São Paulo – Muitos possuem o sonho de criar sua própria empresa. Porém, nem todos chegam até o momento da abertura – pelos mais diversos motivos, a ideia do negócio é postergada ou abandonada. Como saber se o empreendedor realmente precisa adiar seu sonho ou se ele está apenas dando desculpas para não enfrentar todos os desafios que envolvem ter um empreendimento?

“Toda vez que o obstáculo é colocado de uma forma vaga, ele é uma desculpa. Por exemplo, ele diz que falta dinheiro, mas nem pesquisou sobre formas de financiamento ainda”, explica Marco Aurélio Ribeiro, coordenador de Mercado e Inovação do Centro de Empreendedorismo Ibmec (CEI). “Muitas ideias de negócio não são viáveis, mas não é parado que você vai descobrir. Seja um protagonista: não fique esperando ganhar na loteria ou então o juro cair”.

Se esse é o seu caso, saiba que buscar informações pode ser a solução para parar de dar desculpas. “Com essa capacitação, você sabe que está correndo riscos, mas eles são mais calculados por meio de um planejamento”, analisa Leonardo Tegg, consultor de finanças do Sebrae de São Paulo. “Também recomendo aproveitar oportunidades e ter iniciativa – esses dois dependem só de você, e não do mercado ou do consumidor.”

Ainda na linha dos conselhos, Adriano Barbosa, supervisor do curso de empreendedorismo do Centro Europeu, recomenda se inspirar em histórias parecidas com a sua. “Converse com outras pessoas que estão no mesmo momento que você e também exemplos positivos de empreendedores, que possam motivá-lo.”

Quer ter certeza de que você está adiando a criação do seu negócio por um bom motivo? Então, confira se você diz alguma dessas frases que indicam apenas procrastinação:

1. “Não tenho dinheiro para abrir meu negócio”

Essa primeira desculpa é justamente a mais ouvida pelos especialistas consultados: não, não é preciso esperar ter todo o investimento inicial do seu negócio para começar a empreender.

A justificativa ocorre porque há o desconhecimento de que o dinheiro é um recurso como outro qualquer – ou seja, é possível obtê-lo por meio de empréstimos –, afirma Ribeiro. “Isso mostra que as pessoas têm uma ideia de negócio, mas não um plano que coloca as condições de pagar o preço desse empreendimento. Esses empreendedores não estão preparados para começar e inventam a desculpa para não andar para frente.”

Como exemplo de alternativas para financiar seu projeto, Barbosa cita bancos que possuem linhas específicas para PMEs, cooperativas que apoiam empreendedores e investidores-anjo. “Desde que sua ideia realmente gere negócios e você esteja disposto a executá-la, haverá investimentos.”

Depois que você encontrou uma boa fonte de recursos, é preciso saber exatamente em que parte do negócio esse capital será aplicado. Tegg recomenda buscar dinheiro para o investimento inicial do negócio – máquinas, equipamentos, computadores, entre outros –, enquanto as reservas próprias podem ser destinadas ao capital de giro do negócio. “Isso porque, se você gastar suas reservas no investimento inicial e for pegar um empréstimo do banco para seu capital de giro, as taxas serão maiores do que as praticadas pelos financiamentos voltados exclusivamente para financiar novos negócios”, explica.

2. “Estou esperando aquela grande ideia aparecer”

Alguns empreendedores dizem que estão esperando serem inspirados por uma ideia que abalará as estruturas. Porém, isso pode ser apenas uma desculpa para não seguir os próximos passos da criação de uma empresa.

“Não fique muito preocupado em reinventar a roda. Veja o que o mercado já fez, encontre lacunas não atendidas pela concorrência e mãos à obra”, recomenda Barbosa, do Centro Europeu. “A grande solução é colocar uma ideia em prática e ver se resultados são gerados. Depois, você pode decidir continuar investindo nisso ou partir para outra ideia. Mas é preciso testar para saber.”

3. “Vou deixar para abrir o negócio depois. Tenho uma vida confortável”

O custo-oportunidade de abrir um negócio é muito alto e muitos potenciais empreendedores temem esse risco envolvido. Porém, quanto mais os anos passam, mais pesadas são as responsabilidades e maior é a chance de perder o timing da empresa. “Se você tem uma ideia e um plano de negócios, crie um mínimo produto viável o mais rápido possível. Um negócio que é bom hoje pode não ser mais daqui a cinco anos”, afirma Ribeiro.

Ainda não se convenceu de que, para realmente empreender, largar a zona de conforto é fundamental? O professor do Ibmec dá um exemplo inspirador: Jeff Bezos largou um ótimo emprego no mercado financeiro e se mudou com sua mulher para outra cidade, abrindo um negócio na garagem da casa. Hoje, ele comanda nada menos do que a multinacional de comércio eletrônico Amazon.

4. “Não tenho tempo para isso agora”

Suas tarefas diárias parecem não ter fim e, desse jeito, você não consegue pensar na sua futura empresa? Então, é preciso organizar seu tempo e estabelecer objetivos e metas. “Faça esse planejamento, inclusive antes do negócio ser criado. Nesse plano, reserve um tempo exclusivamente para obter informações e saiba quando você precisa tê-las apuradas – daqui a um mês, por exemplo”, recomenda Tegg, do Sebrae.

Ser afogado pelos compromissos é um sinal de falta de capacitação, defende Barbosa. “Quando o empreendedor não é capacitado, ele foca mais na operação e menos na estratégia. Essas tarefas que o fazem procrastinar podem ser delegadas, podem ser resolvidas por meio da rede de contatos. Assim, ele só foca no que é realmente seu papel.”

5. “A burocracia não me deixa começar”

Sim, o tempo para abrir uma empresa no Brasil é longo – veja as melhores cidades do país para ter seu negócio. Porém, a burocracia não pode ser uma desculpa para ficar de braços cruzados.

“Ele poderia usar esse tempo de espera para investir em networking, por exemplo, porque as pessoas precisam começar a vê-lo como empreendedor, e não como empregado ou estudante. Burocracia não é motivo para parar seu empreendimento”, diz Barbosa, do Centro Europeu.

6. “Os impostos e os juros são muito altos”

Para seu negócio, pode até ser que os impostos sejam altos e que o negócio não se torne viável. Mas há muitos empreendedores que usam essa desculpa porque ouviram por aí, diz Tegg. “Por exemplo, há o Simples Nacional, que engloba impostos e simplifica rendimentos. Com a falta de conhecimento, ele diz que o imposto é alto sem nem saber em qual alíquota do Simples ele se encaixa”, diz o consultor do Sebrae. Pesquise a fundo antes de assumir que é impossível sobreviver.

O mesmo pensamento vale para os juros. “De fato, o Brasil é o campeão dos juros altos. Mas existe muito crédito subsidiado ou incentivos para quem quer abrir um negócio”, diz Ribeiro. “Se esse empreendedor nunca tentou, como sabe que é caro? Ele escuta dizer que as taxas são enormes e nem vê que poderia conseguir o que ele precisa de várias maneiras.”

7. “É muito difícil arranjar bons empregados”

Essa é uma desculpa que costuma aparecer depois que o negócio foi criado, mas que pode barrar sua expansão. Muitos empreendedores consideram que não há bons empregados no mercado e por isso permanecem sozinhos, mas também não se dispõem a treinar sua equipe, afirma Tegg.

“Há um receio de abrir a empresa por ser difícil achar boa mão-de-obra e, se ela for de fato capacitada, ter medo de o funcionário ir embora por um salário maior. Porém, é justamente nessa hora que é preciso investir em meios para reter seus talentos, o que inclui capacitação”, diz o consultor do Sebrae. “Não basta contratar uma mão-de-obra sem orientá-la e treiná-la de acordo com os valores os e objetivo da empresa.”

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