São Paulo - Repousando sobre o parapeito da janela, uma cafeteira acima de qualquer suspeita parece seguir sua rotina de eletrodoméstico. Mas não se engane: não se trata de uma cafeteira qualquer. Enquanto você toma seu cafezinho, ela manda mensagens via Twitter.

O Laboratório de Garagem é assim, cheio de surpresas. À primeira vista, o simpático sobrado em uma rua tranqüila de São Paulo não tem nada que o faça se destacar em meio à vizinhança. Mas ali dentro, um grupo de inventores amadores se reúne todos os dias para trabalhar em projetos que exploram da robótica à física, passando por computação avançada, engenharia e até artes plásticas.

A ideia surgiu da necessidade de um espaço no qual inventores “de fundo de quintal” pudessem trocar ideias e discutir os projetos nos quais trabalhavam. Marcelo Rodrigues era um deles. Em meados do ano passado, criou a rede social Laboratório de Garagem, com o objetivo de abrir um canal de comunicação com outros potenciais interessados no tema.

Dono de uma escola de ensino infantil e fundamental e engenheiro por formação, nas horas vagas, Rodrigues trabalhava em engenhocas como um simpático robô com uma câmera acoplada que pode ser controlado à distância – que mais tarde se transformaria no mascote do Laboratório.

Rapidamente, descobriu que, assim como ele, muitos outros inventores “amadores” sentiam a necessidade de ter um espaço compartilhado para trabalhar em seus projetos.

Em novembro de 2010, o Laboratório de Garagem ganhava então um endereço físico, um espaço com mesas, bancadas e ferramentas onde qualquer um pode chegar a qualquer hora do dia para trabalhar. Fruto de um investimento pessoal de Rodrigues, o Laboratório hoje recebe mensalmente cerca de 30 “garagistas” que trabalham em seus inventos sem pagar absolutamente nada pelo uso do espaço. A única exigência é que compartilhem seus projetos com outros membros da rede.

Qual é o modelo de negócio que sustenta o espaço então? Por enquanto, nenhum. “Não estou preocupado com isso agora. O valor de ter pessoas com os perfis mais variados opinando e colaborando nos projetos uns dos outros é imensurável”, diz.

Mas é claro que, como todo bom empreendedor, Rodrigues tem um plano. Aos poucos, o projeto mostra seu potencial para se transformar em negócio – ou melhor, em “negócios”, no plural. “Muitas das ideias que estão sendo desenvolvidas no espaço tem potencial para se tornarem produtos comerciais. Em pouco tempo, empresas nascerão aqui dentro”, antecipa.

Pensando nisso, Rodrigues idealizou uma incubadora que vai funcionar dentro do Laboratório e que ajudará os inventores a trabalhar seu lado empreendedor. “São pessoas que normalmente vêm da área técnica e muitas vezes não tem as habilidades necessárias para levar o produto ao mercado”, justifica.

Paralelamente, os próprios entusiastas do projeto já estão trabalhando em possíveis fontes de receita para sustentar o espaço. Uma delas é a venda de peças e produtos para os próprios membros da rede, que hoje já tem mais de 4 mil participantes.

Entre os produtos oferecidos estão kits básicos que permitem que qualquer um monte e programe seus próprios robôs em casa. “Eu me sentia mal de vir aqui e não pagar nada, então decidi contribuir de alguma forma”, conta Sérgio Imperador, criador dos kits.

Gestor de TI durante o expediente e aeromodelista nas horas vagas, ele define o “espírito” da iniciativa: “Juntos aqui fazemos muito mais do que fechados nos nossos escritórios particulares”.

 

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