Herdei uma empresa. E agora?

Herdeiros falam sobre os desafios de se envolver em um negócio familiar

São Paulo – Assumir uma empresa familiar pode parecer um excelente oportunidade, um verdadeiro negócio de pai para filho. Mas nem sempre esta é uma tarefa simples. Envolver-se na gestão de um negócio familiar traz uma série de desafios. Como evitar que os assuntos da empresa cheguem todos os dias à mesa do jantar? Como sair da sombra dos seus antepassados? E se você quiser seguir outra carreira – a família vai entender?

Ambos herdeiros de negócios familiares e donos de seus próprios negócios, Cássio Beldi e Paulo Pacheco Kinoshita abordam estas questões no livro “De Herdeiro para Herdeiro – como se preparar para perpetuar e ampliar os negócios de sua família”. Em entrevista à EXAME.com, eles dão dicas de como enfrentar os desafios da gestão familiar.

EXAME.com: Como o herdeiro deve decidir se embarca no negócio da família ou segue uma carreira própria?

Beldi e Kinoshita: Apesar de toda a expectativa para que o herdeiro assuma um papel nos negócios familiares, é necessário permitir que ele busque sua realização pessoal e profissional. É importante permitir que o herdeiro defina, de forma clara, seu próprio projeto de vida. Para isso, é preciso conhecer seus sonhos, seu perfil e avaliar seus pontos fortes e fracos. É muito importante que o herdeiro possa fazer o que gosta e lhe dá prazer. Se decidir que o melhor caminho para sua felicidade é ficar de fora da empresa familiar, essa decisão deverá ser respeitada e entendida. A empresa não pode ser um fardo, deve ser uma escolha. Além disso, é preciso que haja espaço para ele na empresa, e que ele preencha alguns pré-requisitos de perfil e capacitação.

EXAME.com: Quais são os desafios de assumir um negócio familiar?
Beldi e Kinoshita:São inúmeros. Um deles é que o sucessor precisa ter em mente que o que foi feito no passado, não é garantia de sucesso no futuro. É preciso que a estratégia seja reavaliada, tanto na gestão como principalmente na estrutura da empresa. A família cresce em proporções maiores que a empresa e em algum momento não terá mais espaço para todos dentro dela. Para isso é necessário que uma nova estrutura seja redesenhada e que regras e normas sejam estipuladas já pensando em “blindar” a empresa de possíveis conflitos. É preciso fazer com que os envolvidos compreendam o seu papel na organização e não misturem assuntos familiares com assuntos empresariais. Trabalhar junto intensifica as interações e pode exacerbar os problemas familiares, alimentando a rivalidade e a competição entre gerações. Outro desafio do herdeiro é substituir uma pessoa que conseguiu vencer ao longo de sua vida e é muito admirada e respeitada – cobrança e expectativa serão inevitáveis. Outro problema comum é receber o cargo mas não conseguir assumir a responsabilidade de fato.

EXAME.com:  É possível separar a vida familiar dos negócios?
Beldi e Kinoshita: É muito difícil, mas extremamente necessário. Uma ferramenta muito eficaz para se separar família dos negócios é o que chamamos de governança familiar. Envolve a elaboração de regras claras para garantir a boa convivência dos sócios e familiares, por meio da comunicação e da transparência nas ações, dentro da empresa e na família. Isso pode ser feito através de instrumentos como o conselho de família ou de herdeiros, garantindo que cada acionista ou herdeiro entenda a dinâmica da família e da empresa e compreenda a separação entre as duas esferas. Costumamos dizer que a governança familiar serve para ajudaras famílias a enfrentar o desafio de aumentar seu patrimônio e, de quebra, passar o Natal juntas.


EXAME.com: Quais são os erros fatais que um herdeiro deve evitar?
Beldi e Kinoshita: O herdeiro deve evitar cair em armadilhas típicas das empresas familiares. Não se deve, por exemplo, confundir relações de afeto e familiares com relações contratuais, nem acreditar que sua capacidade gerencial virá junto com a herança. Na verdade, o herdeiro deverá estar consciente de sua responsabilidade dentro da sucessão empresarial e se preparar para isso, investindo em sua educação e agregando valor ao negócio. Outra armadilha a ser evitada é não seguir regras de mercado no que diz respeito à remuneração dos familiares que trabalham na empresa, assim como confundir gestão e controle.  E a pior de todas, adiar a sucessão.

EXAME.com: Qual é o segredo para ter sucesso administrando um negócio familiar?
Beldi e Kinoshita: O futuro dos negócios familiares depende da capacidade da família de estar aberta para o jogo das mudanças. A perpetuidade envolve diferentes ciclos. É necessário fechar os ciclos anteriores para que o próximo comece, envolvendo, com isso, as novas gerações. Aceitar esse fato permite estar pronto para a sucessão, planejá-la da melhor forma, esforçando-se para evitar a falência da empresa ou a dissolução das relações familiares.