Exercício de desapego

Empreendedores que não delegam tarefas a seus funcionários não conseguem se concentrar na estratégia para fazer a empresa crescer

São Paulo – Já conheci muito empreendedor que morre de medo de delegar tarefas. A desculpa é quase sempre a mesma — eles receiam que seus funcionários não desempenhem a missão tão bem quanto gostariam. O problema é que nem todos se preocupam em oferecer as ferramentas para que o pessoal se vire sozinho.

Alguns delegam funções a pessoas que não têm perfil para aquilo. Outros não dão orientações detalhadas sobre o que querem exatamente. O resultado é sempre o mesmo: o funcionário fica frustrado por não atender às expectativas do chefe e o empreendedor fica remoendo a situação. No fundo, essa é só uma prova de que ele não sabe ao certo como e o que delegar.

Aprendi a importância de preparar as pessoas para assumir funções de maior responsabilidade quando morei no Vale do Silício. Lá, tive a oportunidade de trabalhar numa empresa chamada Ooyala, de tecnologia para vídeos. Eu era gerente de produtos, e minha responsabilidade era cuidar do lançamento de novas funcionalidades desenvolvidas pelos engenheiros da empresa.

Como minha formação também é em engenharia, morria de vontade de me envolver no trabalho da equipe. Mas meu papel era gerir, e não desenvolver. Conforme conhecia melhor o perfil de cada um, fui aprendendo a delegar pouco a pouco — e isso foi fundamental para que eu não cedesse à tentação de fazer tudo sozinha, algo que é muito comum a quem tem dificuldades de repassar tarefas aos outros.

Não existe uma receita definitiva para delegar direitinho. Mas algumas coisas ajudam. Criar um método para repassar certas atividades é o primeiro passo. Aqui vão duas ideias:

• Crie o hábito de fazer encontros semanais com os membros de sua equipe mais próxima e passar alguma coisa nova para cada um fazer. Não esqueça de estabelecer algumas metas e avaliar o desempenho do funcionário de tempos em tempos.

• Escolha uma pessoa experiente e de confiança para delegar tarefas mais complexas. Peça para que ela própria avalie se vai precisar da ajuda de alguém ou não. E pare por aí. Uma das melhores coisas de delegar é abrir caminho para as surpresas que as pessoas podem trazer.

Colocar essas ideias em prática, mesmo que com alguma variação, funciona como uma espécie de treinamento. Todo mundo sabe que delegar é importante, mas também é preciso reconhecer que não é fácil sair dividindo responsabilidades da noite para o dia. Uma dose de esforço é necessária.

Um empreendedor que não delega acaba ficando preso às amarras de tudo aquilo que não é essencial. Ele até pode enxergar um montão de oportunidades a seu redor — mas não consegue aproveitá-las no tempo certo. Desapegar e aprender a dividir as funções pode ajudá-lo a ter mais tempo para pensar naquilo que é realmente estratégico e que pode fazer sua empresa continuar a crescer no futuro.

Bel responde

Mande sua dúvida para cantinhodabel@abril.com.br. As perguntas são selecionadas por Exame PME.

Como conciliar a vida pessoal com os afazeres profissionais?
Emerson Viegas | Casal Sem Vergonha — Florianópolis, SC

Muitas vezes, é necessário colocar as prioridades profissionais à frente das pessoais, se você pretende fazer com que sua empresa cresça em um ritmo acelerado. Mas, por outro lado, quando começamos a nos policiar para inserir em nosso dia a dia outras prioridades que não as profissionais, trabalhamos e vivemos melhor.

Eu mesma pude comprovar isso. Comecei a me esforçar mais para ter tempo com meus pais, minha irmã, minhas avós e meus amigos. Também passei a fazer ioga e a correr nos fins de semana. Na verdade, as coisas são simples. O empreendedor é um só.

Portanto, se há mais tarefas do que ele consegue realizar, ou ele aprende a delegar, ou ele aprende a ser mais eficiente. Ou mesmo os dois. Qualquer ação que ajude nesse ponto já está valendo — contratar mais gente, treinar sua equipe, treinar a si próprio.

Sinto que o ambiente de trabalho está pesado. Como promover a harmonia?
Philip Moz | Chá das 5 — São Paulo, SP

Gerir pessoas é difícil. Cada um tem sua maneira de ver o mundo, suas expectativas, suas experiências. Por isso, conseguir agradar até mesmo a uma equipe pequena é um desafio. Antes de tudo, é necessário saber por que o ambiente de trabalho está pesado.

Pode ser pela ausência de uma boa gestão. Por exemplo: quando um chefe pede algo às 6 horas da tarde de uma sexta-feira, sendo que poderia ter solicitado aquilo antes. Isso desmotiva. O clima também pode estar ruim por falta de informação.

Se os superiores não explicam direito o que esperam de seus funcionários e de seus projetos, é normal que os empregados trabalhem com pouco entusiasmo. Eles ficam sem saber a que, exatamente, estão se dedicando. Um terceiro fator que pode estar influenciando negativamente é o fato de os funcionários não estarem de acordo com a cultura da empresa. Um funcionário que pensa demais a curto prazo pode sofrer numa empresa cujas metas sejam de longo prazo.

Os funcionários também podem estar desmotivados por uma razão simples: não estão sendo remunerados de acor­­­­­do com as expectativas que tinham. Nesse caso, uma conversa franca sobre o futuro deles na empresa é essencial. Às vezes, um salário mais baixo pode ser compensado com a possibilidade de crescimento ou aprendizado com os chefes.

Como conseguir investidores fora do setor de tecnologia?
Álex Gustavo Melo | Empreitec — Betim, MG

As empresas que se sobressaem perante os investidores têm um modelo de negócios plausível, que especifica como vender e distribuir os produtos ou serviços de maneira inteligente e prática. É inegável que muitas startups e empresas de tecnologia se encaixam nessa descrição.

Mas isso não quer dizer que sua empresa esteja fora do jogo. Investidores estão em busca de negócios com vocação para crescimento acentuado em pouco tempo. Sua empresa está preparada para isso? Muitas pessoas têm fascinação por investimentos.

Porém, antes de tudo, é necessário refletir se o investimento é realmente necessário para seu negócio e se perguntar se será possível entregar o retorno que o investidor espera no período que ele estabeleceu. Se você não for capaz de honrar o aporte, é melhor crescer com os próprios recursos — no próprio ritmo — do que abdicar de parte do negócio à toa.