Celina Hissa.

A solução encontrada foi abrir o jogo com o consumidor. Há cerca de um ano, Celina decidiu expor no site da loja todos os itens que compõem o custo de cada peça. Entram na conta a remuneração da artesã, materiais, impostos, gastos com marketing, frete etc. “Resolvemos convidar o consumidor a pensar a cadeia produtiva junto com a gente”, afirma.

O resultado não poderia ser melhor: em dois anos, a marca viu seu faturamento crescer 70%, saltando de 330 mil reais em 2013 para 565 mil em 2015. Para 2016, a expectativa é fechar o ano com 800 mil reais. Se antes a marca contava com apenas 4 artesãs, hoje já são 24, devido ao aumento da demanda. O sucesso da iniciativa contou com a ajuda de blogueiras de moda como Camila Coutinho e Nicole Pinheiro.

Dispostos a pagar

Celina conta que, antes, a Catarina Mina tinha foco principalmente nas vendas por atacado e na produção de peças para outras marcas. Foi neste contexto que a concorrência com produtos importados ameaçou o negócio da cearense e ela precisou se reinventar. A solução foi apostar nas vendas direto para o consumidor final, através da internet. Além de encontrar um público disposto a pagar mais por um produto artesanal, a mudança também significou um ganho maior para as artesãs.

“Com o foco no consumidor final, nossa margem ficou maior. Hoje eu chego a repassar para o grupo de artesãs em um mês o mesmo tanto que repassava em um ano de trabalho”, comemora Celina.

As artesãs associadas à marca vivem em Itaitinga, a 30 minutos de Fortaleza, e trabalham de forma autônoma, com registro de MEI (Micro Empreendedor Individual) e emissão de nota fiscal. O modelo respeita a dinâmica já estabelecida de produção artesanal, explica Celina.

“O artesanato geralmente é feito em casa. Ela fica em casa, cuida dos filhos, faz comida para a família. Achamos importante respeitar esse modo de fazer, mas também temos o cuidado com as questões legais, para que elas entendam isso como uma profissão”, afirma.

A iniciativa leva para o mundo da moda uma discussão que tem se desenvolvido principalmente no mercado da alimentação, com valorização de produtos orgânicos e produzidos de forma sustentável. “Para criar uma sustentabilidade no mundo da moda, a gente precisa de um consumo mais consciente. O novo posicionamento da nossa marca parte da necessidade de ter essa conversa sincera com consumidor final. Era uma necessidade política de discussão com a sociedade”, afirma Celina.

Exportação

A Catarina Mina está há cinco anos no mercado e começou como um projeto paralelo de Celina, que antes trabalhava como publicitária. “Sempre fui ligada ao trabalho artesanal. Eu não sei fazer o crochê, mas conheço a técnica e participo do desenho das peças”, conta. Antes de se dedicar exclusivamente à marca, Celina tocou o projeto de forma paralela.

Agora, com a nova proposta da marca, Celina vislumbra a possibilidade de levar seus produtos para o exterior. “Existe interesse de parceiros em Londres e Miami. Além disso, participamos recentemente de uma feira na Alemanha”, conta. A exportação é uma possibilidade, desde que a marca não deixe de atender ao mercado nacional, garante a empreendedora.

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