De concurseiro a empresário de 70 milhões

Tom Cardoso 

A trajetória de Renato Saraiva se confunde com a de muitos brasileiros. Nascido e criado em Vigário Geral, favela da Zona Norte do Rio, ele passou em vários concursos, exerceu diversas atividades, até chegar a Procurador do Trabalho. Porém, em 2009, aos 40 anos, decidiu dar uma guinada: licenciou-se do cargo de procurador para fundar o CERS Cursos Online (Complexo de Ensino Renato Saraiva), hoje a maior rede de cursos preparatórios em carreiras públicas do país, com mais de 550.000 alunos matriculados e cerca de 3.000 cursos lançados.

Saraiva, 47 anos, decidiu abrir o negócio ao enxergar diversas lacunas nos cursos preparatórios que ele mesmo fazia. Ele prestou o primeiro concurso para sargento da Aeronáutica na década de 1980. Exerceu por alguns anos a atividade até se formar em Direito. Prestou novo concurso, dessa vez como Avaliador da Justiça do Trabalho no Rio de Janeiro. Chegou a um ponto alto da carreira como servidor ao passar no concurso para Procurador do Trabalho, exercendo a profissão no Recife. O CERS começou a ser gestado na capital pernambucana. “Apesar de ter passado em concursos difíceis, eu sabia que os cursos preparatórios tinham enormes lacunas. Os professores eram mal remunerados, não havia suporte aos alunos”, lembra Saraiva. “Achei que era o momento de me licenciar como Procurador do Trabalho e virar empreendedor”.

Na primeira investida, em janeiro de 2009, Saraiva quase quebrou. Errou a mão, ao apostar em cursos telepresenciais – no qual o aluno ia até uma sala assistir aulas por vídeo. A experiência se mostrou desastrosa. “O curso online fazia muito mais sentido: num mundo tão corrido, era fundamental que o aluno pudesse escolher o horário que preferisse estudar”, diz Saraiva, que notou as deficiências de seu curso e corrigiu o rumo, apostando todas as fichas na aula online e regionalizando os cursos, de acordo com as demandas de cada estado.

No Recife, o CERS emplacou, em seu ano inaugural, o primeiro, segundo e quarto colocados no concorrido concurso de Auditor Fiscal do Trabalho. “Eu investi na contratação dos melhores professores e o retorno foi rápido”, diz o empreendedor. Saraiva fechou o ano de 2009 faturando 1 milhão de reais. No ano segundo, faturou 10 milhões, crescimento que não parou mais. Em 2016, o CERS deve faturar cerca de 70 milhões de reais, um crescimento de 20% comparado ao ano anterior.

Não chega a ser ruim, mas Saraiva viu na redução do ritmo de expansão a necessidade de criar um novo negócio. Em 2015, ele começou a criar uma rede de centros de apoio para seus estudantes. Até o fim deste ano, a meta é criar 25 centros, com salas com acesso à internet, cabines de estudo individuais, biblioteca jurídica e serviços de aconselhamento de carreira.

Não deixa de ser irônico: o empresário que construiu um império de cursos online, aproveitando como poucos a expansão da internet, reconhece que o “caminho do meio” é o melhor, ou seja, isolar por completo o aluno da experiência presencial, do convívio com outros estudantes e com profissionais especializados, não é a melhor saída. “Quando os meus cursos online começaram a fazer sucesso, eu achava que um curso podia ser 100% nesse formato, mas o tempo mostrou que não é bem assim”, afirma Saraiva.

Os cursos do CERS seguem sendo online. Os centros são apenas plataformas de apoio para absorção do conteúdo, o que pode parecer apenas um detalhe, mas pode ser decisivo, segundo Saraiva, para o futuro do aluno. “Eles ficam muito solitários e esse isolamento pode abalá-los psicologicamente, por mais que os alunos estejam bem preparados tecnicamente. Já vi muito estudante travar na hora da prova por problemas emocionais”.

Para Adir Ribeiro, presidente e fundador da Consultoria Praxis Business, especializada em treinamento no setor de franchising, o grande desafio de Saraiva é lucrar num mercado totalmente novo, que ele conhece de modo superficial, bem diferente, por exemplo, do setor de concursos. “Ele tem uma nova competência a desenvolver, num mercado que não perdoa vacilos”, diz Ribeiro.

Um ponto a favor pode ser a crise econômica, que faz com que muitos desempregados procurem concursos públicos para voltar ao mercado de trabalho. Mas há outro lado da moeda: a crise leva à redução nos concursos feitos por órgãos públicos, muitos deles quebrados. Se o governo não voltar a contratar, não há professor de qualidade ou centro de apoio que dê jeito. “Crise sempre atrapalha, para o vendedor de cursos ou de sapatos”, afirma Saraiva. É uma lição que os empreendedores brasileiros vêm aprendendo na marra.