São Paulo – Já imaginou o que daria para comprar com 1 bilhões de dólares? Pois, neste mês, o Facebook desembolsou essa quantia pelo Instagram, aquele app para celular que permite tirar fotos com filtros diferentes e compartilhá-las nas redes sociais. Com um time de pouco mais de dez pessoas (que inclui um brasileiro entre os sócios), o Instagram já tinha recebido 57,5 milhões de dólares de investimento e estava avaliado em 500 milhões de dólares.

A negociação, que teria durado três dias e foi conduzida pelo próprio Mark Zuckerberg, trouxe à tona a discussão sobre os valores atribuídos a startups. Afinal, o que faz uma empresa chegar aos bilhões de avaliação, com pouco tempo de vida e sem nenhum centavo de receita?

O caso específico do Instagram mostra como a casa dos bilhões acaba abrigando mais startups que ajudam na estratégia das grandes empresas do que negócios rentáveis. “No caso do Instagram, ele valia 1 bilhão de dólares porque tinha um valor estratégico para o Facebook. Se você avalia estrategicamente, você não olha somente receita. Se você olhar financeiramente, não vale 1 bilhão de dólares”, opina Marcio de Oliveira Santos Filho, associado da Inseed Investimentos.

Mesmo sem um modelo de receita, é possível que a empresa tenha sido avaliada sobre outros aspectos quantitativos. “Nem sempre ter um modelo de receita bem definido vai fazer você valer mais. Existe sempre uma métrica: eles usam quanto custa cada usuário, por exemplo”, diz Cassio Spina, fundador da Anjos do Brasil.

Para Fernando Campos, investidor-anjo e gestor da Devise, a chance de tirar uma aquisição promissora da concorrência também faz a conta subir. “Não é uma compra fundamentada financeiramente, mas tira do concorrente um player importante que poderia gerar valor pra ele”, diz. A questão é como isso ajuda o próprio Facebook no futuro. “Qual o prejuízo que o Faebook teria tomado se o Google tivesse comprado o Instagram? Será que ele não conseguiria criar uma tração para o Google+?”, pontua Campos.

Fórmula mágica?

Não existe receita de bolo para um valuation tão alto em startups ainda sem modelo de negócio definido, mas os especialistas conseguem identificar fatores em comum nestas empresas. Para Andre Diamand, CEO da VentureOne Startups, a startup precisa ser sexy para conquistar essa cifra. “Elas têm que resolver um problema real ou gerar uma vontade real do usuário em usar aquele serviço. O grande barato do Instagram é que eles trabalharam uma coisa do usuário que é o ego”, afirma.

Fazer com que as pessoas pareçam fotógrafos profissionais cheios de truques e ainda por cima possam espalhar suas criações pelas redes sociais foi um dos motivos que levou ao crescimento da empresa. Foram três meses para alcançar 1 milhão de usuários e dois anos para chegar a 40 milhões de pessoas usando o app. “Acho que o primeiro fator é o potencial da empresa se viralizar e conseguir que os próprios usuários propaguem a utilização do produto. Isso propicia um custo de aquisição de cliente muito baixo e aumenta muito o potencial de crescimento”, diz Spina.

Detalhe: só neste mês a empresa expandiu sua ferramenta para celulares com Android. Até então, só donos de iPhones conseguiam usar. “As razões para chegar a um valor desses são inúmeras, algumas fundamentadas e outras não. O principal fator seria o crescimento rápido. As pessoas acreditam que, se esse crescimento continuar nessa velocidade, o número de usuários justifica um valor mais alto”, defende Campos.

Com tanta gente se expondo e se interessando pelo serviço da startup, aparece um outro fator essencial no valuation: a informação. “A empresa tem acesso ao que você gosta e quem dá essas informações é o usuário. Esse conhecimento é muito poderoso”, avalia Diamand. Para Campos, aí pode estar a chave para a monetização do Instagram. “A mentalidade é que não importa que gere receita, mas sim o acesso que tem a tanta gente e às informações. Uma hora vai conseguir monetizar”, opina.

Depois de crescer muito e conquistar os usuários, as startups bilionárias são aquelas que alcançam visibilidade. “O crescimento rápido é um fator muito importante, em paralelo tem a questão da visibilidade. De certo forma, estar muito na mídia ajuda”, diz Campos. Mais do que exposição, a sorte também conta pontos. Estar no lugar certo e na hora certa, por mais clichê que seja, faz toda diferença. Afinal, um produto sensacional não se estabelece se o mercado não estiver preparado para ele.

Muito analisada na hora de um investimento, a equipe que compõe a startup pode ser decisiva para a avaliação. “Sem dúvida, o time é o maior valor que qualquer startup tem. Mais do que ideia ou projeto”, defende Spina. Para Diamand, a equipe idealmente tem que ter entre os sócios, de preferência, pessoas com as habilidades necessárias ao negócio, como um programador e alguém de marketing digital, por exemplo. “Um bom pedigree não é mal. Para conseguir valuation de 1 bilhão de dólares, não tem jeito”, diz.

A análise do seu mercado também vai pesar na avaliação de possíveis investidores e compradores. “Tem que ser um mercado global. Precisa ter potencial de atingir o mundo todo, sem restrição cultural ou mercadológica, sem necessidade de se expandir fisicamente”, afirma Spina.

Diamand vai além de defende que não são empresas do mundo todo que tem chances de chegar neste patamar. Quem começa no Vale do Silício, por exemplo, sai na frente. “Acho que o brasileiro tem potencial, mas há uma inércia do mercado. Como já está mais quente e maduro no Vale do Silício, os grupos são mais ágeis e lá tem muito mais mecanismos e facilidades”, explica.

Pés no chão

Antes de fazer as malas para a Califórnia, no entanto, é bom não se iludir. “Para cada empresa que vale 1 bilhão de dólares, tem 999 empresas que não valem nem 10 reais. O empreendedor, com envolvimento emocional, acha que tem que valer isso e fica cego para a realidade”, alerta Campos.

Os especialistas em startups deixam claro que o caso do Instagram é uma exceção e também cada vez mais raro. “Mais de 80% dos valuations são abaixo de 20 milhões de dólares. Os caras estão comprando cedo para não ter que pagar 1 bilhão”, diz Campos.

Seguir o exemplo do Instagram e não ter um modelo de negócios é bastante arriscado. “A empresa não pode se dar ao luxo de não ter um modelo de receita. Aquisições bilionárias vão ser menos frequentes. Esse tipo de valuation aconteceu muito na primeira onda de internet, em que empresas faziam IPOs de milhões sem um centavo de receita e não deram certo. Acreditaram demais que ter exposição era suficiente”, analisa o gestor da Devise.

O erro de muita gente que começa um projeto é investir em coisas enormes, que muitas vezes o usuário não entende ou não usa. “Comece pequeno, colocando duas funcionalidades principais que os usuários vão se engajar e viralizar. E depois daí, eles vão reclamar e sugerir. Ir melhorando conforme o que eles vão dizendo é uma sacada de sucesso”, ensina Diamand.

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