No olho do furacão, com prevenção de riscos climáticos

Como quatro empreendedores estão desbravando um dos setores mais promissores do momento — o dos negócios voltados para prevenção de riscos climáticos

Para muita gente, a previsão do tempo é apenas o tipo de informação — nem sempre muito confiável — capaz de ajudar a programar uma viagem de fim de semana ou a decidir se é preciso levar guarda-chuva ao sair de casa.

Mas é aí que podem estar algumas das oportunidades de negócios mais promissoras para os próximos anos.

Somente em 2010 os prejuízos do agronegócio com enchentes, secas e outros fenômenos climáticos atingiram 50 milhões de reais no Brasil, de acordo com um levantamento do professor Augusto José Pereira Filho, integrante brasileiro da Organização Meteorológica Mundial.

Nas próximas páginas, Exame PME traz histórias de quatro pequenas e médias empresas brasileiras que estão crescendo ao desenvolver produtos e serviços feitos para diminuir as perdas com a imprevisibilidade do clima em setores importantes, como energia, agronegócio e petróleo.

Elas são representantes de uma geração de empreendedores que estão trazendo para o mercado ideias que até recentemente ficavam restritas a laboratórios e universidades. 


A força dos ventos

Muitas vezes, o pedido de um importante clien­te pode abrir um horizonte promissor para um negócio emergente. Foi o que aconteceu com a carioca Aquamet, do meteorologista Fábio Hochleitner, de 39 anos. Ao fundar a empresa, em 2007, seu principal negócio era fazer previsões do tempo para grandes empresas.

Pouco tempo depois, Hochleitner recebeu uma encomenda da Petrobras, para a qual já trabalhava, que deu um novo rumo ao negócio. A petrolífera precisava de alguém capaz de fazer projeções de longo prazo para o clima nos mares da costa brasileira. Desde então, a Aquamet vem crescendo, em média, 15% ao ano.

Em 2010, suas receitas chegaram a 1 milhão de reais. “O trabalho com a Petrobras impulsionou o desenvolvimento de novas tecnologias e nos ajudou a entrar num mercado em que a concorrência é menor”, diz Hochleitner.

Parte do trabalho da Aquamet é manter um sistema de monitoramento marítimo que dê à Petrobras informações sobre como agir em caso de emergência, como vazamentos de óleo causados por problemas nas plataformas ou nos navios petroleiros. A tarefa exigiu que a Aquamet desenvolvesse um sistema para prever a intensidade e a direção dos ventos, o que abriu novos mercados.

Recentemente, a Aquamet passou a ser procurada por operadores de usinas eólicas, que precisam de uma projeção dos ventos em cada região para determinar onde instalar seus geradores. No ano passado, Hochleitner investiu 300 000 reais para conduzir um amplo estudo sobre os ventos no Brasil.

Atualmente, existem 140 projetos de usinas eólicas em andamento no país. “Até o ano que vem, os negócios com empresas de energia eólica podem ajudar a Aquamet a crescer 40%”, afirma Hochleitner.


A dona da chuva

A empreendedora Marjory Imai, de 45 anos, vive com a cabeça nas nuvens. Ela é sócia da paulistana Modclima, que produz chuvas artificiais. No ano passado, a empresa faturou 1 milhão de reais provocando garoas e aguaceiros.

Um de seus principais clientes é a Sabesp, companhia de água e saneamento de São Paulo, que contrata seus serviços para aumentar a precipitação em áreas de mananciais, como a serra da Cantareira e a região do Alto Tietê, que abastecem mais de 20 milhões de pessoas.

A Modclima também presta serviços para associações de agricultores no Nordeste que buscam alternativas para diminuir os prejuízos com a estiagem nas lavouras. 

A Modclima nasceu em 2001, quando o engenheiro Takeshi Imai, pai de Marjory, começou a desenvolver uma tecnologia para produzir chuvas artificiais que fosse ambientalmente correta.

Até então, o que existia no mercado era um método que fazia chover aspergindo nas nuvens partículas de iodeto de prata, um material que pode ser tóxico em grandes concentrações. Imai teve a ideia, então, de espalhar sobre as nuvens micropartículas de água pura, que atraem a umidade que existe no ar, formando as gotas de chuva que despencam do céu.

Hoje, boa parte do trabalho da Mod­clima é caçar nuvens nos céus e prever sua trajetória para descobrir o melhor momento para fazer chover onde seus clientes precisam. Depois, Marjory, seu irmão e sócio Ricardo ou os técnicos da empresa sobrevoam as nuvens para produzir chuva.

“Na prática, o que fazemos é acelerar um processo natural para que a chuva caia”, afirma Marjory. “Mesmo nas áreas muito secas do Nordeste é possível fazer chover até quatro vezes ao dia com essa tecnologia.”


Na maré cheia

Amaré tem sido favorável para os negócios do engenheiro Cláu­dio Pi­res, de 60 anos. Ele é dono da Nav­con, de São José dos Campos, no interior de São Paulo. No ano passado, a empresa faturou 5,5 milhões de reais, 40% mais do que em 2009, fabricando boias que ajudam a monitorar o clima e o movimento das marés em alto-mar.

Quando fundou a Navcon, no final da década de 90, Pires planejava produzir sistemas de GPS para que os navios em alto-mar pudessem localizar mais facilmente suas rotas.

Pouco tempo depois, ele conseguiu fechar contrato com a Petrobras, que sugeriu adaptar a tecnologia para monitorar os deslocamentos das ondas para prever transtornos climáticos que pudessem trazer perigo às plataformas marítimas. Parte da função das boias da Navcon é prever a amplitude de ondas e fazer o reconhecimento de novas áreas com reservas na camada do pré-sal.

Além disso, os equipamen­tos produzidos pela Navcon também ajudam a alertar quem trabalha em alto-mar so­bre situações em que um fenômeno climático — como uma tempestade — pode pôr em risco a estabilidade de uma plataforma ou de um navio. Entre os principais clien­tes da empresa estão companhias, como a mineradora Vale, que usam os equipamentos para planejar a operação de plataformas e navios cargueiros.

“Em alguns casos, as condições do tempo obrigam um na­vio a atrasar sua atracação no porto para reduzir os riscos de acidentes”, afirma Pires. “Para a Petrobras, também é importante saber quando a movimentação do mar torna a extração de petróleo ou o trabalho de perfuração mais arriscados.”

A expansão dos investimentos em extração de petróleo na costa brasileira está impulsionando o crescimento da Navcon. Em 2011, a empresa vendeu o dobro de boias do ano passado.