São Paulo – Ver mulheres na liderança de grandes empresas e também a frente de pequenos negócios é uma tendência irreversível que só tende a crescer. É o que pensa a empreendedora Chieko Aoki, dona da rede Blue Tree Hotels e uma das empresárias mais poderosas do país.

“A mulher entrando no mercado de trabalho como empreendedora e descobrindo que ela pode empreender é um grande passo, tão importante quanto ser presidente de uma grande empresa”, afirma em entrevista especial para o Dia da Mulher.

Na visão de Chieko, as mulheres têm uma característica de compartilhar mais suas ideias e criar ambientes mais acolhedores, o que beneficia os negócios. Aliada a isso está a possibilidade que o negócio próprio traz de permitir uma jornada mais flexível para quem também quer se dedicar mais à família.

Sobre as que fazem dupla jornada, com trabalho na empresa e em casa, Chieko ressalta que a rotina agitada garante à mulher uma maior capacidade de assumir responsabilidades. Mas isso não quer dizer que ela deve se conformar com uma divisão desigual do trabalho: “Se o marido fica de perna pro alto, vai falar: ‘escuta, qual é a sua?’”, afirma.

Veja a seguir a entrevista de Chieko Aoki a EXAME.com

EXAME.com - Como a senhora vê o espaço da mulher no mundo dos negócios hoje?

Chieko Aoki - Hoje em dia fala-se muito que a economia está ruim e que tem muita coisa andando para trás. Mas uma coisa que não andou para trás e está sempre forte e avançando é a questão da mulher nos cargos de liderança. Mesmo nessa situação econômica, a coisa não diminuiu, está avançando. Vejo as mulheres mais animadas, mais fortes, em posições importantes. É algo realmente irreversível, é um fato que já está andando por si, já é uma tendência.

Mas ainda são poucas as mulheres em cargos do topo da hierarquia nas empresas.

Ainda são poucas, mas essa questão das mulheres nos cargos top do mercado é algo que começou ontem. Os homens já estão há muito tempo, então há uma evolução. E não são só as grandes empresas que sustentam o país. As pequenas e médias empresas também sustentam o país e cada vez mais a gente vê mulheres empreendedoras, então acho que a gente tem que ver a perspectiva da mulher como uma coisa mais ampla. A mulher entrando no mercado de trabalho como empreendedora e descobrindo que ela pode empreender é um grande passo, tão importante quanto ser presidente de uma grande empresa. Porque são muitos riscos, precisa de muita coragem, muita garra, coisas que são comuns para homens e mulheres.

Dados mostram que 52% dos novos negócios são comandados por mulheres. Como vê esse movimento de mulheres empreendedoras?

Não é apenas no Brasil, mas no mundo todo que muitas mulheres estão seguindo para o empreendedorismo. Eu pessoalmente acho que a tendência das mulheres de serem empreendedoras vai crescer cada vez mais. Porque as mulheres têm muitas vezes que cuidar da família e dos filhos, então precisam de horários que não podem ser como aqueles de escritório. E as mulheres têm realmente aquela coisa de querer cuidar, principalmente quando os filhos são menores. E aí decidem: ‘então vou empreender, cuidar dos meus filhos, e ter um negócio em que eu me sinta satisfeita como alguém produtivo’.

Que conselho daria para mulheres que querem abrir seu próprio negócio?

Eu diria que o negócio da gente às vezes é muito pequeno diante do grande caminho que podemos construir. Mas ele sempre começa pequeno. Busque um sonho grande, mas com pé no chão, construindo, e saiba que você vai suar e chorar muitas vezes. Mas a alegria de cada conquista é tão grande, e você vê que as pessoas que estão ao seu lado vibram, e quando vê já se passaram dez anos. Portanto, não desista.

Onde essas mulheres podem buscar ajuda para empreender?

O que a gente tem que ajudar a estruturar é que elas tenham a orientação certa e acho que o Sebrae faz um trabalho excelente nesse sentido, não apenas para mulheres mas para todos os empreendedores. Existem movimentos muito bacanas, importantes para o empreendedorismo. Às vezes a gente só quer enxergar coisas do topo, mas embaixo também estão acontecendo movimentos grandes que até são mais rápidos, porque tudo que é grande vira elefante, as formiguinhas pequenas se movimentam mais rápido. Acho que a gente tem que fazer com que essas pessoas tenham condições, saibam buscar informações. Às vezes as pessoas querem abrir um negócio e não sabem por onde começar. Então existe o Sebrae, o grupo Mulheres do Brasil, que eu faço parte, e a Rede Mulher Empreendedora, da minha amiga Ana Fontes, que podem ajudar.

O grupo Mulheres do Brasil defende cotas para mulheres nos conselhos de grandes empresas. Pode explicar essa proposta?

À primeira vista ninguém gosta de cota. Mas a gente tem que fazer com que as pessoas tenham consciência da importância de ter mulheres nesses espaços. Num primeiro momento parece uma conquista meio forçada, mas acho que não, acho que queremos dar velocidade a uma coisa que vai acontecer de qualquer forma. As mulheres trabalham de uma forma diferente, e isso é bom para as empresas, traz ideias diferentes, uma visão diferente sobre o mercado, sobre como fazer.

Que jeito diferente é esse?

Acho que as mulheres trabalham melhor com as pessoas, querem juntar mais, compartilhar mais, a mulher ter uma coisa de criar grupos. Acho que isso faz com que as pessoas compartilhem muito mais e deixa o trabalho mais prazeroso.

A dupla jornada ainda é uma realidade em muitas famílias, inclusive para mulheres empreendedoras. Como vê isso?

Eu converso muito com mulheres que têm filhos e trabalham e fazem mais uma porção de coisas. Eu as admiro muito. Acho que, quando você tem mais coisas pra fazer, você se acostuma a fazer mais. Quanto menos você faz, menos você faz. A gente é assim mesmo, acaba se acostumando com certo ritmo. Então eu admiro as mulheres que têm dupla jornada porque vejo que elas cuidam do marido, do filho, da escola e de muito mais. E vejo que elas dão valor a cada momento, então a essência fica mais profunda, o seu tempo fica valioso. E acho que os maridos também amadureceram muito. Se você tem tudo isso e um marido que fica de perna pro alto, vai falar: ‘escuta, qual é a sua?’. Então nisso ela também descobre a essência do marido e aí sim nasce uma grande parceria.

Como vê o cenário econômico atual para o empreendedorismo?

Quando estamos em crise, com dificuldades, a gente melhora, a gente se reinventa. Então eu não posso dizer que a crise é boa, mas ela faz a gente repensar, ousar um pouco mais, a gente quer usar muito mais a nossa capacidade, que geralmente fica só na superfície. Então, não é um processo prazeroso, mas o resultado final é positivo. 

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