São Paulo – O mercado brasileiro de startups cada vez mais desperta a curiosidade e o interesse dos investidores estrangeiros. Esta é a conclusão de Phil Wickham, presidente do Kauffman Fellows Programm, do Center for Venture Education, em Palo Alto, na Califórnia. Wickham é um investidor e empreendedor experiente do Vale do Silício que já investiu em mais de 30 startups, como Web Methods e Com21. Além disso, faz parte da Silicon Valley Association of Startup Entrepreneurs (SVASE). Neste ano, a Kauffman Fellows investiu 6 bilhões de dólares em novas empresas.

Hoje, Wickham se dedica a disseminar a educação empreendedora e aproximar investidores e startups em mais de 50 países, através do programa que comanda. Com pouca experiência no Brasil ainda, ele acredita que o mercado tem muito potencial, mas precisa melhorar em termos de suporte ao empreendedor. 

Para o investidor, o maior desafio de quem quer empreender hoje é a facilidade em abrir uma empresa. “Como você surge nesta competição com uma empresa diferente e com valor quando qualquer um pode copiá-lo de um dia para o outro”, questiona. Veja a seguir a entrevista completa com Wickham.

Exame.com - Quais são os principais desafios que os empreendedores têm hoje?
Phil Wickham -
Pode parecer estranho, mas um grande desafio é como é fácil começar uma empresa hoje, por causa de ferramentas de desenvolvimento de software avançadas e o uso da internet como uma plataforma de distribuição. O nível de competição é muito maior do que 20 anos atrás. Por exemplo, em 1995, uma empresa de software precisaria de 2 a 3 milhões de dólares e 12 meses para construir seu primeiro produto, e mais um montante de dinheiro e tempo para garantir um consumidor real. Hoje, essas duas coisas podem ser conseguidas em um final de semana, com pouco ou quase nada de capital. Portanto, como empreendedor, como você surge nesta competição com uma empresa diferente e com valor quando qualquer um pode copiá-lo de um dia para o outro? Dizem que existiam mais de mil empresas como o Groupon na China, dois anos atrás.

Outro grande desafio está em manter talentos extraordinários. Startups só crescem recrutando os melhores. O ambiente hoje para competição por talentos é o pior possível. Startups do Vale do Silício estão contratando executivos logo no lançamento ou perdem a oportunidade. O desafio mais clichê é o acesso a capital. Eu não acredito que seja o caso. A maioria dos empreendedores que pensa assim provavelmente não está olhando para os lugares certos ou ainda não conseguiram contar bem sua história. Existe um fluxo de capital disponível para animar estas empresas.

Exame.com - Como esse movimento impacta o mercado como um todo?
Phil Wickham -
Isso ajuda a descrever porque as taxas de fusão e aquisição estão subindo tanto nos últimos tempos. Primeiro, empreendedores que conseguem se diferenciar por uma base de usuários, como o Instagram, são extremamente valiosos para grandes empresas. Conseguem ter ótimos preços de venda com quase nenhum capital investido. Em segundo lugar, uma empresa como o Instagram que escolhe se manter independente lida com desafios enormes e caros até ficar completamente independente e alcançar um IPO. Talvez custe de cinco a dez vezes mais do que uma década atrás.

Exame.com - Para você, quais mercados hoje apresentam melhor potencial para começar um negócio?
Phil Wickham - 
Olhando setores, o de cuidados com a saúde, energia e educação estão prontos para grandes revoluções. O tipo de mudanças que esperamos ver será feita por empreendedores em todos os lugares, como o Dr. Consulta está fazendo com a prestação de cuidados de saúde em São Paulo. Eu acho que nós estamos apenas arranhando a superfície deste potencial, com a confluência de mídias sociais, pagamentos, mobilidade, geolocalização, a "internet das coisas" e outras plataformas em evolução. Os próximos 5 a 7 anos vão ser muito robustos para os inovadores.

Exame.com - E o que um empreendedor precisa para ter sucesso?
Phil Wickham -
 A coisa mais importante é um sistema de suporte. Os melhores empreendedores são muito importantes para a sociedade, mas muitas vezes mal interpretados e não apreciados. Eles focam incrivelmente bem e podem perder o rumo de operações básicas. Eles precisam de experts ao redor deles para maximizar este potencial. Nós costumamos compará-los com grandes atletas. Se um prodígio do futebol é descoberto no Brasil, o sistema está à disposição deles para que virem os melhores através de treinamentos, serviços de saúde, nutrição, advogados, marketing, etc. Apesar de os empreendedores poderem mudar o mundo e inspirar gerações de empreendedores depois deles, não ignoramos e muitas vezes atrapalhamos seus caminhos. Por isso, devemos reconhecê-los, celebrá-los e fazer o que for preciso para que se tornem bem sucedidos. 

Exame.com - O que os investidores mais valorizam em startups?
Phil Wickham - 
O time, com certeza, é o mais importante, e isso inclui a cultura de liderança que está sendo construída. Nós acreditamos que a cultura é um dos critérios de sucesso de startups mais subestimado, e uma coisa que o Vale do Silício faz muito bem e as pessoas não falam. No topo disto, diferenciação em um mercado aquecido é um ponto crítico. Modelos de negócio e caminhos para a lucratividade continuam importantes fatores também, o que não aconteceu na bolha da internet.

Exame.com - Como você analisa o mercado de startups no Brasil e no mundo hoje?
Phil Wickham -
 Para começar, a localização geográfica está desempenhando um papel cada vez menor em muitas startups de tecnologia nos dias de hoje. A não ser que a empresa seja na área de cuidados de saúde com restrições regulatórias locais ou fabricação local complexa, as empresas são bastante flexíveis em termos de como elas constroem a sua cadeia de fornecimento de tecnologia, recursos humanos e produção, bem como a sua cadeia de demanda, tais como vendas, marketing e distribuição. Mas é uma grande vantagem competitiva para as startups surgirem em regiões onde existem mercados grandes e prontos.

Por essa razão, as startups brasileiras devem ter uma vantagem sobre a maioria das outras economias de rápido crescimento. Esta é uma das principais razões que muitas startups e investidores latino-americanos são tão ativos no Brasil. Outros países que gostam deste tipo de vantagem e como resultado estão se tornando centros regionais de inovação são China, Turquia, Indonésia, Índia e Nigéria. A análise das startups realmente não muda ao longo do tempo, pela geografia ou setor industrial. Ela sempre se resume à necessidade de apoiar os líderes notáveis na realização de seus sonhos.

Exame.com - Como o Kauffman Fellows Program tem visto e analisado o Brasil?
Phil Wickham - 
Vemos o Brasil como uma das mais aquecidas e importantes regiões do mundo. Somos muito novos aqui, mas em quatro anos este deve ser um dos cinco maiores mercados dos 50 países que operamos. Muitos dos fundos que trabalhamos em nossa rede nos Estados Unidos e no mundo estão famintos para aprender mais sobre Brasil. Estamos muito otimistas sobre a América Latina em geral, e é claro que o Brasil vai ser o principal. Além das óbvias vantagens demográficas, empreendedores e investidores aqui pensam grande. Um empreendedor é geralmente tão animado quanto sua vontade de ir atrás de algo que outras pessoas podem pensar que é uma loucura. Nós gostamos muito disso.

Exame.com - Como as startups brasileiras podem se desenvolver ainda mais neste sentido?
Phil Wickham - 
A receita para inovação que vemos hoje é bastante simples de ser entendida, mas muito difícil de ser executada. A primeira questão é o ambiente, geralmente determinado pelo governo. Muitas vezes, ele tenta implementar ideias muito complexas para aumentar as taxas de crescimento de startups de forma não natural, como colocar um capital enorme no sistema. Isso geralmente não ajuda e ainda atrapalha. O que startups e seus investidores precisam é simples: um ambiente simples e transparente para operar, com taxas justas e bem alinhadas, sistemas regulatórios razoáveis e transparentes, leis que protejam as ideias de pequenas empresas, etc.

Até que as nações de crescimento rápido consigam isso, o Vale do Silício vai continuar atraindo ótimas startups estrangeiras. E estamos mais que felizes com isso. Amamos Elon Musk. Outra área em que acreditamos é a educação. De várias maneiras, o grande desafio é educar e conectar melhor educadores com o mundo. Algo que esperamos fazer com o site da Kauffman Fellows Academy. Neste ritmo, no futuro, toda pessoa de sucesso vai depender de fazer questões importantes e desenvolver times que possam ter boas respostas. Não apenas em startups, mas em todo tipo de empresa. A vida de “emprego” é tão curta agora que você precisa aprender a se recriar constantemente e nós acreditamos que essa educação pode começar no ensino básico. É divertido depois que você aprende como fazer isso. 

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